Dias de luta: a música e o Parque Augusta [cap. 2]

Eu entrevistei Tatá Aeroplano duas vezes, ambas por e-mail. Visitei sua casa no dia 05 de maio de 2014 para ver a chegada de um piano, que está lá até hoje e aparece nas fotos de divulgação de seu segundo disco solo, “Na Loucura e Na Lucidez”. Tatá não estava lá neste dia. Sua casa fica na mesma rua onde minha namorada morou por três anos. Eu já fui a alguns shows do Cérebro Eletrônico e certamente esbarrei com ele em alguma festa ou sessão de cinema por aí. Mas eu nunca encontrei de fato com Tatá Aeroplano.

A imagem que tenho dele se construiu basicamente a partir das dezenas de vezes que o flagrei caminhando pelas ruas de São Paulo, sozinho e acompanhado. Eu já o vi subindo a Heitor Penteado sentido Doutor Arnaldo, numa terça-feira, lá pelas 7 da noite. Já o vi às 5 da manhã, violão nas costas, atravessando o vazio da rua Veiga Filho, em Higienópolis. Já o vi correndo pelas ruas de Santa Cecília, e recentemente parei em um semáforo na avenida Pompeia e quem eu vejo cruzar a rua? Tatá Aeroplano. Você já deve tê-lo visto por aí também. “Andando a pé pela cidade, cruzando bairros inteiros, vivo e observo os problemas, e recebo as bênçãos também", ele me conta, novamente por e-mail. "Tudo se mistura. Atualmente, raramente eu pego um taxi, ônibus ou metrô".

O músico e compositor, que neste ano completa 40 primaveras e já lançou quatro discos com o Cérebro Eletrônico e dois álbuns solos, é hoje sem dúvida um símbolo de São Paulo, alguém que logo nos vem à mente quando se pensa sobre a música da capital. Porque Tatá tem essa relação de pele com a cidade. E isso transparece em sua música, nos personagens que rondam suas letras, nas histórias e mistérios que pululam em sua obra.

Mas, curiosamente, Tatá não nasceu aqui. “Passei a infância num sítio que fica no Passa Três, que hoje pertence ao município de Tuiuti”, ele me conta, por e-mail. “Mas eu adoro São Paulo. É uma cidade cercada por grandes matas, vivemos numa cidade que foi mata pura no passado. Quando ando pela cidade, fico imaginando essa mata. Aqui existem muitas árvores e muitas áreas interessantes de se caminhar e ter contato com a natureza. Faço caminhadas de 10, 15 quilômetros pela cidade diariamente e avisto espécies de pássaros como alma de gato, saracara, sanhaços, sabiás...”.

No capítulo 1: o terreno sempre foi musical + o ativismo de Edgard Scandurra e Taciana Barros + a pequena grande história do Projeto SP. No capítulo 3, Karina Buhr, Laura Wrona, Paula Chiaretti e o incrível currículo musical do Colégio Equipe.

Ouvindo Tatá, fica fácil entender por que ele é um dos músicos mais engajados na defesa do Parque Augusta. Ele se apresentou lá por duas vezes. “Amigos de diferentes turmas se conectaram com a história do Parque Augusta”, diz. “Estive sempre sintonizado por conta deles. Fiz um som com o Gustavo Galo lá no ano passado e recebi recentemente o convite da [ativista] Karen K para me apresentar juntamente com o Leo Cavalcanti. Pra mim foi uma honra tocar dentro dessa mata remanescente no coração da cidade”.

No dia seguinte a esta apresentação ao lado de Leo Cavalcanti, Tatá Aeroplano publicou um enternecido texto sobre a experiência. “Foi uma tarde incrível e se você quiser pode separar alguns trechos do que escrevi a respeito aquele dia. Eu me senti muito leve, estado de espírito elevado, corpo leve, sorriso no rosto, entrei num portal, outra dimensão ... senti o calor, o frio, os sons e formas daquela mata ancestral. Vi insetos lindos, muito antigos mesmo, ali é um dos poucos resquícios de mata nativa dentro da cidade”.

