Azoofa Indica: Marcia Castro

Dizem que o terceiro disco diz muito sobre a força de um artista e sobre a potência de seu futuro. O álbum número 3 de Marcia Castro, "Das Coisas Que Surgem", está na lista de trabalhos-setas, que chamam a atenção pelo que são e também pelo que apontam.

Depois de uma elogiadíssima estreia ("Pecadinho", 2007) e do criativo "De Pés no Chão" (2009), neste terceiro álbum - lançado em 2014 e que nomeia sua atual turnê - Marcia cortou o laço com seu lado intérprete e mostra suas próprias composições. É o primeiro disco em que a cantora é também compositora - cinco das 11 faixas foram escritas por ela. Mas por que só agora? "Faltava coragem e sentido", ela diz, em entrevista exclusiva para o Azoofa antes do show que faz nesta sexta-feira, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, em apresentação que deve misturar canções dos três álbuns. Saiba mais sobre o show aqui.

"Das Coisas Que Surgem" é também o disco onde Marcia deixa seu canto, que outrora vinha exuberante, mais contido, dando espaço para silêncios e para a produção de Gui Amabis falar mais alto. Ela diz que o produtor foi o grande incentivador para que este disco soasse diferente. Gui relembra o primeiro encontro. "Tiganá Santana nos apresentou em 2010, enquanto eu gravava meu primeiro disco, e foi muito massa. Nos identificamos de cara".

A partir deste primeiro encontro, os dois engataram a gravação de três faixas: "Na Menina dos meus Olhos” (Monsueto Menezes/ Flora Mattos), “Três da Madrugada” (Carlos Pinto/ Torquato Neto) e “Um Bom Filme” (Gui Amabis). E foi isso. Só voltariam ao álbum três anos depois.

O principal motivo da longa pausa foi que Marcia já estava com "De Pés no Chão" praticamente pronto e deveria lançá-lo naquele momento. Mas ambos admitem que este tempo serviu para que a relação entre artista e produtor amadurecesse. "Fomos nos conhecendo musicalmente até encontrar a margem que nos une", diz Amabis. "No final, foi um disco divertido de fazer e ficamos amigos".

Com o disco na rua, Marcia se apresentou em diversos palcos pelo país. O último show foi em casa - em Salvador - num evento gratuito no Parque Costa Azul. O público lotou o espaço e Marcia saiu de lá mais convicta ainda de que a arte deve ocupar cada vez mais os espaços públicos de qualquer cidade. "A arte aproxima as pessoas e traz solidariedade, o que amplia perspectivas sobre o próprio uso dos espaços públicos", diz ela.

Nesta entrevista, Marcia diz que o novo disco é fruto de sua mudança para São Paulo, aponta Mayra Andrade como uma das grandes cantoras do mundo e diz que a cena independente é um trabalho de formiguinha, mas que começa a colher os primeiros frutos.

AZOOFA: “Das Coisas Que Surgem” começou a ser gestado em 2010, mas você só o lançou no ano passado. No meio do caminho, veio o “De Pés no Chão”. Era necessário fazer e passar pelo segundo disco para depois dar o salto que você dá em “Das Coisas”?

Marcia Castro: Na verdade, era necessário amadurecer a linguagem que estava começando a surgir com o Gui Amabis, muito diferente de tudo que eu havia feito até então. E também havia o desejo de registrar as canções que eu estava fazendo com a minha banda. Por isso, o "Dé Pés no Chão" resolveu essas duas questões do melhor modo: me deu o tempo e o registro. Tinha que ser exatamente assim.

Há um clima de saudade, solidão e reflexão sobre o amor que permeia quase todas as letras do disco. E ele foi feito no momento em que você decidiu se mudar pra São Paulo. A cidade te influenciou de alguma maneira?

Esse disco é totalmente a minha relação com São Paulo, desde a linguagem estético-musical às letras. Por isso, a saudade, a solidão…. Sentimentos que inevitavelmente acaba por nos tomar nessas grandes metrópoles. Eu queria fazer um disco onde São Paulo fosse a grande inspiração. É esse.

Qual a importância do Gui Amabis para que você tivesse a coragem de explorar outros territórios nesse disco?

Gui sempre me encorajou a me jogar nessa linguagem musical mais minimalista, sempre me incentivou a mostrar minhas composições, me lançando numa construção extremamente autoral. Sem medos. Nesse sentido, ele foi fundamental.

Queria que você falasse sobre o formato físico do disco. Como ele foi idealizado?

Eu queria ter um encarte que desse conta desse “improvável”, do “minimalismo” que estão na estética e no discurso. As fotos foram idealizadas e realizadas por uma das artistas visuais que mais admiro atualmente, Virginia de Medeiros, que trouxe esses atributos nas imagens, onde estou despida e sendo atravessada por particulas brancas e azuis. É o boom do que surpreendentemente é revelado, criado.

Mayra Andrade canta contigo no disco (na faixa "Na Menina dos Meus Olhos") e fará uma participação no show de sábado no Festival da Serrinha. Como você conheceu a Mayra e como rolou convidá-la para participar do disco em “Na Menina dos Meus Olhos”?

