Azoofa Indica: Jair Naves

Jair Naves sobe ao palco da Casa do Mancha nesta sexta-feira para abrir o festival de bolso da Agência Alavanca, que ainda terá ruído/mm (sábado) e Selton (domingo) - saiba mais aqui. O músico apresenta canções de seu mais recente disco, "Trovões a Me Atingir", lançado em fevereiro deste ano.

O álbum - o segundo de Jair depois do Ludovic - traz nove canções inéditas que, em parte, desmentem o título do disco. Os trovões, que visualizamos nas letras e sentimos na angústia de alguns arranjos, de fato atingem Jair, mas ele parece sair da tempestade ainda mais confiante e algo esperançoso.

Com exclusividade para o Azoofa, Jair comenta sobre a apresentação desta sexta-feira, a percepção de que seu público aumenta devagar e constantemente e diz que o músico independente não pode ser apenas o ente criativo do processo. "A era do artista romântico, mimado e alheio às obrigações mundanas acabou por completo".

Confira os melhores trechos:

AZOOFA: As letras de “Trovões a Me Atingir” são quase sempre em primeira pessoa. Você acha que isso é apenas um caminho natural que você encontrou na hora de compor, ou esse disco é de fato seu trabalho mais pessoal e íntimo?

Jair Naves: Engraçado, confesso que não tinha me dado de que as letras são praticamente todas em primeira pessoa. Você tem razão. Minhas músicas são sempre muito confessionais, mesmo quando vão para uma linha menos direta, mais metafórica, como é o caso desse disco. É um álbum de conteúdo extremamente pessoal, a tal ponto que em determinado momento das gravações eu pensei que, mais uma vez, estava correndo o risco de estar registrando algo que poderia ser completamente incompreensível para outras pessoas – tive essa mesma sensação com o EP “Araguari”, meu primeiro disco solo. Ainda assim, naquele momento específico da minha vida senti necessidade de dizer aquelas coisas. Mesmo que não fosse perfeitamente compreendido pelos eventuais ouvintes, foi o que me motivou a gravar esse álbum.

Especialmente neste disco, as letras podem provocar diferentes interpretações – “ele está falando de amor? de amizade? de religião?”. Você se preocupa em usar a palavra e a língua a favor da imaginação do ouvinte?

Nem sempre, normalmente é o oposto, mas dessa vez eu quis deixar tudo um pouco mais aberto sim. Creio que depois dos meus últimos registros, senti a necessidade de me expor menos nas letras. Como eu disse anteriormente, minha intenção era deixar os versos mais vagos, usar imagens para descrever sensações e impressões do mundo. Gosto desse tipo de letristas e escritores, mais misteriosos, como o Herberto Helder e o Michael Stipe, para citar os primeiros dois exemplos que me vem à mente.

Lembro que, quando o “Trovões a Me Atingir” foi lançado, uma pessoa me escreveu dizendo “Jair, ‘Resvala’ é sobre política, né? TEM QUE SER, porque faz todo o sentido!”. E para mim é uma das canções em que eu tinha sido mais explícito sobre o que eu queria dizer, que não era exatamente isso (risos). Mas foi uma leitura de que eu gostei. A mesma coisa acontece muito com “Deixe/Force”. Depois do show de lançamento do disco, a única ocasião em que tocamos essa ao vivo até agora, outra pessoa veio me agradecer pela canção, pois ela tinha ajudado muito essa figura a aceitar melhor determinados aspectos da sua personalidade, natureza ou coisa assim. Foi um exercício interessante, deixar as coisas um pouco mais no ar dessa vez.

Você chegou a falar em entrevistas que o processo de gravação do disco foi angustiante, começando pela insegurança em captar recursos. Como você lida com esse lance do artista ter que se preocupar com diversas áreas da música que não são nem um pouco artísticas?

É o preço que se paga por ser um músico independente. Não acho ruim, na verdade creio que a era do artista romântico, mimado e alheio às obrigações mundanas acabou por completo. É cada vez mais necessário para qualquer um que se meta a fazer parte desse nicho ter o maior controle possível sobre a sua carreira, cada aspecto que a cerca.

Por outro lado, foi um processo bem angustiante dessa vez. Começando pelo crowdfunding, passando pelo atraso nas gravações e consequentemente no lançamento do disco, enfim... tenho orgulho do resultado que conseguimos e acho que no fim tudo valeu a pena, mas eu estaria mentindo se dissesse que foi meu trabalho mais tranquilo. Definitivamente não foi.

Senti uns ecos de Arnaldo Baptista em “Prece Atendida”. Tem algo dele ali?

Sério? Legal, é a primeira vez que ouço isso. Quando saiu, lembro de um amigo ter comparado com o Bill Callahan, do Smog – “estranhíssimo”, nas palavras dele. Juntando as duas referências, acho que dá uma boa noção do que é a música sim.

Eu costumo ver você em vários lugares da cidade. De longe, tenho a impressão que você conhece bastante São Paulo e aproveita muito as opções culturais/musicais da cidade. Como é a tua relação com São Paulo?

Esse lado da São Paulo é o que mais me encanta na cidade. A bem da verdade, é um dos fatores que me prendem aqui. As opções culturais são inúmeras, em todas as áreas. E eu encaro como obrigação de qualquer um que se proponha a se expressar artisticamente ir a shows, cinemas, exposições, etc. Acabo me alimentando muito disso no processo de composição e no que eu produzo musicalmente.

