Dias de luta: a música e o Parque Augusta [cap. 3]

Deve ter sido em 2002 que a cantora Karina Buhr ouviu falar pela primeira vez do Parque Augusta. Foi naquele ano que a Prefeitura de São Paulo, através do Plano Diretor, previu que o terreno deveria ser transformado em parque. Se não foi em 2002 que o parque Augusta chegou aos ouvidos de Karina, então pode-se apostar que foi em 2010, quando aconteceu a primeira grande manifestação popular de apoio a implementação do parque. O fato é que, desde o dia em que ficou sabendo dessa história, esta baiana de Salvador sentiu imensa vontade de fazer contribuir. “Quis chegar junto e não conseguia. Ficava só acompanhando de longe, porque apareciam viagens e um monte de trabalho longe de São Paulo. Rolava uma comunicação com várias pessoas muito atuantes nessa história do parque. E vários planos.”

Karina só foi conhecer o Parque no dia em que se apresentou por lá. O músico Edgard Scandurra a convidou para ser uma das atrações de um festival que aconteceria no dia 01 de março, domingo, três dias antes de a Justiça e a Polícia Militar concluírem a reintegração de posse e fecharem o espaço. “Esse domingo do show foi bem lindo, como foram todos os outros dias lá, só que com uma tristeza a mais, que é o dia e hora certos pra acabar tudo", relembra. “De toda forma, apesar da reintegração de posse, a luta pelo parque continua firme e forte”, aponta, e ecoando o que disse Taciana Barros sobre a importância da luta independente do resultado, “todo mundo aprende muito nesse processo. Acompanhei isso no Estelita. Todos ficam mais fortes e sabendo melhor os caminhos pra não parar com a luta em defesa de uma cidade que seja de todos que nela vivem”.

O notório caso de Estelita tem tudo a ver com o que se passa hoje no Parque Augusta. Fincado no centro de Recife, o cais José Estelita foi construído pelos holandeses em 1630. Seu declínio começou nos anos 70, quando a ferrovia que ali existia foi desativada, e o local, abandonado. Em 2008, um grupo de construtoras comprou a área e anunciou que colocaria tudo abaixo para fazer ali um complexo residencial e comercial chamado Novo Recife – ou, em outras palavras, um monte de prédios. Parte da população se revoltou e, em 2012, iniciou-se um movimento intitulado Ocupe Estelita, inspirado pelo Occupy Wall Street. O caso ganhou as redes sociais e a adesão de artistas – incluindo Karina, que aos 8 anos de idade mudou-se para Recife e lá viveu até 2003, quando trocou a capital pernambucana por São Paulo.

Tanto em Recife quanto em São Paulo, a música vem tendo papel importante, não só ao ocupar estes espaços com arte, como também atraindo o olhar de outros públicos para as causas. “Cada um contribui com o que sabe fazer e isso é precioso”, ela diz, sobre como a música pode auxiliar em situações como essas. “No Estelita, sempre fiquei encantada com essa força coletiva tão intensa, que vem da junção de tanta gente, de tantas áreas diferentes, trazendo novos pontos de vista, formas de agir em frentes diferentes, linguagens diferentes”, destaca. Para Karina, a música é uma poderosa arma de sensibilização. “Um lado massa dos shows é que, além de somar com a coletividade, trazendo todo mundo junto pra ouvir música e aproveitar o lugar de um jeito legal, tem também o lado de atrair pessoas que, muitas vezes, não iriam por conta própria acompanhar aquela luta. E aí vê de perto e se apaixona por tudo o que rola numa história dessa e passa a fazer parte também”.

+ No capítulo 1: o terreno sempre foi musical + o ativismo de Edgard Scandurra e Taciana Barros + a pequena grande história do Projeto SP.

+ No capítulo 2: Tatá Aeroplano. “Tudo para um grupo de incorporadoras faturarem bilhões?”

Embora haja semelhanças, Karina enxerga uma diferença crucial entre os dois casos. “O Parque Augusta naturalmente gera uma ação maior de estudantes e tal”, argumenta. “Já Estelita é um caso diferente. Existem comunidades fortes em volta, com histórico importante de luta por moradia. Na própria linha do trem que segue além do Estelita, tem muita gente morando encostado nos trilhos. Acaba envolvendo mais diferenças na população atuante, talvez um intercâmbio social maior”. Ela reconhece que quanto mais gente envolvida numa causa como a do Parque Augusta e Estelita, melhor, mas a compositora chama a atenção para a impossibilidade da maioria das pessoas em comprar estas brigas. “Quem está trabalhando duro e ganhando pouco dinheiro, morando distante do parque, ou lutando por uma moradia, não vai se engajar nessa luta. Acho isso uma coisa bem natural. Isso de morar acampado no Parque Augusta e no Estelita também é uma coisa delicada, que não é todo mundo que tem condição de fazer, seja por dinheiro, pelo modo de vida, filhos pra criar, tanta coisa... Que incrível que tem gente que pode fazer isso e se dispõe tão maravilhosamente a fazê-lo!”, comemora.

