Entrevista: Sheila Cretina

Sheila Cretina e eu.

O show dos caras é uma porrada. Quase botou a Sensorial Discos da Rua Augusta abaixo, quando tocaram lá, no começo deste mês. Sujo, barulhento e frenético – sendo a última característica a preferida deles – resume bem o som – e o show – da banda Sheila Cretina, formada por Gustavo McNair (vocal/guitarra), Rodrigo Ramos (guitarra/vocal), Jairo Fajersztajn (baixo/vocal) e Caio Casemiro da Rocha (bateria).

Acredito que a casa nunca havia recebido uma banda tocando tão alto. E não digo isso pelos earplugs nos ouvidos dos garçons – nem pela cara feia de alguns deles – mas sim pela presença não esperada de uma viatura de polícia durante o evento. Pedir para abaixar o som da Sheila? Falou, então...

Conheço o pessoal há anos e faz tempo que vinha combinando esse papo. Nada melhor do que conversarmos depois de uma apresentação visceral e impecável dessas, mas, logicamente, em outro lugar, já que estávamos quase sendo conduzidos pessoalmente para a fila do caixa à fim de encerrarmos nossas atividades no local o quanto antes. Verdade também que a casa fecha cedo, logo após aos shows que ocasionalmente acontecem lá, e sabíamos disso.

Partimos a pé em busca de um bar próximo, entre amigos, os músicos e a equipe do Azoofa. Nem chegamos a andar 10 minutos, quando alguém sugere:

– Pô, vamos lá pro ap do Gustavo! Tem várias cervejas e vocês podem trocar ideia tranquilo, sem pressa.

E para lá, um prédio na Avenida São Luís, seguimos e falamos sobre como tudo começou, as influências, sobre ser uma banda independente na cidade e o que vem pela frente nas visões distintas das quatro cabeças pensantes. Pela janela, uma perfeita representação visual da identidade da Sheila Cretina: o caos da selva de pedra, o centro de São Paulo.

Segue:

AZOOFA - Vocês estão juntos há seis anos. Como surgiu a banda?

Gustavo - Foi na faculdade, eu estudava junto com o Jairo e ele conhece os caras (Caio e Rodrigo) desde sempre.

Jairo - Eu e o Gustavo estudávamos na mesma faculdade, eu conheço o Caio desde que eu nasci e o Rodrigo desde quase isso. Comecei a fazer um som com o Gustavo na facul e aí...

Gustavo - O Jairo ficava agitando toda hora: “Vamos fazer uma banda, vamos tocar e tal...”. Aí um dia a gente fez um som, nós três (Gustavo, Jairo e Caio).

Jairo - Antes disso nós dois já tínhamos tocado juntos e eu já tinha falado pro Caio: “Quero montar uma banda com esse cara, esse cara vai ser o vocalista da minha banda!”.

Caio - Mas no dia que em que nos conhecemos (Gustavo e Caio), ia rolar um ensaio com um outro amigo junto também, não? Vocês me deram uma carona e tinha até um baldinho de cerveja no carro...

Gustavo - Isso, aí demos uma carona (e uma breja) pra você e fomos fazer um som. Mas na primeira vez que tocamos já tinha o Rodrigão?

Caio - Não.

Rodrigo - Reza a lenda que rolou esse ensaio sem mim.

Caio - Rolou o ensaio sem ele e quem teve a ideia de trazer o Rodrigo fui eu. Eu era muito amigo do Fernando, irmão dele, estávamos fazendo muitos rolês juntos e pensei: “Vamos chamar o Rodrigão, ele toca guitarra e tal...”.

Gustavo - Resumindo: os caras se conhecem desde sempre e já tiveram bandas antes, quando eram mais moleques. Eu tava sem banda (e querendo entrar para uma), o Jairo agitou, um dia a gente fez um som juntos e aí o Rodrigão entrou nos primeiros ensaios, afinal precisa ter solo e o caralho (risos). A gente começou fazendo uns covers, eu já tinha umas músicas na manga, aí já saímos tocando a música “Um”, a “Vol.II”, e a “E Não Se Ouve Nada” logo de cara. Nossos primeiros shows tinham cinco, seis músicas.

Caio - Duas nossas e quatro covers.

Definam o som de vocês!

Caio - Rock n’ roll.

