Entrevista: Nuno Mindelis

Nuno Mindelis, bluesman universal.

Nuno Mindelis é angolano. Nasceu em Cabinda, mudou-se um ano depois para Huambo e, finalmente, para a capital Luanda com, aproximadamente, 10. Lá viveu até os 17, sendo interrompido pela guerra civil que assolou o país durante o complicado processo de independência. Passou por Canadá, mas fixou residência no Brasil, mais precisamente em São Paulo, escancarada em seu sotaque. Aqui, chegou a conciliar outras atividades à de guitarrista, mas a certeza de que já nasceu músico fez Nuno abrir mão de todo o resto que não fazia-o plenamente feliz.

Com 8 discos lançados, é referência mundial em blues, sempre encabeçando listas de principais instrumentistas em publicações especializadas, como Rolling Stone e HeavyMetal Brazil, com destaque para o 1º lugar na famosa competição de melhor guitarrista de blues do mundo na edição do 30o aniversário da revista americana Guitar Player, em 1998.

Conversamos por telefone durante mais de uma hora, dias antes de suas apresentações nos festivais Banco do Brasil Seguridade de Blues e Jazz, no Parque Burle Marx (um tanto burocrático para entrar, com filas e retirada de tickets impressos na hora, mesmo sendo um evento gratuito. Bola fora também a proibição da venda de bebidas alcoólicas em um espetáculo do gênero, mesmo sendo permitido levar suas cervejinhas de casa. O local é agradável, mas seletivo, com dificílimo acesso via transporte público) e Samsung Blues Festival, no HSBC Brasil.

AZOOFA - A sua escola é de blues clássico, mas com o tempo você incluiu novos elementos na sua música. Como funciona o seu processo de criação, principalmente ao inserir elementos modernos?

Nuno Mindelis - É, minha escola foi mesmo o blues clássico, foi a informação mais transformadora, numa época de maior vulnerabilidade. Tipo, quando criança, entrou essa informação na minha cabeça e funcionou como um abecedário. Essa informação passou a ser a força motriz atrás de qualquer coisa que eu fizesse. Mas isso não se confunde com estagnar-se em cima de um gênero. Eu sempre falo isso, é fundamental. É como qualquer escritor, que aprende a ler e a escrever, mas não fica repetindo os clássicos com os quais ele aprendeu a ler e a escrever. Ele pode criar uma nova literatura, pode adicionar elementos de outras literaturas. Pra mim o blues foi como a escrita que eu uso da forma que eu acho que pinta melhor, ou pior, conforme o momento. Como eu sou bastante irrequieto, ao longo dos tempos eu fui me conformando pouco com a forma como a linguagem continua igual há 50 anos. O pessoal pega umas fórmulas e fica levando à exaustão, sem sair delas. Eles executam as fórmulas com uma genialidade incrível, quanto a isso não há dúvida nenhuma, só que são as mesmas fórmulas! Então, faz uns 3 discos que eu não faço blues, no sentido mais tradicional ou mais elétrico. Porque o blues elétrico também já não é o blues tradicional. Tipo, o blues que eu ouvi quando era moleque já veio transformado. O jovem nos anos 80, 90, ouviu Stevie Ray Vaughan, daí foi ver o que o Stevie ouvia e chegou ao Robert Johnson. Comigo foi a mesma coisa, só que eu era um jovem dos anos 70, final dos 60, que ouviu Muddy Waters e Big Bill Broonzy, e depois foi atrás do que eles ouviam. Clapton, John Mayall, Jeff beck injetaram um monte de rock and roll e eletricidade no blues, daí o blues ficou popular por 30 anos e o DNA dele tá aí espalhado por todo lado, até na Beyoncé, até na Lady Gaga tem blues. Agora, se hoje em dia não se pensar da mesma forma, não dá! Além da eletricidade, você pode jogar também eletrônica e outras coisas, rap, por que não? E tendências novas, funk, enfim, mistura tudo e aí quem sabe a linguagem fica acessível de um forma mais ampla, senão, museu.

E você acha que inserindo esses outros gêneros, os jovens se sentem mais atraídos pelo blues?

Pela minha experiência, é assim: na adolescência, quase no jovem adulto, ali, o moleque que ouviu blues de uma forma mais palatável, e nesse caso, numa forma que é adaptada, por exemplo, U2 com B.B, King, aquele cara que tinha 15 anos e ouviu aquilo ficou apaixonado pelo B.B. King e foi prestar atenção ao resto da história. Então esse cara se tornou um conhecedor e um apaixonado pelo blues a partir de uma experiência com a banda mais pop do planeta na época. Então ele se tornou um adolescente avançado, ou um jovem adolescente, curtidor de blues. Antes disso, se tivessem mostrado Jimmy Reed ou Robert Johnson pra ele, ele não ia gostar, mas a forma como aquilo foi mostrado naquele momento fez com que ele gostasse, sofresse um impacto, fosse atrás daquela informação e passasse a gostar dela. Não é mostrando Beyoncé que eles vão gostar de blues, mas poderia ser, por exemplo, uma experiência do Moby com blues. Pode ser interessante. Aliás, fica bem legal. E outra coisa muito interessante foi L.R. Burnside, que fez dois álbuns, pelo menos, Come On In (1998) e Wish I Was in Heaven Sitting Down (2000), que é um grupo de jovens malucos, que domina as regras da eletrônica, junto com os malucos que dominam as regras do blues. Eles fizeram isso e pegaram esse cara, que era da Louisiana, colega do Robert Johnson, e fizeram dois álbuns que eu acho espetaculares. Não digo que sejam permanentes, que vão ficar pra história e durar 200 anos, não é isso, mas desempenharam um papel muito interessante. E eu acho que a partir dali, de experiências como essas, que os jovens podem se interessar por blues. A outra forma é aparecer um guitar hero alucinado, como era o Jimi (Hendrix) nos anos 60, o Johnny Winter nos 70, o Stevie Ray Vaughan nos 80. E agora, dizem que é o Gary Clark, pode ser, porque não é um guitar hero no formato convencional, mas é um cara que mistura um monte, ali, também. O jovem pode acabar chegando no blues mais por um Gary Clark, ou até por um Ben Harper, que até fez umas coisinhas mais blues...

