Diários musicais: Burning Spear me salvou em Amsterdã

Quando o avião levantou voo, era de manhã e eu tinha uma mochila nas costas e duzentas expectativas no coração.

Quando o avião levantou voo, eu coloquei um som. O efeito físico de sentir seu corpo ser levantado para o céu, ainda que ele esteja fixo em uma cadeira, versus o efeito de ouvir música enquanto isto acontece, vem sendo uma das experiências mais simples e interessantes que venho tendo nesta viagem.

Da mesma maneira que compra-se passagens, reserva-se hotéis e define-se roteiros com antecedência, você também pode escolher previamente a música que vai ouvir neste momento. Mas tenha muita certeza do que está fazendo, porque a emoção de decidir na hora H é bastante interessante, e, especificamente no meu caso, gerou não só uma escolha surpreendente, como também orientou uma das decisões mais importantes que eu faria nesta viagem – e em toda a minha vida.

O avião se deslocava rapidamente na pista rumo à decolagem. Pensei: estou saindo de Londres em direção a Amsterdã. Que som devo ouvir?

Vai saber porque eu pensei em Burning Spear.

E foi assim que um cara chamado Marcus Garvey viajou comigo pelos ares que separam a Inglaterra da Holanda, e adicionou mais duzentas expectativas no meu coração.

*

Já em Amsterdã, a escolha por levar Marcus Garvey comigo na viagem, mesmo que de última hora, mostrou-se não só acertada no aspecto musical, como impediu que eu vivesse umas das maiores decepções da minha vida. Tudo se deu da seguinte maneira: era noite e caminhávamos pelas ruas de Amsterdã à procura de um coffee shop. Era nossa primeira vez e, como toda primeira vez, não haveria de ser com qualquer um. Mas eram muitas as opções: casas com cara de café, casas com cara de balada, casas com fachada de café e cheiro de balada; e ainda casas chiques demais para as atividades que ofereciam. Era preciso achar um critério, e ele apareceu.

Surpreendentemente, todos os coffee shop’s pelos quais passamos e, de fora, observamos, tocavam coisas que não faziam sentido algum (para nós). Em um, que tinha a cara escura de pub e ficava ladeado por um restaurante chinês e uma casa de sucos, a playlist era de música eletrônica dos anos 90 (quando eu passei, tocou “table, table, the the the table, the book is on the table”). Em outro, e antes de fazer esta afirmação eu devo pedir a vocês que acreditem no que eu estou dizendo, quem dominava as caixas de som era Celine Dion. A melhor coisa que eu ouvi foi hip hop, mas logo virou pop, e desistimos.

Foi então que definimos um critério: música. Vamos entrar no coffee shop que prover a melhor seleção musical.

Minutos depois, tivemos uma miragem colorida: uma casa cuja fachada era de paredes originalmente brancas mas que recentemente foram pintadas – pintadas com as cores da bandeira da Jamaica. Nos aproximamos como quem se aproxima de um tesouro muito bem escondido, mas que foi arduamente procurado e finalmente achado. Paramos na porta, viramos a cabeça de modo a deixar o ouvido receber o som que vinha lá de dentro.

E não é que estava tocando Marcus Garvey?

*

Quando saímos do coffee shop jamaicano, fomos parar numa praça que fica em frente ao Palácio Real de Amsterdã. Havia um banco, e nos sentamos. Começamos a conversar sobre música, e logo que concluímos que Lucas Santtana é uma evolução da proposta dos Los Hermanos, que é uma continuação um pouco mais radical do que faziam os Paralamas. Satisfeitos por termos traçado esta linha evolutiva da MPB, nos levantamos e começamos o nosso trajeto rumo ao hotel.

Àquela hora, o centro de Amsterdã atingia o auge da pressão: centenas de pessoas cruzando as ruas, saindo e entrando nos bares ainda abertos. Vozes, muitas vozes, eu sinto o vento das pessoas passando por mim com seus idiomas. Caímos no Red Light, surreal, misterioso e libertário.

Eu começo a ver tudo como um filme, e logo me bate a trilha sonora perfeita para aquelas cenas, então eu chamo o Nicola, que está aquele tempo todo vendo tudo ao meu lado, e digo:

- Imagina se agora estivesse tocando “Walk on The Wild Side”.

E fomos cantando “tchu tchu ru tchu tchu ru tchu” até a porta do hotel.

