Diários musicais: Londres and in the end...

Acabei de ler “Exploradores do Abismo”, do escritor espanhol Enrique Villa-Matas. Agora meu sonho é ser Enrique Villa-Matas. Logo que fecho o livro – é o terceiro dele que leio -, sinto a mesma sensação de quando fechei as derradeiras páginas dos outros dois livros, que é, curiosamente, a mesma sensação que sinto ao perceber que esta viagem está acabando: a comoção da certeza de que algo vai terminar. Terminou.

Foram 317 páginas e quando eu virar a próxima, então será o fim.

Foram 30 dias e quando eu acordar amanhã, então será o fim.

Logo após a leitura de um livro, costumo averiguar diversos sites de crítica literária, fóruns de leitores e demais páginas da internet que se refiram à obra. Acabo de fazer isso com “Exploradores do Abismo” e, por razões insondáveis, vou parar na wikipedia de Enrique Vila-Matas, que já li algumas vezes vezes. Releio-a. E encontro algo novo. Uma frase. Essa frase:

As coisas, por exemplo, começavam todas pelo princípio e acabavam no final. Por isso, nesse tempo, para ele tinha sido uma grande surpresa, e nunca mais as esquecera, umas declarações do cineasta Godard onde dizia que gostava de entrar nas salas de cinema sem saber quando é que o filme tinha começado, entrar ao acaso em qualquer sequência, e ir-se embora antes do filme ter terminado. Seguramente, Godard não acreditava nos argumentos. E possivelmente tinha razão. Não era nada claro que qualquer fragmento da nossa vida fosse precisamente uma história fechada, com um argumento, com princípio e com fim.

Se hoje meu desejo é ser Enrique Vila-Matas, antes de iniciar esta viagem eu queria mesmo ser mulher. Não qualquer mulher. Eu queria ser uma mulher de pai jamaicano e mãe inglesa. Queria ser uma mulher mais charmosa do que bonita, mais negra do que branca, mais Lou Reed do que Jimmy Page. Queria nascer na Inglaterra e lançar meu primeiro livro aos 24 anos. E conquistar prêmios, e ser estudada, e creditarem a mim o início de uma nova fase na produção ficcional contemporânea. Ou seja, eu só poderia ser uma mulher no mundo: a escritora inglesa Zadie Smith. Alguns meses antes de iniciar esta viagem, li com muito entusiasmo seu terceiro romance, “NW”, que se passa em Londres, mais especificamente em Kilburn, que é, coincidentemente, a área da cidade na qual fica a casa em que estou hospedado. De modo que, quando cheguei em Londres há 30 dias atrás, e pisei na rua pela primeira vez, o que foi senti uma intimidade inesperada.

Eu te conheço - eu disse a rua.

Muitos dias depois, nessa mesma rua, eu encontrei Zadie Smith. Não ela propriamente, e sim uma frase de “NW” pintada num muro. A frase dizia:

“I’d rather walk down Kilburn High Road than King’s Road – than any road in London. For selfish reasons. There’s so much more to see and hear”.

Londres é a cidade mais musical de todas que visitei. Há música em todos os lugares, e não apenas nos lugares que se espera ouvir música. Das lojas de Oxford Street ao comércio ‘alternativo’ de Camden Town; do McDonalds ao Starbucks; dos músicos de rua no metrô aos músicos mais célebres da música pop. A diferença de Londres para Amsterdã, Paris, Ambleside e até Liverpool é que você não precisa ir até a música – em Londres, a música está em todos os lugares.

There’s so much to see and hear.

Lembro desta frase de Zadie Smith quando entro no Starbucks que fica na rua onde o Nicola mora, a Salusbary Road. O cheiro lá dentro é de Starbucks – o mesmo cheiro que você sente aí na Paulista, e que o Messi sente no Starbucks de Barcelona. A decoração, a iluminação, os produtos – exceto que aqui não tem pão de queijo – e um público que toma café enquanto carrega celular ou usa notebook: tudo igual. Há, entretanto, uma diferença crucial entre Starbucks da Salusbary Road e os outros.

Lá toca reggae e funk o dia inteiro.

E é reggae mesmo – nada de S.O.J.A ou variações modernas.

É Junior Welsh, Marcia Aitken, Upsetters, Althea & Donna, Prince Buster, Toots.