O Johnny Lang nos anos 90, quando apareceu, também foi uma novidade tremenda.

É, mas o Johnny foi fabricadasso pra ser blues. O blues é um gênero pobre e ele tá numa agência que não quer ser pobre, aí já vira soul e fica mais palatável. Ele já é mais tradicionalzão, não houve tanta mistura e tal. Eu falo há anos com o Bruce Iglauer, que é presidente da Alligator (Alligator Records), tradicionalíssimo, e foi ele que descobriu e lançou Hound Dog Taylor. A principio você pensa: “Esse cara não quer nem saber dessas coisas novas, se eu recomendar algo novo vai ser profanação e ele vai ficar bravo”! Mas não! Ele também busca essa coisa que preserve a mágica do blues sem ser aquele “same old blues”. Tem que ser o “new blues” e, é claro que, não é fácil, porque tem uma mágica muito específica, muito peculiar. É difícil mexer nas peças sem perder essa mágica! Então isso é uma busca. Não encontrar ou não existir, pra mim, ou pra seja quem for, dá pra compreender. Mas não buscar, não dá pra entender. Na minha opinião, somos metamorfoses. Esse é um lado meu de pensar. Agora, por outro lado, eu não consigo ouvir blues novo. Só curto velho! Pra mim, tem coisa muito boa, mas... eu não sou reacionário, pelo contrário, sou bem aberto ao futuro, assim, acho que tem que ter streaming, por exemplo. Vinil é legal, mas não vamos fazer esquadrão pró-vinil! Esquadrão mata CD! Sou totalmente a favor do futuro! Mas aí na hora de ouvir mesmo, é o velho John Lee Hooker que funciona, é o Muddy Waters, é isso aí!

Esses clássicos são as suas maiores influências?

São, sem dúvida! Eu era criança e ouvia Willie Dixon Orchestra, aquela coisa toda. Tinha LPs duplos dessa turma toda. E ainda vi a banda Chess original, aos 18 anos, com o Roy Buchannan na guitarra. Era Willie Dixon com Roy Buchannan, como convidado especial, e a turma da Chess original na gaita. Não tinha o Little Walter, que acho que já tinha morrido, mas era um daqueles caras lá. No piano era o McCoy Tyner, provavelmente. McCoy Tyner, não, era outro! Enfim, eu ouço, mas já é uma coisa de gosto, de ouvir e falar: “Nossa, que animal, que diferença!” Eu sinto essa diferença, mas não por saudosismo. O samba funciona igual comigo. Volta e meia você ouve um negócio das antigas e fala “Nossa, que monstro!” Quando eu ouço coisa nova de blues eu até curto algumas coisas, mas não a ponto de dizer: “Cara, eu preciso ter isso aqui de qualquer jeito!” Com raras exceções. Chris Cain é um cara novo que eu ouço. Não tão novo, mas assim, de uma geração mais nova.

De música brasileira você tem alguma influência forte?

Eu tenho, certamente, do (Jorge) Ben Jor, desde pequenininho. Porque, pra mim, veio no mesmo pacote, sabia? Uma vez eu tive o orgulho, a honra grande de, pessoalmente, estar com o Jorge e falar isso pra ele: “Você veio no mesmo pacote do B.B. King, de Deodato, de Santana, de Jimi Hendrix pra mim!”. Porque eu não morava no Brasil. Eu tava fora recebendo influências planetárias, digamos, com muito maior força americana, que foi o que aconteceu naquela década. Então era Hollywood de um lado e blues/jazz do outro. E soul, Ottis, Carla Thomas, Aretha e o rock and roll, aquela coisa toda. E aí, no meio disso, tinha o Jorge Ben Jor.

Ele não deixa de ser um monstro sagrado...

Ele é um puta monstro sagrado (Nuno pediu pra eu tirar o “PUTA”, mas o Ben Jor é FODA mesmo, então resolvi deixar)! Tenho o maior respeito por ele e acho que ele também gosta de mim, o que me deixa mais feliz ainda. Uma vez, no final de um show que ele também estava tocando, em um mesmo projeto, ele ficou dando canja com a gente, umas 4 da manhã. “Chove Chuva”, essas coisas, eu ouvia com 9, 10 anos. Igual ouvia “Every Day I Have The Blues”. Então é muito difícil sair ileso disso. Eu posso não ter influência descarada disso, mas tenho, certamente, muita influência disso. Assim como da música africana.

Depois que você saiu de Angola, você se exilou no Canadá. O que você levou de influência da música desses dois países, especialmente da música africana?

