Conta Gotas: Hospícios Culturais

Parte A

Charenton 1.

Sobre a loucura. Qual é esse limite?

Meu primeiro show oficial – além-mini-concertos da cozinha do Antonio – foi num espaço chamado Charenton. Fica em Vigo, na Galícia. Esse lugar é um pouco de tudo: música, literatura, cinema, brechó e etc. Resumindo: foda!

E Charenton, a palavra, de onde vem? Que lugar é esse? Charenton é o nome de um antigo manicômio francês. Lá morreu Marquês de Sade.

A lua vem da Ásia?

Charenton me fez pensar em Campos de Carvalho, escritor mineiro que me foi apresentado pelo grande amigo e também escritor mineiro - além de compositor e músico - Enzo Banzo (esse ano Banzo lançou um bonito e inspirador livro chamado Poesia Colírica). Campos em seu primeiro livro, A lua vem da Ásia, relata-se em personagem como que de dentro de um manicômio. E o interessante é que nessa época, em que ele escreveu o livro, o hospício de Barbacena (também em Minas Gerais) efervescia da mais alta aglomeração e “deposição” de pessoas – com um critério bastante abstrato na seleção de seus “pacientes”!

Nesse momento, enquanto escrevo (29/06/15), pesquisei outra vez sobre o Campos e, por uma “coincidência” cósmica, encontrei essa matéria, publicado hoje sobre ele.

http://acervo.revistabula.com/posts/ensaios/campos-de-carvalho-a-vinganca-do-icone-iconoclasta

Maria, a mulher que alimenta as Gaivotas todos os dias na praia de Baiona, na Galícia, é profundamente conectada com as aves, enquanto as alimentava, em certo momento, chegou a conversar e dizer coisas como: você já comeu; e: falta uma! Ela nos disse que sim, que reconhece cada uma delas.

fotos: Wladimir Vaz

Dona Mercedes, avó de minhas primas Isabela Lima e Poliana Lima, esta com Alzheimer. Isabela fez um documentário com Dona Mercedes, ainda em finalização. Eu tive o privilégio de assistir o primeiro corte - e diga-se, é lindíssimo. Mercedes canta, conversa com o espelho, ri muito e repete: é melhor rir do que chorar, não? E sente! Escutando Roberto Carlos ela sentia, profundamente, saudades de alguém que já foi. É bonito de ver, é verdadeiro; no meio de seus pensamentos e palavras arquitetava frases destas que nós compositores, às vezes, passamos uma vida procurando. Que não seja obvia; que seja carregada, poética!

Nesse lugar alcanço Stela do Patrocínio que, abandonada pela família, esteve por quase trinta anos em uma colônia psiquiátrica e que, com suas frases fortes e geniais, provocou em Georgette Fadel, Lincoln Antonio e Juliana Amaral a necessidade – pra nossa sorte – de criarem o espetáculo “Entrevista com Stela do Patrocínio”, que também virou um álbum por Georgette e Lincoln.

O álbum Entrevista com Stela do Patrocínio: https://entrevistacomstela.wordpress.com/ouca-o-cd/

Parte B

Charenton 2.

Voltemos aqui pro meu primeiro show na Galícia. Esse do Charenton de Vigo.

Aconteceu aquilo tudo que descrevi no meu primeiro texto dessa série Conta Gotas. E não só pra mim, foi de fato uma meditação coletiva; parece um papo forçado, furado, mas garanto, não é. Foi uma troca energética das mais potentes e ao mesmo tempo suaves que já tive a oportunidade de ter. Talvez pelo espaço. Talvez pelo público. Talvez por mim.

Talvez por tudo isso junto.

Chegando ao final dele, desse primeiro show, me deu vontade de tocar Trovoa, do Maurício Pereira. No dia anterior Wladimir Vaz, Elena Balboa (meus queridos anfitriões na Galícia) e eu conversávamos sobre essa canção, eles me diziam o quanto gostam dela. Vendo-os nessa meditação pública me pareceu natural toca-la, o que nem sempre é fácil fazer sem esquecer uma palavra, mas que também nem tão difícil pra quem já a escutou o tanto de vezes que eu escutei! Dessa vez o texto se encaixou todo e foi organicamente fluindo. Foi tomando conta do espaço-hospício-cultural que estávamos. Quando escutamos essa canção parece que a compusemos, ou que a estamos compondo simultaneamente. Ela vai acontecendo e nós vamos ali, juntos, quase sem respirar! Ela nos pertence, nós a roubamos um pouco, ela nos devolve energia vital em doses, nos dá força de compartilhar, sufoca a solidão e, também, apruma o sentido misterioso do amor e de como amar.

Desde que comecei a botar gotas aqui nessa conta - e que junto passei a dedicar esses textos - já sabia que em algum momento um deles seria pro Maurício Pereira. E nesse texto, por várias razões, o homenageio. Entre uma diversidade de coisas listo sua generosidade comigo e com o Vitrola Sintética (Maurício participa do Sintético – nosso álbum em lançamento), também os papos fortes e provocadores que já tivemos, o exemplo como artista e pessoa que é, a inspiração como poeta que traz e etc.

Faço aqui uma pausa nesse ponto pra contar, ainda entre razões, do presente que ganhei do Maurício ao final da audição do Sintético. O presente foi escutar dele - que para mim é dos nossos maiores poetas da música - que esse nosso disco é um disco de poeta. Nunca me esquecerei dessa frase.

Por fim, amarrando loucura e razão, foi ele quem me apresentou o Entrevista com Stela do Patrocínio (em seu novo disco, o Pra onde que eu tava indo, ele regravou a faixa Medrosa -  a gente agradece por isso também!).

Gratidão a tudo: discos, poesia, loucura, sentimento, vida, liberdade e, principalmente, aos “Charentons” reais de cada dia. Eu vivo num. Convivo noutros.

Certamente morrerei num deles cercado de vários outros ilustres pacientes.

Medrosa – Maurício Pereira

* essa semana

3 Julho - Renovar a Mouraria | Lisboa, Portugal

4 Julho - Fnac Vasco da Gama | Lisboa, Portugal

7 Julho - Fnac Colombo | Lisboa, Portugal

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Felipe Antunes ver mais
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