Azoofa Indica: Cidadão Instigado

O Cidadão Instigado sobe hoje (09) e amanhã (10) ao palco do Sesc Pompeia para o show de lançamento de "Fortaleza", quarto disco da banda e que vem sendo apontado pela crítica como um dos melhores trabalhos do grupo formado por Fernando Catatau (voz e guitarra), Régis Damasceno (baixo e vocal), Rian Batista (violão, percussão, teclado e vocal), Clayton Martin (bateria e efeitos), Dustan Gallas (guitarra, teclado e vocal) e Kalil Alaia (técnico de som e efeitos).

Após 6 anos sem lançar material inédito, o Cidadão apresenta o álbum mais pesado e ambicioso de sua carreira - e que é, ao mesmo tempo, um retorno às raízes, tanto as geográficas (o disco foi gerido em Icaraí de Amontoada, no Ceará, terra natal de cinco dos seis integrantes, e traz referências a Fortaleza que vão além do título), quanto as raízes musicais, já que toda a banda formou seu gosto musical a partir da descoberta do rock, nos anos 80. "Aos 13 anos, eu ouvi rock pela primeira vez", diz Fernando Catatau. "Aquilo mudou minha vida".

No pouco tempo livre entre os ensaios para os shows (saiba mais sobre as apresentações), Catatau falou com o Azoofa sobre o processo de produção do disco, o atual momento do rock brasileiro e as mudanças que estão transformando a paisagem de Fortaleza.

AZOOFA: Esse foi um disco feito com bastante calma, não? Foi proposital (e talvez necessário) não ter pressa?

Fernando Catatau: Acho que nós fizemos tudo no tempo certo. Foram vários processos desde o início, quando a gente decidiu se juntar pra começar a arranjar [as músicas] lá em Icaraizinho, até agora. Além do disco ter sido gravado com pouca grana, teve o processo da mudança mesmo. Escolhemos traçar outro caminho, [diferente] do que a gente estava fazendo. [Queríamos] chegar mais perto do cidadão como banda e acho que fomos felizes com o resultado.

A produção é requintadíssima, no sentido de riqueza de timbres e a qualidade do áudio. Como foi esse processo?

A preocupação com o som sempre foi importante pra todos nós. Posso até dizer que era uma obsessão, e que aos poucos foi ficando mais de boa depois que a gente começou a entender os caminhos. O Kalil tem estúdio, o Clayton também, eu e Dustan temos equipamentos de gravação em casa... Quando decidimos começar as gravações nós escolhemos o El Rocha que é onde gravamos nossos primeiros discos. Chamamos o Kassin pra ajudar nessa primeira fase e foi muito massa. Ele deu muitas ideias que não teríamos se fosse só entre nós. Gravamos lá os baixos e baterias. Continuamos as gravações nos nossos estúdios pessoais, gravamos os violões no estúdio Navegantes do Zé Nigro e finalizamos as vozes e percussões no Movido, estúdio do Gustavo Mendes. Depois disso, eu e Kalil fomos a Los Angeles para mixar no Steakhouse Studio, onde tem uma mesa Neve/EMI. Pra finalizar masterizamos com o Howie Weinberg em Los Angeles.

O disco resgata uma pegada rock clássico da banda, que não apareceu muito nos álbuns lançados na década passada. E isso num momento em que se questiona a relevância do rock feito no Brasil, como se tivéssemos atingido todas as possibilidades dentro do gênero. O que levou a banda a apostar nas guitarras, no peso e nos arranjos roqueiros neste disco?

Quando eu ouvi rock a primeira vez eu tinha uns 13 anos. Aquilo mudou minha vida. Era o que eu queria ser. Lembro que comprei alguns discos na época, "Blizzard of Ozz", do Ozzy, "Paranoid", do Black Sabbath, "Kommander of Kaos", da Wendy O. Willans, Iron Maiden, dentre outros. Ganhei também minha primeira fita do Pink Floyd, que me marcou muito por ser uma música mais séria e que fazia você pensar. Na sequência veio o punk, o pós-punk, o rock nacional com as letras de protesto...essas são as minhas emoções primárias. Meu sonho de criança! Falo com toda certeza que não só eu, mas todos da banda fomos criados no rock. Em Fortaleza dos anos 80, isso era coisa de doido ou “marginal”... [Neste disco], tentamos trazer todas essas nossas referências do passado para agora. É isso que gostamos e acreditamos. Eu sempre imagino o tanto de bandas legais que estão por aí tocando nas garagens hoje. O que mudou, na real, foi o interesse do mercado, e isso é o que menos importa pra gente.

