Entrevista: Finho (365)

Um artista de combate.

O encontro estava marcado pras 14 horas de quarta-feira, 27 de maio, na Biblioteca de São Paulo, zona norte. Confesso, envergonhado, que não sabia que no Parque da Juventude, onde outrora foi o famoso presídio do Carandiru, havia uma biblioteca. Uma biblioteca moderna, bonita e com acervo novo, segundo o nosso entrevistado, que não escolheu o lugar por acaso. Carlos Telhada, o Finho, cantor e poeta, respira zona norte. Nasceu e viveu grande parte de sua vida na Freguesia do Ó, constantemente lembrada por ele nas músicas de sua banda, 365, e em seus textos. Finho já estava no local quando eu e fotógrafo Gustavo Kamada chegamos. Disse que veio mais cedo para aproveitar e retirar um livro.

Nos apresentamos e fomos caminhando pelo parque. Comentei que nunca havia andado por lá, embora tivesse visitado alguns dos recém-desativados pavilhões da cadeia com a escola, em 2002, pouco antes de serem demolidos. “É um lugar legal, embora tenha bastante nóia”, disse ele. “Vamos por aqui, tem uma passarela que pode ser boa pra fazermos as fotos”. Subimos umas escadas e, quando nos preparávamos para começar a entrevista, logo fomos abordados por um segurança, que ao ver a câmera, perguntou se tínhamos autorização para usá-la ali. Explicamos que não teria gravação em vídeo, apenas conversaríamos e tiraríamos algumas fotos. Em vão, a autorização seria necessária. E para obtê-la teríamos que ir até a sala da administração e falar com os responsáveis. P da vida com a intransigência do vigilante e provável burocracia que encontraríamos, Finho dá a ideia de batermos o papo andando. “Porra, tanta coisa pra ele se preocupar e ele vem encher o saco justo da gente, que não está fazendo nada demais?” Desencanamos da autorização e simplesmente começamos a caminhada.

AZOOFA: O 365 surgiu em 1983, numa época em que os movimentos punk e new wave estavam muito em alta no Brasil. Em 1985 entraram você, o Ari (Ari Baltazar, guitarrista) e o Mingau (baixista, atualmente no Ultrage a Rigor). Como rolou o convite pra fazer parte da banda?

Finho: Pra definir isso, o que houve foi o seguinte: Lixomania, que é a banda do Miro (Miro de Melo, baterista), já existia. O Zú, que era o baterista antes, em véspera de gravar um disco, teve sei lá o que! E o Miro, que não era baterista, foi chamado pra gravar. Como todo punk fazia, não importa se você era baterista, você toca bateria e foda-se! Ele sentou e fez o primeiro compacto punk da América Latina, que tinha (a música) “Violência e Sobrevivência”. É muito legal, o Lixomania tem essa coisa de humor e, ao mesmo tempo, de politica misturados. Eles foram fazer um show logo depois, acho que no SESC Pompeia e, chegando lá, o público, com aquela vontade de mostrar que era punk e coisa e tal, quebrou todo o ambiente. Então eles ficaram cismados e não conseguiram mais fazer show em lugar nenhum. O (festival punk) Começo do Fim do Mundo, que foi em 82, como você deve saber, foi o ápice daquilo. Depois a coisa começou a decair. Então decidiram mudar de nome. Fizeram uma reunião em uma determinada festa, que eu acho que eu não estava, porque os anos 80 são que nem o Woodstock, quem disse que lembra é porque não esteve lá, tá ligado? Aí decidiu-se fazer uma lista de nomes pra banda e o nome que saiu foi 365. Eles usaram uma ou duas vezes em 83, e, nesses shows, não foi ninguém obviamente, porque ninguém sabia quem eles eram. Mas o nome existia.

Em 82, eu comecei a andar com o Mingau pra cima e pra baixo com um lance de montar uma banda. O Mingau tinha acabado de gravar o (disco) Crucificados Pelo Sistema, com o Ratos De Porão, mas tava saindo, aquela coisa toda. Aí a gente começou a ciscar atrás de banda, montamos umas coisas, desmontamos, e, em 85, ele veio me chamar, a mim e ao Ari, pra gente  participar desse projeto com o Miro. O Mingau já tinha a ideia de fazer uma coisa que valorizasse mais letra, etc. Ele sabia que eu escrevia algumas coisas. O Mingau é meu vizinho, moramos todos ali, tanto na Freguesia quanto em Pirituba. Eu morava num morro, ele no outro, o Clemente (da banda Inocentes) em outro, saca? A Freguesia é cheia de morro. Aí eu fui num ensaio num sábado, voltei, e no domingo eles pediram pra eu ficar. Eles tavam até tentando com outras pessoas, mas pediram pra eu ficar. Então esse 365 que existe anterior a 85, é apenas um nome que o Lixomania usou. Não existia uma banda. É claro que depois que o 365 explodiu com (a música) “São Paulo” e fez um monte de coisa, um monte de gente que ensaiou na casa do Miro diz que tocou no 365. E não tocou nada!

Então o Lixomania era a antiga banda do Miro, enquanto o 365 já começou com você, o Ari, o Mingau e ele? 

Sim, o Lixomania ainda existe. E pra mim o 365 só existe quando estamos eu, o Miro e o Ari. Nessas nossas encrencas, o Ari saiu, depois eu saí, essa coisa toda.

Chegaremos lá!

O que existe (quando não estão os três juntos) são hiatos, “covers” do 365. Mas não é o 365, obviamente não é.

