Azoofa Indica: Vanessa Bumagny

Ao fim de uma leitura, ela começou um disco. Quando a cantora Vanessa Bumagny terminou "O Segundo Sexo", livro lançado em 1949 pela escritora francesa Simone de Beauvoir, não só sentiu-se libertada de diversas questões que lhe atormentavam acerca da condição feminina, como encontrou o mote de seu terceiro álbum.

"O Segundo Sexo", o disco, foi lançado no final do ano passado e apresenta uma Vanessa diferente do que se ouviu em "De Papel", sua estreia fonográfica em 2003, e em "Pétala por Pétala", de 2009 e que foi produzido por Zeca Baleiro - saem de cena a melancolia e o clima intimista, entram arranjos arrojados e composições solares, como se ouve na faixa-título e em "A Carlos Drummond de Andrade", outra referência literária do álbum.

Nesta quinta-feira, Vanessa apresenta este show no Itaú Cultural, ao lado de Zeca Loureiro (voz, violão e guitarra), Henrique Alves (baixo), Rogério Bastos (bateria) e Adriano Magoo (sanfona e teclados). No repertório do espetáculo, dez faixas de "O Segundo Sexo" se misturam a canções dos discos anteriores e trechos do livro lidos no palco pela própria Vanessa - saiba mais.

Por telefone, a cantora conversou com o Azoofa sobre o show, sua relação com a literatura, as dificuldades e benesses de ser uma artista independente e ainda revelou seu próximo projeto: musicar poemas para crianças.

AZOOFA: Você lançou o disco em junho do ano passado no Sesc Pompeia. Como está o show hoje e o que mudou de lá pra cá?

Vanessa Bumagny: O show é bem focado no repertório do disco. Das onze músicas do álbum, 10 entraram no show. E tocamos algumas do Pétala por Pétala (2009) e duas do De Papel. São músicas que as pessoas gostam e pedem para que não saiam do repertório. O que mais mudou no show são os textos da Simone de Beauvoir. Como eu mudo a ordem das músicas – eu gosto de mexer em set list –, tenho que mudar os textos. Isso é muito legal. Se tivesse tempo, eu leria o livro inteiro.

Qual foi o impacto que o livro te causou?

Me deu uma sensação de como se finalmente alguém tivesse me explicado algumas coisas e tirado uma angústia que vinha de anos. Eu brinco que é um livro de auto-ajuda. Conforme você vai lendo, você vai dizendo: ah!, agora eu entendi!. Quando eu li essa entrevista da Camile Paglia, eu pensei: será que ela nunca leu O Segundo Sexo? Ali está tudo explicado! E a Simone contesta essa mania que temos de falar que “isso é coisa de homem, isso é coisa de mulher”. É um livro muito libertador. Como fazer música é a minha vida, e esse livro mexeu comigo, eu quis mostrá-lo para as pessoas.

Na sua discografia encontramos diversas canções que foram inspiradas pela literatura. Como se dá essa relação?

Acho que eu sou só uma pessoa rodeada por livros. Agradeço muito aos meus pais por serem dois bons leitores. Os livros mudaram minha vida e continuam mudando, como aconteceu neste caso da Simone. Por isso, eles aparecem naturalmente no meu trabalho. Poesia, por exemplo, é uma loucura. É como se elas cantassem sozinhas. Eu brinco que não sou eu que musico os poemas - eles já estão musicados e eu só estou cantando. Às vezes eu acho que gosto mais de ler do que de ouvir música! (risos)

Ah, é?

É! Acho que é porque eu trabalho com música. É impossível eu ouvir uma música ou ir a um show sem que minha cabeça fique pensando em trabalho.

Você já pensou em fazer literatura?

