Entrevista: César Lacerda

Nascido em Diamantina/MG, César Lacerda possui um currículo invejável, mesmo ainda não tendo chegado aos trinta anos. Shows em Cuba, Uruguai, Holanda, Alemanha e Itália, além de apresentações em importantes casas brasileiras e parcerias com fortes nomes da nossa música, como Lenine, Juçara Marçal, Cícero, Emicida e Paulinho Moska pavimentam a promissora estrada do cantor e compositor.

Após oito anos vivendo no Rio de Janeiro, onde lançou e divulgou seu primeiro trabalho, Porquê da Voz, em 2013, chegou a hora de descobrir – e ser descoberto por – São Paulo, em uma fase onde tentamos cada vez mais quebrar o paradigma de que somos hostis e pouco acolhedores. E para seu nome ecoar mais por essas bandas, nada melhor do que promover aqui seu novo disco, Paralelos & Infinitos, baseado exclusivamente em seu relacionamento amoroso com a atriz Victoria Vasconcelos.

Leve e delicado, porém maduro, o álbum trata da relação e do amor de uma maneira otimista, segura e confessional, evidenciando a realização que é amar, e celebrando o vínculo com a parceira. Sobre o lançamento, a vida na Selva de Pedra e alguns outros projetos, conversamos em uma ensolarada tarde de sexta-feira no Parque Buenos Aires, região central da cidade.

AZOOFA - Paralelos & Infinitos é o seu segundo disco, mas você já tem bagagem. Parcerias respeitáveis e turnês pela Europa e América do Sul reforçam o crescimento que você vem vivendo. O novo álbum é o marco desse amadurecimento?

Não acho que agora dei um passo que amadureceu uma certa história. Não entendo dessa maneira, não. É até engraçado, esse disco não foi pensado. Estava trabalhando em outro álbum, que até pretendo lançar em breve, mas Paralelos & Infinitos foi sendo projetado da seguinte maneira: o Pedro Carneiro, que é o produtor (e assistente do também produtor Chico Neves, responsável por discos de bandas como Los Hermanos, Lenine, Paralamas, Skank e o Rappa), tinha comprado uns instrumentos e microfones antigos e me chamou pra ir à casa dele testar os equipamentos. E aí eu fui despretensiosamente. Com o tempo – e algumas visitas - fui percebendo que aquilo era um disco! E a ideia de gravar tudo um pouco, sozinho, foi ganhando essa dinâmica pra virar um disco. No meio desse processo eu ainda fui pra Europa pra fazer turnê, então o disco não veio a partir de um amadurecimento. Eu acho que ainda é uma caminhada. Quando eu ouço o disco, eu sinto que o reflexo de uma série de coisas que eu venho pensando e sentindo tão ali. Acho também que a pessoa que ouve o Porque da Voz e depois, por exemplo, coisas que eu fiz nesse meio tempo, como os tributos aos Novos Baianos e ao Clube da Esquina, percebe uma caminhada pra Paralelos & Infinitos. Eu penso muito nele como isso, algo que foi se transformando. O disco é, mais do que um ponto de chegada, o exercício de uma transformação que ainda continuará permanecendo transformação, sabe?

Muito interessante suas participações nesses tributos à Novos Baianos e Clube da Esquina. Você é mineiro, mas se inspira bastante no baiano Caetano Veloso. Suas influências estão mais pra Clube da Esquina ou pra Novos Baianos? 

Novos Baianos é um acontecimento musical brasileiro que, qualquer um tem conhecimento da música e deles sem ter uma reverberação conceitual do tipo conhecer todos os discos e tudo mais. E no meu caso é muito assim, eu fui me informando com o tempo. Muito diferente de Clube da Esquina que, com 14 anos, já havia comprado o primeiro disco, depois li Os Sonhos Não Envelhecem (de Márcio Borges, contando as histórias da turma). É tudo muito ali, naquele momento da adolescência que você devora as coisas com muita veemência. Mas quando o (coletivo) Jardim Elétrico me convidou pra fazer (a música) “Mistério do Planeta”, eu achei maravilhosa a ideia, porque tem uma coisa do gesto estético inicial dos Novos Baianos que tem um lugar de encontro comigo, que é João Gilberto. Mas aquilo que virou depois, aquela informação do samba, stricto sensu, não é uma coisa eu tenho tanta aderência, não. E daí eu pensei: preciso fazer uma versão que tenha a ver comigo e ao mesmo tempo não reproduza aquilo que já é excelente com os caras. Não tem porque eu fazer igual. Aí eu fiz aquela versão que é quase sem tempo, quase que uma balada pra trás. Até porque eu acho que o discurso dessa música tem a ver com isso.