Você e o Ari foram fundamentais para a mudança de sonoridade do Miro para o chamado “rock de combate”, que é a marca registrada de vocês? 

Na época, o Clash era o que havia sobrado de mais contundente no tal do punk rock, do rock and and roll. De punk rock nem se falava mais em São Paulo. Quando esse negócio aparece no Brasil, em São Paulo principalmente, a tal da “inteligência” cai de pau! A esquerda dizia que nós, todo mundo que gostava de rock and roll, era alienado, americanizado. A direita nos chamava de viado pra cima. A esquerda no Brasil é tão ou mais idiota do que a direita, isso é conversa mole! Tanto é que você vê, um dos ícones do tal do punk paulista, o tal do Bob Cuspe (personagem anárquico punk criado pelo cartunista Angeli), que é posterior ao punk paulista, foi feito como tiração de sarro. O próprio Angeli falou que fez pra rasgar! Você pode ler os primeiros, ele detona, tira sarro da gente, chama a gente de bobo, de imbecil pra cima! Depois é que ele saca que havia uma puta energia naquilo e começa a modificar os quadrinhos. E a gente sabia, a gente lia. Era totalmente ofensivo com as pessoas que gostavam de punk rock, de rock and roll. Depois que ele vai entender que havia um fundamento naquilo, que era genuíno, que era adolescente e verdadeiro. Enfim, esse negocio de rock de combate, essa expressão, veio do disco Combat Rock, do Clash. Então passaram a dizer que quem fazia um tipo de som derivado do punk, com fundamento politico, era chamado rock de combate. E começaram a colocar essa expressão em cima da gente, eu não sei exatamente quem pôs a primeira vez. E isso ficou. Na época eu não gostei muito porque dava uma ideia, primeiro, de que a gente tinha uma ligação direta com a esquerda. Eu não sei, num país, no século XXI, onde as pessoas ainda falam em Che Guevara, onde as pessoas ainda vêm dizer pra mim que a Revolução Cubana é algo confiável... isso é conversa mole! A Coréia tá aí com o neto, bisneto do cara. É uma dinastia! O Fidel sai, não tendo quem pôr, ele põe o irmão! Então são dinastias, são coisas que não têm nada a ver com liberdade! Enfim, eu tinha um pouco de medo, porque eu sabia que isso ia virar um ranço total. Aí depois eu vi que não, porque hoje em dia tem uma coisa, assim, um pouco romântica demais, mas não deixa de ser uma coisa rock and roll, de ser de combate. É de combate, sim! Mas quem pôs isso, eu não sei! E isso colou ao 365. Aderiu, não sei como.

A expressão foi tirada do Combat Rock, mas eu coloco o som do 365 mais próximo ao do disco Sandinista.

Também acho, mas eu quis dizer que (a expressão) era ligada ao tipo de som que o Clash fazia e não ao disco em si. Mas a sonoridade tem muito mais a ver com o Sandinista, sem dúvida!

Pouco tempo depois, em 86, a banda lança o primeiro disco, 365 Mix - São Paulo/Canção Para Marchar pela Continental...

É o annus mirabilis!

O processo até chegar em uma grande gravadora foi rápido. Como tudo aconteceu?

Olha, a bem da verdade, o 365 começa mesmo em 86. Nosso primeiro show... [Nessa hora percebemos que o nosso fotógrafo havia ficado pra trás. “Cadê o homem?”, pergunta Finho sobre Gustavo, que rapidamente avistamos falando com outro segurança. Novamente o problema da câmera! Mesmo sendo discreto, outra vez havia sido impedido de fotografar. Na verdade, o funcionário explicou a ele que, como o parque ainda cerca um presídio, a Penitenciária Feminina de Santana, o receio era de que alguém filmasse possíveis brechas da cadeia e utilizasse o material para, por exemplo, planejar alguma fuga. “Te pegaram pra cristo, né irmão?”, fala o cantor. “Acho que vou pegar a autorização para gravar”, responde Gustavo. “E se neguinho ficar te enchendo o saco?”, pergunta, incomodado com a intransigência do guarda. E complementa: “O que precisa pra autorização? Ajoelhar, chorar?”. Pra agilizar, dou a ideia de tirarmos as fotos após o bate-papo, fora do parque. Todos concordam, então ele prossegue.]