Estou cada vez mais tentada a fazer. Um pouco porque a música demanda uma produção enorme. Eu lancei três discos, mas poderia ter lançado dez, porque leva um tempo para conseguir dinheiro, fazer os arranjos, gravar, lançar...Todas essas etapas – e eu não sei se as pessoas tem noção da loucura que são – demoram muito. O livro, por outro lado, é você com você. Teoricamente, não depende de mais ninguém. Eu sempre escrevi bastante e às vezes penso em lançar um livro de crônicas ou de contos. Até como uma forma de me libertar um pouco dessa cadeia da música, que acaba sugando muita energia e, no fim, você é tudo menos cantora. Você é produtora, captadora de recursos, assessora de imprensa, diretora de marketing, RH... Eu sempre falo que na minha empresa eu sou a presidente e a office-boy.

E qual é o lado bom disso?

O controle que você tem de todos os processos e uma liberdade artística que, acredito, não exista quando você está ligado a uma gravadora ou algo assim. É muito bacana o artista poder fazer o que quer. Os meus três discos foram feitos sem nenhum tipo de amarras. São exatamente como eu gostaria que eles fossem.

Por que no Brasil não temos tantos “artistas médios”, aqueles que conseguem viver da sua arte sem precisar ser necessariamente populares?

Não sei. Talvez seja esse o problema do show-business. Se você é dentista, médico, advogado, você se forma e tem a sua clientela. Não precisa ser “o melhor dentista”  para poder ser dentista. Mas na música, parece que é tudo ou nada. Ou você é a Madonna ou você não é ninguém. No Brasil, talvez a explicação esteja na própria condição social do país. Aqui ainda há muita desigualdade, você tem pouquíssimas pessoas ricas e muitas pessoas pobres. E o mercado da música é um espelho disso, não há espaço para meio termo. A própria imprensa reflete isso. Quando eu abro o jornal, tenho a impressão que só existem três artistas no Brasil. Os jornais estão sempre falando dos mesmos. O público perde a oportunidade de conhecer coisas novas. De vez em quando, alguém me fala: “Nossa, adorei seu trabalho! Onde você tava se escondendo? Queria ter te conhecido antes”. E eu penso: “é, gente, eu tava me escondendo, sim. É a minha estratégia de marketing.” (risos)

São Paulo é uma boa cidade para quem faz música autoral?

Não é uma cidade fácil. Mas se compararmos com outras cidades, ela está bem. Aqui em São Paulo nós temos um SESC muito forte, isso ajuda muito. É meu maior contratante de shows. Mas no Rio de Janeiro, por exemplo, há menos casas de shows com esse perfil. E me assusta eu nunca ter tocado em outra capital que não fosse São Paulo, Porto Alegre e São Luís.

+ Azoofa Indica: Iara Rennó. "Que ocupemos os espaços com a arte em suas mais variadas formas!". 

+ Azoofa Indica: Silva. "Admito que é muito mais fácil lidar com um público que conhece suas músicas do que com uma platéia que nunca ouviu o som que você faz". 

Algumas pessoas consideram “O Segundo Sexo” o seu disco mais pop e menos melancólico. Outros o viram como uma guinada natural depois do "Pétala por Pétala". O que você acha?

Eu quis fazer um disco alegre. O “Pétala” é muito intimista e ali tinha mais a visão do Zeca Baleiro sobre o meu trabalho. Ele quis fazer esse clima mais acústico. As pessoas diziam: “com esse disco você só pode tocar no teatro”. E agora eu pensei: “pelo amor de Deus, eu quero sair disso!”. Tive a sorte de ter o Érico [Theobaldo, produtor de seis faixas do álbum], porque ele entendeu exatamente o que eu queria. Quando ele me mostrou o arranjo para a faixa O Segundo Sexo, eu demorei 24 horas para decidir se eu tinha gostado ou não. Era bem dançante, bem pista. Eu assustei. Depois, pensei: “que bom! Ele entendeu o que eu queria”. Isso me ajudou a fugir desse lado melancólico - que eu tenho, admito. Eu queria mostrar meus outros lados.

O Luiz Pinheiro, que compôs a faixa-título com você, disse que é “um disco para se ouvir lendo as letras, como nos velhos tempos”.