O Canadá era um país bem blues e rock and roll. Eu pude ver de perto todos os heróis que eu já curtia em Angola, como se eu estivesse em outra galáxia. As distâncias eram gigantes. Se você tá em Luanda ouvindo Willie Dixon, depois ver um show dele de frente parecia uma coisa impossível! Hoje parece menos impossível pela idade, você não tá naquela idade das mágicas inatingíveis. Aquelas são idades de mágicas inatingíveis e o mundo era outro, mesmo. Era distante, não tinha internet, então essas coisas eram tudo. Aí eu cheguei ao Canadá e vi de perto essas coisas. O Canadá, nesse sentido, era bem americano. Ainda é. Mas essas influências de quem é dos trópicos, no caso especifico da música africana, ficam em você. Talvez isso explique até a minha mão direita, que todo mundo fala muito: “A mão direita do Nuno, a mão direita do Nuno!” Aquela coisa de não usar palheta e de fazer quase que uma percussão ali daquele lado. Quer dizer, eu dou peteleco nas cordas, faço umas coisas diferentes. Estou reproduzindo o que as pessoas dizem. E essas coisas influenciam também. Mesmo que você não grave nada descaradamente, tudo isso é um caldeirão! Falando nisso, me entrevistaram do Canadá, há pouco tempo, e o cara mencionou uma coisa que me surpreendeu. O entrevistador é um purista de blues, um cara que tem programas em rádio e na internet, um negócio meio grande, e ele me viu tocando no Canadá, no Tremblant International Blues Festival. Então daí, passado alguns meses ele quis fazer essa entrevista. O meu álbum que ele mais gosta é o Free Blues (de 2010), que é um álbum cheio dessas experiências. Ele falou: “Eu acho perfeito que você faça ‘All Your Love’, que os Bluesbrakers fizeram, agora dessa forma, com efeitos e com uma levada hip-hop, porque tem que renovar mesmo!” Eu fiquei até surpreso, e feliz ao mesmo tempo, porque de todos os discos, mesmo com o mais novo, Angels & Clowns (2013), o que ele achava o melhor era aquele. E ele tava dizendo... agora eu preciso lembrar o que eu tava falando pra lembrar aonde queria chegar...

Da entrevista com o radialista canadense?

Sim, mas era a propósito de outra coisa... eu adoraria lembrar do que eu ia falar, eu tenho esse problema...

Daqui a pouco a gente lembra...

Eu vou acabar lembrando.

A gente chega lá daqui a pouco, tranquilo!

Desculpa. A gente tava falando da percussão... ah, sim! Pronto! Ele falou o seguinte, que além do Free Blues, os meus outros discos mostram, muita gente também já falou isso, uma diversidade muito grande. Você ouve blues, mas você percebe que tem fundamentos de outras coisas também. No Brasil não existe essa crítica a ponto de dissecar obras de blues, de rock, enfim. Não existe isso. Mas se houvesse uma coisa mais apurada nesse sentido, os meus discos mostram mesmo isso. Você pode dizer: “Esse cara ouviu música erudita, essa cara ouviu, certamente, blues inglês, ouviu muito rock, soul.” Essa massa sonora, porque isso depois se transforma numa massa sonora, não é “esse é soul, esse é rock e esse é jazz.” Não é isso! É uma massa que mostra essas influências todas e, certamente, África e Brasil entram ali também. Taj Mahal é meio isso, tem uma massa que vira uma linguagem final, que mostra tudo que você comeu. Sai tudo deglutido.

Você é autodidata, não? Seu negócio foi sempre a guitarra?

Foi, foi meio que obsessivo. Assim, eu tinha uma namorada que tinha um piano em casa. O piano era uma coisa inalcançável pra mim, era um troço caríssimo, naquela época eu jamais teria uma piano. E quando eu ia na casa dela, e não era tão pouco, eu ficava tocando piano também, eu gostava. Tudo que era instrumento eu queria trucidar! Mas guitarra é aquele negócio. É mais fácil você ter um violão. Meu velho me deu um violão quando eu tinha 9 anos, então eu sempre fui muito mais voltado pro violão e pra guitarra. Talvez por circunstâncias, por ser mais fácil, por ter em casa à mão, etc. Porque se tivesse bateria e piano... Eu me lembro também que onde tivesse bateria eu corria pra querer tocar. Me lembro de neguinho reclamar: “Pô, mas eu chamei você pra tocar guitarra aqui e você não larga a bateria!” Gaita, tudo que eu pudesse ter a mão eu já saía tocando! Mas eu sempre tive um fascínio pela guitarra por causa dos Beatles. Eu tinha 5 ou 6 anos e eles surgiram tocando guitarra, assim, na frente. E aquilo também me influenciou. Então era a guitarra, mas eu queria tocar um monte de coisa. Hoje em dia eu tenho pena de não tocar piano avançado, porque eu acho uma das coisas mais bonitas que tem. Teve também ali aquela coisa adolescente da guitarra. Adolescente, não. Infantil. Na verdade foi antes da adolescência. A melhor forma de imitar uma guitarra, além da raquete de tênis, que eu usava o dia inteiro, era um violão. Eu via os meus amiguinhos nativos pegarem latas de azeite de 5 litros e colocar um braço de madeira com fio de pesca, fio de nylon, então eu também fazia aquilo até ganhar um violão. Era um recurso. A gente não era pobre, porque pobre nunca serei e nunca direi que fui, já que tínhamos tudo. Mas era tudo muito contadinho e tal, os brinquedos eram tampinhas de garrafa, etc. Era uma infância rica por outros aspectos. Mas não tinha grana pra ter piano, comprar instrumento e essas coisas. Demorou pra eu conseguir.

Você já gravou com músicos do Johnny Winter, com a banda Stevie Ray Vaughan (Double Trouble). Com quais músicos você mais gostou de tocar?

Desses gringos aí?

De todos, os mais marcantes. Tanto ao vivo quanto em estúdio.