O assunto a faz recordar o comentário que leu em uma rede social, em que alguém comparava a situação de Estelita com a do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, que sofreu reintegração de posse em 2012 e deixou cerca de 7 mil pessoas sem casas. "A pessoa escreveu: ‘temos um novo Pinheirinho’. Claro que não! São coisas totalmente diferentes e entender isso não tem nada a ver com aceitar a violência da polícia numa desocupação como a do Estelita, mas se trata de entender que cada coisa é uma coisa”, explica. “Que são lutas que fazem parte de uma mesma coisa maior, mas que não ter onde morar e ser expulso de casa provavelmente não vai te deixar nenhum espaço na vida pra ir lutar por um parque”.

Karina vive em São Paulo há mais de uma década, nasceu em Salvador, passou boa parte dos anos vivendo em Recife. Para ela, a situação das três cidades é muito parecida quando se fala em respeito ao espaço público e à história. “Todas tem grandes problemas, os mesmos, de especulação imobiliária, de falta de atenção, cuidado, amor e vontade política com as pessoas e com a cidade propriamente dita e sua história”, enumera. “As três vivem nessa selvageria e é muito triste acompanhar isso. Muito triste chegar no Recife e ver memórias importantíssimas desaparecendo - memórias históricas e artísticas da cidade, memórias minhas. É uma parte da minha vida e da vida de todo mundo que vive lá, e que vai sendo arrancada da gente, apagada, do pior jeito possível, de um jeito burro, do dinheiro pelo dinheiro e nada mais”, afirma, para depois continuar. “É burro também porque, mesmo sendo pelo dinheiro, não se apaga memória histórica, ela também vale dinheiro. É muita ganância, muita falta de compromisso do poder público com as pessoas e muita burrice. Chego em Fortaleza e vejo a mesma destruição. Dói demais. Essa tem sido, há bastante tempo, a regra pro Brasil inteiro”.

No final do ano passado, durante a passagem de som para um show em São Paulo, a cantora descobriu que sua apresentação fazia parte de um evento de lançamento de um empreendimento imobiliário. Revoltada, mas de contrato assinado e obrigada a subir ao palco, Karina resolveu “desconvidar” seu público, pedindo que eles não fossem ao show. “Foi um show fechado pela minha produção na época, não tratei diretamente com a empresa”, relembra. “Eu só fiquei sabendo do que se tratava quando cheguei lá pra passar o som. Tive que fazer o show, ou teria que arcar com prejuízos e também tinha um compromisso com minha banda e a equipe que trabalha comigo. Então, o que me restou foi desconvidar publicamente as pessoas”. Pelo Twitter, ela brincou com a situação inusitada. “Não gosto de empreiteira! Valei-me, Santa Estelita!”.

***

Quem também não gosta de empreiteira e levou isso para dentro de sua obra é a cantora e compositora paulistana Laura Wrona. O flyer de lançamento do seu clipe “Ocupado Tem Gente”, lançado no mês passado, mostra uma mulher segurando uma placa, como as “mulheres-setas” que ficam nas ruas divulgando empreendimentos imobiliários. “O flyer ironizava essa questão imobiliária, de apartamentos gigantes para pessoas ocas, desocupadas de si mesmas”, conta. “E mulher-seta é outra coisa que abomino e que é bastante representativa desse processo de verticalização”.

Está claro que Laura acredita que a música pode – e talvez deva – se envolver em questões políticas e sociais, como é o caso do Parque Augusta. “Acho que temos que aproveitar a forma que temos para nos comunicar e difundir o que acreditamos”, afirma. “O Parque é uma unanimidade entre quem tem um mínimo de sensibilidade, seja ela expressa através da arte ou outra maneira. Se podemos usar a música para sensibilizar e atrair outras mentes para pensar essas questões, quanto mais nos unirmos em torno disso, melhor fica. É o que penso, sobretudo depois da experiência dos shows no Parque Augusta”.