Acho que no meu processo musical, Clube da Esquina tem muito mais reverberação. Já tem um tempo que alguns grupos se reúnem pra fazer esses tributos. Isso é superinteressante, porque gera a possibilidade de que você encontre na obra desses caras um eco com a sua obra e tente reformular aquilo. No caso dos Novos Baianos foi muito isso. No caso do Clube da Esquina, aquilo está muito em mim. Eu ouvi muito Clube da Esquina, em Minas se ouve muito Clube da Esquina. Eu tenho a impressão que o primeiro show que eu vi na vida foi do Lô Borges, em Diamantina, numa rua que eu vivi. A Rua da Quitanda que, é uma rua relativamente grande pra cidade, é toda contornada de casarões de dois andares, com sacadas neles, onde as pessoas ficam ali, curtindo aquela vida de interior. E aí, como é uma descida, o palco ficava embaixo. Bicho, eu lembro da música “Paisagem da Janela”, do Lô com aquele jeitinho de tocar igual ao John Lennon, abaixando o joelho. Foda, emocionante. Mas a versão que eu toquei (“Pedras Rolando”), por acaso é do Beto Guedes, um lado B, de um disco chamado Sol de Primavera, acho que é o terceiro dele. Recentemente eu fui na casa do Milton (Nascimento) com o pessoal da Toca Vídeos, que foram os produtores desse projeto, e descobri que ele ama essa música! Primeiro que ficar do lado do Milton já é insuportável. Eu não tenho nada pra falar com ele, sabe? É tipo: “Oi, tudo bem, tchau”. Não fico perto, ele é muito importante pra mim. Aí eu assisti ao vídeo com “O” cara ao meu lado, sabendo que ele gostava da música. Vontade de vomitar, morrer, desligar a TV.

E o Bituca deu um parecer? 

Cara, ele falou que gostou muito, do projeto e da versão, mas com aquele jeito dele muito retraído. Fiquei feliz pra caralho com esse retorno. Com os Novos Baianos eu não faço nem ideia se eles gostaram. Mas também não quero saber, não... (risos).

Você é um mineiro que viveu muitos anos no Rio de Janeiro e agora está em São Paulo. Em que a Paulicéia interferiu na concepção do álbum?

A concepção do disco novo não teve interferência da cidade em si, mas eu acho que o fato de eu ter vindo pra cá, do lançamento ocorrer aqui... o mercado atualmente tem um pouco essa característica no Brasil, se você mora em São Paulo, acaba que o seu trabalho circula muito mais. Por exemplo, você lança o disco no SESC, aí o segundo show é na Serralheria, o terceiro no Puxadinho, depois no (Centro Cultural) Rio Verde, enfim. O fato de que possivelmente o meu trabalho fique girando aqui por um tempo vai fazer com que ele tenha uma recepção maior, coisa que aconteceu muito no Rio na época do Porquê da Voz. Eu tive matérias no Brasil inteiro, em Portugal, mas não tive em São Paulo. Então eu ainda sou um desconhecido aqui. Estou bem interessado nesse capítulo novo, sabe? E, curiosamente, eu acho que esse é o meu disco mais mineiro. Acho que se você ouve o Porquê da Voz sem saber que eu sou de Minas, acho difícil considerarem o disco de música mineira. Já o Paralelos & Infinitos, tenho a impressão de que ele tem uma influência ali, um tipo de registro, de cuidado com a engenharia de som, que tem mais a ver com Minas, sabe? Acho que São Paulo, agora, é mais a nova fase do que o anzol que eu joguei.

São Paulo foi a escolhida pra te descobrir.

Eu acho que sim. Estou muito seduzido pela cidade. Acho que isso tem a ver com esse momento. Quando você chega, tem várias coisas pra você descobrir, as ruas, as pessoas, os acontecimentos e tal. Mas mais do que isso, eu tenho a impressão de que São Paulo vive um negócio importante agora. Domingo eu passei pela Avenida Paulista e achei superbonito o fato das pessoas estarem nas ruas, sorridentes, com vontade de trocar, de conversar. Eu abri o Facebook no celular e a primeira postagem que apareceu foi a de uma menina daqui dizendo: “Hoje tem feirinha na Vila Madalena, vamos ocupar a cidade!” Acho que São Paulo está vivendo esse momento, o desejo de que as pessoas venham para a rua, ocupem a cidade, troquem. Há coletividade, desejo de respeito pelo outro - em uma esfera muito mais nossa do que da cidade inteira, até porque o eco reacionário é muito mais forte do que esse desejo - mas eu suponho que esse momento ainda vai crescer muito e eu tô muito feliz de estar aqui agora. Acho que a juventude tá com muita vontade de destruir aquela ideia de que São Paulo é uma cidade hostil, de concreto e tal.

O disco trata de um relacionamento amoroso. É mais fácil abordar o amor quando ele tem um foco, é direcionado à uma pessoa, uma relação, ou é sempre muito complexo tratar do tema como um todo?