Conheço Mayra desde 2009, quando ela estava no Brasil gravando seu segundo disco. A Mariana Aydar nos apresentou. Ela veio passar o reveillon em Salvador e ofereci minha casa. Desde então, não nos desligamos. Muito pelo contrário, nos tornamos grandes amigas. E participamos intensamente dos processos de criação dos nossos discos recentes. Por isso, achei que tinha muito a ver convidá-la para cantar "Na Menina dos Meus Olhos". Considero Mayra uma das melhoras cantoras do mundo da minha geração. É sempre uma honra poder cantar com ela.

Por que só agora, neste disco, você resolveu mostrar seu lado compositora?

Coragem e sentido. Me sentia tímida e não via o sentido em revelar essas canções antes, intuitivamente. Agora, fazer isso é um grande prazer. Porque compor é também revelar o seu lugar mais fundo.

Quando você começou a compor?

Aos 18 anos já rabiscava alguns versos. Tenho muitas coisas guardadas.

É uma atividade natural e intuitiva para você?

Totalmente natural e intuitiva. Por isso, o iPhone é um grande parceiro. Quando um verso ou melodia surgem nos lugares mais improváveis, ele está lá para nos socorrer no registro.

Em “Sem Mistério”, você fala de como é importante que nós convivamos com pessoas diferentes da gente, como forma de deixar a vida sempre renovada. Mas, no geral, as pessoas tendem a não dar espaço ao que é diferente, não veem a beleza que isso tem e pode causar nas nossas vidas e buscam o que é espelho. Consegue arriscar o por que?

A gente vive a era do “já sentido”. As pessoas preferem reconhecer sensações, sentimentos, pessoas já vistas, que criam a ilusão da segurança, do que se lançar no mistério, no desconhecido. É algo do nosso tempo. Como eu sempre pulsei na frequência do risco, crio dinâmica em minha vida, fico plena de experiências das mais diversas possíveis. Posso entender e amar mais o mundo desse jeito.

Neste disco, você canta canções de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, Arruda, Lucas Santtana, Gui Amabis… Como intérprete, o que uma canção precisa ter para chamar sua atenção hoje?

Precisa revelar algo de mim. Para eu poder tomá-la como minha, para eu me sentir co-autora. Só vale se for assim.

Como compositora, quais são suas principais referências? Tem alguma compositora ou compositor cuja obra seja arrebatadora para você?

Vários. Especialmente Caetano, Gil e Chico. Essa tríade me arrebata. Mas tem muitos outros também. Tem Rita Lee e Dolores Duran. Tem Tom Jobim. O Brasil é muito farto de excelente compositores.

Você e Lucas Santtana sempre são citados quando se fala de uma música baiana “contemporânea e fora do clichê atribuído ao gênero”. Quais outros artistas da Bahia você acha que estão fazendo este movimento involuntário de trazer outros elementos para a música feita lá?

Tem o Baiana System e o Russo Passapusso. Tem o Fael Primeiro. Os DJ’s Mahal e Rafa Dias. A banda de afrobeat IFÁ. Tem Larissa Luz e a Orquestra Rumpilezz. Tem O Quadro. Tem Bruno Capinan. Estamos realmente vivendo um momento muito bacana de produção musical.

Você tocou sábado passado em Salvador, no Parque Costa Azul, num evento gratuito e em local público. O show lotou e, depois, você escreveu que aquela experiência "te fez desejar uma cidade onde os espaços públicos possam ser ocupados com arte". Você recentemente também se apresentou na Virada Cultural, outro evento gratuito e realizado na rua. Que sentimentos você tem ao tocar pra tanta gente, e tanta gente que normalmente não poderia ir a seu show?

É uma troca muito doida que acontece nesses eventos que acontecem gratuitamente e em espaços abertos. A gente fica feliz em poder dar esse acesso. Eu me sinto extremamente recompensada, não apenas por ver a felicidade de quem está ali curtindo o som, mas por ser um trabalho também de formação de público, de poder mostrar o que está acontecendo fora dos grandes centros midiáticos. Eu acredito nesse sistema. Obviamente que é um trabalho de formiguinha, um trabalho de mostrar outras estéticas de som, de fomentar um publico pagante logo ali na frente, o que também é muito importante. O mercado independente sempre caminhou lentamente e hoje temos visto importantes resultados dessa caminhada.

Ocupar espaços públicos com arte é uma forma de resgatar uma experiência de convívio social, que vai se perdendo por conta do excesso de experiências virtuais que estamos vivendo diariamente e cada vez mais?

Não apenas pelo excesso de experiências virtuais, mas pelo próprio estrangulamento dos espaços públicos, por esse urbanismo que afasta o convívio social, pela violência das cidades. Quando você ocupa a rua com arte, você traz um novo sentido àquele espaço, um sentido criativo, que aproxima as pessoas, que traz solidariedade, que amplia perspectivas sobre o próprio uso dos espaços públicos. Lá no Parque Costa Azul em Salvador, onde cantei no último final de semana, era visível a felicidade das pessoas, o desejo de poder ter acesso a arte num espaço em frente ao mar, um espaço sucateado, abandonado e extremamente potente enquanto local de trocas humanas e artísticas. A cidade é do povo e deve ser ocupada de modo a trazer sensações positivas, sentimentos positivos. É preciso de fato trazer esse sentimento de solidariedade, de alteridade, despertando um convívio social além das fronteiras digitais.

***

arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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