Especialmente ao vivo eu tive uma sensação que nunca tinha tido, e que é digna de nota, que foi a de levitar com o Double Trouble (Tommy Shannon, no baixo, e Chris Layton, na bateria). Vinha uma onda sonora de backup ali de trás, de baixo e bateria, que você sentia que levitava. É inacreditável! Eu não tava chapado, nem nada. Não tem nada disso. É uma sensação que eu não consigo descrever de novo, não consigo descrever totalmente, porque nunca tinha me acontecido. E isso aconteceu, não foi há muito tempo, foi há 10, 15 anos. Não é uma lembrança mágica de criança. Eu já tinha 40, sei lá que idade eu já tinha ali. Caí de costas! Isso foi no Credicard Hall. A gente fez Palace e Credicard Hall, na época eram esses os nomes. Me lembro claramente de ter decolado do chão! O que é muito importante, porque você toca muito mais quando isso acontece. Isso pauta a sua forma de tocar. Aqueles dois tinham uma historia ali, de uma gordura e de uma cama, que você virava atleta olímpico! A adrenalina subia logo. Também foi a primeira vez que eu tive a sensação de não poder tocar só com um Fender Twin 100 watts (amplificador), tinha que ter 2 ali. Ou 3, pra ficar no mesmo volume, porque o volume é parte desta história. Tem gente que é contra volume, mas é porque não sabe que o volume pode ser bem usado. O volume bem usado é o da escola de samba, de bateria. Você tá no meio daquilo, não é só a levada que te arrebata e te levita. É também você estar no meio daquele volume, junto com a levada. Você pode fazer a mesma técnica da caixinha de fósforos, mas não é impactado da mesma forma. Aliás, os Stones são isso também. Não é só “Jumpin’ Jack Flash”. São os momentos em que o volume é alto e os outros... as dinâmicas e tal! Eu tô falando muito, desculpe. A banda que eu tô tocando agora me deixa muito feliz também, mas muito feliz mesmo. O Fred (Barley), na bateria, o Bruno (Falcão), no baixo e o Flávio (Naves), que já está há bastante tempo comigo, no teclado. Estou extremamente satisfeito com essa cozinha. Dá pra fazer projetos, pensar em outros vôos. É difícil responder a essa pergunta, tão objetiva, porque fazer turnê com Uncle Joe Turner, o batera original do Johnny Winter... eu fiz Europa e Estados Unidos com ele e foi altissimamente enriquecedor, não só pelo que o cara toca, pela levitação, mas pelo aprendizado com ele. Eu aprendi mais com ele em 4 anos do que com um monte de gente em 40. Era um macaco velho, tocou em Woodstock. Me deu conselhos que até hoje, quando eu estou no palco, eu penso: “O que faria Uncle Joe Turner nesse momento?” Ele morreu com uns 60 anos. Eu fiquei muito mal. Era um cara que quando vinha pro Brasil, ficava em casa. Ele dizia: “Eu não quero ficar em hotel, põe aí a banda no hotel que eu quero ficar com você e com a sua família.” Um dos maiores conselhos que ele me deu foi: “Não dê atenção à plateia, vamos nos divertir entre nós. Se a plateia vê que você está se divertindo, ela se diverte.”

(Nuno pede licença para atender a outra linha e, cerca de 1 minuto depois volta, se desculpa, e explica que não consegue simplesmente deixar o telefone tocando. Eu digo que se ele estiver ocupado, podemos terminar o papo depois. “Imagina, estava aqui passando, como é que chama, WD (WD-40, um produto pra remover ferrugem) nos captadores aqui. Minha guitarra quebrou e eu tô muito órfão. Eu sou muito de tocar com a mesma.”)

Falando nisso, eu sei que às vezes você toca com Fender, mas que a sua primeira guitarra foi uma Gibson...

É nessa mesmo que eu estou passando o negócio nos captadores. Eu comprei essa Gibson lá no Canadá, com 17 anos.

Você é mais Gibson ou mais Fender?

Hoje eu consigo dizer que sou mais Gibson. Não tenho muita dúvida, mas como dizia o Raul (Seixas), somos metamorfoses ambulantes. Mas assim, desde pequenininho que usava Gibson. Mesmo em Luanda, antes de ter a minha Gibson, eu pegava umas SGs (modelo clássico da marca) emprestadas de uns caras mais velhos e tal. A minha história sempre foi com a Gibson Les Paul preta igual a do Henry Vestine, que era o guitarrista do Canned Heat (banda americana de blues/boogie). E aí aos 17 anos eu trabalhei, varri chão, carreguei rolo de tecido, alías, fiz de tudo em uma fábrica de camisas, só pra comprar a Les Paul. E comprei! Com 2 meses de trabalho e mais um troco que eu tinha, fui lá e comprei a guitarra. Usei essa Gibson a vida inteira. Quero dizer, até o final dos anos 80. Foram mais de 20 anos de Gibson, mas sempre curtindo Fender. Usei Fender em Angola também, só que menos. Mas ali eu não tinha discernimento pra saber o que era melhor ou não, só tinha essa coisa de que a Gibson era “a” guitarra. Teve uma fase curiosa, que agora tá acontecendo de novo, que é tipo, pegar uma Fender e falar: “Ah, cadê minha Gibson?” Isso aconteceu muito aqui no Brasil, durante anos. Os caras vinham com uma Fender, eu pegava a Strato (Fender Stratocaster, modelo mais famoso da guitarra), fazia 3 notas e falava: “Cadê minha Gibson?” Porque parece que faltava gordura ali pra mim, sabe? A Gibson causa uma dependência, porque é bobina dupla, aquela coisa toda. Então vem uma gordura que você não consegue prescindir depois. A Fender é bem feminina. Mas aí teve uma fase que eu usei Fender, que foi de 90 e pouco até... eu fiz o Texas Bound (de 1996) com Fender, fiz o Blues on the Outside (de 1999) com Fender... sempre usando a Gibson ali pelo meio, mas andava com Fender pra lá e pra cá. Aí depois eu voltei pra Gibson. Peguei uma SG de novo e agora estou com uma Epiphone, que é Gibson, são captadores P90, é uma gordura diferente. Então agora eu tô cada vez mais convencido, de novo, de que a história é Gibson. Talvez não fosse nem pra ter entrado nessa coisa de Fender durante esse tempo todo. Se bem que tá valendo! Agora, uma coisa é certa, eu vou pro show de amanhã, um evento fechado, com um bag duplo contendo uma Gibson e, do outro lado, uma Strato. Tem que ter sempre as duas perto. É como se fosse um acessório cautelar. Eu acho assim, não inventaram ainda o terceiro sexo na guitarra. Só tem dois sexos: Fender e Gibson. Você tem variações legais, muito boas até, tem RS e tal, mas são sempre variações de Gibson e Fender. O mais próximo de um terceiro sexo que eu senti uma vez na vida foi uma... eu não sei se era Jackson ou se era outra, tinha uma outra, também. Ela tinha um timbre muito diferente, o filho do (Frank) Zappa (Dweezil Zappa) usava uma (a guitarra usada pelo músico era uma Hagström Viking). Aquilo foi um bocado diferente de tudo que eu estou acostumado. E diferente bom! Que jamais usaria para tocar a minha onda, mas que achei muito bom na mão de jovens fazendo rock e outras praias. Aliás, eu tô chegando num ponto, velho, que tudo pra mim também são variações geniais de Beatles. O século XX, XXI foram Beatles até agora. Ainda não mudou. Antes era erudito, era Tchaikovsky, aquela coisa toda, Mozart, depois foi Beatles. Não mudou! Voltamos à mesma historia: Beyoncé também vai ter coisa de Beatles ali, Lady Gaga. É Beatles e Bob Dylan, talvez.