É muito interessante como em “Fortaleza” as músicas passeiam por diversos gêneros, transitando entre o experimentalismo e o brega, e ainda assim o todo forma uma identidade única. Você sente que estão cada vez mais seguros do que querem quando estão compondo e arranjando as canções?

Depois de tantos anos de estrada acho que a gente consegue entender melhor os nossos caminhos. O nosso espírito é rockeiro, o resto são experimentos. Acho que esse lance da unidade vem de você insistir tanto tempo numa coisa só.

O Régis Damasceno assumiu o baixo, o Rian assumiu violões e teclados e o Dustan está na segunda guitarra. De quem foi a ideia de “trocar posições”? E de que forma você acha que isso influenciou no resultado do disco?

A idéia inicial foi minha, daí todos toparam fazer as experiências e no final acabou ficando essa que tá ai. Achamos massa! Como se a gente tivesse mudado de banda sem mudar. O bom é que todos gostam de tocar vários instrumentos e ficou fácil.

Em 2012, vocês passaram um tempo em Icaraí de Amontoada. Como foi esse período lá? Por que escolheram esse lugar e por que sentiram que era preciso um período de ‘isolamento’? De que forma esse tempo foi importante para o resultado que vocês alcançaram em “Fortaleza”?  

A gente queria chegar mais perto de nossas raízes novamente. A Isadora, mulher do Dustan, conseguiu o contato dessa casa que a gente ficou, a Casa Guarani. Foi muito bom estar no Ceará, ficar só na maresia. É o nosso tempo antigo, mais ralentado. Precisávamos muito disso.

Vocês disseram que este disco é “uma homenagem às nossas lembranças, para uma Fortaleza que não existe mais”. Quais transformações ocorridas nos últimos anos chamaram a atenção de vocês?  

Em Fortaleza, as mudanças sempre aconteceram. Eu vi vários momentos da cidade. Na minha adolescência tinha mais essa lentidão. As coisas aconteciam um tempo depois, e era muito bom. Hoje é tudo muito rápido e exaustivo. “Você tem que trabalhar dessa hora a essa hora, senão é um vagabundo...não presta…”. Acho isso um absurdo. Eu adoro trabalhar, mas no meu tempo e quando faço tento fazer o melhor possível. Veio essa cultura dos shoppings e dos prédios imposta pela geração que se apaixonou pelos Estados Unidos e que viu nisso um bom negócio e fez todo mundo acreditar. Eu prefiro como era antes. De todo jeito, a gente caminha junto com as mudanças. Os mais velhos sofrem tentando entender a cidade e realmente não acompanham a velocidade de agora. O que nos resta é resistir e insistir em fazer coisas que acreditamos serem legais.

E o show? Como será levar este disco para o palco?

Ainda não sabemos direito mas estamos tentando fazer o mais fiel possível.

Vocês escolheram São Paulo para lançar o álbum. É a cidade em que todos vocês vivem atualmente. Qual a relação da banda com a cidade?

A gente tá em São Paulo há bastante tempo. Vivi e vivo muitas coisas boas aqui. Sempre sonhei em vir pra cá por causa das oportunidades. Hoje me sinto um pouco sufocado pelos conflitos dos últimos tempos, as diferenças gritando, mais prédios subindo...essas coisas às vezes desanimam. Mas continua sendo a São Paulo de sempre, com sua grandiosidade e tentando resistir como todas as grandes capitais. Sobre o primeiro show ser aqui São Paulo...São Paulo é que nos escolheu pra lançar aqui.

Com quase 20 anos de carreira, o Cidadão influenciou muita gente e é uma banda referência para inúmeros artistas no Brasil. Como é “ser influência”? Vocês percebem isso ao ouvir novas bandas?

É massa você ter seu trabalho reconhecido. Não sei até que ponto a gente influencia outras pessoas. Sou meio lento nessas percepções. Espero que seja em coisas legais.

Vocês concordam que o Cidadão Instigado é também uma fortaleza? Não é qualquer banda que dura tanto tempo no Brasil...

Acho que a gente é insistente e gosta do que faz!

***

arte | belisa bagiani 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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