Azoofa Indica: Dingo Bells

Há uma questão posta à nova geração de músicos brasileiros. Ela começa assim: ninguém mais compra música. O número de pessoas que adquire o CD ou vinil de sua banda preferida é tão pequeno quanto o número de pessoas que paga por uma MP3. Também existe um fosso imenso entre a cena alternativa e a cena mainstream, fazendo com que o artista tenha que optar entre não vender nada ou se vender (excetua-se aí um ou outro caso). "A verdade é que nós estamos vivendo um momento muito bom para a música e ruim para o mercado", me disse esses dias o compositor Tatá Aeroplano. Esse "momento muito bom para a música" é, grosso modo, o seguinte: já que não vai vender nada mesmo, eu vou fazer o que eu quero.

Essa liberdade é venerável do ponto de vista artístico e tem feito esta geração se arriscar como nenhuma outra na história da música popular brasileira. Mas muito gente anda esquecendo que arte nenhuma faz sentido se não atingir alguém - o público, lembra dele?

Tudo isso vem à mente ao escutar o disco de estreia da banda gaúcha Dingo Bells. Em "Maravilhas da Vida Moderna", lançado no mês passado, o trio formado por Rodrigo Fischmann (voz e bateria), Diogo Brochmann (voz e baixo) e Felipe Kautz (guitarra) apresenta 11 canções - e aqui a palavra canção tem o significado do dicionário, "composição em verso para canto" - que mostram uma banda entrosada, que se movimenta com habilidade entre o rock e o folk e que não tem medo de soar - de ser - pop. Eles lançam o disco neste sábado em São Paulo, com show no Itaú Cultural. Saiba mais aqui.

Com exclusividade para o Azoofa, Rodrigo Fischmann conta como é ter uma banda com seus dois melhores amigos, a admiração pela cidade de São Paulo e o desafio de se equilibrar entre o pop e o experimental. "O Brasil é um país de canções e a Dingo Bells é uma banda de canções".

AZOOFA: O disco tem dezenas de qualidades. Uma em particular me impressionou bastante: todas as faixas tem uma personalidade muito forte. Não há uma canção ‘menor’ que a outra. Como foi a escolha das composições? Muita coisa ficou de fora ou vocês já começaram sabendo quais seriam as 11?

Rodrigo Fischmann: Inicialmente apresentamos 10 músicas para o produtor Marcelo Fruet, de épocas distintas e ainda sem arranjos. Isso porque a primeira ideia era lançar um disco de 10 músicas. Acontece que o Fruet, de forma muito lúcida, achou um tanto pretensioso da nossa parte querer fazer um disco de 10 músicas apresentando somente 10 opções. E ele tinha toda razão. Saímos do estúdio após aquela primeira conversa, no final de 2013 e passamos a nos reunir diariamente para compor. O resultado foi que em janeiro de 2014, quando fomos pela primeira vez para o sítio iniciar a pré-produção, já tínhamos 24 canções para serem escolhidas. Acho que, não por acaso, a última leva de composições, dessas feitas no inicio de 2014, acabou tendo uma temática em comum, o que chamamos de Maravilhas da Vida Moderna. Esse foi o conceito que demos às 11 músicas que refletem o nosso momento de vida, que observam cenas do nosso mundo e analisam o modo como vivemos hoje em dia.

E é o tipo de disco – raríssimo hoje em dia – em que a cada audição descobrimos algo que passou desapercebido na audição anterior – uma frase, um arranjo, um vocal. Dá a impressão que vocês não se afobaram no processo de criação do disco, querendo lançá-lo logo e tal. Faz sentido? Como foi este processo?

Sim, faz sentido. Entre pré-produção, produção e pós-produção levamos um pouco mais de um ano de trabalho diário. Lapidamos cada música ainda na fase “voz e violão”, terminamos algumas letras, pensamos cuidadosamente nos arranjos e demos espaço para muita experimentação. O Fruet é conhecido por ser bastante criterioso e, por isso, algumas gravações de vozes levaram mais de uma semana para serem concluídas, por exemplo. E na pós-produção não tivemos nenhum receio de regravar ou acrescentar outros instrumentos. Após tanto tempo sem lançar um disco, não fazia sentido apressar as coisas naquele momento, por isso nos demos o luxo de fazer do jeito que queríamos. E valeu a pena.

O Zero Hora classificou Maravilhas da Vida Moderna como “pop” e “agradável”. Outros críticos também disseram coisas parecidas. Eu fiquei super feliz quando escutei pela primeira vez. Pensei: “até que enfim uma banda que não tem vergonha de fazer boas canções, simplesmente boas canções de 4 minutos”. Soar mais direto foi intencional? Houve uma busca da banda nesse sentido?

Certamente. Esse era um dos grandes pontos de discussão conceitual que tivemos com o Fruet. Concluímos que a diretriz era fazer um disco que soasse “pop”, por ser acessível, mas que preservasse uma riqueza e uma complexidade musical que já não se explora tanto nesse universo. Sempre quisemos que se identificassem com o que tínhamos para dizer. O maior desafio era dosar o quanto de “pop” e o quanto de “experimental” que o disco deveria ter.

