Azoofa Indica: Iara Rennó

A cantora e compositora Iara Rennó faz uma das primeiras apresentações na programação de shows que a Prefeitura de São Paulo organizou em comemoração ao aniversário de 461 anos da cidade. No dia 24, sábado, Iara sobe ao Palco Sul, localizado na Avenida do Arvoreiro, 198 - Parque das Árvores para tocar o repertório do seu último disco, "I A R A" (2013) e "alguns temperos especiais" - saiba mais sobre o show.

Nesta entrevista exclusiva para o Azoofa, Iara fala sobre esta apresentação, explica a influência de São Paulo em sua música e critica a forma como o Brasil se utiliza dos recursos naturais. "Chegamos no limite. As pessoas mal tem noção do que realmente vai acontecer".

Confira os melhores trechos:

AZOOFA: Uma vez você disse que, embora tenha nascido em São Paulo, você não é de São Paulo e sim “do universo”. O quanto ter nascido e vivido na cidade influenciou sua forma de fazer música?

Iara Rennó: Haha, verdade. São Paulo é a maior metrópole do país e sempre recebeu muita música, do resto do Brasil e do mundo. E isso eu sinto na pele: essa influência musical múltipla, de todo estilo e de todo lugar. Além do elementar, que é a influencia musical de minha própria família, os Espíndola, mais os amigos e parceiros que sempre nos rodearam– aqui em SP, principalmente Itamar, Arrigo, Zé Miguel. Mas, quem ouve meu som vai sacar que todas essas influencias estão diluídas, antropofagizadas.

Você fará um dos primeiros shows que vão celebrar o aniversário de São Paulo. O que você está preparando para este espetáculo? E que tal tocar nas comemorações de aniversário da cidade?

To achando bem massa que esse ano teremos – acho que são 5 palcos, né? - cada um com shows nos 2 dias, 24 e 25. Iniciativa boa, com opções para o público de cada região. Fico feliz de voltar pra cidade e fazer parte da festa. Vamos tocar o repertório do meu último disco, com alguns temperos especiais.

Dos outros shows vão rolar, tem algum que você gostaria de ver?

Gostaria de ver vários! Mas quando a gente tá à serviço, fica mais complicado...

I A R A foi lançado em 2013 e representou sua “estreia solo”, digamos assim. Considero-o um dos grandes álbuns dos últimos anos. Depois de mais de um ano trabalhando esse disco, como você o vê? Como está sua relação com ele?

Na verdade já trabalhei esse disco um tempo bem maior porque o show veio antes dele. I A R A é um tipo de trabalho que não se pode chamar de 'disco de estúdio', porque a ideia foi manter a visceralidade da música ao vivo, a formação de poucos elementos sonoros, sem overdubs, quase crua. Eu gosto dele, mas tenho muitas músicas inéditas e também outras coisinhas crocantes, de modo que já estou doida pra produzir outros álbuns, sejam 'de estúdio', sejam ao vivo, seja como for e inclusive mais.

E em 2015, você pretende lançar teu “segundo” disco?

Pretendo lançar disco, livro, e até foguete, se o vento ajudar. Eparrei!

O que você destacaria que de melhor aconteceu profissionalmente pra você até agora?

A maior experiência artística que eu vivi foi realizar o espetáculo Macunaíma Ópera Baile no Teatro Oficina, no final de 2010. Um projeto meu cuja concepção se havia iniciado 11 anos antes, e que envolvia uma equipe de 40 pessoas. Ali me senti útil como nunca. Cumprindo a missão, deixando que por mim se passasse 'a coisa', o alimento vivo pras almas. Talvez mesmo porque nesse projeto eu sou porta-voz: não estou cantando meu ego, nem meu self, self-service ou fuck yourself. É bem maior que eu.

Além de São Paulo e Rio, você morou em outras cidades? 

Morei, na primeira infância, por pouco tempo, em Campo Grande, Anastácio (MS) e Ubatuba, numa época mais 'cigana' de minha mãe.

Queria que você me dissesse o que mais gosta em São Paulo e, se você pudesse escolher qualquer lugar da cidade para se apresentar – qualquer lugar mesmo, pode ser uma praça, uma rua, o topo de um prédio – qual você escolheria?