Essa Gibson que você está cuidando agora te acompanha desde cedo, mas nem sempre você se dedicou somente a ela, nem sempre você viveu só de música, certo? Soube que você trabalhou em uma empresa de aviação durante 18 anos. Foi difícil começar a viver somente de música?

Assim, eu sempre fui músico, isso é uma certeza. Nasci músico da mesma forma que nasci desenhando, ninguém me ensinou. Eu tenho uma facilidade grande pra isso. Um conjunto de coisas que me são bem características desde nascença: a música e o ouvido. Poderia ser jornalista, ator, escritor. Eu sei exatamente o que eu poderia ter sido. Arquiteto, desenhista, pintor. Eu poderia ter sido qualquer coisa assim, mas não poderia ser matemático, nem nada. E aí, o que acontece é que houve uma guerra (em Angola). Eu tava num país onde surgiu a guerra civil, muito complicada, e aos 17 anos eu perdi tudo, incluindo os milhares de LP que eu tinha. Violões e tudo mais. Fiquei com a roupa do corpo, literalmente, não é expressão. Eu sai dali e fui pro Canadá, como refugiado, com a roupa do corpo. Perdi fotos de infância, de adolescência. As vezes você recupera uma ou outra porque outro exilado tinha uma foto sua. São tesouros, assim. E eu tive que começar tudo de novo. Quando eu tinha 17 anos, o que eu fazia? Eu andava de moto, namorava, era só sol e praia, parecia um Havaí aonde eu morava, e tocava guitarra. Dava risada, ia pra escola de manhã ou a tarde, conforme o turno, depois ia cantar as menininhas, tomava as Coca-Colas e copiava os meus heróis da guitarra. Era isso que eu fazia. Só que, de repente, na mesma idade, aos 17, eu tava sem nada! Não tinha nada! Tinha que trabalhar. E daí, como eu, tinha um monte de outros caras das antigas colônias portuguesas. Também tinham portugueses mesmo, que tiveram que sair de Portugal porque ali também houve uma caça às bruxas absurda. Se o pai do cara era diretor de banco, era decretada a prisão do cara. Enfim, foi um absurdo. E aí muita gente saiu dali, de Moçambique, Angola, Guiné, São Tomé, Cabo Verde, Timor. E muitas dessas pessoas vieram para o Brasil. A Varig, na época, eu nem queria fazer mídia pra esse pessoal, mas enfim, eles queriam muito gente como nós para trabalhar pra eles. Eu queria ir embora! Eu vim pra cá, mas já queria dar o fora, voltar pro Canadá ou ir pra Portugal. Eu já tava pensando: “Eu não vou ficar aqui.” Mas aí, pensei que poderia ser interessante porque você ganha passagem quando trabalha em companhia aérea. E me aconselhavam a trabalhar lá, por que, por algum motivo, eles preferiam a gente. Eles preferiam porque sabiam que a gente tava sem emprego, precisava trabalhar mesmo e a maioria falava várias línguas. Então, isso, pra empresa aérea, era interessante. Ao invés dos meninos mimados que estavam aqui, filhinhos de papai que falavam a língua, mas que não precisavam do emprego pra nada e acabavam ficando blasé e trabalhando mal, a gente era uma horda de refugiados que tinha perdido tudo, que falava várias línguas, que precisava trabalhar e não estava ali pra brincar. Éramos articulados e tínhamos que sobreviver. Então eu fui lá e foi tiro e queda, entrei rapidinho. E não era fácil entrar, naquela época, na empresa. Eu me lembro de testes pra entrar lá que duravam das 7 da manhã às 7 da noite, gigantes. Beleza, entrei e daí a vida segue. Eu tocava quando podia e não tocava quando não podia. Eu levava instrumentos pra Varig, fiquei famoso na empresa porque eu ia, as vezes, mais cedo, antes de abrir, e ficava tocando. Levava até saxofone pra lá. Falavam: “Tem um maluco no prédio tocando!” Mas, assim, sacrificava todos os fins de semana da família, depois que casei. A vida segue, você casa, compra carro à prestação... nos anos 70, então, o que significava que você estava preso pra sempre no Brasil! Comprar um carro com a inflação daquela época te fazia dever um apartamento ou 2 pro resto da vida. Aí foi indo. Mas eu nunca parei de tocar. Eu fazia quando podia. De repente veio mulher, filho, e ao invés de passear no PlayCenter, eu tentava achar uma gig em algum lugar pra fazer um som. Na maioria das vezes, não tinha com quem deixar, então ia com bebê pra gig. Muitas vezes em lugares temerários, até. Até que um dia começou a ficar complicado. Eu me lembro de uma reunião de vendas, importante, que eu tive que sair pra gravar o programa do Jô, no SBT ainda. Eu falei: “Preciso sair, já volto!” E não voltei. E foi complicando, até que eu saí! No começo foi até melhor, porque a empresa pagava muito mal. Eu acabei ganhando mais, porque na época começou a pintar uma mídia, eu fiquei mais conhecido, comecei a chamar a atenção pra um monte de coisa. Eu até zoava com a minha mulher, tirava uma, falava: “Pô, eu tô ganhando o mesmo que você ganha em um mês só com um show!” Mas é sempre temerário porque eu não tenho nenhuma empresa atrás de mim, não tenho nenhuma segurança, tenho que pagar plano de saúde com o que eu faço mesmo, não tem nenhuma entidade por trás, o que a maioria das pessoas tem. E já tô numa idade que daqui a pouco triplica o meu plano de saúde, não tem aposentadoria, é complicado. Mas é assim, é uma escolha. Se você quer ser infeliz, continue lá trabalhando com o dinheiro dos outros. Se quiser ser feliz, trabalhe com o seu próprio. Sua guitarra e seu dinheiro.