Foi em 86, 19 de fevereiro de 86, no Madame Satã (histórica casa de shows paulistana da década de 80). Aí começa a coisa, em fevereiro. Em maio, a gente já tava gravando (a coletânea) Não São Paulo 2 pra Baratos Afins, junto com Nau, Gueto e Vultos, tudo banda desconhecida e tal, que seis meses depois iam estourar. Em setembro já tinha música nossa tocando na rádio, com uma fita demo. “São Paulo” tocou em fita demo durante mais de seis meses. Não tinha disco. O primeiro compacto só foi sair em dezembro e, em maio, o outro. Aí, a virada é de 86 pra 87. Mas isso tem uma cronologia. Tudo pra mim começa com o RPM (banda liderada por Paulo Ricardo, fenômeno daquela década). O RPM em 84 explode. Pra vocês é difícil entender hoje em dia, mas pra gente, você ouvir o Paulo Ricardo no final de uma música quase em fade out falando “tesão” era o máximo, velho! Porque ninguém falava nada que fosse “ofensivo”, tanto politicamente, quanto a um tipo de palavrão. E aquilo só poderia ser dito no rock and roll. Se você acha RPM uma bosta ou não, é outra coisa. Mas eles tiveram muita atitude. Era 3x4! Foda-se! E pela primeira vez investiram alguma coisa em um pop rock no Brasil, de verdade, que não fosse jovem guarda. Eu acho válido, sem contar que os caras são decentes, são sinceros no que fazem. Se não fossem, não estariam até hoje aí detonando. Porque aguentar esse meio imundo... Enfim, em 85, a coisa acabou! As gangues tavam se odiando, as pessoas se matando, não havia divisão, até então, entre São Paulo e ABC. Quando começou a ter, quem era de São Paulo posava de esquerda, de anarquista, ou coisa do gênero, enquanto o pessoal do ABC era rotulado de direita. O que não tinha nada a ver! Por coincidência, haviam umas gangues de carecas no ABC que eram fascistas, mas a maioria não era neonazista, não havia racismo algum nisso. Passou a ter aqui. Aqui tinham umas gangues neonazistas. No ABC eu não conheci nenhuma! Era mais pra se divertir e assustar os outros. Tinha neguinho que se dizia trotskista, mas não sabia ler! Aliás, como o próprio partido comunista brasileiro. Eu li no Pasquim uma vez que o PC do B faliu por falta de capital. Os caras não sabem ler e não sabem guardar dinheiro. Enfim, naquele ano, a indústria fonográfica tava calibrada, o RPM chamou pra si toda essa coisa de rock and roll, a Blitz já tava estabilizada, já era um sucesso nacional. Daí as gravadoras foram atrás da gente. Nessa época saiu muita coisa, o disco do Ira!, Mudança de Comportamento, O primeiro do Inocentes, pela Warner. A Warner nos contatou, disse que poderia nos contratar, talvez fosse o caso, em fevereiro. O Peninha Schmidt (produtor de bandas como Ira! e Titãs) conversou comigo em setembro de 86. Mas a Continental já tinha se interessado de maneira mais forte através do Chico Pardal, que trabalhou no Lira Paulistana, era roadie do Inocentes, etc e tal, e virou gerente da gravadora. E pra nós foi interessante. A gente foi pra lá e lançamos um disco, o 365 - Mix, desse tamanho (sinaliza o tamanho de um LP comum). Era um disco grande, mas só tinha uma música de cada lado. Tinha “São Paulo” e “Canção para Marchar”. E aí já tava estourado nas rádios! É isso aí, 86 foi o annus mirabilis!

Falando na histórica “São Paulo”, a música é um hit muito forte, todo mundo sabe cantar o refrão...

Todo mundo sabe que é do Ira!, né? (referente ao fato de muita gente achar que a canção é da outra banda)

A vida de vocês deve ter mudado bastante na época em que ela foi lançada.

Foi uma loucura, foi insuportável, velho! Sabe aquela mina que você era louco pra pegar no ginásio ou no colegial e nunca te olhou na cara? Eu trabalhava na feira, a gente era office boy, aí de repente você tá na rua, a desgraçada passa e começa a gritar o seu nome de dentro do ônibus, a garota que nunca te olhou na cara! Isso mexeu muito comigo, mexeu com a gente em geral, sabe? Você imagina, eu sou filho de um soldado da PM e de uma costureira. Todo mundo evangélico, saca? Onde você passava tava tocando a sua música. Você imagina fazer o programa do Chacrinha com 20 anos? Saíndo dos cafundós da Freguesia do Ó. Foi uma loucura, uma loucura mesmo.

Continuando na Continental, sai em 1987 o primeiro LP, homônimo, e em 1989 o Cenas de um Novo País. Novos elementos são agregados na sonoridade do 365 (como flauta em “África” e naipe de metais em “31 de Março”). Conte sobre essa experiência!

Em 86 eu pus a flauta em “África” porque eu aprendi na igreja quando era criança. Os caras queriam por um reggae no disco, eu falei: “Puta, não tem nada a ver, velho!” Hoje em dia eu entendo o porquê. Porque o Clash tinha um reggae em cada disco e o Ari era fanático por Clash! Todo mundo, a gente amava Clash, mas o Ari era mais fanático. Eu falei: “Beleza, mas tem que ter um diferencial.” Não vamos fazer um reggae só porque uma banda estrangeira faz. Vamos por um samba, então? Seria inconcebível. Aí eu pus a flauta! Sob muita crítica eu pus a flauta no primeiro disco.

Logo depois, em 87, tem a primeira separação. Eles foram tocar, ganhar dinheiro com o nome da banda e eu saí, eu achava que não era aquilo. Eu achei muito estranha a experiência, a fama em si é muito estranha. Eu não sei qual a classe social de vocês, mas quando você vem de uma classe baixa, dependendo no que você trabalha, por exemplo, você é vigilante, você tá vendo a pessoa, mas você tá vendo através dele. É como se ele fosse invisível. Tem umas pessoas que são invisíveis na sociedade e, quando você fica famoso, as pessoas também acabam vendo através de você, mas diferentemente de quando você era balconista do mercado, sabe? Eles olham pra você, mas eles tão vendo um cara que eles têm na mente, um cara que eles viram no Chacrinha, etc. E eu achava aquilo muito humilhante. Acho que a palavra é essa. Aparecer tio de tudo quanto é lugar, primos... é muito esquisito. Acho que eu fui extremamente critico comigo mesmo, com a sociedade. Eu tinha 20 anos, aquilo me irritou muito, saca? Os meus pais se separaram, na verdade meu pai tinha ido embora há uns tempos, já. Minha família desmoronou, sabe? Então eu decidi.... foda-se! Dois anos depois o Ari e o Miro vieram atrás de mim, a gente se separou varias vezes depois disso, mas em 89 eles vieram atrás de mim. Todas as vezes que houve separação, eu sempre acho que é o fim, saca? Porque eu vou fazer outras coisas, eu vou escrever, eu fui dar aula, fiz faculdade e eles vem atrás! Se a banda meio que tá viva ainda, pelo menos esse mérito eles tem, de vir atrás de mim e a gente começa a compor de novo e assim vai. Tem sido assim nos últimos 30 anos. Estranhamente. Enfim, em 89 eu volto, sai o Cenas de um Novo País, com metais.