Antes de ser convidada por Edgard Scandurra para se apresentar no (logo, logo histórico) Desintegração de Posse, a cantora já se articulava com as pessoas e movimentos que atuam em defesa do local. “A primeira vez que visitei o Parque foi na primeira ocupação [2010]. Já estavam por lá o pessoal do Organismo PikNik, com o qual já tinha alguma proximidade”, recorda. Para ela, o Parque é imprescindível para a sobrevivência da cidade, e ela faz uma interessante analogia a esse respeito. “A primeira “casa” que temos é nosso próprio corpo-mente, que está diretamente conectado com a natureza, pois deriva e deságua nela. Para termos a sensação de casa, precisamos mais de acolhimento do que de proteção. E para isso um parque, uma zona de respiro, contribui infinitamente mais para esse bem estar geral - que infelizmente não é percebido por quem é prisioneiro, não habitante, de sua própria casa/casca.”

Depois de sua primeira visita ao Parque, Laura esteve por lá diversas outras vezes, mas nenhuma tão especial quanto o último dia 18 de janeiro, em que assistiu ao show das Mercenárias. “Foi muito marcante pela participação do público, enérgica e pacífica ao mesmo tempo - uma combinação rara hoje em dia”. Laura só não poderia imaginar que, dias depois, chegaria uma mensagem em seu celular desencadearia uma sequência de fatos que a levariam a se apresentar no Parque Augusta, tal qual ela viu as Mercenárias fazerem e que tanta espécie lhe causou. “Fui convidada pelo Edgard Scandurra junto a todos os outros artistas através de uma lista gigante de WhatsApp. A agilidade com que todos se prontificaram e mobilizaram permitiu que o show fosse organizado em menos de 24 horas. Cada um ofereceu ajuda de acordo com suas possibilidades e essa união foi muito importante”, reconhece. (O trecho a seguir é a continuação da resposta de Laura a minha pergunta sobre a experiência de tocar no Parque. Mas achei que, sozinho, este excerto tinha a força de um texto, e assim o reproduzo aqui.

"A tarde em que o show aconteceu foi de sol e o Parque estava cheio de crianças, casais passeando com cachorros. Uma convivência tranquila entre os que dormem em camas, barracas, asfalto. Conversei com um senhor muito especial que me contou ser ex-dependente químico e que agora estava “no bom caminho”. Depois que toquei ele me perguntou se o que eu fiz chamava folk, eu disse que poderia ser chamado assim também (afinal cantei somente acompanhada da guitarra) e ele ficou todo feliz de perceber que identificou. Me desejou luz e apertamos as mãos. Um encontro breve assim, mas que me deu lágrimas nos olhos. Esse estado de abertura que a combinação parque+música nos proporciona é dessas experiências que devolvem a crença em um mundo mais humano, caloroso". 

No aguardado dia em que o Parque for finalmente oficializado e aberto ao público, Laura crê que estará sempre por lá - “ando bastante de bicicleta pela região da Paulista/Centro e por isso o Parque entra na minha rota” – e isso já lhe despertou algumas ideias – “na rotina, certamente passaria a frequentar mais e gostaria de me envolver na proposição de atividades artísticas abertas aos frequentadores. Tomara!”.

Tomara.

***

A luta pelo Parque Augusta não começou agora. Há pelo menos 40 anos, muitos grupos e indivíduos vem atuando na defesa do terreno e em apoio ao projeto de torná-lo um espaço para uso público. Mas, foi em meados de 2013, como resposta a uma nova investida dos proprietários em construir prédios no terreno e a necessidade em se fazer pressão pela sanção de um projeto de lei que autorizaria a criação do Parque Augusta, que esta luta ganhou amplificação e tornou-se tema recorrente nas redes sociais, pauta obrigatória dos jornais e de qualquer roda de conversa em que o assunto fosse a cidade de São Paulo e mobilizou milhares de pessoas durante as manifestações e atividades realizadas pelos ativistas. Desta agitação surgiu o Organismo Parque Augusta, nome influenciado pelo coletivo parceiro Organismo PikNik. “O OPA é um movimento autogerido, horizontal e heterogêneo. Não tem líderes e nenhum grupo ou entidade oficialmente constituído o representa. Organiza-se a partir de assembleias públicas, reuniões de grupos de trabalho, ações diretas na rua e rede mundial de computadores. É aberto à participação de quem se interessar em apoiar a causa”, diz a descrição oficial do grupo.