*

1

A Wex Well Records fica na rua Gasthuismolensteeg, que mais à frente cruza com a avenida Prinsengracht, onde fica o Museu Anne Frank. Foi a caminho do museu – portanto, por acaso – que nós encontramos esta charmosa loja de discos no nosso último dia em Amsterdã. O que primeiro nos chamou a atenção foi o som que vinha lá dentro: Bob Marley & The Wailers na versão mais rocksteady de “Stir It Up” (diferente da versão stonned gravada no disco “Catch a Fire”).

2

Lá dentro, o paraíso e a perdição. A casa é especializada em discos de funk, soul e jazz, além de ser considerada uma das melhores lojas da Europa para DJ’s e – se não fosse o bastante – possui bons preços. Depois de cerca de 40 minutos por lá, eu estou com 6 discos na mão e me dirijo ao caixa, pronto a gastar o que não deveria. Quem me atende é Gérard, um simpático surinamês de 66 anos que guarda uma incrível semelhança com Nelson Mandela mais novo, mas talvez Gérard seja mais magro. Seu sorriso é contido ao me ver todo atrapalhado despejando os discos no balcão, fazendo contas, prestes a chorar de alegria por ter encontrado aqueles álbuns. Gérard me pergunta qual minha nacionalidade, e eu digo brasileiro, e então:

2.1 

Gérard fala de futebol. “Como vocês tomaram 7 a 1?”. Eu sabia que alguém ia falar disso comigo na viagem. Eu respondo. “O Brasil tinha um bom jogador, apenas, o resto não tinha que estar ali”. Ele concorda. Diz que não entende a convocação de Daniel Alves – “é apenas uma celebridade” – muito menos a de Fred – “ele se movimenta no Fluminense?” (sim, ele disse Fluminense). Eu digo que, ao final, até achei bom que o Brasil perdeu, e que perdeu feio, porque o futebol no Brasil é uma bagunça tão grande, que não merece ganhar título que só vai mascarar os erros cometidos ano a ano.

Ele me olha com atenção e curiosidade, vai até a vitrola, tira o disco de Bob Marley e volta a falar comigo. “Bom, Eduardo, eu não sei quanto a você, mas eu chorei ao ver o Brasil perder. É o meu time de coração”, ele diz, enquanto encaixa outro disco na vitrola. “O que eu posso fazer?”

2.2

Gérard fala de futebol brasileiro. “Eu nasci no Suriname e vim para a Holanda com 15 anos. Mas, antes disso, eu passei minha infância em meu país, e tudo o que fazíamos era jogar futebol. Quando eu tinha apenas 10 anos, anunciou-se em minha cidade que uma excursão com times brasileiros estava chegando e iria enfrentar os times locais. Eu me lembro de dizer para mim mesmo: não perco isso por nada. Então me levantei da cama, me arrumei e fui correndo para o estádio. E foi lá que eu conheci o Santa Cruz, o Fortaleza, o Bahia e o Bangu”.

Do outro lado do balcão, eu estou boquiaberto. “Bangu? Você está falando sério?”. Gérard ri. “Eram os anos 60... e esses times eram os maiores que poderíamos ver em nosso estádio”.

Gérard viu Pelé jogar. “Ele esteve no Suriname anos depois. Entrou em campo, vestiu a camisa do Santos, jogou por 10 minutos e foi embora. Foi emocionante ver isso de perto”.

2.3

Gérard fala de música. “Fazemos questão de ter uma seção específica para a música brasileira. É uma das mais ricas do mundo. Paulinho da Viola... oh, meu Deus.” Ele me pergunta sobre Roberto Carlos, se eu gosto de Roberto Carlos. Eu digo que sim, principalmente os “early years” dele. Gérard concorda, cita três ou quatro músicas do Rei, e me desconcerta. “Tenho 2 discos dele em casa. São raridades, valem muito dinheiro. Às vezes trago-os para a loja e passo as tardes escutando-os. Hoje, não o fiz, e você veio aqui. Que pena”.

2.4

Enquanto Gérard fala com seu charmoso sotaque afro-inglês, eu elimino quatro discos da minha compra e decido ficar com apenas dois. Educado, ele não fala nada. Quando me entrega a sacola, cochicha. “Você fez a melhor escolha. Escolheu os dois melhores dos seis” (a saber: Santana – “Santana” [1969] e Roy Ayers – “Red Black Green” [1973].

Me despeço do meu amigo surinamês com um forte abraço, um conselho (“você deveria ir ao Brasil”) e um pedido: posso tirar uma foto sua lá fora?

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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