Um disco sensacional, pra mim top 5 do rock nacional.

A gente não gostou na época. Pra você ter uma ideia, no primeiro dia de gravação, a gente entrou no estúdio e tinha um velho sentado na porta. Ele não olhou na cara da gente! Perguntamos onde tava o técnico e ele não respondeu. Entramos e começamos a montar as coisas.

Aonde o álbum foi gravado?

Foi gravado pela Continental no Gravodisc, em São Paulo. Quando a gente começou a montar as coisas, vimos que o técnico era ele. Um homem de uns 65 anos, com aquele enfado...! Aí começamos a fazer a passagem de som, a tocar e tal, até que uma hora paramos e pedimos pra ele dar mais gás em alguma coisa. Viramos e ele não estava mais! Ele tinha ido pro banheiro e lá ficou pelo resto da noite. Se recusou a fazer! Depois ele falou que estava lá obrigado, que não era obrigado a gravar porcaria e não sei o que, que o rock and roll já havia passado e ele não queria participar daquilo. Ou seja, a gente estava totalmente ao Deus dará! Então alguém teve a ideia de ir atrás do Robertinho Darbilly, que era um produtor do Rio de Janeiro e trabalhou com muita gente, daqui e de fora do Brasil, e fizemos um disco que, na época, a gente mesmo não entendeu. Foi muito corrido, sabe? E depois de alguns anos a gente conseguiu ouvir e perceber que havia alguma coisa nele, mas de tanto a molecada falar. Aquela geração mesmo, acho que não entendeu. Só a geração posterior acabou entendendo.

Eu acho que “Só Armas Não Fazem a Revolução” é uma música que resume o 365, ouso dizer, mais até do que São Paulo.

É, se o 365 é uma música, provavelmente não é “São Paulo”. Mas isso é uma blasfêmia de dizer, o público te bate se você falar isso! Eles acham que é e acabou! É honroso, eu sou paulistano até o talo, mas...

Obviamente sem tirar os méritos da música, que de fato é histórica!

... tem muitas outras músicas. Várias do M.M.D.C, por exemplo, que é praticamente o 365 sem o Miro. Eu montei uma banda paralela, aí eles brigaram entre eles e pediram pra tocar comigo! Eu falei: “Ok!” Virou o 365 paralelo. Desviou totalmente a atenção do que eu ia fazer, mas ficou com uma cara própria e ficou maravilhoso.

Por que após isso terminou a relação do 365 com a gravadora?

Antigamente os contratos eram assim: dois anos ou duas obras. Os contratos eram padrão assim. E a gente ficou mais de dois anos e eles cumpriram. Não tem o que dizer, saca? As pessoas falam muito de gravadora... o futuro ideal era o seguinte: o dia em que o artista poderia fazer o que ele bem entendesse, a tecnologia ia chegar a um ponto onde a gente poderia fazer um disco em casa. O que a gente vive hoje. Que não tem nada de criatividade, pelo menos não como eu esperava que fosse. Ou seja, aquele sonho todo se materializou, até além do que a gente imaginava e as pessoas tão de mãos atadas e eu não sei exatamente o porquê. Mas as gravadoras cumpriam a parte delas. Nos roubavam? Oh, no Brasil? Quem é que não te rouba? Acabou o contrato, ninguém mais quis. O fato é que a indústria fonográfica acabou. Depois daquilo já veio o CD e a indústria fonográfica faliu. Simplesmente faliu.

E aquela safra de bandas de rock nacional dos anos 80 perdeu espaço nos anos 90, também...

É, perdeu espaço. A minha geração fez com que ser músico fosse uma carreira, desse uma certa grana. Quando o rock and roll começou a não ser mais comercial, as pessoas começam a fazer cara feia pro rock and roll dos anos 80. Os anos 90 foram muito difíceis, muito esquisitos.

Como começaram os anos 90 para a banda?

Foi um lixo pra todos nós, um lixo! As bandas se refugiaram como puderam. O Cólera foi tocar no interior, Inocentes ficou naquele lusco-fusco, ninguém sabia o que fazer direito. O 365 era a única banda que tinha um hit nacional, mas estranhamente era a banda menos conhecida, que tinha os rostos menos conhecidos. Mas com o maior hit, no Brasil inteiro! Isso é inegável! Fora do Brasil as pessoas também conhecem. Então eu acho que a gente se manteve. Daquele jeito... (Finho pergunta se a gente quer parar um pouco pra tirar as fotos. Eu, não querendo perder o fio da meada e, cada vez mais curioso e interessado sobre aquela época difícil para o rock nacional, digo que prefiro continuar andando), mas foi terrível! Acho que no geral eu posso lembrar duas grandes bandas. Tiveram várias, na verdade, mas pra não ser injusto, vou dizer duas que marcaram e criaram uma certa linha pros que viriam: Raimundos e Pato Fu. Pato Fu, levando-se em consideração que o John já era da minha geração, na época da Sexo Explicito. Raimundos não, eles são uma banda dos anos 90. E é muito bacana! Eu gosto muito, acho muito interessante. Acho que essas bandas serviram bastante de inspiração pros que vieram depois. Foi uma década muito ingrata a de 90.