Eu não tinha pensado por esse lado, e é um grande elogio. As letras sempre foram e ainda são muito importantes para mim. Meu grande ídolo é o Luiz Tatit [músico e linguista paulistano, membro do grupo Rumo e que compôs com Vanessa a faixa "Do Meu Jeito"]. Adoro as histórias que ele cria. Quando ouço música africana, por exemplo, fico super curiosa para saber o que diz a letra. É algo muito importante para mim. Agora, eu gostaria que meus discos também fossem bons para fazer faxina (risos). Que fossem uma companhia divertida e que realmente entrassem na vida das pessoas.

Você nunca lançou EP's ou singles, somente discos. Já pensou em sair do formato álbum?

Não. Quando eu nasci, existia o LP. Aí, tive que me adaptar ao CD. Depois, ao fim do CD e a internet. É muita mudança em pouco tempo. Não sei se em outra época da nossa história vimos tantas mudanças acontecerem num curto espaço de tempo. Enfim, como eu fui criada de uma outra maneira, é muito difícil eu pensar “ah, vou fazer uma música e lançar”. Meu pensamento parece que está travado no formato disco.

Como começou sua história com a música?

Meus pais são bem musicais. Meu pai estudou violão clássico, violino, piano. Mas ninguém nunca me falou da música como profissão, nem eram aqueles pais que colocam os filhos para aprender piano desde criança. Na adolescência, eu fui fazer intercâmbio nos Estados Unidos e acabei entrando em um coral. Quando vi aquilo, me apaixonei e pensei: “é isso que quero fazer da minha vida”. Nessa época, eu cogitava prestar vestibular para Direito, para Publicidade, mas ali eu tive a absoluta certeza da minha vontade de ser cantora. Eu voltei dos EUA e fiz um ano de Cinema na FAAP, mas logo desisti e fui fazer teatro. Eu queria me aproximar da música aos poucos. Comecei a fazer aulas de canto, instrumentos e montei uma banda de forró, fiz musical, acompanhei Oswaldo Montenegro... Fiz toda a via-crúcis (risos).

E quando você começou a compor?

Eu sempre fiz minhas músicas, desde o começo, mas meu problema era mostrar para as pessoas. Em 1996, fui morar em Barcelona. E lá, cantora brasileira só tem alguma chance se for canta-autora [artista com trabalho autoral] ou se cantar samba e bossa nova. E eu cheguei lá cantando Itamar Assumpção, Zeca Baleiro e Chico César, que ainda ninguém conhecia... Tive que escolher, e escolhi mostrar minhas músicas. Eu não ia cantar samba em Barcelona. Então meu lado compositora aconteceu mais por necessidade. As pessoas foram gostando, o Chico, o Zeca me apoiaram e eu fui criando cada vez mais.

Com o tempo, compor virou um momento de concentração ou é uma atividade natural para você?

É super espontâneo. Sempre tem a ver com algo que me emocionou. Em geral, ler livros e ver peças de teatro me fazem compor. Eu sou daquelas que anota ideias em qualquer papelzinho, grava melodias no telefone andando no meio da rua... Só quando sou convidada a compor para algum projeto específico, que aí eu sento e crio um processo. Gosto de compor na voz, no violão e até no baixo.

Além dos shows para divulgar o disco, você anda trabalhando em outro projeto?

Eu estou criando um espetáculo junto com o Gustavo Kurlat [músico e diretor de teatro]. É um projeto de poemas musicados para crianças chamado "Cecília, Clarisse, Fernando e Federico". São poemas e textos em prosa de Fernando Pessoa, Federico Garcia Lorca, Clarice Lispector e Cecília Meireles. Eu acabei de musicar e agora estamos gravando uma demo e ensaiando. Deve acontecer ainda este ano apenas como espetáculo. Depois, quem sabe, gravamos um disco.

A Clarice Lispector não era só uma grande escritora, mas também uma grande entrevistadora. Ela costumava encerrar as entrevistas fazendo três perguntas. Eu gostaria de fazê-las para você.

Ah, que legal! Vamos lá!

Qual é a coisa mais importante do mundo? A vida. Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? Eu acho que é existir. E o que é o amor? O amor é um mistério insondável. *** arte | belisa bagiani  fotos | divulgação saiba mais | o livro "entrevistas", de clarice lispector 
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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