Num Starbucks!

Peço um café americano, pago e procuro uma cadeira. Sento e de lá observo que uma atendente é igualzinha a Adele. Fantasio que a qualquer momento ela vai começar a cantar, a cantar muito alto, e logo uma equipe de reportagem do The Voice entrará no recinto, e a repórter vai olhar para a câmera e dizer:

Aquela atendente pode ser a nova estrela da música pop britânica?

A outra atendente não é pop, nem britânica; é uma simpática chinesa de pouca estatura e nome impronunciável. Sua figura é agradabilíssima. Sinto que a qualquer momento vou abraçá-la e dizer que em São Paulo ela tem uma casa. Te amo. O chão do Starbucks está limpíssimo, elas sorriem para todos os clientes e, de vez em quando, passam nas mesas perguntando se está tudo bem. Nesse dia, eu fico ali umas 6 ou 7 horas direto, lendo e escrevendo e só me levantando para ir ao banheiro ou pedir mais um americano, mais um suco de maçã, mais uma água. Toca reggae e funk o dia inteiro, uma pedrada atrás de outra pedrada. Para virar baile, tá fácil: é só apagar a luz e mover as cadeiras pro canto, porque o som tá pronto, o som é aquele. Chega a hora de ir embora, não há quase ninguém no Starbucks, só eu e um grupo de jovens arrumados e cheirosos que, desconfio, está saindo dali para uma festa das boas. Antes de eles chegarem na porta, começa a tocar um reggae irresistível, e todos vão dançando até a calçada e somem da minha vista quando atravessam a rua.

Frankie & Bennys é o nome do restaurante no qual estou agora. Acabo de pedir um café expresso duplo, que logo chega à minha mesa pelas mãos de uma garçonete que me lembra Bridget Jones. Em Londres, todo mundo parece gente famosa, essa é a constatação caipira que faço diariamente. A garçonete tem bochechas rosas e sorriso sincero. Agora pouco, ela foi até a uma mesa lotada de crianças e pacientemente retirou todos os copos sujos e colocou-os organizadamente na bandeja de metal que carregava com muita graça. Deu dois passos e deixou a bandeja cair no chão, fazendo 8 copos virarem 300 cacos de vidro. Eu me assustei, levantei para ajudá-la e ela, por sua vez, apenas me sorriu seu melhor sorriso Bridget. Educada, fina. Parece vinda de outra época.

Frankie Lymon é o nome do cara que canta a música que está tocando nas caixas de som do restaurante. A música que ele canta é “Why Do Fools Fall In Love”, considerada um dos primeiros “doo wop”, um estilo de música vocal que pegou fogo nos Estados Unidos dos anos 40 e 50. O rock dos Beatles e Beach Boys, que viria a estourar na década seguinte, bebeu muito na fonte do som de Frankie Lymon. A trilha sonora do restaurante é uma primorosa seleção que mistura doo-wop, rock’s dos anos 50 e músicas de baile. Tudo a ver com a proposta do local: recriar a atmosfera de um típico bar americano de comida italiana, como os que se espalharam por Nova York nos anos 40. Até os modos delicados da Bridget tentando não se cortar com os cacos de vidro me parece uma cena saída dos anos 40.

Eu venho vivendo o lado musical de Londres como Godard ao entrar no cinema. Não quero o começo nem o final, não quero o resultado, eu quero o meio. Não quero ir ao show do Jake Bugg – quero sentir como é estar num McDonalds que toca Jake Bugg nas caixas de som engorduradas, enquanto dezenas de pessoas se espremem no chão para comer seus lanches. Quero ficar nesse McDonalds observando as pessoas, ouvindo a música e fazendo daquela união entre som e imagem um clipe que será só meu, minha própria MTV, ao vivo, agora. Vez ou outra, atinjo este objetivo, como quando flagro meia dúzia de indianos dividindo batatas fritas e cantando “Wonderwall” alucinadamente. Tal qual Godard, não me interessa a experiência completa – eu quero o fragmento. Não entrevisto ninguém durante minha estadia por aqui, não vou a nenhum show, não me interessa. Tudo que eu faço é caminhar e esbarrar na música.