Acho que essa é uma das perguntas que mais te fizeram, mas é impossível não tocar no assunto. Como surgiu o lance do concurso de melhor guitarrista de blues do mundo no aniversário de 30 anos da Guitar Player? Como foi ganhar e o que mudou pra você depois disso?

Vamos começar pelo começo. Vou tentar ser bem objetivo, o que eu não sou. Antes disso, eu saí na Guitar Player americana num artigo pequeno.

Em 94, 95, né?

Não lembro bem o ano, mas por aí. Pela mão do editor, que era uma autoridade em blues, inclusive, escritor, um cara chamado Jas Obrecht, com J. Ele colocou uma nota: “Amazon Delta Blues”, me comparou com Jimmy Page e tal. Aquilo saiu ali. Aí eu recebi cartas, não foram nem e-mails. Acho que tava começando essa coisa de e-mail, muita gente ainda não tinha. Depois de uns 15 dias chegou uma carta na minha casa. Chegaram várias, na verdade. Lembro de uma da França e uma de um cara da Califórina, dizendo: “Li o artigo na Guitar Player e queria ouvir o seu CD, aí!” O cara foi bem direto, pouco afável. E mandei o CD pro cara. O disco que foi retratado nesse artigo original chamado “Amazon Delta Blues”. E esse cara acabou falando: “Você tem que tocar em festivais aqui, você tem que engatar uns esquemas aqui, isso tem que ser ouvido por mais gente!” Ele usava essa expressão e tal. Eu agradeci, mas disse que tinha 3 filhos pra cuidar e sair daqui não é tão simples. Mas esse cara insistiu, ele fazia de tudo pra me ajudar. E eu de tudo pra ser melancólico igual ao Saramago, do tipo: “O que que adianta? Daqui há 5 anos a gente morre e isso não vale nada!” Porque eu sou assim normalmente, um cara sempre mais melancólico. Aí um dia, ele mandou por carta também, por envelope, os formulários de inscrição pra eu me inscrever no concurso da Guitar Player. 30th Anniversary Guitar Player Magazine Competition. E eu não ia fazer aquilo! A minha mulher falou: “Nuno, esse cara faz o diabo pra te ajudar. Ele tá sempre te dando um help! Mostra que você tá aceitando a ajuda!” Eu não queria fazer, eu não sou de concurso. Não sou até hoje. Eu achei que aquilo não tinha nada a ver, tipo eu tô aqui tentando tocar, tô conseguindo tocar em algumas rádios, tô fazendo discos. Não tenho que fazer concurso nenhum! Mas, seguindo o conselho da patroa, eu falei: “Vou mandar pro cara saber que eu mandei.” Foi só isso que me fez fazer aquilo. E ainda tirei sarro. Essa é uma história que eu gosto de contar, porque é divertida. No formulário de inscrição tinha, tipo, “nome”. Eu coloquei meu nome. “Idade”, eu coloquei “velho”. Nem era velho, mas já tava me achando. Depois tinha lá: “Cite curiosidades sobre a sua música ou alguma coisa que você queira contar de legal sobre a sua guitarra e tal”, eu escrevi qualquer coisa tirando uma, tipo um humor cítrico, mas bem humorado, e depois no nome da música eu escrevi algo do tipo: “Não Quero Saber de Blues Pra Nunca Mais”, sei lá. O nome da música virou um desabafo mesmo e aí eu fui no estudiozinho que eu tinha na garagem, sentei numa bateria Pinguim, sem pele, toda estourada, e fiz “tum tum pá, tum tum pá”, uma base de bateria sem mais nada! E em cima dessa base de bateria vazia, zero, sem nada, eu peguei um baixo, olha o nível do baixo, um amigo meu fez uma compra de equipamento e ganhou o baixo de brinde. Pra você ter uma ideia do que era aquilo! Era um pau com cordas. Eu fui lá e coloquei “dum dum dum”. Fiz um baixo em cima daquela bateria, em uma pegada blues. Aí peguei essa Les Paul, a que eu te falei que foi a primeira, a preta, que na época eu ainda estava usando, fui lá e coloquei uma peça de guitarra em cima daquilo. Aí como a bateria era muito ruim, eu coloquei um reverb no chimbau. Ficou assim, uma coisa mais disfarçadinha, e mandei a fita pra Guitar Player com a ficha de inscrição. Não fiz cópia do que eu enviei pros caras. Eu tinha cópia da música, porque eles já tinham avisado: “Se ganhar, tem que enviar uma fita DAT (fita de áudio digital), que a gente vai fazer um CD com a música vencedora”. Então eu tinha lá o original, um DA-88, um Tascan (gravador de fita digital), gravei aquilo, fiquei com a fita do Tascan, o master, e mandei um K7 lá pros caras, junto com as fichinhas, sem fazer cópia nenhuma (em K7) pra mim. E nunca mais lembrei desse assunto. Tinha gente do mundo inteiro! Blues é americano, é da terra dos caras, nem achei que poderia rolar. Eu fiz aquilo em outubro e eles ficaram de avisar em dezembro. Mas em dezembro ainda não tinha acontecido nada. Lá pra fevereiro ou março, bem depois do que tinha sido combinado, entrei um dia em casa e tinha um editor da Guitar Player no telefone, na verdade em um recado na secretária eletrônica. Não o Jas Obrecht, já era outro, que é o cara que acho que tá lá até hoje (Nuno se refere ao editor chefe Michael Molenda): “Hey man, parabéns, você ganhou e não sei o quê...” E por coincidência, esse gringo (o californiano) que me ajudava a fazer as coisas lá fora, pra quem eu fiz aquilo, não foi pra Guitar Player nem foi pra mim, tava entrando em casa junto comigo! Ele tava viajando pelo Brasil, a gente tava vindo da praia, eu levei o gringo pra ver a praia, ele entrou em casa, eu pus aquilo pra rodar e ele falou: “Puta, Nuno, vc ganhou!”

