Azoofa em Nova York: o jazz na casa de Marjorie Eliot

Uma dos (muitos) programas lagais de se fazer no Harlem é acordar cedo em um domingo e observar a movimentação. Logo pela manhã, muitas pessoas que moram na região vestem os seus melhores ternos, vestidos e chapéus e se dirigem aos cultos que tomam as igrejas do pedaço. Caso queira conhecer uma das igrejas, vale ir na imponente Abyssinian Baptist Church (132 W 138th St), onde você será recebido por um senhor na estica com o seu terno bordô. Não é preciso ser nem um pouco religioso para se emocionar com o coro gospel que se apresenta no local. Mas o culto que quero indicar, de fato, não tem nada a ver com os que ocorrem nas igrejas. Quero dizer: não há formalidades e nem pessoas bem-vestidas, muito menos a presença de um pastor. No entanto, a reunião alcança a mesma beleza e profundidade musical. Sem mais delongas... Trata-se do jazz que ocorre 52 domingos por ano - há 22 anos - na casa de Marjorie Eliot.

Tudo começou em 1992. Em um domingo, um dos filhos de Marjorie - Phil - morreu devido a uma doença nos rins. Daquele dia em diante, ela passou a celebrar a vida do rapaz semanalmente da maneira que sabia, ou seja, por meio da música (ela é professora de piano). Por meio do jazz, mais especificamente. Ela abre as portas de sua casa - anote o endereço: 555 Edgecombe Avenue, apartamento 3F- para nova-iorquinos, turistas e amantes da música. A divulgação boca-a-boca fez com que os cinquenta assentos distribuídos pela pequenina residência se tornassem insuficientes. Os instrumentistas se apresentam na sala (Marjorie assume o piano), enquanto os espectadores se espalham pela cozinha, pelo corredor ou qualquer cantinho do local.

No dia da minha visita, cheguei atrasada por causa da maratona de Nova York. O evento esportivo mudou todo o esquema de trânsito da região. Eu me dei mal, mas não perdi o jazz, que ocorre entre 15h30 e 18h30. Ao entrar no prédio residencial, notei que um bilhete ao lado da campainha dava as instruções para quem quisesse visitar Marjorie Eliot. Para subir no apartamento 3F, basta apertar o código #107, que logo alguém liberará a entrada. Peguei o elevador, segui o som e parei em um aglomerado na frente de uma das portas daquele andar. Pedi licença daqui e de lá, encontrei um cantinho para mim na cozinha, que tem matérias de jornais penduradas pelas paredes. O meu atraso não foi visto como desrespeito. No mesmo instante, uma senhora veio me oferecer um copo de suco e barrinhas de cereral, que ficam enfileiradas em uma mesinha lateral. Dali, de pé mesmo, conferi aquela celebração. Com espaço para impovisos, alguns "oh, yeah" da plateia e agradecimentos por parte da anfitriã, que encontrou nessas reuniões uma maneira de curar a sua dor, o programa se tornou obrigatório em Nova York. Inclusive, foi reconhecido como marco da cidade pelo órgão cultura City Lore. Vale lembrar que o programa é grátis, mas há uma cestinha para (merecidas) colaborações em dinheiro.

 
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