Azoofa Indica: Luiza Lian

Luiza Lian, 26, lançou seu primeiro disco no mês passado - e logo se assustou com a repercussão. De fato, o álbum, homônimo, foi um dos mais comentados e elogiados deste ano, especialmente por quem entende do riscado, como o músico Maurício Pereira. "Achei o repertório saboroso e interessante. É doce e é agressivo. O jeito de Luiza cantar as letras é bem pessoal, e eu acho isso uma coisa importante", diz o compositor, com exclusividade para o Azoofa.

O despertar de seu interesse por música se mistura às suas primeiras percepções do mundo. Desde muito pequena, Luiza ouvia sua avó e sua mãe cantarem, não raro, canções escritas por seu pai, o compositor Gê Marques. "Praticamente aprendi a falar cantando aquelas músicas", diz ela. Das 13 faixas do disco, metade são composições de Luiza e quatro são assinadas por Gê.

Nesta sexta-feira, Luiza se apresenta pela primeira vez na Casa do Mancha (saiba mais). Ela estará acompanhada da mesma banda que gravou o disco: Martim Bernardes na guitarra (O Terno), Guilherme d’ Almeida no baixo (O Terno e Grand Bazaar), Tomás de Souza nos teclados (Charlie & os Marretas e Grand Bazaar), Charles Tixier na bateria (Charlie & os Marretas) e Juliano Abramovay no violão (Grand Bazaar, Noite Torta e Orkestra Bandida). No repertório, estão músicas do disco e composições próprias que não entraram no álbum.

Em conversa com o Azoofa, Luiza fala sobre o show, o processo de gravação do disco e a importância do coletivo RISCO para sua carreira. "Mais do que um selo, é uma escolha".

AZOOFA: A pergunta inevitável. Como começou tua relação com a música? 

Luiza Lian: Minha família é muito musical, especialmente minha avó e minha mãe. Toda atividade virava música na mão da minha avó. Além disso, quando era pequena, minha mãe cantava em uma banda músicas escritas pelo meu pai. Eu sabia cantar todas. Praticamente aprendi a falar cantando aquelas músicas.

Em que momento você decidiu que queria viver de música? 

Eu sempre gostei muito de cantar, sempre soube que gostaria de fazer isso da vida. Tive bandas desde os quinze anos de idade. Fiz faculdade de artes visuais e trabalhei um tempo na curadoria da Pinacoteca do Estado. Mas sempre tocando os meus projetos. Chegando mais perto de lançar o meu projeto solo, a música foi aos poucos tomando conta de toda minha rotina.

No começo, quais foram suas principais referências na música?

Um monte de coisas ao mesmo tempo... A música feita nos anos 60 e 70, no Brasil e fora, foi uma descoberta fundamental. Quando eu comecei a cantar, eu era completamente beatlemaníaca. Também adorava Bob Dylan e Led Zeppelin. Nessa mesma época, decorava com o Juliano todos os quatro songbooks que ele tinha do Chico Buarque. Ouvia os discos do Gil, Caetano, Gal e Novos Baianos. Ao mesmo tempo era fissurada em Red Hot Chili Peppers, na Lauryn Hill e na música negra americana. Um monte de veias diferentes.

Teu disco levou três anos para ser lançado. Houve muita mudança da ideia inicial para o resultado final? 

O disco foi gravado relativamente rápido. Os meninos gravaram todas as bases ao vivo, junto com as vozes guia, algumas que já até valeram pro CD. O que levou três anos foi o projeto como um todo, do momento de levantar as músicas até o disco ficar pronto. E realmente, elas tiveram algumas caras até chegar onde chegaram.

De que modo esse tempo foi positivo para o resultado final? 

Nós tivemos tempo para trabalhar e amadurecer as músicas, depois de ensaiar, tocamos algumas vezes para um público de amigos até entrar em estúdio para gravar o disco. Isso nos permitiu gravar os takes ao vivo e dar pro disco essa sonoridade forte de banda, que também traduz a maneira como ele foi construído.

A sua banda é formada por excelentes músicos. O pessoal teve carta branca para criar os arranjos ou você já os tinha em mente quando iniciou o projeto?

Os arranjos foram criados por nós todos neste tempo de ensaio. Mais até do que uma carta branca, vejo este disco como uma espécie de laboratório pra todo mundo que participou. Dos ensaios à gravação e mixagem com o Gui Jesus, todos estiveram presentes. Eu cantava a música para eles e a gente a experimentava em várias formas até escolher uma para lapidar o arranjo. Era uma jam para cada música, o processo foi muito legal.

O show de lançamento foi em abril, no Itaú Cultural. Como foi a experiência de subir ao palco para lançar um disco seu?

É emocionante ver um projeto que você fez com tanto carinho, ganhando forma. Foi um dia lindo. Não esperava uma repercussão tão grande. Levei um susto, juro!

Que tal tocar na Casa do Mancha? 

Nunca toquei lá! Estou animada, gosto muito da casa. Frequento como público. A Casa do Mancha acolhe muitos shows da cena independente e autoral, assim como o Puxadinho, Serralheria, Mundo Pensante, etc.

Você é uma das artistas do selo RISCO. Como a existência dele está ajudando na sua caminhada?

O RISCO ajuda na minha caminhada, em primeiro lugar, porque ele é uma parte significativa dela. Mais do que um selo, é uma escolha de um grupo de músicos de se juntar para fazer coisas coletivamente. Algo que já estava no ar, quando a ideia foi dada pelos “Guis”. Mas já estava no ar. Eu já havia gravado com o Gui Jesus o disco do Noite Torta e participado do disco dos Mojo Workers. Mas de maneira geral, me sinto muito próxima dos artistas integrantes do selo.

Um álbum ainda é a melhor forma de se apresentar um trabalho, ou ainda não apareceu outro formato tão interessante?  Acho que tem muitas formas boas. Não acho que o álbum seja a única, nem a melhor. No caso do meu primeiro disco, era uma vontade que eu tinha de fazer neste formato. Até por gostar de escutar discos como um todo, de entrar em um trabalho como um todo. Compor, para você, é uma atividade natural ou que exige disciplina? 

Para mim, sinto que é uma mistura de concentração e entrega. Vem com naturalidade, mas você tem que estar disposto a mergulhar ali.

Quais temas andam rondando tua cabeça e te fazendo escrever?

Minhas últimas composições estão um pouco mais espirituais.

Queria que você me contasse um sonho bem ousado e que tenha a ver com música.

Queria ouvir uma música minha cantada pelo Gilberto Gil.

Qual disco mudou a sua vida?

Eu tinha uns 13 ou 14 anos quando o ganhei em uma leva de vinis velhos. O “White Album” foi meu primeiro disco dos Beatles. Eu plugava o meu fone na vitrola e ficava sentada tentando decorar todos os sons do disco. Abriu minha cabeça em todos os sentidos. Eu queria entender tudo, todas as letras, a ordem, o jeito que eles tinham gravado, os arranjos, tudo. Despertou em mim um novo jeito de escutar música.

Qual o maior ensinamento que a música te deu até aqui? 

“Ela, ela é que me faz um navegador!" (Gilberto Gil)

***

arte | belisa bagiani

fotos | divulgação

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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