Em 2015, pare para ouvir

"He's a real nowhere man / Sitting in his nowhere land"

1

Estou dentro de um ônibus a caminho de São Paulo. Ainda não saímos. Algumas pessoas lá embaixo fazem fila para colocar suas malas no bagageiro, outras pessoas aqui dentro fazem fila para encontrar suas respectivas poltronas. Faz calor para todas as pessoas, inclusive para mim, que olho o relógio e calculo: serão 6 horas de viagem, isso se tudo der certo, se o ônibus sair no horário, se não pegar trânsito na estrada, se um passageiro não resolver fazer da paradinha na estrada o seu almoço do ano, e demorar além dos 25 minutos sugeridos pelo motorista, o motorista, este senhor de cabelo acaju que neste momento está na porta do ônibus picotando os tíquetes e respondendo roboticamente “tenha uma boa viagem” para cada um dos 42 seres humanos que, nas próximas seis horas, estarão em trânsito, realizando coletivamente sua transição pessoal entre um lugar e outro, e portanto, 42 pessoas que estarão em lugar nenhum, fazendo obrigatoriamente do ônibus seu único lugar, sua casa, a casa de 42 pessoas.

2

Na sequência imediata de olhar o relógio e calcular que serão 6 horas de viagem, realizo ainda mais duas tarefas: checar quanto tenho de bateria no celular (92%) e se os álbuns que escolhi ouvir naquela viagem estão realmente dentro do celular (sim, não houve problemas ao passar músicas do computador para o aparelho portátil). Tudo resolvido, recosto a poltrona, ajeito os pés no apoio e aperto o play do celular.

3

Graças a esta sua característica de lugar nenhum, de vida em suspensão, em que não há nada para fazer, construir, resolver etc, grande parte da minha educação musical se deu dentro de um ônibus. Na época do walkman, eu tinha 10 anos de idade e colocava o máximo de fitas possíveis dentro da mochila. Eram fitas minhas, fitas dos meus pais e fitas que comprei só porque achei a capa bonita e não tinha ideia de que som trazia; fitas que meu padrinho gravou, fitas que meu pai gravou; fitas que eu gravei. Fitas, fitas, fitas.

4

Alguns anos depois, começou a época do discman, eu tinha 15 anos e viajavam comigo apenas 3 ou 4 discos, menos do que fazia com as fitas, porque me sentia mais maduro, capaz de antever as minhas necessidades durante a estadia no ônibus. Eu levava um álbum muito querido (um Paralamas, por exemplo), um álbum que eu nunca ouvi na vida (Paul Simon, minha mãe gosta), um álbum que eu sempre quis decifrar (The Cure, Show) e um álbum que até então havia me agradado e desagradado na mesma medida, e o ônibus era o local ideal para obter uma opinião definitiva (Bob Dylan, The Freewheelin).

5

Estou na cozinha de casa, a cerveja acabou e é preciso abrir o armário de bebidas atrás de algo que dê continuidade à noite. Uma das vantagens de se ter 29 anos é ter um armário só de bebidas. Uma pinga. O Gus serve um copo só, a gente divide, é mais fácil, pá, pum, ele bebe e me passa o copo, pá, pum, eu bebo e devolvo o copo à mesa. Vem aquela primeira sensação da pinga, aquela que te tira do álcool urbano da cerveja e te leva ao álcool rural da pinga. É um bonito momento de transição etílica, e o som que está rolando – Céu cantando o disco Catch a Fire, de Bob Marley – torna-se ainda mais casado com o ambiente, com o momento, com aquela mudança de cenário ocasionada pela pinga, e eu começo a absorver aquele som, aquele disco, aquelas letras e melodias, aquele balanço. O Gus já está nos servindo outro copo quando eu pergunto:

- Qual seu disco preferido do Bob Marley?

Ele demora a responder, é uma pergunta importante e, por isso, difícil. Fica uns segundos pensando, com certeza lhe vieram alguns discos do Bob à cabeça, mas ele precisa ter absoluta segurança de que o nome que sairá da sua boca é, de fato, “o preferido”. Em lugar de dizer qual é o número 1, ele se refugia em uma zona mais segura, e explicita qual é o número 2. “O Catch a Fire é meu segundo colocado”, ele diz, e eu concordo. Mais tarde e uns copos de pinga depois, descobrimos que meu primeiro colocado é diferente do dele.

Naquela noite, falamos de The Police, de bandas de hard core dos anos 90, de música ruim e de música boa. Mas falamos especialmente sobre álbuns. Em dado momento, focamos em ouvir a transição entre as três primeiras faixas de “Sgt Peppers”, dos Beatles, uma emendada na outra de uma maneira bastante criativa e algo maluca, como eles conseguiram? Depois, falei-lhe do New Radicals, uma banda que nos anos 90 fez sucesso com uma música só, e por alguma razão foi jogada na lama da porcaria pop que inundou aquela década, mas a verdade é que ninguém ouviu o álbum deles.

- Se tivessem escutado o disco todo, e não apenas 1 música, certamente crítica e público teriam uma opinião diferente e não os chamariam de "aquela banda do clipe do shopping" – é o que eu digo com veemência antes de virar a pinga e dar o play em “Mother We Just Can’t Get Enough”.

