Azoofa indica: Camila Garófalo

Quando Camila Garófalo entrar no palco do Sesc Pompeia, nesta terça-feira (25), em São Paulo, ela estará realizando uma etapa importantíssima de um sonho que acalenta desde criança: a de apresentar ao mundo um disco de sua autoria. Aos 25 anos, a cantora e compositora nascida em Ribeirão Preto e que vive na capital paulista há 8 anos lançou "Sombras e Sobras" em 2014 (baixe aqui) e o show de amanhã, dentro do projeto Prata da Casa, é o momento de tirar as músicas do álbum e entregá-las ao público que lá estará, e por consequência, ao mundo todo.

O disco, que contou com a produção de Thiago França, Dustan Gallas, Danilo Prates e Bruno Buarque, tem 8 canções, que estão no repertório do show, além de uma canção de Tatá Aeroplano ("Na Loucura") e outra de Verônica Ferriani ("De Boca Cheia"), que também participam do espetáculo amanhã - saiba mais sobre o show.

Com exclusividade para o Azoofa, Camila comenta sua transição de redatora e jornalista para cantora e compositora, fala sobre a escassez de "cantoras de rock" no Brasil e diz que não vê a hora de subir no palco da Choperia do Sesc Pompeia. "É o palco mais emblemático de São Paulo e, talvez, do Brasil".

AZOOFA: Camila, o disco Sombras e Sobras foi lançado neste ano, mas vem sendo criado e pensado por você já há algum tempo, desde que você veio de Ribeirão Preto para São Paulo, há 8 anos atrás, e, em seguida, na tua viagem para Londres. Como começou o processo de “vou gravar um disco” e porque ele terminou só agora?

Camila Garófalo: Começou há muito tempo, seguramente desde criança. Eu já sabia o que queria mas não sabia como ou se era possível realizar. A única coisa que eu sabia era que todo cantor/compositor tinha um CD (pelo menos a maioria deles). Acredito que o fato de me reconhecer mais como compositora do que como intérprete fez com que eu focasse na construção de um álbum em vez de experimentar o público em bares e casas noturnas, como acontece com a maioria dos cantores. Quando vim para São Paulo, aos 17 anos, tive acesso às informações úteis para colocar essa ideia em prática, mas prefiro dizer que o pensamento de “vou gravar um disco” nasceu em mim junto com meu sonho de criança de ser cantora. Já o conceito de “Sombras e Sobras” se deu aos meus 20 anos, quando morei em Londres e experimentei minha fase e face mais solitária. Resolvi reunir músicas que me traziam aquela mesma sensação e contar uma história. Foram 5 anos entre compor e materializar tais sentimentos. Hoje estou lançando esse disco com 25 anos porque, além de longo, foi um processo muito intenso que me exigiu, acima de tudo, maturidade.

Todas as músicas são de sua autoria. Qual teu maior desafio enquanto artista: letra ou música?

Compor é sempre um processo doloroso pra mim. Não me considero instrumentista. Me considero mais letrista. Toco violão e guitarra, mas não sei ler partitura. Componho conforme soar. Muitas vezes não sei o nome da nota, apenas simpatizo com ela. Sou completamente apaixonada por “Lá Menor” (risos), na minha opinião a mais sombria das notas e quem entende vai notar isso ao longo do disco. Por isso, pra mim, o maior desafio sempre foi a melodia. Tenho mais facilidade com a palavra, com o conteúdo da mensagem.

A produção do álbum conta com nomes incríveis: Thiago, Bruno, Dustan. Queria saber de que forma esses caras influenciaram o resultado final do disco.

Influenciaram imensamente e determinantemente. A minha ideia inicial - durante a fase de pré-produção com o Danilo (Prates) - era uma sonoridade muito mais mórbida do que o resultado final do disco que, apesar de falar muito sobre morte, ganhou mais vida. Quando cheguei no Estúdio Minduca para acompanhar a gravação dos arranjos do Dustan e do Bruno fiquei convencida de que alguma coisa tinha que mudar: “Um bom show faz as pessoas se mexerem”, o Bruninho me atentou; “Pensa no show e não só no disco”, o Dustan emendou. Para somar, veio o Thiago que assina quatro faixas do álbum com arranjos de saxofone tenor adicionando uma dose latina à sonoridade final. Hoje confio na ideia de que a morbidez do início ganhou movimento e transformou “Sombras e Sobras” num disco triste para chorar e dançar.

O repertório do show desta terça terá as 8 músicas do álbum? Há outras que devem aparecer também?

Há muitas novidades para terça-feira e eu mal posso esperar. Além das oito faixas do disco, também apresentaremos “Solidão” e “Eu Não Sou”, canções de minha autoria, arranjadas pela minha banda talentosa: Rafael Castro, Fabiano Boldo, Filipe Franco e Juliano Costa. Ainda terão as participações mais que especiais do Tatá Aeroplano e da Verônica Ferriani. Uma última surpresa vem em seguida, mas só revelo a quem for ao show (risos).

Imagino que você já deva ter visto diversos shows no Sesc Pompeia – e imagino que seja especial tocar lá. Como está a expectativa para subir naquele palco? E em quais palcos da cidade você já passou?