Foi justamente em 2013 que a produtora cultural Paula Chiaretti, 23, tomou conhecimento do Parque Augusta. “Foi amor à primeira vista”, diz. “Na mesma semana, comecei a fazer uma horta coletiva e colaborar com as ações que começaram a ser pensadas para somar na luta. Naquela época”, ela relembra, “estávamos focados em pressionar o Prefeito para sancionar a lei que autorizava a criação do Parque. E assim foi". Desde então, Paula e o Parque criaram uma relação de dedicação e entrega. Paula participou dos 47 dias de vigília que ocorreu dentro do Parque. “Foi imensamente transformador”, admite ela, que hoje atua “nas construções e ações do OPA, que se encontra todas as segundas feiras, em reuniões abertas, afim de pensar maneiras de viabilizar o parque”.

Conversei com diversas pessoas durante a apuração desta reportagem. Não foram poucas as que me indicaram falar com Paula. Todas sublinharam que trata-se de uma das mais devotadas ativistas que o Parque Augusta conquistou. Nesta entrevista para o Azoofa, ela fala da importância que a música está tendo nesta luta e relembra alguns dos shows inesquecíveis que viu dentro do Parque. “As pessoas estão preocupadas com seus próprios mundos. Enquanto não pensarmos em coletivo, nada vai mudar e é por isso que os movimento sociais são tão importantes, ao meu ver. Temos que nos movimentar em coletivo, pensar no coletivo e não esquecer que dinheiro não é tudo nessa vida”.

AZOOFA: De que forma a música ajuda uma causa como a do Parque Augusta?

Paula Chiaretti: A arte, de um modo geral, é a maneira que o OPA utiliza para fortalecer a  luta pela criação do Parque, além dos meios burocráticos. Quando recebemos apoio de artistas, legitimamos o caráter cultural que tem aquele espaço, e resgatar as origens musicais do terreno é um dos pontos fundamentais para que isso aconteça. Com o apoio de músicos e artistas,  atraímos os olhos da mídia para as causas políticas, sempre ignoradas e marginalizadas.

O Desintegração de Posse levou diversos músicos para o Parque. Como rolou essa ideia e como foi a experiência de ter um festival dentro do Parque?

Desde 2013 fazemos festivais no Parque. Foram dois festivais em 2013, algumas ações menores na rua em 2014 e em 2015, quando entramos novamente no terreno, resgatamos as apresentações que fazíamos ali. No período de 47 dias, tempo que durou a vigília no Parque,  tivemos atividades diárias e shows semanais. A idéia  do show, realizado dias antes da reintegração de posse do terreno, partiu da Taciana Barros e do Edgard Scandurra. Foi um modo que eles acharam de apoiar  a causa, incentivar os ativistas que lutam diariamente pela criação do Parque, chamar atenção da mídia e convidar mais gente para o fatídico dia da Desintegração. Deu super certo e foi lindo!

Como você vê a importância da música se posicionar politicamente em relação a um problema da cidade?

A música é uma das expressões artísticas mais acessíveis que eu conheço, mesmo com a mídia ditadora de tendência, [mas] através da internet, ela se dilui e chega em locais que jamais imaginaríamos. A música tem o poder de transmitir mensagens e questionamentos de uma forma simples  e sem censura, para todas as classes e lugares. Temos mesmo que usar essa potência para um bem coletivo, seja em canções ou em apoios - como no caso dos shows que aconteceram no Parque Augusta – seja em mensagens pelas mídias sociais e menções da causa em seus shows pela cidade.  

Algum show que você viu por lá e que te marcou de maneira especial?

Dois festivais me marcaram. O segundo festival, que fizemos em 2013, foi um dia antes do meu aniversário e tivemos a presença do Mulheres Negras [formado por Maurício Pereira e André Abujamra, e que raras vezes faz shows]. Foi sensacional ver o Parque lotado e dias depois receber a notícia da sanção da lei que autorizava a criação do Parque.

Depois, vem o Festival da Desintegração. Foi, sem dúvidas, um momento histórico. Receber Guilherme Kastrup, Curumim, Guizado, Anelis, Karina, Arnaldo, Vespas, Edgard, Mercenárias e todas as pessoas lindas que subiram naquele palco dias antes da polícia vir nos retirar, ter todas aquelas pessoas conscientes levando o lixo embora, cuidando do parque e vivendo um pouco da história da luta pelo bosque foi uma recompensa para quem estava ali há 47 dias seguidos, zelando para que aquele espaço permanecesse aberto.