Você acha que há um desejo, por parte do público, de bandas novas que soem menos herméticas e experimentais?

Estamos tendo uma recepção muito bacana não só da crítica, mas do público também. Eu acho que o Brasil é um país de canções e a Dingo Bells é uma banda de canções. Talvez isso explique essa recepção calorosa. De qualquer forma, acho difícil falar de um público homogêneo que possa ser representado, mas, tratando-se de música pop no Brasil, acho que sim, há esse desejo.

Vocês tocaram por aqui em março, na Casa do Mancha. Como foi a experiência?

Já havíamos tocado outras vezes, como na Virada Cultural de 2013 e no Studio SP. Mas o show da Casa do Mancha foi o primeiro show com o repertório do Maravilhas da Vida Moderna, por isso, foi algo muito especial pra nós. Saímos de lá com a alma lavada e vimos que estávamos prontos pra estrear o disco. Agora, dia 6 de junho, no Itaú Cultural, vamos lançar o Maravilhas… oficialmente em São Paulo, com convidados e um incrível naipe de metais.

O que acham de São Paulo? Já pensaram em viver por aqui?

Gostamos muito de São Paulo, principalmente por ter opções culturais bem mais variadas e numerosas que em Porto Alegre. Sempre dá um aperto ver que aquele show que adoraríamos ir só vai passar pelo Rio e por São Paulo. Viver aí é uma das nossas possibilidades, mas ainda temos tempo para pensar e observar os rumos que nossa carreira deve tomar. Mas seria legal!

No show, vocês pretendem tocar as 11 faixas do disco? O que estão preparando para o repertório?

Sim! Tocaremos todo o Maravilhas da Vida Moderna, sem pular nenhuma faixa.

Vocês três são amigos há bastante tempo. Queria fazer duas perguntas e meia. Primeiro, a clássica: como começou a banda e qual foi a história até vocês chegarem aqui, ao primeiro disco?

A banda começou ainda na época do colégio, por volta de 2005, quando éramos pequenos estudantes superfãs de rock clássico. Mas, foi só em 2008 que decidimos encarar um circuito de shows por bares de Porto Alegre e tentar compor nossas próprias músicas. Desde estão, fizemos muita coisa: alguns festivais, uma abertura pro Ringo Starr, um show no Japão, um EP de 6 músicas, alguns clipes e um single com o Helio Flanders. Agora, em 2015, temos finalmente nosso primeiro disco.

A segunda: de que forma a intimidade pessoal entre vocês influencia na hora de criarem, gravarem e se apresentarem?

Acho que temos um grande privilégio de sermos melhores amigos tocando e trabalhando juntos. E já ouvimos isso de muita gente. Nossa dinâmica funciona incrivelmente bem, isso porque muitas vezes já conhecemos a forma como o outro trabalha, as dificuldades e as facilidades que cada um vai ter ao fazer determinada tarefa e como podemos resolver isso em grupo. Não temos medo de exigir um do outro e também sabemos os limites de cada um. Essa amizade também acaba se espelhando nas composições, já que acabamos trocando muita referência e conhecendo juntos músicas e bandas novas. Essa também é a essência do nosso entrosamento.

E de onde veio o nome?

Criativas mentes juvenis, cheias de vida e piadas internas. Isso dá muito problema. Também dá um nome de banda.

Vocês foram bem sucedidos no financiamento coletivo do disco. Como foi a experiência? Ficaram surpresos com o número de pessoas que apoiaram a banda?

Foi uma experiência muito bacana. Acho que foi a primeira vez que vimos a "força" do nosso público. O mais legal foi essa relação direta que se criou entre artista e público, já que de fato quem colaborou fez parte do disco Maravilhas da Vida Moderna. E foi a primeira vez que surgiu de forma mais massiva uma demonstração pública de carinho e de gosto pela banda, pelas músicas e pelo trabalho que a gente propõe.

Em “Dinossauros”, vocês dizem: “talvez a sua imaginação esteja limitada por problemas reais”. Como lidar com problemas mundanos ocupando o espaço da criatividade?

É, esse é um bom questionamento quando se fala em banda independente. Um enorme desafio é administrar as diversas áreas de trabalho que o nosso negócio demanda, como o contato com o público em redes sociais, criação de projetos, recursos humanos, imprensa, finanças, marketing e outro monte de coisas que caracterizam uma empresa. Aí, ainda assim ter energia e inspiração para seguir compondo e produzindo artisticamente é a grande questão. Estamos constantemente fazendo esse exercício e tendo em mente que antes de qualquer coisa somos um grupo de criação artística e é isso que nos move. Das experiências que vamos vivendo e das que conseguimos imaginar que surge o nosso substrato para criar.

Por fim, e inevitável: qual é a maior maravilha da vida moderna?

A maior maravilha da vida moderna é ter o privilégio de ver em tempo real a reação de cada pessoa que resolve se manifestar ao ouvir nosso disco. Isso é realmente algo incrível. De um tuíte em japonês ao post do cara de Pindamonhangaba, é realmente algo maravilhoso.

*** 

arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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