Azoofa Indica: Alessandra Leão

Alessandra Leão sobe ao palco do Sesc Belenzinho neste sábado (17) para apresentar pela primeira vez o seu novo show, "Pedra de Sal", baseado no EP homônimo que ela lançou no ano passado.

O disco faz parte da trilogia "Língua", que prevê o lançamento de mais dois EP's, em que Alessandra faz um mergulho em sua própria forma de criar, desconstruindo-a e levando-a a novos patamares, com resultados mais experimentais. O músico Kiko Dinucci e Juçara Marçal, que participam do disco, também estarão no palco com Alessandra (saiba mais sobre o show).

Nesta entrevista, com exclusividade para o Azoofa, Alessandra fala sobre o show, sobre os atuais desafios para quem vive de arte e diz que é preciso mais tempo para analisar os atentados à revista francesa Charlie Hebdo.

AZOOFA: Pedra e Sal é o primeiro capítulo do seu “novo ciclo criativo”. O que é este novo ciclo criativo?

Alessandra Leão: Entendo um disco como a materialização de um ciclo de criação. Quando penso num disco, penso num tema, num conceito, num caminho... e componho pra isso. Por isso, preciso sempre abrir novos ciclos.

Como surgiu a ideia de lançar 3 EP’s em diferentes momentos, ao invés de 1 disco completo de uma só vez?

Essa decisão parte de alguns pontos, uns de ordem pragmática e outros de ordem estética. Pelo lado pragmático, entram limitações no orçamentos e também no tempo, pois queria lançar algo ainda em 2014, o que não aconteceria se fizesse um long play (mas gostaria de ressaltar que acho importante considerarmos o EP como um disco completo, principalmente do ponto de vista artístico. Não há sentido em pensarmos [nele] apenas como um formato para lançar as músicas).

Caçapa e eu temos um selo chamado Garganta Records e também já vínhamos conversado sobre a possibilidade de lançarmos EPs e “singles”. Além disso, durante o processo de criação do que seria “Língua”, já havia uma divisão estética nesses três eixos/ capítulos: “Pedra de Sal – alma e ossos”, “Aço – carne e pele” e “Língua – língua”. Juntando isso ao funcionamento do mercado hoje, achamos mais do que natural lançar dessa maneira.

Artisticamente tem sido muito mais desafiador e instigante, pois tenho a possibilidade de mergulhar mais profundamente em cada capítulo. Ao mesmo tempo, há a imposição de ser um EP, então preciso compor e escolher o repertório apenas com o que for mais significativo sobre cada tema, se não corro o risco de transformar essa trilogia em LPs e não EPs.

Em outubro você fez duas apresentações esgotadas deste show na Casa de Francisca. Como foi a experiência? 

Considero a Casa de Francisca o melhor lugar para se arriscar, pra lançar algo novo, pra saltar sobre um abismo. Tem uma relação com os músicos e com o público de imensa delicadeza, profundidade e cumplicidade que essa casa proporciona. Fazer esses dois primeiros shows com esse novo repertório lá foi realmente um presente, é como tocar em casa.

O show no Belenzinho será o lançamento “oficial”. Qual seu sentimento minutos antes de entrar no palco, em um show ‘importante’ como este?

Todo show é de fato importante, pois nunca saio de casa achando que o “jogo está ganho”, e essa talvez seja uma das coisas mais instigantes da minha profissão. Antes de entrar no palco tento estar mais tranquila possível, pra isso, tento me preparar o suficiente pra entrar segura e concentrada. Com esses músicos (Caçapa – guitarra, Guilherme Kastrup – bateria, Missionário José – baixo, Rafa Barreto – guitarra e Mestre Nico – percussão) com quem tenho o prazer e a honra de dividir esse repertório, isso fica mais fácil.

A trilogia se chama Língua. Lembrei de W.H. Auden: “um poeta é, antes de tudo, uma pessoa que ama apaixonadamente a linguagem”. Qual é a tua relação com as palavras e, mais especificamente, com a linguagem?