Gustavo - Sheila Cretina. Rock n’ roll, cara. Em uma palavra? Tipo Marília Gabriela? (risos)

Pode ser em uma palavra, em uma expressão, algo que vem à mente...

Gustavo - Fazemos o som que queremos ouvir. Acho que isso é uma boa definição. Nacional, cantado em português.

Caio - Eu sempre falo uma coisa pros donos das casas que tocamos, pra quem vem elogiar e tal: “Honesto, né?”. Um som honesto, fazemos isso. Dá pra ver que nos esforçamos.

Gustavo - Rock n’ roll frenético, barulhento, gritado, desesperado, noiado, caótico.

A Sheila Cretina faz parte do Tsunami Coletivo, junto com Emicaeli, Câimbra, Badtrip Surfdeath, Sløv e Leite Paterno. Qual a importância de coletivos como esse para bandas independentes?

Gustavo - É difícil achar lugar pra tocar. Ficamos reféns de lugares pra tocar e a coisa ainda tá muito ruim nesse sentido. Essa história é velha, falamos isso sempre, mas ainda continua uma merda. O mais legal de coletivo é fortalecer uma coisa independente mesmo, sem ser dogmático. Pegar gerador, tocar na rua e passar o chapéu ao invés de tocar só em casas, onde você fica refém do serviço do cara, o que não é ruim, mas que não tá dando certo em São Paulo agora por algum motivo.

Caio - Isso é reflexo do século XXI, de muita informação, muito conhecimento, então rola uma criação de nichos. Pequenos nichos, hoje em dia, estão ficando maiores, há cada vez mais registro e história e é uma tendência da galera, dos amigos se juntarem (pelo menos eu vejo assim, com a gente e com um pessoal de fora também). É bom, porque quando rola alguma outra festa de outro coletivo, junta muita gente. São nichos muito potencializados.

Gustavo - Não tem cena generalizada, é tudo muito exclusivo. Em um coletivo, você usa essa ideia de exclusividade, só que você chama as pessoas. Acho que é o lance pra fortalecer, mesmo. Não tem cena, não se forma uma cena por vários motivos, por lugar, por vontade da galera.

Caio - A onda nem é ter cena. É ficar de boa, fazer o seu som e tal.

No Brasil algumas casas preferem que a banda independente toque um ou outro cover pra chamar a galera. Na gringa é o oposto, o pessoal exige músicas autorais, e ainda assim, é mais fácil para uma banda de médio porte conseguir viver só de música. Na opinião de vocês, por que aqui no Brasil é difícil viver de banda, sendo independente, fora do mainstream?

Rodrigo - Acho que, sendo prático, é difícil encontrar um lugar onde você vai sempre ver banda boa e independente. Óbvio que tem vários, mas eu tô falando do circuito que a Sheila toca. Hoje, em qualquer lugar que você for tocar, a estrutura é muito ruim. É difícil ter uma bateria boa, amplificadores bons, é raro tocar em lugar onde você escuta bem o que você está tocando. Nós tocamos alto pra caralho, temos ciência disso, mas fazer o show da Sheila não é fácil. A maioria dos shows que a gente faz, ninguém se escuta direito. É um ciclo que não dá pra entender. As casas não valorizam as coisas que tão rolando, você fica largado num cantinho, ganha três cervejas e um cachezinho vagabundo. Se muito tem um lugarzinho pra você guardar suas coisas. E é isso.

Em 2011 saiu o primeiro EP, Vol I. Soube que o segundo já está no forno. Quando sai? Quais as principais diferenças do novo álbum, tanto na parte de criação, quanto na sonoridade e evolução da banda?

Gustavo - Acho que evoluiu bastante, mudou. Tem mais uma “cara”, as músicas são mais complexas, tá legal pra caralho.

Caio - Conseguimos formar uma identidade, tipo: “o som da Sheila Cretina é isso”. (Na hora de criar) o Gustavo faz um riff e já pensamos juntos, acompanhamos. Diferente de antes.

Gustavo - O segundo disco é uma continuação do primeiro. O segundo tem mais músicas, também.

Rodrigo - Eu acho que conseguimos reafirmar uma coisa que havíamos descoberto. Não entendíamos porra nenhuma, fazíamos uma monte de música sem saber nada e acho que, até por isso, gostamos de tocar mais as músicas do segundo.