***

Uma das pessoas mais importantes para que esta série de reportagens acontecesse foi a psicóloga Eliane Langer, que conheci numa de minhas visitas ao Parque, logo depois da reintegração de posse. Eliane é uma mulher educada e articulada, cujo cabelo laranja e óculos de lentes azuis, à primeira vista, me fizeram pensar em Rita Lee. Durante os dias de produção das matérias, Eliane me trouxe bons contatos e ideias. E também me chamou a atenção para a ausência, no capítulo 1, de uma citação ao período em que o terreno do Parque Augusta abrigou o famoso colégio Equipe, na década de 70. "Estou lendo a matéria e ficou faltando um grande pedaço da história: o Colégio e Curso Pré-Vestibulares EQUIPE. Fui aluna do último ano do curso e, muito jovem e desinformada, perdi uma série de shows que ocorriam no parque, talvez na mata do antigo colégio Dex Oiseuau. Muito antes do Projeto SP, o Equipe promovia muitos shows".

Explico a ela que a ideia da matéria não era fazer um levantamento da história musical do terreno - embora o capítulo 1 dê espaço ao Projeto SP - mas focar no que a música atual está fazendo em prol do Parque. Eliane me responde com algumas lembranças. "Perdi essa maravilha e nem tenho certeza se ocorreram em 1974, ano em que o colégio foi demolido. Soube, tão somente, que havia mudado de local sem saber a razão. Fotos do casarão me levaram de volta àquela época: as escadarias pra entrar e ir para as salas de aula, alguns professores incríveis... E tinha competição: Cursinho Equipe x Curso Objetivo na Avenida Paulista. Este último era caríssimo e só para coxinhas. E por favor, me envie o capítulo 3, tá? Beijos".

O Colégio Equipe foi fundado em 1968 no terreno que hoje conhecemos como Parque Augusta. Nesta época, o apresentador Serginho Groismann era um dos estudantes do colégio e ficou famoso por levar dezenas de artistas para se apresentarem no colégio - "levar", sim, literalmente: ele buscava cada um em casa, colocava dentro do seu Fusca branco e cruzava a cidade até chegar ao Equipe. De Clementina de Jesus até bandas de rock obscuras que ninguém recorda o nome, passando por Caetano Veloso, Egberto Gismonti, Paulo Moura, João Bosco, Luiz Gonzaga, Raul Seixas, todo mundo tocou no Equipe. Houve um show de Gilberto Gil e Jorge Mautner que durou 4 horas. "Só 'Maracatu Atômico' durou uma meia hora", diz Serginho, em entrevista ao jornalista Tom Cardoso, publicada em 2003 pelo Valor Econômico.

Ao mesmo tempo em que se fortalecia como centro musical da cidade, o Colégio Equipe ia tornando-se um espaço de resistência contra a ditadura. Em 1977, Groismann e outros alunos bateriam de frente com os militares, dentro do próprio Equipe. Recém-chegado de uma viagem à África, que resultou no repertório do disco "Refavela", Gilberto Gil anunciou que faria uma apresentação só de voz e violão no colégio. "O show estava lotado. Tudo ia bem, quando a PM chegou. Os policiais tomaram uma vaia e Gil, surpreendentemente, repreendeu os estudantes: 'Eles estão cumprindo o dever deles! Vamos fazer como os índios, que cantam enquanto fazem a revolução'. E começou a cantar 'No Woman no Cry', de Bob Marley. A turma da patrulha ideológica ficou furiosa", relembra Serginho, na mesma entrevista.

Quem certamente estava na plateia neste dia eram os amigos Sergio Britto e Branco Mello, que ajudavam Groismann na produção dos shows, e que anos depois formariam, ao lado de outros músicos paulistanos, uma das mais importantes bandas brasileiras, os Titãs. Mais de uma vez, tanto Britto quanto Mello reconheceram que o período no Colégio Equipe foi fundamental para a formação musical deles. Nando Reis, outro titã que estudou por lá, já falou que trabalhar na produção dos shows possibilitava a ele ver as apresentações de nomes como Luiz Melodia, Alceu Valença e Cartola - até Cartola tocou no Equipe, e a Eliane não viu.

***

arte | belisa bagiani

imagens | divulgação

agradecimentos | gabriela nogueira e diletto produções :: edgard scandurra, taciana barros, karina buhr, laura wrona, tatá aeroplano, guizado :: eliane langer, paula chiaretti e luan granello.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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