Podemos destacar, já pro meio da década, a participação do 365 na coletânea inglesa Oi! It's a World Invasion, vol. 2 com a inédita “Pamela” e a releitura de “Violência e Sobrevivência”, do Lixomania. Foi nessa mesma época que o Miro tava tocando com o Fogo Cruzado e você e o Ari fundaram o M.M.D.C. Qual o motivo dessa separação?

Brigas! Eu sempre falei pros caras que cada um de nós, guardada a modéstia, poderia fazer uma banda em separado. Porque o 365 acabou virando uma instituição no rock and roll paulistano e a gente acabou meio que vivendo dessas coisas. Então eu não achava bom. Não nos dava retorno, satisfação psicológica, monetária nunca nos deu, então vamos fazer cada um um trabalho e a gente põe o 365 como o nosso cartão de visitas. O Ari é um grande guitarrista. Acho que até hoje não teve um trabalho que ele conseguiu mostrar o quanto é versátil! Ele é muito criativo! O Miro, agora, essa semana, foi ao programa do Clemente (Filhos da Pátria, na rádio Kiss FM) mostrar o disco solo que ele fez. Entre outras coisas, ele pegou músicas que hoje em dia chamam de brega. Músicas da nossa infância, tipo Paulo Sergio, Wanderley Cardoso, esse pessoal que, pra mim é bem rock and roll. A jovem guarda só não é rock and roll explicitamente porque eles faziam muito covers de musiquinha italiana, que já é cover de música americana. Mas essa geração, chamada brega, compunha! O Antonio Marcos era um grande compositor! Eu e o Miro sempre gostamos disso. Ele me mostrou duas músicas que me deixaram emocionado. Caralho, saca? Hoje, aos 53, 54 anos, que o Miro tá lançando o trabalho dele. O Ari também vai lançar, se Deus quiser!

O Miro sempre foi um cara agregador, não?

Sempre! Baterista tem essa tradição, não sei se é por causa da posição na banda, ali no centro, atrás de um biombo, mas baterista tem essa coisa. O vocalista é o linha de frente, mas geralmente tá sempre saindo, tá na beirada do palco. O guitarrista é o maestro, então esse choque de egos. Sempre teve esse tipo de coisa. Não sei se a geografia do palco influencia a psique do artista, isso é teoria minha. Não sei se alguém concorda comigo, mas foda-se! O Miro é agregador, sempre foi. E como todo o cara agregador, as vezes algum ponto que ele levanta acaba sendo um ponto de discórdia, mas isso é posterior. Enfim, a gente sempre batendo de frente, mas sempre com a noção que a tinha algo a dizer.

No meio dos anos 90 eu falei: “Vamos cada um fazer um lance” e tal. Aí teve um pau num show, o que era comum, só que desta vez extrapolou um pouco. Eu já tava armando o M.M.D.C. Nisso, os caras sabendo que eu tava montando esse lance, pediram pra gravar comigo. Tanto o Ari, quanto o Júnior, que na época era o baixista, que gravou “Pamela” e tal. Gravamos o disco Non Ducor Duco. Eu já tinha toda a concepção, até de capa, o nome do disco (o lema do município de São Paulo), imagens da guerra de 32.

Eu acho estranho, você vai no Rio Grande do Sul e as pessoas tem um orgulho, tem um porque da revolução Piratini, da história gaúcha.  E eles são cria dos paulistas. O Rio Grande do Sul é uma derivação, como todo o Brasil, da expansão paulista. E, se essas pessoas que derivam da gente se orgulham, por que que nós não devemos nos orgulhar? “Ah, os Bandeirantes eram assassinos!” Não sei. É um ponto de vista, isso. É como dizer que na R.O.T.A. são todos assassinos, mas quando alguém tá te assaltando e a R.O.T.A. te dá um apoio, eles viram seus salvadores. A história tem esses pontos de vista que dependem muito de onde você está. Se você esta no meio dela, se você esta de fora dela. Então é muito fácil. O fato é que a história é feita por pessoas que não precisam do estado. No Brasil tem esse tipo de coisa, os caras, a burguesia, é o próprio estado. Por isso a gente tem essa ideia boba de que a esquerda é uma coisa popularesca. A do Brasil é feita por burgueses, geralmente é cria da mais podre burguesia. Você vê o que tá se passando no partido que dominava o país até seis meses atrás. Pessoas que estão saindo, dizendo coisas horríveis do partido que elas ficaram 30 anos. Como diziam os antigos navegadores: “Você sabe que a avaria do navio é grande quando os ratos começam a pular”.

Quais os motivos de tantas idas e vindas da banda?

Eu sempre achei que, primeiro, essa coisa de banda é uma coisa romântica que quem tá de fora acredita existir. Por exemplo, que os Beatles eram todos amigos, o lance dos Monkies morarem todos na mesma casa... o que é tudo mentira! No nosso caso, havia muita diferença de objetivos como artista. No tal do movimento punk havia uma coisa de meter o pau no sistema, de não se vender. E logo eu percebi que tinha gente ali que, posteriormente, ia fazer comercial até de sorvete. Então é uma coisa que, eu não tenho nada contra, mas se você fala que é por aqui, pra mim é por aqui! Saca? Não tem por aqui e por lá. É por aqui!