A pedido de Tatá, separei os seguintes trechos do texto:

“16h. Vibe incrível. É como se estivéssemos entrando num portal! O portal dos sonhos. Um silêncio misterioso e muito agradável. Cantos de aves que vivem por ali há muito mais tempo que nós. Grilos. Insetos de todos os tipos, tamanhos. Coloridos. Psicodélico. Uma beleza e sintonia rara de cores e sons. Vivências e multiplicidade de forma. A galera que estava espalhada pelo parque emanava essa deliciosa vibe. Sentimentos pleno. Encontramos uma pequena clareira. Sentamos. O querido Leo Cavalcanti chegou. Fim de tarde. Galera chegando. Lá estava o meu amigo de caminhadas diurnas Juliano Gauche, a sensacional Lau Ar, o mister Julio Cruz, editor da revista Lado Z, as queridas amigas Roberta Youssef, Fernanda Buschmann e Mali Sampaio.

Enquanto eu cantava, minha atenção se voltava aos sons dos pássaros. Quando eles começavam a cantar e fazer uma algazarra, eu diminuía o volume do voz e do violão para eles entrarem na música. Quando passava a viola pro Leo Cavalcanti, uma das vozes que eu mais amo nesse mundo, eu me deleitava com o canto dele que se misturava totalmente aos cantos múltiplos daquela mata nativa. Como fez bem pra alma.

Viramos mato. Viramos floresta. Viramos pássaros. Viramos amor. Viramos sintonia. Vibe. (...) Anoitecemos. Tudo escuro. Formas novas de sentir tudo aquilo. Continuamos tocando. Fiz uma versão para "Um Brinde Aos Pássaros" e naturalmente me veio o dia que cantei ela lá no Parque com o amigo de alma Gustavo Galo. Tudo registrado pelas lentes do Binho Baderna Miranda! Memória relacionada ao parque…memória Fluxus…Paulinho Fluxus!

Agradeço diariamente por esse religar que a natureza me deu de presente, e fico muito, mas muito feliz mesmo, de ver que cada vez mais pessoas se reúnem em torno dela. Um Brinde a Natureza Plena. Viva o Parque Augusta!”

Se a figura de Tatá Aeroplano hoje está associada a cidade de São Paulo, antes, no começo de sua carreira, havia uma inegável ligação entre sua persona e a rua Augusta. Na década de 2000, era na outrora boêmia e artística alameda central que Tatá passava boa parte de suas noites, fosse se apresentando com o Cérebro, o Jumbo Elektro ou outra banda, fosse discotecando antes e depois dos shows que rolavam no Studio SP, ou então durante o dia, quando saía de casa, ali perto, e subia a rua para ir ao cinema. No seu caminho, sob o sol ou sob a lua, estava o terreno onde hoje é o Parque Augusta.

Hoje, a rua Augusta vive um boom de empreendimentos imobiliários. O Studio SP fechou em 2012 e culpou a especulação. De 2008 a 2013, o custo do aluguel residencial na rua Augusta subiu inacreditáveis 172%, segundo o índice FipeZap. Pequenas casas estão dando lugares a grande prédios. E o barulho da Augusta, antes indubitavelmente mais musical, atualmente dá lugar aos sons emitidos por caminhões de concreto e pelo número cada vez maior de carros que passa por ali diariamente. “É muito triste ver toda essa movimentação concreta”, admite Tatá. “Casas antigas caindo dando espaço para espigões! Muda a paisagem, muda a percepção, altera o estado de espírito. Tudo para um grupo de incorporadoras faturarem bilhões...”.

Tatá diz que continuará na luta pelo Parque Augusta e para que as pessoas se sensibilizem sobre sua própria existência dentro da cidade. “Conheço uma galera que faz música, tem posição política e crítica em relação aos problemas da cidade. Mais do que lutar pelo parque, temos que cada vez mais entender a nossa existência dentro da cidade. Conhecer as árvores, insetos e pássaros que vivem conosco. Usar as ciclovias. Andar a pé. Sair dessa casca de concreto”, vaticina. “O Parque Augusta foi uma maneira linda das pessoas entenderam a cidade que estamos pisando e vivendo. Isso já é um ganho, pois o Parque Augusta vive e ressoa dentro do coração de milhares de pessoas que se conectaram com o espaço. Essa luta é diária. Pelo parque, pela cidade, pelas árvores, pela história e pelas pessoas”.

***

Leia o capítulo 1 de "Dias de luta: a música e o Parque Augusta", com Edgard Scandurra e Taciana Barros.

arte | belisa bagiani

imagens | divulgação, eduardo lemos e lau ar

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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