O show desta sexta será na Casa do Mancha. Você já tocou por lá. Como é fazer show lá, quais memórias você tem da casa?

Já tocamos algumas vezes na Casa do Mancha, pelo menos uma vez por ano estamos lá. Trata-se de um dos meus lugares preferidos de São Paulo. A atmosfera é ótima, as pessoas que trabalham com o Mancha são sempre muito atenciosas, acolhedoras e mesmo a programação da casa é bem interessante. Lembro que, por volta de 2011, tinha um pequeno muro na pista, para proteger o lugar onde ficava a mesa de som. Sempre que tocávamos lá, eu gostava de encerrar a apresentação subindo no muro e coisas assim. O Mancha me contou que, quando eles reformaram a casa e derrubaram aquilo, ele pensou: “poxa, o Jair vai sentir falta” (risos).

No mais, é um desafio fazer shows em lugares tão intimistas, que te colocam cara a cara com as pessoas. Alguns dos melhores shows da minha vida foram em circunstâncias assim, tanto quanto espectador como quanto músico.

Eu vejo muita banda/artista fazendo disco, tentando fazer shows e com grande dificuldade de formar público. Como você tá enxergando esse atual momento do músico independente? O que te parece o principal desafio agora?

Tá aí uma questão complexa, prometo que vou tentar não me alongar muito. Em termos de produção artística, o momento é dos melhores. A cada semana são lançados trabalhos inspiradíssimos, nas mais diferentes vertentes. Isso por si só é animador, ainda que já tenhamos vivido fases melhores no que diz respeito a espaços para shows, venda de produtos e agenda de apresentações. Num quadro geral, creio que tornar essa uma atividade sustentável é um desafio considerável para qualquer um que se aventure como músico. Construir uma trajetória nesse meio requer uma dedicação enlouquecedora, um tanto difícil de conciliar com outras atividades profissionais. Partindo desse ponto, as dificuldades são cotidianas e envolvem todos os aspectos do ofício. É um mercado ainda em construção, que embora ainda esteja longe do ideal, já me parece bem melhor do que era há alguns anos.

Embora você tenha uma visibilidade muito boa – de imprensa, de base de admiradores, etc - você também sente essa dificuldade de criar público?

O trabalho de conquista de público também é constante. Nenhum dos projetos em que estive envolvido até hoje foi exatamente um fenômeno de popularidade, algo que tenha explodido do dia para a noite. Do Ludovic para cá, tenho a impressão de que estou subindo um degrau por vez, lentamente, a cada novo lançamento, show ou coisa assim. É um planejamento a longo prazo. Torço para que, quando essa luta toda tiver se encerrado e eu não estiver mais fazendo música, as pessoas ainda se lembrem das minhas canções com carinho, como algo que ainda faz algum sentido. Essa será a maior vitória possível.

Você lançou o disco no começo do ano. Como tem sido levá-lo ao palco? Como você construiu – ou está construindo? – este show que veremos na sexta?

Esse é o disco musicalmente mais maduro e bem trabalhado da minha carreira. São arranjos mais difíceis, com mais detalhes e nuances, então até aqui fizemos quase todos os shows com uma banda de oito músicos. Curiosamente, esse show do Mancha será uma espécie de volta às origens com uma formação mais enxuta. Tocamos recentemente em São Carlos com esse formato e foi ótimo. Espero que no Mancha não seja diferente.

Queria que você me dissesse o disco que você mais escutou este ano (vale qualquer disco, de qualquer época) e o filme que mais te marcou em 2015 (vale qualquer filme, de qualquer época) e o livro mais interessante que você leu este ano (vale qualquer livro, de qualquer época).

Posso escolher dois de cada?  O disco que mais ouvi esse ano foi uma descoberta tardia: “I’m New Here”, do Gil Scott-Heron. Sabe essas coisas que parecem só aparecer quando você está pronto? É um pouco a relação que eu tenho com esse álbum. Outro que tenho ouvido bastante é “De Baile Solto”, do Siba. Os arranjos são brilhantes, e as letras têm muita personalidade também. Certamente estará entre os destaques nas listas de fim de ano.

Os filmes que marcaram meu ano até aqui são um tanto diferentes entre si. O primeiro é “Terra de um sonho distante”, do Elia Kazan. Incrível como ainda parece atual na forma que aborda a questão da imigração. E o outro, inegavelmente, foi “Montage of Heck”. Pode soar estranho por se tratar de um documentário que disseca a intimidade de uma das figuras mais adoradas das últimas décadas, mas ao mesmo tempo é também um filme que diz muito a respeito da minha geração, do que motivou meus colegas de escola a aprenderem a tocar guitarra, terem suas bandas e coisas assim. Me proporcionou uma viagem no tempo. Foi uma experiência das mais intensas emocionalmente.

Por fim, para resumir, os livros que mais me marcaram em 2015 foram a biografia do Ingmar Bergmam, “Lanterna mágica”, e “The Happy Birthday of Death”, do Gregory Corso.

A última é uma repetição de 3 perguntas que a Clarice Lispector fazia aos seus entrevistados. Qual é a coisa mais importante do mundo?

Paz interior.

Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo?

Amor próprio e auto-aceitação.

O que é o amor?

A única motivação verdadeiramente aceitável, para o que quer que seja. Com o perdão do clichê, a lei maior.

***

arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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