Quando entro num ciclo de criação, procuro ouvir mais música, assistir mais filmes, ler mais, ir mais ao teatro... anoto, grifo, revejo, releio e vou juntando os pedaços de cada coisa dessas. Em Língua, a minha ideia tem sido, desde o início, tentar aproximar a minha criação à criação de outros artistas de linguagem artisticas diferentes da música. Diminuir a fronteira entre essas linguagens, a exemplo do que já acontece no Cavalo Marinho e em tantas “brincadeiras” populares.

Nesse processo, participam desde o início Caçapa (músico, arranjador e produtor musical), Luciana Lyra (atriz e dramaturga) e Vânia Medeiros (artista plástica) e o olhar e a presença de cada um deles me fez compor, cantar e pensar cada música de maneira diferente. Mas isso é um processo sempre em contrução.

Quem fez a capa do EP e de que modo ela é importante e se relaciona com o conceito musical dele?

Vânia Medeiros é a artista responsável por esse projeto gráfico. Nossa relação é bem anterior às gravações desse repertório, ela já havia ilustrado o disco do projeto que idealizei e coordenei, chamado Folia de Santo (2008), e sempre temos buscado fazer coisas juntas. Pelos motivos que cito na resposta anterior, a presença dela nesse processo tem sido absolutamente fundamental e acho que, por isso, considero que o projeto gráfico de Pedra de Sal está tão profundamente entrelaçado com as músicas.

Juçara e Kiko participaram do EP e estarão no show. Queria que você comentasse como se dá a relação artística entre vocês.

Quando eu e Kiko nos conhecemos tivemos a impressão que já éramos amigos há muito tempo, por isso, o tempo cronológico nem parece caber na nossa relação. Também sinto que nossas músicas tem muitos pontos de convergência e inquietações semelhantes. Tê-lo como amigo e parceiro é, sem dúvida, uma das maiores alegrias.

Juçara é uma força da natureza! Nos conhecemos há um bom tempo e sempre tivemos muito carinho, admiração e respeito pela outra. Mesmo sendo de regiões diferentes do país, temos uma relação muito semelhante e profunda com a música dita “tradicional” e isso nos aproxima ainda mais.

Kiko e Juçara estão entre as pessoas que agradeço por nosso caminhos terem se cruzado nessa existência.

Você tem 18 anos de carreira, sendo quase 10 com seu trabalho autoral. Qual é o maior desafio para quem busca fazer arte hoje em dia?

Os maiores desafios continuam sendo os mesmos e envolvem setores que, historicamente, tem realidades mais complexas no Brasil. Mas acho que difusão continua sendo uma das questões mais complicadas, por outro lado, com a internet e as redes sociais, o artista começa a ter um pouco mais de autonomia pra conseguir fazer com que sua música chegue diretamente nas pessoas. E isso não é pouca coisa!

Mudando um pouco de assunto: qual é a análise que você faz dos ataques à redação da revista Charlie Hebdo? Há uma intensa discussão sobre se existe limite para a liberdade de expressão artística e para o humor. Como você vê isso?

É difícil estar diante do horror. De qualquer deles, seja sobre esse caso ou sobre o que tem acontecido na Nigéria, ou o que acontece todos os dias nas cidades brasileiras e em tantas partes do mundo cotidianamente. Ainda estou sob o impacto. Ainda preciso de um minuto pra ouvir mais do que falar... mas considero fundamental que cada um de nós busque compreender esses fatos e questões de maneira mais contextualizada e ampla possível. O filósofo Renato Janine Ribeiro disse esses dias: “O repúdio a todo massacre tem que ser incondicional. Mas isso não quer dizer que não se pode entender por quê. Compreender, contextualizar NÃO quer dizer desculpar ou justificar. Compreender é o cerne da ciência. Quem confunde uma coisa e outra, e ataca os que tentam entender o que acontece/u/rá, na verdade não gosta do conhecimento. Não gosta da ciência.”

***

arte | belisa bagiani

fotos | divulgação

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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