Pra mim é um desafio, porque o amor pode ser um negócio visto imediatamente como brega e eu queria correr um pouco dessa figura, do cantor brega, do trovador do amor, sabe? Queria tratar o amor na sua excelência, como o sentimento comum de todo mundo, o tempo inteiro. Talvez a grande questão da vida, tirando o nascimento e a morte, seja o amor. A coisa que vai costurando a vida de todo mundo. No meu caso, pude perceber que se eu falasse da Victoria como personagem principal, eu acabaria transformando esse personagem numa coisa universal. E aí foi o momento em que eu saquei que isso não tem nada de brega, porque aqui que tá o anzol, aqui que eu vou captar o coração de quem quer que esteja ouvindo. E aí é interessante porque eu percebo, vejo no Facebook as pessoas compartilhando a música, pedaços de frases e penso: “Olha que legal, isso é uma coisa muito pessoal minha”. As pessoas se conectam. Amor é foda, todo mundo é tomado de assalto por esse negócio. Muitas vezes tem a discussão de “que tipo de assunto a nova composição brasileira vai ter?” E os artistas falam muito que não querem fazer um disco que fala de amor. Já tem tanta canção de amor, tanto disco que fala sobre isso! Então o meu medo inicial era esse, será que o meu disco vai entrar pra esse lugar? Como eu vou fugir disso? E aí a decisão foi mergulhar completamente. Não é “Amor I Love You” - apesar dessa música ser uma sacanagem de boa - mas é a possibilidade de que, talvez na nossa época, a gente tenha a chance de ser ultra pessoal e, nesse discurso ultra pessoal, a gente consiga dialogar com o que é universal. Quando você tira uma selfie sua, isso é universal, apesar de ser só seu, suas questões, seu universo. Talvez o meu disco seja isso.

O disco é claramente muito particular, difícil de receber “interferências externas”, digamos assim. Em que sentido o produtor, Pedro Carneiro, acabou mais colaborando?

Acho que em duas coisas. A primeira é que ele nunca disse “não” no estúdio. Se eu falasse que queria gravar o tamborim daquela menina ali (naquele momento, perto de nós, duas meninas tocavam tamborim no parque), ele topava. Como eu ficava muito sozinho no estúdio, queria gravar de tudo um pouco, um Rhoades, um órgão. Aí ele tinha sempre o cuidado de pedir pra eu gravar de novo, pra termos o melhor registro. Acho que o Pedro foi freando um pouco a minha loucura. Eu estava no parque de diversões, com o estúdio só pra mim, com tudo ligado e ele jogava o tapete pra eu entrar! Sabe a Marilyn (Monroe) entrando no Oscar? Ele dizia para eu fazer o que estava sentindo E se ele percebia que “o vestido estava meio desajeitado” ele vinha e ajeitava. Isso foi um golaço dele. E depois do processo do Pedro, o Elizio Freitas, que é o produtor do Porquê da Voz, mixou o disco. Conhecendo muito quem eu sou, a maneira como eu penso - Elízio também é guitarrista da banda de apoio - ele foi uma figura que tornou o processo todo muito confortável. Pegou todo aquele bruto e foi lapidando de um jeito que ele já sabia que era o jeito que eu gostaria que fosse. E por fim, o Bruno Girorgi, que masterizou os dois álbuns, deu a cara final. Esses três foram três reis magos comigo, trabalhando pro disco pra ficar a coisa mais bonita do mundo.

Qual outra participação no álbum você destacaria?

Eu nunca tinha pensado nessa coisa da Victoria cantar, mas tendo feito a música “Guarajuba” – nome de uma praia na Bahia onde a família da Victoria, que é baiana, tem uma casa - pensei: “Ela tá na capa, por que ela não canta? A Victoria tem que cantar essa!” E foi superbonito, é uma faixa curtinha do disco, um respiro. São oito faixas e “Guarajuba” é a quinta. Pra mim é como se fosse a música de abertura do lado B. Ao mesmo tempo eu não posso deixar de destacar a presença de todas as participações, que foram muito especiais. O Cícero, a Mahmundi; o Lucas Vasconcelos; o Uirá Bueno e o Conrado, da Banda Dos Cafundós; além do Rafael Mandacarú e do João Machala, do Iconili, que é uma banda mineira. Todo mundo que participou, mesmo que pontualmente, acabou definindo o que o disco veio a ser depois.

O disco, pelo artista:

Eu tenho dito muito que essa obra é um convite. É a frase que eu quero que reverbere. Quero muito que as pessoas ouçam o disco, porque eu fiz mesmo com muito carinho e todas as pessoas que têm ouvido tem dado um feedback nesse sentido, transmitindo esse carinho. Então o disco pelo artista é isso: A obra é um convite.

***

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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