Dias de luta: a música e o Parque Augusta [cap. 1]

No dia 14 de novembro de 2005, o matemático Katsumi Mushino ligou seu computador, abriu o Orkut, encaminhou o mouse até a aba Comunidades e digitou duas palavras na caixa de buscas: “Projeto SP”. Sorriu: existia um fórum virtual dedicado ao espaço cultural criado nos anos 80 na esquina da rua Augusta com a Caio Prado. Katsumi mal podia acreditar que não só ele, mas outras 1.943 pessoas aparentemente também sentiam saudade daquele misto de lona circense, casa de shows e espaço para atividades culturais que funcionou entre os anos de 1985 e 1987. Armado no terreno de 16 mil m2 onde antes era o respeitado Colégio des Oiseaux, o Projeto SP era o lugar preferido de Katsumi em São Paulo. Por isso, ao ler as mensagens do fórum no Orkut, ele logo se perdeu em memórias mil.

Primeiro, lembrou-se do lance de arquibancadas em compensado com estruturas de aço, carpetadas, e das cadeiras em forma de concha. Depois, recordou a lona anti-inflamável, e até de onde nunca esteve: os camarins, que ficavam atrás do palco, pequeno e elegante. Voltou para o Orkut. Leu um sujeito querendo saber qual foi melhor show que as pessoas viram por lá. Outro questionava porque o Projeto SP não existe mais. Katsumi resolveu escrever algo também. Antes, pensou: será que a Maria Alice frequenta aquela página? E o Aldo, será? Como era mesmo o sobrenome do Aldo? Decidiu não pensar neles, não agora. O rádio na cozinha estava ligado e, no instante em que Katsumi digitava, o locutor anunciava que vinha aí uma canção de Beto Guedes. Katsumi Mushino sentiu um arrepio na alma, porque seu primeiro show no Projeto SP não foi quando da estreia da casa (uma histórica apresentação do baixista americano Stanley Clarke), nem foi curtindo a segunda atração (a banda brasileira Os Paralamas do Sucesso) mas justamente em um show de Beto Guedes. Que coincidência espetacular! A nostalgia invadira Katsumi Mushino. Ele resolveu finalmente se comunicar com aquela comunidade virtual. Cria um tópico e nomeia-o “Show de Beto Guedes”. Digita com dificuldade, tecla a tecla. “Gostaria de reencontrar amigos que conheci nos shows do Beto no Projeto SP da Caio Prado”.

Ninguém o respondeu na hora, nem no dia seguinte, nem em 2006, nem em 2015. Já se vão quase 10 anos do dia em que Katsumi Mushino escreveu esta mensagem no Orkut, e ainda hoje ele volta e meia se vê com vontade de ter notícias de Maria Alice, de Aldo e do Projeto SP. E de Beto Guedes. Resolve levantar-se do sofá, veste calça e camisa e vai para a rua. Antes de tudo, quer ver o que virou da esquina da Augusta com a Caio Prado. O que será lá hoje?

*

108 anos. “Meu Deus, eu tenho 108 anos!”, pensa o Parque Augusta sobre si mesmo. Parque Augusta é um ser velho e grande: sua extensão é de 24.000 metros quadrados. Não se recorda exatamente quando nasceu. Prefere pensar que tudo começou em 1907, quando era chamado de Colégio Des Oiseaux, tradicional instituição de ensino feminina. Parque Augusta era chique, exclusiva, de arquitetura art nouveau, requintadíssima. Um tempo bom, de juventude e conhecimento, em que conviveu com mulheres de destaque como as alunas Marta Suplicy e Ruth Cardoso. Tempo bom que durou até 1969, quando as freiras que comandavam o colégio se mandaram para o Morumbi e levaram consigo todo mundo. Depois, alguém veio e derrubou a casa, deixando Parque Augusta sozinha, sentindo-se inútil, apenas um bosque atrás de um muro presa por um portão de ferro que ninguém nunca mais abriria. A solidão lhe foi companheira fiel até meados de 1985, quando os irmãos Arnaldo e Marcelo Waligora pularam o muro e lhe olharam com olhos de amor. Foi paixão à primeira vista. No dia seguinte, os Waligora entraram pelo portão da frente, como perfeitos cavalheiros, e começaram a cuidar de Parque Augusta, dando-lhe nova cara – a de uma lona cultural -, nova função – ela seria um espaço para atividades musicais, teatrais, e de cinema, dança, artes plásticas, e o que mais viesse – e um novo nome: Projeto SP.