E com o cara junto com você? Que puta coincidência!

É, foi uma puta coincidência, porque ele veio visitar o Brasil depois dessa coisa toda. Eu levei ele pra Ubatuba, essas coisas e tal, e aí eu tinha um show com o Double Trouble lá na Berrini (Av. Engenheiro Luís Carlos Berrini na região do Brooklin, em São Paulo). Tava o Chris Layton, o Tommy Shannon. Teve um puta evento, fecharam a Berrini pra eu tocar com os caras. Eu era meio que o mestre de cerimônias, tava também o David Grissom (guitarrista), eu trouxe todo mundo com o patrocínio da Credicard. A gente saiu da praia pra fazer esse show, deixou as mulheres lá e falou: “Vamos lá!” Isso foi como aconteceu. O que isso significou na minha vida? Do ponto de vista prático, de evolução na carreira e tal, não significou muita coisa, não. Eles fizeram mesmo o CD, foi distribuído pra toda a indústria, todos os caras ligados à, enfim, às pessoas que poderiam ajudar. Ganhei uma puta guitarra que eu tenho até hoje, uma das melhores que eu tenho, pra estúdio é uma das melhores coisas que eu já vi, uma Schecter California Tom Anderson, sei lá. Mas o que isso fez de bom pra mim foi mais do ponto de vista pessoal, de ultrapassar um obstáculo. Talvez tenha sido a sensação, que eu imagino, de um americano vir aqui e ganhar um concurso de samba. Um americano apaixonado por samba ou por bossa nova que chegou aqui e, num concurso cego, porque foram julgados números e não nomes, isso eu fiquei sabendo, e ganhou. Tanto é que quando eu liguei pra Nova Iorque, porque os caras tiveram que mandar a guitarra prêmio pra mim e eu ainda tive que pagar imposto ela, um cara começou a rir de mim no telefone, do tipo: “Você é o brasileiro que ganhou, né?” Ele devia pensar que a situação era tão estranha quanto ligar um gringo aqui e ganhar um concurso de pandeiro, de percussão ou de escola de samba, não sei. Então o cara riu muito.

Qual a importância de festivais do gênero no Brasil, como o Banco do Brasil Seguridade de Blues e Jazz e o Samsung Blues Festival?

Eu acho que é importante pra diversificar as ofertas. Assim, não só pro blues. É legal festival pra tudo, o Lollapalooza, o Rock ‘n Rio, tinha o Free Jazz. É importante porque tem uma galera que mexe com blues e, olha, garanto que é muita gente e as pessoas ainda não sabem disso, aparentemente, e independentemente da atenção que a mídia da pra esse tipo de coisa, existem legiões de adolescentes alucinados pelo gênero, legiões de adultos apaixonados pelo gênero, legiões de praticantes do gênero. As pessoas que já conhecem tem a oportunidade de ver de perto os grandes ídolos, como aconteceu comigo. Eu não tinha isso lá onde eu nasci, mas quando eu cheguei no Canadá eu pude ver de perto. Então esses moleques que tão aí... todo moleque tem um link com guitarra, com gaita, enfim, eles podem ver de perto Jimmie Vaughan, George Benson, e isso é muito importante como uma atividade cultural como outra qualquer, como ter acesso aos melhores filmes, etc. Acho que uma das importâncias mais centrais disso tudo é que, pra realizar isso, você precisa de patrocinadores e os patrocinadores podem, como é poder econômico, colocar essas coisas também no mapa. Pra ser mais claro, o que você ouve é sempre fruto de major record company (grandes gravadoras), tipo, o que tá tocando tá na Sony, tá na Warner. Então é o axé, é o pagode, e tá nas mídias! É a Antarctica, é a Brahma patrocinando o Zeca Pagodinho, é o programa da Xuxa, é o sertanejo. Tudo isso tem um poder econômico muito grande por trás. E outros gêneros não tem. Então quando você faz um festival desses e entra uma Samsung, um Banco do Brasil, ou seja lá o que for, dá uma equilibrada nisso. Não que os outros não mereçam estar aí. Todo mundo tem que estar, tá tudo certo. Mas equilibra também. Tipo, faz com que as pessoas que normalmente só ouvem o que é ditado por esse poder econômico, ouçam e prestem atenção a outras coisas. Porque também estão beckapeadas por um poder econômico grande, então a Samsung tá fazendo um monte de mídia do festival, então, tem gente que não conhece e pergunta: “Pô, o que é isso? Deixa eu ver!” Aí vai lá no Ibirapuera e vê Keb' Mo e fala: “Nossa, animal, adorei isso! Eu só conhecia o Zeca Pagodinho, mas isso aqui é muito legal!” Pronto! Por que? Porque houve um incentivo ali, houve uma regulagem no poder econômico que deixou no mesmo lance, senão são sempre nichos pequenininhos, nunca ninguém sabe, só quem lê muito e é muito interessado, esse tipo de coisa. Eu poderia ter falado isso em 3 palavras, mas não consegui. Mas você entendeu o que eu quis dizer, né? É como se, por exemplo, de repente, a Oi resolve trazer o Bolshoi. Pronto! Todo mundo presta atenção porque tem uma puta mídia. Tem os meios, tem as divulgações que de outra forma não haveriam. Então, de repente, a palavra “blues” tá muito mais no circuito por causa desse evento, reparou? “Blues” em tudo que é jornal, liga o rádio e tá falando de blues, propaganda na TV e tudo mais. Eu não sou defensor de blues, quero deixar isso claro. Eu não sou bluesófilo, nem guitarrófilo. Eu não sei, as vezes, que marca de corda eu tô usando. Geralmente eu não sei mesmo. Mas assim, eu falo, não como blues enquanto movimento, eu acho isso uma grande bobagem. “A cooperativa do blues”, sabe? “Ah, o que podemos fazer pro blues não morrer?” Não sei! E não me interessa muito o que podemos fazer. Só me interessa o que eu posso fazer. Eu quero sempre deixar claro essa distinção porque eu me refiro à manifestações de qualquer natureza. Se houver teatro subsidiado por patrocinadores privados para que apareça a palavra “teatro” em tudo que é jornal e rádio, que bom! Ou “samba”. O samba também é um negócio que precisava disso. O samba, samba! Porque, pra além de um ou dois ícones é mais difícil. Não toca muito em rádio, etc. Que tal um grande festival de samba com a Samsung por trás, também? Valeria a pena! É isso que eu queria dizer.