É esbarrando em um monte de gente que eu e o Nicola finalmente conseguimos entrar nesse bar brasileiro em Candem Town. É sábado à noite e vamos pra lá achando que na casa vizinha, da qual eu não me recordo o nome, haverá a apresentação de uma banda. Mas não é nada disso, entendemos errado, então entramos no primeiro bar que vemos, e é justamente um bar brasileiro que está lotado e é preciso esbarrar nas pessoas para se fazer entrar. Entramos. Tomamos uma Brahma, ouvimos dois sambas, fomos para a sacada do bar, único espaço onde não era preciso esbarrar em ninguém, acendemos um cigarro e olhamos a rua: lá fora Camden Road fervilhando, lá fora Londres acontecendo. Coisa estranha ouvir samba e tomar Brahma olhando para Londres. Quer saber? Vazamos. Voltamos para a rua. Não sabemos para onde ir. Um pub, dois pubs, três pubs, nada, até que no quarto pub a gente para e acha que aquele sim, aquele valia a pena entrar - ainda que, do lado de fora olhando pelos vidros, não é possível enxergar nada lá dentro, esses vidros estão completamente embaçados. (Aquele embaço de suor). Entramos. A minha primeira visão: um sujeito em cima da mesa, com a camisa toda molhada, tenta dançar enquanto sua amiga ou namorada, no chão, não sabe se ri ou se tenta trazê-lo à razão (e ao chão). Por fim, o sujeito fica lá sozinho, apontando seu dedo para o nada e cantando de olhos fechados todas as frases de “Lovin’ Machine”, de Wynonie Harris, enquanto a namorada desiste e vai dançar com mais umas 40 pessoas se divertem na pista. Aquele é um pub aos moldes antigos, com balcão de madeira, sofás espalhados pelos cantos e luz muito baixa. De dia, deve ser o melhor pub para tomar uma cerveja e ficar ali no balcão comentando política ou futebol. Mas, a noite, o pessoal tira pra dançar. Pegamos nossas cervejas no balcão e nos embrenhamos no meio daquela pequena multidão animada e suada. Achamos um canto perfeito: um canto em que podemos nos encostar e que nos dá visão privilegiada da pista. Só não imaginávamos que, ao encontrar esse canto, ficaríamos cara a cara com quem, de fato, é a grande responsável por aquele baile que está rolando em pleno pub: uma senhora de 60 anos chamada Sue. É ela a DJ da noite. Por cerca de 2 horas, Sue não deixa a peteca cair: toca vinis e CD’s e sem usar computador, manipula a pista com exímia destreza, ora soltando rocks antigos, ora trazendo uns funks envenenados, ora deixando o povo cantar coisas de Aretha Franklin ou Etta James. O povo era uma turma entre os 25 e 35 anos, não mais, não menos, que não para de dançar, de beber e de dançar e beber ao mesmo tempo. Eu e o Nicola tentamos traduzir para o nosso mundo aquela empolgação do povo mais novo com a música de uma época que não foi a deles. “É tipo quando a gente dança Roberto Carlos, e pira”. É, não foi uma boa tradução. Em nossa defesa, é preciso dizer que a gente já começa a ficar bêbado e o calor nos faz suar.

Quem também sua era Sue. Pra espantar o calor, ela abana discos de vinil na altura de sua bochecha. Me aproximo dela e só então reparo que a Sue fica enjaulada atrás de umas grades. Antes que eu me perguntasse quais eram as razões de tamanho separatismo, vejo que há um papel em cima da mesa, e nele uma mensagem.

Saia daqui, você e seus drinques de merda que sempre caem no meu equipamento.

Em Londres, há música em todo lugar. Nos mercados de rua: Portobello, Camden, Broadway. Neste, por exemplo, vi um excelente cantor que tocava guitarra e parecia uma versão moderna de Thom Yorke. Mais cínico. Vi uma dupla de violeiros clássicos, que quando acabou de tocar, deu o seu lugar a uma dupla de baixistas.