A minha ideia era mostrar o meu trabalho, mostrar que você pode fazer um trabalho que tenha fundamento sem participar da elite, sem fazer concessões à chamada burguesia e, ao mesmo tempo, não ficar mijando por uma esquerda que é totalmente de boutique. No Brasil é totalmente de boutique! Essa esquerda que briga por 20 centavos e, na gestão seguinte, dali 6 meses, só porque é o “meu” partido que está no poder, não fala nada quando aumentam 50 centavos. Por 20 centavos eu brigo, por 50 centavos eu deixo barato. Porque o meu partido tá lá! Ou seja, não tem verdade nisso. Esse tipo de coisa eu não perdoo, o que é errado, é errado! Se 20 centavos é dinheiro, 50 centavos é muito mais. E isso já havia naquela época. No Brasil, a arte está vinculada a isso: a dinheiro, a estado, a concessões que o estado pode fazer pra você e isso é o tipo de coisa que não me interessa muito.

Eu tenho parentes na politica, tenho parentes que foram vereadores, deputados estaduais. Eu pus o pé duas vezes no gabinete de um parente meu porque ele teve um problema de saúde gravíssimo e eu fui visitá-lo, quando era vereador. Quando foi deputado eu nunca fui! Eu tenho pavor que digam que eu consegui alguma coisa porque eu fui lá pedir. Se eu meti o pau nisso a vida inteira, por que agora eu vou fazer isso? E na banda haviam certas discórdias em relação a isso. Qual era o valor do dinheiro do negócio, quem pode ser usado e quem não pode, que concessão você pode fazer, que concessão você não pode fazer. E eu não faço concessão alguma, eu não faço! Eu faço o meu trabalho e, volto a dizer, meu trabalho é mostrar que, por exemplo, eu sou da Freguesia do Ó e quero dizer como é ser uma pessoa que se julga criativa vivendo nesse lugar, com essa realidade. Algumas pessoas discordam disso, da banda eu discordei várias vezes. Eu acho, por exemplo, que você não pode falar que o estado não te dá segurança quando você dá dinheiro pra traficante, sabe? Eu nunca gostei de cocaína. Era uma coisa que, no começo, alguns diziam que usando era uma maneira de questionar o sistema, se é que você acredita! Eu falei: “Isso é uma imundice, vai fuder muita gente, é um péssimo exemplo pra quem tá falando em viver de maneira limpa". Eu questionei todo esse tipo de coisa. E isso me fez bater de frente com um monte de gente. Um monte, saca? Então várias brigas foram por causa disso.

Em 97 saiu a coletânea 87/97 de forma independente, com versões ao vivo/alternativas e algumas inéditas, mas um disco inteiramente novo só foi sair em 2005, o Do Outro Lado do Rio. Por que demorou tanto tempo?

Aquilo foi o seguinte, estranhamente essa coletânea saiu ao mesmo tempo em que saiu o disco do M.M.D.C. Como eu e o Ari estávamos fazendo o M.M.D.C, o Miro achou que poderia juntar uns tapes e lançou essa coletânea. Foi um tipo de resposta. Quanto ao Do Outro Lado do Rio, houve uma volta da banda em 2000, 2000 e pouco.

A gente tinha ideia de voltar a gravar, daí um político apareceu e falou o seguinte: “Ó, eu quero essa música aí de vocês, essa música que parece do Ira! (se referindo à “São Paulo”) pra por na minha campanha!”. Eu falei: “Pô, véio, comigo não!”. Nisso, um outro compositor da banda aceitou. Aí eu falei: “Sem minha permissão, não sai!”. E ficou de novo aquele negócio, eu pensei: “Puta, eu vou sair de novo!”. Aí, o político chegou e falou o seguinte: “Eu vou dar um dinheiro pra vocês fazerem um disco. Mas eu quero que vocês façam uma música pra mim ou liberem uma dessas que eu quero!”. Eu disse: “Eu me comprometo a fazer. Liberar, eu não vou! Mas eu vou fazer! Sem falar o seu nome, nada. Eu vou fazer uma coisa falando de política e de São Paulo. Só que não vai ter o nome do 365!”. E o cara tinha muito dinheiro! Fomos então pro Midas, o estúdio mais caro na época. E grava, grava, grava. Ele foi lá, o politico. Jovem, um bobão, um trouxa. Achou que ia tirar dinheiro fácil de todo mundo, pra resumir. No meio da gravação ele falou: “Sabe o que eu descobri? Que eu não posso usar nenhum outro jingle". Na época, a candidatura dele era pra vereador. Você tinha que usar o jingle do chefe da campanha, que era o candidato a prefeito, no caso, o Romeu Tuma. E eu tinha falado isso pro cara! Aí eu disse: “E agora? Você vai mandar parar a gravação?”. “Ah, foda-se! Já tá aí mesmo, faz o que vocês quiserem!”, ele respondeu. Aí liberou! A gente ficou horas e horas e horas no Midas, foi até um desperdício! Depois o cara que tava produzindo ficou um tempão pra mixar, remixou. Nesse meio tempo, logo depois, o escritório do tal homem foi invadido e ele foi assassinado lá dentro (por respeito à família, Finho pede que o nome do político não seja divulgado). A gente já tinha gravado, já tinha até se separado de novo quando aconteceu isso. E o disco não saiu!

