Encontro dos Músicos

Por volta das 20h30, a fila em frente ao Puxadinho da Praça já começava a se formar. Os instrumentos nas costas das pessoas denunciavam que iriam participar do Encontro dos Músicos, que acontece mensalmente na casa. Do bar ao lado, assistia ao movimento e reparava, mesmo que superficialmente, na diferente personalidade de cada um. A expectativa de descobrir novos sons só aumentava. Semelhante a de tirar o plástico de um disco recém-comprado antes de colocá-lo para rodar pela primeira vez.

Já dentro do espaço, em frente ao palco, pensava em Thiago França, Juçara Marçal, Rodrigo Campos e em muita gente que já havia tocado por lá. A oportunidade de se apresentar no mesmo lugar que grandes nomes da cena atual não tem preço. Experiência para a vida toda.

Introduções feitas, a abertura da noite ficou por conta de Douglas Froemming e Sander Mecca. O primeiro com seu violão, flertando com o blues de forma magistral, enquanto o segundo se destacava pela forte presença de palco e interpretação visceral. As canções apresentadas, Seis Horas - de Froemming e Deborah Avelino - e 86% - do brasiliense Waldo Lima – evidenciaram o entrosamento da dupla. Letras concisas, refrões marcantes. Inevitavelmente fui transportado para o começo dos anos 80 e as primeiras parcerias entre Frejat e Cazuza.

Falando do BRock de outrora, Eduardo Lopes, figura conhecida do Encontro, apresentou, acompanhado de sua guitarra, Tudo é Tédio, de forma crua e direta. Na sequência, veio a politizada Onde Está Amarildo?, em referência ao ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, detido por policiais militares em sua casa na Favela da Rocinha em julho de 2013 e desaparecido desde então. Com uma levada samba rock, é daquelas que ficam automaticamente na cabeça.

João Pedro Pinheiro, que além de fazer parte de uma banda de rock clássico está finalizando seu primeiro disco solo de MPB, deixou claro a ecleticidade do projeto com o samba inspirado em João Bosco, Ciúmes Altivo, lembrando bastante a melhor fase do mestre e de seu eterno parceiro, Aldir Blanc. A balada Inventando Histórias, feita para a namorada ciumenta, veio em seguida demonstrando excelente técnica com o violão.

Em família, o irmão de João Pedro, Guga Pine, vocalista da banda Dilei, também se apresentou sozinho. Abriu com o caprichado blues em fá menor Você, também feito para uma garota, mas, nesse caso, uma canção de alivio pelo término da relação. Teve também Just Friends, primeira em inglês da noite, declarando desta vez as coisas em comum com a companheira, ao melhor estilo John Mayer e Jason Mraz, segundo o próprio autor.

MPB pura. Arthur Vital, que também já passou pelo Encontro dos Músicos, esbanjou tropicalismo em Alguma Coisa, faixa que entrará em seu disco Alô Brasil, em fase de gravação. Antes da ótima – e também engajada - O Retorno, deu tempo ainda de declamar o poema Consumismo, deixando o público embasbacado. A frase “não há ideologia que salve a pobreza de espírito” deve estar ecoando até agora nos corredores do Puxadinho da Praça.

Suingados e com frescor de coisa nova, os maranhenses da Soulvenir subiram ao palco inicialmente sem o baixista, que surgiu no meio do primeiro som, When The Death’s Calling Out, preenchendo o ‘algo mais’ que faltou inicialmente. Destaque para os instrumentistas e o vocal potente de Adnon Soares, principalmente na segunda música, Regretting My Religion, rica em influências que vão desde o reggae até o rock eletrônico.

Fechando o evento com um fusion de primeira, o trio Estrebujante, composto por Jose Daniel, no baixo, Fernando Godoy, na bateria, e Teo Oliver, na guitarra, abriu com Paz e Terremotos, experimentando misturas do jazz com o rock, o progressivo e o regional, e finalizou com Caçando as 6, carregada de personalidade e abusando – no melhor dos sentidos – da virtuosidade de todos os integrantes. Entre solos, viradas, improvisos e gritos do baixista, – mesmo se tratando de uma banda instrumental – encerraram o line-up com chave de ouro.

A noite terminou com a satisfação que só a boa música proporciona e com a ansiedade para desfrutar de novas experiências no próximo Encontro. Que a cena cresça e novos nomes se consolidem! Até a próxima e tragam seus instrumentos!

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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