Ali mesmo, houve um episódio curioso. Eu estava escolhendo em qual barraca de comida iria almoçar naquele dia – se na alemã, na italiana ou na turca -, quando ouço notas musicais familiares. Era um garoto de não mais de 12 anos, típico adolescente inglês - loiro e de bochechas rosas - sozinho numa rua paralela à da feira, tocando “Chega de Saudade” no trompete. Me aproximei para vê-lo melhor. O garoto era claramente um iniciante: errou um bocado, suas notas saiam nervosas e, quando a música acabou, ele não teve coragem de encarar o público. Poucas palmas ecoaram. Pessoas que eu acredito ser sua mãe e seu pai logo se aproximaram, com aqueles gestos calmos e carinhosos que só os pais sabem fazer, e o moleque guardou o trompete numa maleta, virou-se para os dois senhores e disse:

Que vamos comer hoje?

E sumiram no meio da feira, provavelmente com a mesma dúvida que eu tinha até ouvir aquele moleque tocar (comida alemã, italiana ou turca)? De minha parte, fiquei aborrecido. Achei que aquele menino poderia ser uma boa matéria. Eu esperaria ele terminar a sua apresentação, me identificaria como brasileiro e ficaríamos longos minutos falando de música brasileira; então, animado, ele tocaria outros standards nacionais, e eu ficaria ali do lado, cantando todas as letras, e seria o único que saberia cantar – e depois eu conheceria o pai e a mãe dele, amantes da MPB, dono de raridades em vinil, e isso nos levaria a casa deles, onde num porão fedendo a whisky, nós ficaríamos uma noite inteira colocando bolachões para tocar. No entanto, nada disso aconteceu e o fato é que, naquele momento, eu ainda não tinha encontrado a frase de Enrique Vila-Matas sobre Godard, e não percebi que a história que eu tinha em mãos era um pedaço solto, um garoto tocando João Gilberto na rua, mas tão rico que ele, por si só, era algo. Era completo. E fim.

Não era nada claro que qualquer fragmento da nossa vida fosse precisamente uma história fechada, com um argumento, com princípio e com fim.

Em Elephant & Castle, estação final da linha Bakerloo do metrô, há uma loja especializada em... tudo. Só de música. Mas é tudo, tudo, tudo. Tem tanta coisa lá dentro - infinitas caixas de som, uma fábrica de cabeamento, rádios antigos - que às vezes o vendedor entra no meio da bagunça e você acha que ele não vai conseguir voltar. Eu nunca vi nada tão caótico como aquele lugar - mas dane-se a zona, por que lá tem tudo de música. É o outro lado da música, o lado prático, porque a música também precisa fazer compras de vez em quando.

Agora pouco, me questionei mais uma vez sobre o que é música. Eu estava no metrô indo para casa, e durante o trajeto eu não tinha nada para fazer - já tinha reparado no rosto de todas as pessoas do meu vagão, já tinha lido o jornal amassado que alguém deixou no assento ao lado - então comecei a testar se eu já havia decorado a mensagem que a voz do metrô – uma voz feminina - fala a cada 3 minutos, mais ou menos, que é o tempo entre uma estação e outra.

This is the Bakerloo Line train to... Harrow & Wealdston.

Please stand clear of the doors.

Sim, comprovo que decorei esta primeira estrofe.

O trem para, pessoas descem, pessoas sobem, o trem fecha e começa a se movimentar novamente. Eu volto ao meu jogo metrômusical.

The next station is Paddington. Please mind the gap between the train and the platform. Change here for London Overground and National Rail Services.

Essa eu não acerto. É uma frase maior, mais complexa e que pede extrema concentração. Mas não me chateio, porque sei cantar o refrão de cor.

Mind the gap!

Please

Mind the gap!

* 

Eu e o Nicola levamos o violão conosco durante toda a viagem: ele conheceu Londres, Amsterdã, Paris, Liverpool e Ambleside. Mas não o tocamos nenhuma vez. Não sei explicar porque - talvez por que o mundo lá fora estivesse nos chamando demais. Mas, então, há duas ou três noites, a gente finalmente tirou ele da capa - e fez um verdadeiro som entre irmãos, em que um toca bem e o outro canta mal, em que um toca bem enquanto o outro bebe vinho. A gente gravou porque a Be pediu, e talvez porque a mãe fosse gostar de vez os dois filhos, lá do outro lado do mundo, celebrando numa canção tudo que viveram nessa viagem. Oi, mãe, você tá aí na plateia? Gostou? Um beijo. Tô voltando pro Brasil.

*** A série Diários Musicais passou por Amsterdã, Paris, Liverpool e Londres. Confira os outros textos: Amsterdã Paris Liverpool    
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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