Azoofa Indica: Cantoras e Seus Compositores

"O tom que eu canto as minhas músicas, para a tua voz, parece exato". Quando Nando Reis ouviu Cássia Eller cantando suas composições, ficou tão maravilhado que... compôs uma canção sobre isso. Há um clichê que aponta o Brasil como o país da cantoras. Se é verdade, então pode-se entender que o Brasil é também o país dos compositores. Esta ligação entre voz e palavra, entre interpretação e criação, é siâmesa.

Neste final de semana, mais um capítulo desta relação nos será apresentado. O projeto "Cantoras e Seus Compositores" leva ao Sesc Ipiranga Giana Viscardi, Roberta Campos e Clara Moreno cantando canções de seus compositores favoritos: João Bosco, Renato Russo e Jorge Ben Jor, respectivamente.

Com exclusividade para o Azoofa, as três cantoras falaram sobre o desafio de interpretar estas obras e a escolha de repertório, dentre outros assuntos. Confira.

GIANA VISCARDI CANTA JOÃO BOSCO (03/07 | sexta - saiba mais)

Giana, como surgiu a ideia de criar um show para interpretar canções de João Bosco?

João Bosco sempre foi uma grande referência para mim. Como intérprete e como compositora. Canto muitos sambas dele com o Aldir Blanc e também compus canções que conversam com sua obra. Então fazer um show em homenagem a ele foi uma escolha muito natural.

O que guiou a escolha do repertório?

Para esse show escolhi sambas do João Bosco que eu já interpreto e estabeleci uma conversa com canções minhas que conversam diretamente com as dele. Será um show mesclado de coisas do João e minhas já gravadas, mas também inéditas. Por exemplo: "Coisa Feita" dele e "Gata Lúcida" minha.

Você optou por manter os arranjos originais ou quis recriar as canções à sua maneira?

O João é um artista que nunca para, ele está sempre se reiventando. Se você ouvir uma gravação original de uma canção dele e comparar com como ele a faz ao vivo hoje, elas serão bem diferentes. O que vamos fazer é uma mistura entre os arranjos das gravações originais e dos arranjos de hoje em dia.

Por que João Bosco é seu compositor favorito?

João Bosco é um grande compositor, muitas de suas canções viraram hinos do cancioneiro brasileiro e não satisfeito ele continua compondo. Ele é também um excelente instrumentista: se você ouve o violão dele isoladamente certamente será capaz de reconhecer ser ele a tocar. E João é também um notável intérprete como por exemplo em  "Expresso 2222" e "Forró em Limoeiro" ele recria canções que pareciam já ter gravações definitivas.

Você se recorda da primeira vez que ouviu uma música dele e do impacto que isso teve sobre você?

Lembro da primeira música que aprendi a cantar que foi "Bala com Bala". Com ela fiz um estudo profundo de ritmo e dicção.

Se você pudesse escolher a obra de outro artista para fazer o mesmo mergulho que está fazendo agora com João Bosco, quem seria?

Poderia ser Moacir Santos,  Djavan, Tom Jobim, Cole Porter...

***

ROBERTA CAMPOS CANTA RENATO RUSSO (04/07 | sábado - saiba mais)

Roberta, como surgiu a ideia montar um show para interpretar canções de Renato Russo?

Eu sempre gostei muito do Renato Russo, sempre gostei muito da Legião Urbana! Eu considero o Renato um dos melhores compositores do Brasil, do mundo eu diria!! Eu sempre ouvi Legião, acompanhei os trabalhos solos dele e como vinha inserindo nos meus shows composições do Renato, tive a idéia de homenagea-lo e montei um repertório com canções que gosto muito e me deixam feliz.

O que guiou a escolha do repertório?

Foi bastante difícil, pois gosto de muita coisa e muitas dessas eu tive dificuldade de escolher até pela dificuldade de cantar. O Renato tinha uma voz e uma tessitura vocal incríveis, graves lindos e agudos brilhantes. Eu sempre que tentava acertar os tons nos agudos, os graves se prejudicavam e vice-versa. Mas escolhi músicas que me tocam muito e passam uma mensagem que gosto de cantar. Segui meu coração e os tons!! rs

Você optou por manter os arranjos originais ou quis recriar as canções à sua maneira?

Eu trouxe as canções pro meu mundo, nenhuma música segue o arranjo original. Passei para os meus músicos o formato que canto as canções e assim criamos os novos arranjos.

Por que Renato Russo é seu compositor favorito?