6

O New Radicals é da época do discman. Em 1998, eles lançaram seu primeiro e único álbum, "Maybe You've Been Brainwashed Too", que comprei numa viagem de fim de semana para São Paulo. Na volta para minha cidade, dentro do ônibus, eu tirei o plástico do CD, peguei o disco com cuidado e encaixei-o dentro do discman. Era uma viagem de 6 horas, a vida estava em suspenso e tudo que eu tinha para fazer era ouvir música. Fui da faixa 1 à faixa 12 sem colocar a mão no discman – sem passar pra frente, sem voltar para a música que mais me agradou, sem dar stop para dormir um pouco. Ao final da primeira audição, o saldo era: amei a 1 e a 3, odiei a 7 e a 10. Ouvi de novo o disco inteiro e a coluna “amei” ganhou mais uma companheira, e a “odiei”, duas companheiras. Coloquei o disco para rodar pela terceira vez, e no dia seguinte, pela quarta vez. E no ano seguinte, 1999, pelo menos uma vez por mês. E hoje, dia 30 de dezembro de 2015, uma vez mais. Virou uma relação. Poucas coisas na minha vida permanecem relevantes após 15 anos.

7

Já se vão quinze anos depois da minha primeira viagem com o New Radicals. Estamos em 2015 e a música não é mais material – não há mais plástico a ser arrancado, não há mais capa a ser folheada e se você quiser, nem é preciso mais comprar música. Também não há mais necessidade de se empenhar em uma busca épica por bandas e artistas desconhecidos. Sites que preveem seu gosto musical, blogs, listas, amigos em redes sociais - estão todos sedentos para indicar dezenas de milhares de sons. Você não precisa mais pensar previamente quais sons vão viajar com você, porque as músicas, os discos, as raridades, os álbuns completos, os singles, estão todos em todos os lugares numa nuvem irreal mas de alcance infinito, esteja você em Delfinópolis (MG) ou na Antártida.

8

Já se vão quinze anos depois da minha primeira viagem com o New Radicals. É 2015 e eu estou num ônibus fazendo o mesmo trajeto que fazia naquele dia e que durará igualmente 6 horas. Quando recosto a poltrona, ajeito os pés no apoio e aperto o play do celular, começa a tocar Aaron Thomas, um músico americano cuja página no Facebook não chega a mais de 2.200 pessoas; cujo site está fora do ar e cujo único disco, “Follow The Elephants”, eu conheci em 2006 e desde então tinha escutado enquanto trabalhava, enquanto namorava, enquanto tomava banho, mas nunca havia parado para ouvir. Mas nessa viagem, o faço. Descubro músicas incríveis, outras nem tanto, mas saio do ônibus com a sensação de que, oito anos depois de tê-lo conhecido, eu finalmente ouvi Aaron Thomas.

9

O mundo para quem gosta de música está muito melhor hoje em dia. Nunca se gravou, lançou e ouviu tanta música. Nunca foi tão barato acessá-las. Nunca foi tão fácil fazer a sua própria educação musical. Mas, falo por mim, nunca se absorveu tão pouca música. Nunca mais parei pra ouvir – e digo literalmente: parar-para-ouvir. Quais foram os últimos discos que duraram na sua vida para além da audição de um dia, de uma semana, da audição de entretenimento? Escutar um álbum inteiro, do começo ao fim, implica em aceitar a ordem das músicas e a ouvir faixas que não te agradam. E de repente ver beleza em algo que de primeira lhe soou feio; e de repente se surpreender com uma canção fora da curva - uau!, por essa eu não esperava! - e de repente dançar a música que outrora você caçoava ser triste. Como o destino, um disco é algo que já está definido por um ser superior - o artista -, e que tem uma razão de ser. A graça está em descobri-la.

10

Absorver, segundo o dicionário, é "fazer algo desaparecer total ou parcialmente, atraindo-o a si. Engolir, tragar, devorar". Em 2015, e pra sempre, eu desejo que a gente pare pra ouvir. Nem que pra isso seja preciso, de vez em quando, se meter dentro de um ônibus por seis horas.

***

arte: belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Comentários
Postagens relacionadas

20/09/2019 Geral

Lançamentos de setembro

03/09/2019 Geral, Entrevistas

O Artista em Processo: Luiz Gabriel Lopes

30/08/2019 Geral

Lançamentos de agosto

22/08/2019 Geral, Entrevistas

'Duvidaram da volta do Barão'

13/08/2019 Geral, Entrevistas

5 perguntas: Rodrigo Suricato

Shows relacionados
JAZZ IN FESTIVAL
21/09/2019 - 17:00 hs
até 07/12/2019 - 17:00 hs
Teatro Porto Seguro
JAZZ IN FESTIVAL
COLETIVO RODA GIGANTE
22/09/2019 - 13:00 hs
até 18/11/2019 - 13:00 hs
JazzB
COLETIVO RODA GIGANTE
JUÇARA MARÇAL
07/10/2019 - 20:00 hs
até 28/10/2019 - 20:00 hs
Centro da Terra
JUÇARA MARÇAL
O SOM DA CASA
19/10/2019 - 20:00 hs
até 19/10/2019 - 20:00 hs
Casa dos Trovadores
grátis
O SOM DA CASA
ANDRÉ FRATESCHI & HEROES
13/10/2019 - 19:00 hs
Morumbi Shopping
R$35 a
R$70
comprar
ANDRÉ FRATESCHI & HEROES
BULLET BANE + BLACK DAYS + VALEIRAS + IMBIMBO
13/10/2019 - 18:00 hs
Z - Largo da Batata
R$15 a
R$25
comprar
BULLET BANE + BLACK DAYS + VALEIRAS + IMBIMBO
SANDY E JUNIOR
12/10/2019 - 20:00 hs
até 13/10/2019 - 20:00 hs
Allianz Parque
SANDY E JUNIOR