Esse movimento de ocupação de espaços públicos que vem crescendo (como o do  Parque Augusta, Praça Waldir Azevedo, Largo da Batata e há um tempo, da 'praça Rosa') tem sido muito importantes pra revitalização artística e urbanística. E SP tem  muitos lugares interessantes pra isso. Que ocupemos os espaços com a arte em suas mais variadas formas! Tenho um sonho, tipo óbvio, mas que seja: quero fazer Macunaíma Ópera Tupi no Municipal.

Falar de São Paulo... paradoxo só: 'grande esquina do mundo' onde as pessoas se (des)encontram. A cidade me machuca com sua SECURA, e agora isso é, mais do que nunca, LITERAL...

Há quem diga que a cidade de São Paulo vai acabar logo, que seu modelo é insustentável. Você acredita que a gente esteja vivendo mais do que uma crise de água e de energia elétrica – que esses são apenas dois sinais de que não é mais possível viver como vivemos até agora?

Acho que chegamos no limite. E que as pessoas mal tem noção do que realmente vai acontecer. Não temos um histórico de guerras que destruíram nossas estruturas como tiveram Europa e Japão, por exemplo. Isto é, enquanto nação, não tivemos que viver e administrar a escassez total de recursos. Ficamos perdulários e permicivos com nossa natureza e a corrupção dela foi e continua sendo desmedida. E nossa insolência foi longe demais, agora vamos ter que passar por isso, pra poder evoluir. E vai dar muito trabalho. Mas o foda é que quem mais vai pagar por isso, é claro, é quem não tem dinheiro para tal. Nem para nada. Então a situação me parece bastante tensa.

Nos últimos 10 anos o Brasil saiu do estado de 'miséria', se é que se pode assim dizer. Muitos pobres compraram suas casas e entraram para a sociedade de consumo. Essa foi uma grande conquista, mas também não se investiu o suficiente para que a educação e a cultura acompanhassem esse salto, para que as pessoas pudessem ter outros valores, os fundamentais da terra e da vida, e não simplesmente entrar nessa mesma estrutura que só alimenta o capitalismo selvagem, onde a indústria tem que produzir cada vez mais e mais, a qualquer custo, pelo maldito 'progresso'. Os pobres. Os ricos. Mas eu pergunto: e o 'minha casa, minha vida DE ARTISTA'? O artista não é beneficiado em categorias que o proletariado veio sendo nos últimos anos, de modo a poder, por exemplo, comprar sua casa. Então o artista continua na categoria dos marginais. A pessoa que vive uma vida inteira dedicada à arte, mas não faz algo 'comercial', não quer ou não consegue entrar no 'esquemão', que não tem herança (eu por exemplo sou 'artista de pai e mãe') fica sem autonomia nenhuma nessa sociedade. Sou rica em meus valores, mas na verdade só não sou 'pobre' porque sou artista... e tenho sede de ÁGUA pura! Porque no futuro receio que só com muita grana  se poderá ter esse elixir da vida.

Eu acabei de ser aluno do seu pai num curso sobre Caetano Veloso. Gostei muito dele como professor, alia muito bem conhecimento, técnica e carisma. Como se dá a troca musical entre vocês dois?

Desde criança meu pai me apresentou muita coisa, de Vicente Celestino a Jonh Cage. Ele tinha mesmo essa preocupação em ampliar minha formação musical. A música sempre foi seu objeto de fascínio, por isso todo esse conhecimento e domínio. Temos algumas parcerias, mas faz tempo que não compomos nada juntos.

Ele cantou algumas músicas durante o curso, e todos achamos que ele tem uma bela e afinada voz. Mas disse que nunca vai gravar um disco porque não sabe tocar um instrumento...

Os pais tem essa coisa de querer proteger os filhos de seus prórpios medos, e numa numa certa (des)medida querer que eles reproduzam sua imagem e semelhança. Uma vez ele me disse que eu não precisava cantar, que podia só compor. Nada mais desentendido: eu canto porque PRECISO. Cantar é navegar, viver...E tem mais, como diria meu amigo Gustavo Galo, 'se eu for parar pra pensar, não canto'.

***

arte | belisa bagiani

imagens | divulgação

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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