Porque ele é o cara mais incrível que já tive contato com a obra. Me identifico com ele. Acho incríveis as canções e tudo que já tive contato sobre ele. Ele era genial e vai continuar sendo pelo tempo que as canções durarem. Gosto de várias canções, são sentimentos, ele era um cara verdadeiro e música pra mim precisa de verdade.

Você se recorda da primeira vez que ouviu uma música dele e do impacto que isso teve sobre você?

Me lembro sim. Foi a música "Será". Ouvi através de um vizinho que escutava no repeat. Ele sempre ouvia o primeiro disco da Legião Urbana vezes seguidas, mas acredito que a música "Será" era sua canção preferida e se tornou a minha também por um bom tempo.

Você é compositora. Falando especificamente sobre o Renato compositor, o que você mais admira nele?

As letras em primeiro lugar, mas ele também fazia melodias incríveis. O trio Renato, Dado e Bonfá foi incrível, eles funcionavam muito bem juntos, mas o Renato também fazia melodias maravilhosas.

Se você pudesse escolher a obra de outro artista para fazer o mesmo mergulho que está fazendo agora com Renato, quem seria?

Sim, eu gosto de muitos compositores. Fica um pouco difícil responder esta pergunta agora, já que o show ainda não aconteceu. Mas acho que seria incrível cantar Los Hermanos, que é uma banda que gosto muito.

***

CLARA MORENO CANTA JORGE BEN JOR (05/07 | domingo - saiba mais)

Clara, como surgiu a ideia de gravar um disco para interpretar canções de Jorge Ben?

Em meus últimos discos, de sambalanço, tenho sempre colocado uma canção dessa fantástica obra de Jorge Ben Jor. Estava mexendo em meus projetos para escolha de um mote para um novo álbum. Foi quando me veio a ideia de regravar essa obra de significado tão grande dentro do samba-jazz, um ritmo contemporâneo da Bossa Nova, mas que porém não teve o mesmo olhar do público na época. Nessa sua primeira obra, o jovem Jorge Ben Jor colocava ali todo seu segredo rítmico em composições autorais, envolvendo toda essa música em sua aveludada voz, fazendo dessas músicas eternos hinos de seu vasto repertório.

O que guiou a escolha do repertório?

Ao escolher esse disco para regravar, e quando estava tudo formatado em minha cabeça, tive uma surpresa que eu não havia reparado na hora da escolha: todo esse repertório é extremamente popular. Como fazer isso sem cair na mesmice, já que todas essas músicas já haviam sido gravadas de todos os jeitos e por todas as pessoas?

Você optou por manter os arranjos originais ou quis recriar as canções à sua maneira?

Comecei a pesquisar como poderia caracterizar essas músicas à minha maneira. Foi então que achei em meu computador um velho disco do Leny Dale com Sambajazz trio, que era nada mais, nada menos que o trio de jazz do excelente pianista Luis Carlos Vinhas. O disco gravado em vinil me serviu como base de inspiração para os arranjos. E a partir disso, junto com meu fiel trombonista Paulo Malheiros, começamos a fazer os arranjos dentro desse segmento.

Por que Jorge Ben Jor é seu compositor favorito?

Tenho vários compositores favoritos, mas acho que essa obra se trata do início de um tipo de música importante no Brasil, pois além de ter muita brasilidade, criou-se aí um ritmo e por consequência um novo tipo de música, que marcaria uma época do país. E essa música que veio da periferia conta essa história.

Você se recorda da primeira vez que ouviu uma música dele e do impacto que isso teve sobre você?

A primeira vez não sei exatamente qual foi. Mas sei que sempre esteve em meu DNA musical. Suas letras leves e faceiras, misturadas com um ritmo de samba, e com acabamento e harmonia jazzistica me conquistaram desde sempre.

Falando especificamente sobre o Jorge Ben Jor compositor, o que você mais admira nele?

Acho incrível o vigor e energia que tem Jorge Ben Jor no palco, ele é um dos últimos compositores e inventores de um tipo de música. Ele está para o sambajazz como Tom Jobim esteve para Bossa Nova.

Se você pudesse escolher a obra de outro artista para fazer o mesmo mergulho que está fazendo agora com Jorge, quem seria?

Não sei dizer exatamente um nome agora, pois temos muitos(as) compositores(as) incríveis, mas gostaria de ir no mesmo segmento. Tenho um projeto lindo com meu amigo Paulo Malheiros, que fala disso. A história do samba no século passado através de seus compositores, tudo isso regado com uma big band. Quem sabe será meu próximo trabalho?

***

arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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