No dia 18 de setembro de 1985, os irmãos acharam que Parque Augusta estava pronta para receber visitas. O show do baixista de jazz Stanley Clarkey levou mais de 3.500 pessoas pra lá. Parque Augusta mal podia acreditar que seu destino seria viver de arte! A partir de então, toda a sorte de bandas e artistas passaram por ali. A primeira apresentação teatral d’Os Trapalhões. Mercedes Sosa, Baden Powell, Chaka Khan, Betty Wright.

Até o Jethro Tull, o Oingo Boingo, os Stray Cats, o maluco do Iggy Pop, o boa-praça do David Byrne. Sem falar nos amigos que viraram de casa: Os Paralamas do Sucesso, Marina Lima, Barão Vermelho, Titãs, Tim Maia, Kid Abelha, Capital Inicial, Beto Guedes, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ira!.

O sonho durou até novembro de 1987, quando os irmãos desmontaram tudo e foram para a Barra Funda, levando consigo também as pessoas. Parque Augusta deixou de ser Projeto SP, ninguém mais a visitava e mais uma vez seu destino foi a solidão.

Nos anos seguintes, quiseram transformá-la em supermercado, em hotel, em museu. O fundo do poço foi quando a obrigaram a ser estacionamento. Até que, em 2004, Parque Augusta foi tombada pelo Patrimônio Histórico. Algumas pessoas começaram a espiar entre por entre suas grades, a bater papo por ali nos domingos de manhã. Ela escutava tudo. Umas pessoas diziam: prédio, prédio, prédio. Outras falavam: parque, parque, parque. Essas, aliás, sempre que falavam sobre seu futuro se referiam a ela como Parque Augusta. Gostou disso. Parque Augusta! Com 100 anos de idade, decidiu que aquele seria para sempre o seu nome. E, orgulhosa, concluiu que finalmente arranjara um motivo digno para existir: ser parque.

Às vezes, especialmente à noite, quando escutava o barulho que o vento fazia nas suas mais de 600 árvores, quando ouvia com atenção o barulho dos animais que vivem por ali, Parque Augusta se lembrava de como gostava de sons. Qualquer som. Mas principalmente som de música. E lembrava-se com carinho dos shows que viu dentro de si. Recordava-se especialmente do Ira!, uma banda conterrânea que cantava músicas com as quais ela se identificava. E que ainda tinha um guitarrista monstruoso que fazia todo mundo vibrar. Seu nome era Edgard Scandurra. Como será que ele está hoje?

*

A briga pelo Parque Augusta já dura pelo menos 40 anos. Quando o colégio Des Oiseaux foi demolido, na década de 70, a prefeitura de São Paulo declarou a área como de utilidade pública e ordenou que fosse transformada em parque. Mas logo a Câmara Municipal revogou o decreto e devolveu o terreno aos antigos proprietários, que quiseram construir ali um hotel com 1.400 apartamentos. Por conta da pressão exercida por moradores que eram contra o projeto, ele nunca saiu do papel. Nos anos seguintes, outras construtoras tentaram edificar no local. Aí veio o Projeto SP, que saiu de lá em 1987. A área ficou sem nenhuma utilidade. Em 1996, o empresário Armando Conde declarou ter adquirido o terreno. Na década seguinte, Armando vendeu o espaço para as construtoras Cyrela e Setin, que desde então tentam erguer quatro prédios no local. Em 2013, a prefeitura decretou a criação do Parque Augusta, mas sua existência legal nunca se deu de fato. Tanto que, no último dia 4 de março, foi realizada a reintegração de posse para Cyrela e Setin, mesmo após intensa resistência de alguns ativistas.