Tá muito bem explicado! E você está com algum projeto novo engatilhado?

Eu tenho um livro pronto, mas eu não quero ser independente na literatura como eu fui 40 anos na música. Mas também eu não comecei a procurar nada. Eu tinha a esperança de conseguir uma editora legal, assim. Eu vou ser um pouquinho metido agora, mas eu queria uma editora à altura do que eu sei escrever. Essa foi pedante pra caramba, mas é verdade. Esse livro é um projeto que tá pronto, consegui deixar pronto, registrado. Tô tranquilo, é só uma questão de saber quando e como publicar. Eu tenho um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo. Outro projeto que eu tenho é um negócio que chama Três Guitarristas. Sou eu, o Sérgio Hinds (da banda O Terço) e o Luiz Carlini (um dos mais conhecidos guitarristas do rock nacional, lembrado pela banda Tutti Frutti, que acompanhava Rita Lee, além de participações com Camisa de Vênus, Lobão, Erasmo Carlos, entre outros). O Sérgio me ligou e perguntou se eu topava. Eu topei porque eles são lendas da música e eu me senti honrado em ser convidado pra esse tipo de coisa, porque, de certa forma, me incorpora à história do rock no Brasil, o que não é pouco. O que pra mim é um orgulho. Mas eu queria fazer outro disco. Eu tenho vontade de, depois de experiências como Outros Nunos (disco de 2005), que tem rap com Robert Johnson, misturado com letras em português e Rappin’ Hood e Zelia Duncan, e depois de Free Blues, que eu peguei todas as músicas de quando eu era moleque e transformei, com efeitos, baterias, hip-hop, etc, de fazer um disco de, não vou dizer blues tradicional, porque tradicional pra mim é o Skip James, mas eu gostaria de fazer um disco de blues como se fosse o meu From The Cradle (álbum de 1994 em que o guitarrista Eric Clapton volta, digamos, à suas origens). Mas eu quero fazer a minha volta pro blues, porque este último que eu fiz (Angels & Clowns, de 2013), não é experimental, mas também não é blues. É mais rock, pop, até. Eu queria fazer um de blues tradicional elétrico de novo, com a minha banda daqui. Mas não estou às vésperas de fazer nada, assim. Estamos só conversando, vendo as melhores possibilidades. Grava aqui, grava fora. Tô pensando. E pintou muito show, o que não tá me deixando pensar, também. É uma fase inédita de acúmulo de shows e outras coisas relacionadas que estão acontecendo ao mesmo tempo. Mas assim, músico tem que registrar, então em breve eu tenho que fazer alguma coisa e eu acho que eu quero fazer blues tradicional. Com sorte, eu tô me apaixonando pelo blues novamente, tô muito irrequieto quanto a ele.

Tá voltando a ouvir blues?

Hum, não muito. É gozado, né? Ainda bem que você compreende, porque tem gente que fica meia hora falando: “Como assim?” Não tô voltando a ouvir blues ainda, continuo ouvindo outras coisas, mas já não tô tão reticente a ouvir blues. As vezes eu ouço e me dá um prazer gigante, que era uma coisa que não andava acontecendo. Então quem sabe eu tenha cura, porque essa relação com o blues é meio amor e ódio. Pra mim o blues não foi uma moda. Não é clichê o que eu tô falando. Por isso que eu falo, não gosto nem de falar de blues, porque, pra mim, é como se fosse outra coisa qualquer. Você nasce, aprende a tomar banho, a vestir a camisa e ouvir aquilo. Independentemente se chama blues ou não. É aquilo. E aquilo me marcou de uma maneira que você quer se livrar. Passaram-se 40 anos, mais de 40 anos. Então você começa a ficar enjoado de si próprio. Você não consegue ouvir a si mesmo, do tipo: “Eu quero mudar!” E agora parece que outra vez eu tô entrando em paz com isso. Tomara que eu consiga retomar comigo isso mesmo.

Tomara, Nuno! Obrigado por me atender.

Que isso, é sempre um prazer! Muito obrigado pela oportunidade. É sempre importante a gente dizer o que pensa e vocês publicarem. Eu fico muito feliz.

***

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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