Quando foi em 2004, os caras (da banda) vieram de novo atrás de mim: “Finho, vamos fazer alguma coisa?”. Eu falei: “Porra, eu não tenho mais saco!”. “A gente tem esse disco pronto, é um pecado não fazermos nada com ele”. Aí eu falei: “É mesmo, isso é verdade! Vamos fazer!”. Hoje em dia melhorou muito, a cena estava muito mais parada 10 anos atrás. A gente voltou, a Universal, distribuidora, se interessou e bancou a prensagem de Do Outro Lado do Rio. O nome também fui em que dei, a capa quem fez foi o Rui Mendes, que ja tinha feito a do Cenas de Um Novo País. Ele era fotógrafo do RPM. E finalmente saiu, mas acabou não tendo repercussão alguma. Hoje em dia que as pessoas comentam. De cinco anos pra cá, mais ou menos, que as pessoas começaram a comentar do álbum.

Você acredita que, quando eu fui comprar esse disco, fui com um amigo a uma grande loja no shopping Ibirapuera, que eu sabia que estava vendendo, e perguntei ao vendedor: “Tem o disco do 365, o Do Outro Lado do Rio?”. O homem não entendeu muito bem o que eu procurava e disse: “Não” sem querer ajudar muito. Eu não me dei por satisfeito e abri uma gaveta da loja, no começo da sessão de rock nacional, que estava organizada por ordem alfabética, e achei o CD logo de cara! Mostrei pra ele e disse pra ele procurar melhor (ou com algum fio de vontade) da próxima vez. [Nessa hora Finho pede o segundo cigarro para Gustavo, se desculpando dizendo que acabou não tendo tempo pra comprar na vinda pra entrevista. Acende o cigarro].

Se você contar isso pra muita gente, as pessoas não vão acreditar. Não tem explicação, você concorda comigo?

Não tem explicação!

O cara pode pensar: “Ele é um chucro, burro e está com preguiça”. Mas se uma coisa está vendendo e você tem certo interesse... em alguns lugares, eu acho que rolava um certo ranço conosco porque achavam que a gente era puuunk (Finho coloca um acento no ú, como dizendo de forma irônica). Ficavam com medo de vender coisa barulhenta! O cara nem sabia de “São Paulo”, não sabia nada. Em alguns lugares eu acho que rolava simplesmente um ranço, não sei. Tem explicação pra isso? Não tem explicação!

Saímos esfregando o disco na cara do vendedor...

Tipo: “Olha aqui, seu filho da puta, vou te dar dinheiro!".

Isso mesmo! [Nessa hora cerca de 4 adolescentes se aproximam por trás, quase que nos intimidando, e Finho, que estava de frente pra eles, fala pra eu tomar cuidado com o meu celular, que eu segurava pra gravar a entrevista. Pedem um cigarro para o cantor, que, não querendo dar um prejuízo maior ao nosso companheiro Gustavo, que já havia lhe cedido dois, desconversa dizendo que havia pedido o que estava fumando para o porteiro. "Eles iam assaltar a gente!”, disse depois. “Eles que viessem, pra ver!”, completou]. Paralelo à banda, você também já lançou o livro Poemas de Combate, em 2011, e está prestes a lançar o próximo, Avenida Nova. Como é essa parte escritor? Conte um pouco do novo livro!

Poemas de Combate teve duas edições! O Avenida Nova tá sendo lançado, até mais tardar, no dia 3 de junho. Tá pronto o boneco, etc. Sobre o livro em si, eu havia escrito um conto de 48 paginas chamado O Vocalista.  Era mais ou menos a história de um cara, com vinte anos, que estoura com uma música no Brasil inteiro e simplesmente não sabe o que fazer. Porque ele não é um cara que tá preparado para aquilo. Ele é um cara que vem de uma família paupérrima, ou seja, uma historia que eu ouvi por aí. E é claro, muita coisa aconteceu com o 365, outras eu ouvi dizer e outras eu inventei.

Posteriormente, me deu uma ideia, de uma coisa que eu vi acontecer quando eu era criança. Eu morava na beira de um rio, a vida inteira eu morei, que depois virou a Avenida Edgar Facó, na Freguesia. Uma vez, a gente indo tomar vacina antitetânica, a única vacina que a gente tomava, fomos atravessar o rio, uma criança caiu e desapareceu. Eu tava no primeiro ano do primário. Me veio toda uma história e então comecei a escrever. E naquela história, o cara é um jornalista que saiu do bairro dele e volta porque é descoberta uma ossada que ele acha que pode ter a ver com aquela criança que sumiu quando ele era pequeno. Ele volta e reencontra um monte de pessoas. Uma delas é esse tal desse vocalista! O cara tem quase cinquenta anos e continua andando com a mesma roupa furada, de coturno. O cara vive uma coisa que ele foi aos quinze anos. Ele é daquele tipo que você pergunta como ele está e ele começa a contar coisa de banda. É por aí, aí ele começa a falar por 48 paginas.

O Vocalista está inserido como um conto dentro deste livro, Avenida Nova. Quando eu pus o nome, o pessoal começou a falar: “Você está falando de uma avenida que fica perto de Sapopemba? De uma avenida ali perto da Aricanduva e tal?” Porque todo mundo, nós, do subúrbio, acabou sendo ligado ao centro econômico da cidade através de avenidas, de rios. Então todo mundo falava: “Aonde você vai? Vou na avenida nova, que não tem nome até então”. Então eu usei isso. Eu estou falando de uma avenida especifica.

Além disso, você lançou o disco solo Paramita, no ano passado. Depois de tantos anos tocando junto de uma banda, é um alivio fazer uma coisa só sua, do jeito que você quer?