No capítulo 2: Tatá Aeroplano. "Tudo para um grupo de incorporadoras faturarem bilhões?"

No capítulo 3, Karina Buhr, Laura Wrona, Paula Chiaretti e o incrível currículo musical do Colégio Equipe.

O paulistano Edgard Scandurra é um desses ativistas. Ele recorda-se do Projeto SP. “Fiz alguns shows com o Ira! por lá em 1986”, ele me diz por e-mail, quase 30 anos depois. Quem o despertou para o Parque Augusta foi seu filho, Daniel Scandurra. “Comecei a me preocupar depois que vi o tamanho envolvimento dele e dos amigos. Achei muito justa essa causa”, diz o músico, que então resolveu agir. “Procurei colaborar com a minha arte, tentando sensibilizar mais pessoas para o movimento”.

Às 10h do dia 8 de dezembro de 2013, Edgard começou a por em prática este objetivo. Foi neste dia e horário que ele entrou no Parque Augusta acompanhado de Daniel Scandurra, da cantora e compositora Taciana Barros – e mãe de Daniel -, do produtor e músico Antonio Pinto e os respectivos filhos para realizar o primeiro show do Pequeno Cidadão dentro do parque. Juntos desde 2008, eles formam esse inusitado grupo musical, “uma banda cheia de energia e rock’n roll onde pais e filhos se divertem e aprendem através da música”. Às 12h daquele domingo de muito sol, eles começaram o show que unia pais e filhos não só no palco, mas também na plateia, formada por crianças, jovens, adultos e idosos. Sem querer querendo, o show do Pequeno Cidadão simbolizava a razão de existir de qualquer espaço público no mundo, o de promover a convivência entre as pessoas. E era isso que estava acontecendo ali.

“Mas o que realmente foi diferente neste show”, me explica Taciana Barros, “foi a sensação de tocar por uma causa maior do que o cachê ou o ego”. Com o Pequeno Cidadão, Taciana se apresentou três vezes no parque. “Não é um show fácil. Tem que começar varrendo o palco, carregar todo o equipamento, montar tudo. Mas o retorno vem de uma forma mágica. O astral e o sentimento de pertencer a uma cidade, e poder pensar nela como algo mais bonito e possível para os cidadãos, é algo muito gratificante”.

Assim como Scandurra, Taciana começou a se envolver com o Parque por causa do filho. “Passei a minha vida inteira por esses muros e nunca entendi bem o que rolava ali”. Depois que viu a atuação de Daniel ao lado dos amigos, resolveu se juntar. “No começo, pensei que eles estavam viajando”, admite. “Achei que as construtoras mandavam nesse país e que isso seria uma perda de tempo. Daí fui lá conhecer. E foi amor à primeira vista. Só assim, estando ali, você consegue entender a dimensão dessa luta”.

Essa é uma constatação que se escuta com frequência quando se conversa com quem já visitou o Parque, atualmente fechado para o público e protegido por seguranças particulares. “A partir do momento que eu conheci o parque nasceu um cordão umbilical entre eu e aquele espaço”, me diz o produtor cultural Luan Granello, 22. “Antes de apoiar a causa é preciso que as pessoas conheçam o parque. É batata. Somente um cara muito sem alma para não apoiar a existência do parque depois de se dar conta que existe tanta vida no meio daquela babilônia da Augusta”.

A música, que já havia se instalado naquele espaço durante o Projeto SP, agora vem fazendo sua parte dentro do Parque Augusta. “Meu primeiro contato com o Parque foi num evento que embasa minha tese de que faltou ou falta (ainda há tempo) uma apresentação in loco do parque para as pessoas, a elaboração de algum vínculo emocional com o lugar. Enfim, o evento se chamava "Só Acredito Vivendo" e rolou um show surreal dos Mulheres Negras. E ainda teve uma roda de conversa com [os escritores] Antônio Prata, Marcelo Rubens Paiva, Pedro Ekman, Cadão Volpato e [o apresentador] Marcelo Tas. Foi foda. Tenho certeza que as 2 mil pessoas que passaram por ali naquela tarde saíram de lá só com uma vontade: voltar muitas vezes”.