Gustavo - São músicas mais trabalhadas, ideias mais certeiras, menos letra e mais instrumental. Tá sendo gravado há bastante tempo, mas vamos lançar esse ano. Tá pra sair!

Caio - Quando percebemos que as músicas que estávamos fazendo tinham a ver com o nome maluco que havíamos dado... a estética, o lance de ser frenético, agressivo, mas ao mesmo tempo não pegar tão mal, parecer uma piada, mas não ser, na hora de incorporar o jeito de tocar da Sheila, tipo saber o que fazer ao ouvir o primeiro riff no ensaio, rolou uma união.

Vocês tem planos pra lançar em vinil?

Gustavo - Queremos lançar um LP, mas ainda não será esse. Esse vai sair na internet, talvez sem CD. Aí depois queremos fazer um LP com mais músicas, de repente com umas músicas do primeiro e do segundo, fazer um disco grande, afinal, se é um LP tem que ter mais que sete músicas! As músicas da Sheila são curtas, cabem várias em um disco, então vamos lançar um disco irado com todas as músicas que a gente já fez e mais algumas que ainda vamos fazer! (risos)

Caio - Uma grande coletânea da Sheila, praticamente. Eu não sabia disso...

Vocês acham que vale a pena pra uma banda independente lançar um disco em vinil hoje em dia?

Caio - Vale, sim. É um negócio atemporal.

Gustavo - Financeiramente ainda é bem difícil. É bem caro lançar, prensar e não vende bastante. Rock nacional independente não é o que tem mais saída em lojas de disco. Vale a pena porque é legal ter em vinil, é um material animal da banda.

Vocês preferem que as pessoas conheçam o som de vocês indo ao show ou ouvindo pela internet? 

Jairo - Show é muito melhor. Show tem energia, tem a parada acontecendo ali, você reproduzindo com a alma na hora, naquele momento. CD é uma reprodução de algo que aconteceu no dia tal e que ficou lá. O clima na hora, o sentimento na hora, a galera, o espaço, a qualidade do som... é outra coisa.

Caio - Se o cara vai ao show é mais fácil pra ele saber se é bom ou ruim.

Gustavo - No show a gente não reproduz fielmente tudo, então tem vida, é mutante.

Jairo - Pela internet ou pelo disco você escuta o som, acompanha a letra, talvez veja a arte do material. No show você vê a performance, o cara balançando a cabeça, mexendo a mão, tocando a guitarra, fazendo o solo, gritando mais, gritando menos, com raiva, feliz... acho que é mais natural.

Gustavo - Sheila é banda de palco.

Obviamente vocês são diferentes uns dos outros. O som pesado que vocês fazem representa todos vocês?

Jairo - Com certeza o nosso som representa nossas raízes, nossas vontades. A banda não é o nosso ganha pão, não fazemos isso por dinheiro, não temos um puta público, então fazemos mesmo o que sai da nossa alma, o que sentimos, o que gostamos e está totalmente de acordo com a raiz de cada um. A partir do momento que não estiver, não vai ser, não vai existir e não vai acontecer.

Caio - O Gustavo manja muito de anos 60, 70. Ele tem uma pegada muito rock n’ roll, os riffs e tal. Eu, particularmente, sou mais do metal, então ele chega com essas influências, eu ouço e faço um negócio mais rápido, porque sou acostumado a tocar rápido, e acaba virando essa mescla de peso e velocidade, rock n’ roll frenético. As vezes saímos do show e o pessoal fala: “Legal, banda de hardcore.”. Mas não é uma banda de hardcore, é uma banda de rock n’ roll. É uma mescla dessas influências do Gustavo e o nosso background de peso.

Gustavo - Acho que tudo parte da vontade de ouvir. Tipo: “Podia ter um som assim, olha esse riff que louco!”. Tem que cantar em português porque é o que a gente quer falar! A banda é o que a gente é, de São Paulo e tal.

Já que falamos na Marilia Gabriela, agora é a hora. Sheila Cretina por Sheila Cretina. 

Gustavo - Frenético.

Caio - Porra, eu ia falar “frenético”.

Jairo - Como o Caio falou no começo, “honesto”.

Rodrigo - Sheila é cretina.

***

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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