É aquilo, quem já foi casado e já se separou tem dificuldade de descrever o que é alivio ou não com uma pessoa. Você já foi casado, já namorou uma pessoa durante muito tempo, aí um dia acaba e você fala: “Puta, que alivio! Eu posso, hoje, sair e ficar até mais tarde ou ir atrás de outra pessoa...”. Mas no meio da noite você pensa: “Puta que pariu, até que ela era legal, né?”. Com banda é assim, tem um certo alivio sim, não estar com aquelas pessoas com as quais você esta há mais de 30 anos, mas as vezes é estranho. Por exemplo, tem shows que eu faço com banda, então é estranho você olhar pra trás e ver uma outra pessoa na bateria, outro cara na guitarra. Você tem que se treinar muito pra não falar: “Ó , faz assim!”. É como falar pra sua namorada atual: “Aja como agia a anterior!”. Sem falar pra ela, saca? Então isso é uma brecha! Mas existe isso sim. É um alivio, mas um alivio baseado no que eu acabei de te contar.

Você tem planos de lançar mais um disco solo?

Eu tenho mais um disco pronto pro ano que vem. Eu não defini muito bem como vai ser. Eu gosto de, não chocar, isso não me atrai muito, mas eu gosto de mostrar que é possível pessoas que fazem X fazerem Y também, saca? E no 365 tinham coisas que, obviamente, eu não podia fazer. Por exemplo, no Paramita, a música que abre o disco tem uma viola caipira que eu acho paulista pra caralho e super rock and roll. Cada um tem o folk que merece! Não tem letra mais contundente que a da musica sertaneja, caipira. É o tipo de coisa que eu tinha que mostrar ali! Não é que o 365 me proibia, me impedia. Mas eu acho que um fã, quando compra um disco do 365, quer ouvir aquilo! Quando eu era criança, eu tinha raiva de quando pegava o disco de uma banda que eu gostava para ouvir e o cara tava lá tocando uma gaita de fole e fazendo barulho de água da puta que o pariu! Vai tomar no cu! Quero ouvir você fazer rock and roll, caralho! Se eu quisesse ouvir Hermeto Pascoal, eu compraria Hermeto Pascoal! Tá ligado? Por isso eu fiz um disco solo, da maneira como eu quis, do jeito que eu quis. Esse próximo disco também tem muito disso. Eu vou por muita coisa que eu gosto.

Se você pegar a própria história do rock and roll, você vai ver que o samba brasileiro é muito mais urbano que o rock and roll no geral. O rock and roll tem muito de caipira, muito de rural e tal. Uma das poucas músicas no mundo que é totalmente urbana é o samba! Você pega Noel Rosa, mesmo Martinho da Vila, Cartola... o cara é de uma profundidade fudida, de um humor assim, negro, as vezes caustico, mas é genial! Então eu gosto disso. Não tenho muita ligação com o samba por causa da minha ascendência, ou por ser paulistano e tal.  Mas eu acho Adoniran Barbosa uma coisa imbatível, saca? Poucas bandas conseguem ter a urbanidade, a visceralidade de Adoniran, Demônios da Garoa, coisa que o valha. Então eu gosto disso: gosto de inserir elementos de urbanidade que sejam próprios do Brasil. Por exemplo aquele papo de por a viola.

Os caras vêem São Paulo e falam sempre de carro, barulho, prédio. Não, São Paulo, o estado principalmente, que é totalmente urbano hoje em dia, é o centro de um pais caipira. É um país que começa ali no norte de Santa Catarina e vai até o Mato Grosso, até Minas. Se você tirar toda a parte equatorial, a parte litorânea do Brasil, é um país cujo centro é São Paulo, cuja cultura é paulista, cujo sotaque é paulista. O resto, litoral, é feito por portugueses. E a gente não tem muito a ver com isso. Então eu gosto de pensar num país caipira, sacou? Caipira com todo orgulho, com toda a coisa de guitarras elétricas ou não. E letra, letra. Letra é sempre um mote. Mesmo a música clássica tem um texto, a música instrumental eu quero dizer, tem um texto por trás dela. A letra é a maneira como o corpo da gente exprime o que a gente sente quando ouve musica. É essa a jogada pra mim.

Valeu o papo, foi um grande prazer!

Tem coisas que cada um conta do seu jeito, eu volto a dizer. Envelhecer tem um quê de crueldade e, ao mesmo tempo, tem um quê de revanche. Você vê coisas, por exemplo, que você achava impensável, elas acontecem e você só foi perceber que aconteceu depois de um tempão. Você vê que acontecem coisas pelas quais você esperou a vida inteira e quando elas acontecem você não vê efeito algum. Você fala: “Porra, como eu fui idiota. Isso não tem efeito prático algum”. E tem coisas que você achava que eram uma puta de uma babaquice e você acaba chegando a conclusão que são base pra sua existência. É assustador. Envelhecer é um privilegio, mas é assustador. É um ato de coragem ou de desespero do qual você não pode sair. Alguns saem, alguns tomam atitudes e acabam saindo por conta própria, o que eu não acho interessante espiritualmente, não sei. Mas é muito estranho. Por exemplo, eu tenho um filho de dezoito anos. O meu mais novo tem dois. Todos com a mesma mulher. E cada um tem um tipo de perspectiva. É muito esquisito e muito assustador, volto a dizer.

[Finho se despede e atravessa rapidamente a rua, pois viu que seu ônibus já estava chegando].

***

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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