A ideia de Edgard Scandurra – usar a música como forma de atrair o cidadão para a causa – e o infalível “conheceu, gostou” repetidos por Taciana e Luan, ganhou contornos woodstockianos no último dia 01 de março. Ele e Taciana criaram um supergrupo chamado Orquestra Desintegração de Posse, braço musical de um evento político-cultural de resistência organizado pelo Organismo Parque Augusta (OPA). Artistas como Curumin, Karina Buhr, Celso Sim, Naná Rizzini, Mercenárias, Barbara Eugênia, Guizado, Guilherme Kastrup, Vespas Mandarinas, Anelis Assumpção, Laura Wrona, dentre outros, “subiram ao palco” do Parque Augusta para cantar e amplificar a mensagem de luta pelo espaço. Mais de 3 mil pessoas compareceram. “Eu vi que o parque precisava formar a opinião do público e uma maneira disso acontecer era atraindo as pessoas para dentro dele”, fala Edgard. “Como conheço muitos músicos que tem preocupação com a cidade, e essa é sim uma causa da população, convidei os artistas com quem já toquei e parceiros”. Como era muita gente e o local não tem estrutura profissional, a dinâmica dos shows foi toda adaptada. “Fizemos de uma maneira que a transição entre os artistas fosse rápida pra que todos pudessem se apresentar. E foi um sucesso. O público colaborou e foi um acontecimento histórico pra mim”, comemora Edgard, autor de "Dias de Luta", gravada pelo Ira! em 1986 e que contém os versos "só depois de muito tempo / comecei a entender / como será o meu futuro / como será o seu".

São dias de luta também para Taciana. A artista visita o local (ou a parte de fora dele, já que o espaço segue fechado) com frequência, e tanto ela como Edgard estiveram no último abraço coletivo realizado no sábado (21).  Taciana também usa as redes sociais quase que diariamente para divulgar notícias e acontecimentos sobre o Parque. Para ela, a luta – a caminhada, o processo, o meio – está sendo tão importante quanto o dia em que o Parque for efetivamente da cidade – a chegada, o resultado, o fim. “O meio aqui é o fim. É impossível perdermos aquilo. A cidade merece e as empreiteiras nos devem essa por motivos óbvios”.

Edgard também segue atuando em defesa do Parque e crê que a música tem um papel importante nesta história. “Os músicos tem em si o sonho de poder mudar o mundo. Isso move a arte”, argumenta. “Enquanto houver esse sonho, haverão músicos dispostos a lutar por ele”. Quando pergunto aos dois se eles tem planos de deixar a cidade, ambos dizem que não. E Taciana faz uma bonita declaração a cidade. “Nasci em Santos, vim pra cá aos 17 anos quando entrei para a Gang 90. Desde então, eu amo São Paulo e nunca quis mudar daqui. Sinto que existe um novo olhar para a cidade: as ciclovias, as faixas de ônibus, os teatros sendo recuperados. Sei que estamos longe demais de termos uma cidade razoável, mas como te disse, o meio é o fim. Entendo os músicos do Titanic que ficaram e afundaram junto com o barco. Nós também vamos ficar tocando. Estamos no meio disso e, se depender de mim, prefiro me afogar a sair”.

***

Edgard Scandurra e Taciana Barros são dois personagens de uma história de resistência que envolve não só o Organismo Parque Augusta, ativistas e cidadãos. A luta pelo Parque Augusta tem trilha sonora, e ao vivo. O segundo capítulo traz Tatá Aeroplano. Ele fala de suas impressões sobre o local, comenta a falta de espaços públicos da cidade e relata como foi a experiência de tocar no Parque - e de ser tocado por ele.

arte | belisa bagiani

fotos | eduardo lemos e divulgação

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leia o artigo do professor Peter Pal Perlbart

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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