Com certeza é a melhor coisa que já me aconteceu. A expectativa é grande e isso não faz bem para o coração (risos). Eu já assisti dezenas de shows no Pompeia e ter essa oportunidade no Prata da Casa significa realizar o sonho da minha vida, ou pelo menos, o começo desse sonho. Já me apresentei no Puxadinho da Praça, Serralheira e Zé Presidente, além do show de lançamento do disco no Sesc Ribeirão Preto e no Primo Bar, em Londres. De qualquer forma, nada se compara à essa experiência porque, pra mim, o palco da Choperia é o mais emblemático de São Paulo e, talvez, do Brasil.

Você falou que Verônica e Tatá vão participar do show desta terça. Quais músicas eles vão cantar contigo e qual a tua relação com a obra deles?

Tanto o Tatá quanto a Verônica me deram a honra de interpretar junto com eles, nesse show, uma canção de seus álbuns mais recentes: “Na Loucura & Na Lucidez” e “Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”. Minha escolha pelas músicas “Na Loucura” do Tatá e “De Boca Cheia” da Verônica não foi aleatória. A primeira porque tem a melancolia que me vi inserida durante todo o processo de criação do disco e a segunda porque, além de traços feministas, tem a atitude que me espelho quando me proponho a fazer música.

O teu som tem bastante pegada rock. Faz tempo que o Brasil não vê uma cantora de rock, embora tenham surgido várias cantoras que, se não são tão roqueiras no som, o são na atitude, na presença de palco e nas letras. Como você vê isso? O rock se diluiu entre outros gêneros ou realmente há uma escassez de cantoras “de rock”?

Acredito que o rock consolidou-se como filosofia de vida e não apenas como sonoridade, como sugeriu. Não sei se o que eu faço, musicalmente, é puramente rock porque muito do que escuto não é rock ou só rock. Apesar de ter buscado referências em Janis Joplin, Patti Smith, Cássia Eller e Karina Buhr, também vejo rock em outras cantoras. Vejo rock na Verônica Ferriani, que nasceu no berço do samba, quando ela canta “De Boca Cheia”, por exemplo. Ninguém pode dizer que aquilo não é rock. Não acredito que haja uma escassez de cantoras “de rock” porque gosto da ideia de que esse mesmo rock esteja se transformando e se diluindo. Gosto de pensar que a música acompanha a cabeça das pessoas e, por isso, acredito fielmente na sua evolução.

Você é jornalista e escreve sobre música já há algum tempo. De que forma esse trabalho foi fortalecendo a tua decisão em focar na música?

Na verdade sou redatora publicitária, mas sempre trabalhei com jornalismo cultural também. Lembro que fiquei em dúvida entre os dois cursos, além de Filosofia, antes de prestar vestibular. Prefiro me apresentar como comunicadora. Ao meu ver, tanto a Publicidade, o Jornalismo quanto a Música são instrumentos de comunicação. No entanto, são formas diferentes de expressão, com suas particularidades e liberdades distintas. Ainda tenho que bolar frases de efeito como nos tempos de Agência e ainda recorro aos ensinamentos da Redação para escrever meu próprio release ou conversar com um jornalista. Mas, sem dúvida alguma, é quando canto ou componho que sinto maior prazer em comunicar, em dividir uma mensagem ou compartilhar uma visão de mundo.

Como jornalista, quais foram as entrevistas mais legais que você fez com bandas e artistas? Houve algum aprendizado prático nesse período que você acompanhou o trabalho dos outros?

Tenho três links que guardei dos meus momentos mais legais como jornalista: quando conheci a mistura de maracatu com rock em Siba (leia aqui) quando entrevistei Thiago França sobre seu trio de jazz MarginalS (aqui) e quando me apaixonei pela melancolia moderna da “Estrela Decadente” de Thiago Pethit (aqui). Aprendi muito e me imaginava aqui sim, do outro lado do texto, respondendo e não perguntando (risos).

Você tem 25 anos, então imagino que tua relação com a música tenha se fortalecido lá pelo final da década de 90, onde ainda imperava o CD e o domínio das gravadoras. Você testemunhou a virada do mercado musical e a vitória da música digital. Mas uma coisa não mudou muito: a força do formato “álbum”. A maioria dos artistas continua pensando seus trabalhos em álbuns de 8, 9, 10, 12 músicas. Você acha que o álbum ainda é a melhor forma de se apresentar um trabalho, ou ainda não apareceu outro formato tão interessante quanto?

Talvez o álbum já não seja a principal forma de apresentar um trabalho para o público em geral, mas continua sendo o portfólio mais eficiente para vender um show, por exemplo. Com a velocidade e ansiedade advindas da internet, um simples single, um breve EP ou até mesmo um clipe bem produzido podem ter mais impacto do que um álbum inteiro disponível para download gratuito. Meu primeiro disco traz oito canções e considero um bom formato, longo o suficiente para se consolidar como disco e breve o necessário para indicar seus futuros desdobramentos.

***

arte | belisa bagiani

fotos | vitor jardim

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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