Azoofa Indica: Chico Salem

Se Chico Salem fosse "maior ou igual a dois", como a expressão que dá título ao seu próximo disco, ele certamente não precisaria sair correndo do Sesc Pompeia hoje à noite, onde toca com Arnaldo Antunes no show de lançamento do novo álbum do ex-titã, "Ja É", para se apresentar logo depois no Jongo Reverendo, onde Chico faz a última de uma série de apresentações que vem realizando este mês na casa da Vila Madalena. O show desta noite conta com participações de Saulo Duarte e Guizado (saiba mais).

Na verdade, esse pulo entre um show e outro é simbólico do momento que vive o compositor paulistano de 38 anos. Chico lançou seu primeiro disco solo em 2002, mas depois construiu uma bonita carreira como instrumentista, tocando com diversas pessoas, sendo a mais marcante com Arnaldo Antunes.

Chico é guitarrista da banda do ex-Titã desde 1999 e ambos já escreveram algumas canções em parceria, como a clássica "Num Dia". A relação de amizade profunda com Arnaldo lhe influenciou sobremaneira na hora de compor as novas músicas que ele apresenta neste segundo disco solo, "Maior ou Igual a Dois", que será lançado ano que vem.

Com exclusividade para o Azoofa, Chico comenta como será o segundo disco, diz que é hora de os artistas se unirem e conta como é conviver com Arnaldo Antunes. "Além de um grande amigo, Arnaldo é um mestre pra mim".

Chico, na quinta você toca com Arnaldo no Sesc Pompeia e depois corre pro Jongo para fazer teu show. Já tinha acontecido isso com você, de tocar 2 vezes na mesma noite em projetos diferentes?

Nossa vida é uma correria, e as vezes dá essas encavaladas. Mas é uma delícia... já chega aquecido, com o astral elevado, pronto pra atacar. Por sorte são horários diferentes. Ainda não aprendi a me duplicar...

São 14 anos entre teu primeiro disco solo, "01" (2002) e o segundo (previsto para 2016). Por que você não gravou nesse período? E por que gravar agora?

Gravar um disco e investir energia numa carreira é um processo que demanda muito foco e determinação. Após o fim da turnê do “01”, muitas oportunidades se apresentaram, e eu resolvi seguir com elas. Dei um mergulho na carreira como instrumentista, ao lado do Arnaldo, assim como na “carreira” de pai (minha filha nasceu em 2007). Muitas coisas que exigem empenho, disponibilidade e tempo físico. Resolvi esperar um pouco, que acabou virando um muito. Esse tempo foi muito bom para conhecer novos parceiros e criar o repertório do “Maior ou Igual a Dois”, assim como foi um tempo valioso para amadurecer como artista.

Este será o último show no Jongo. Como você avalia essas apresentações em que você pode testar novas canções, chamar convidados e experimentar o disco no palco?

É muito bom poder experimentar, seja lá o que for, sem a pressão de um lançamento. Isso te dá uma liberdade muito grande de testar músicas, set lists e formações de banda. Por outro lado, depois de tanto tempo sem fazer meu trabalho autoral, esses shows serviram muito pra convocar um público que já me conhecia, e gerar curiosidade num público novo, que passou a ir aos shows. Além disso, é maravilhoso poder dividir o palco com amigos queridos, que são os músicos da minha banda e os convidados que participaram. Um grande clima de festa está prevalecendo nesses shows.

De que maneira esse teu período dedicado ao trabalho do Arnaldo, tocando, compondo e criando com ele, te transformou como compositor?

Na verdade, desde antes de tocar com o Arnaldo, eu já compunha e fazia shows autorais, num circuito alternativo de São Paulo. A maioria das canções do meu primeiro disco, são dessa época. O convívio com o Arnaldo é um oasis pra qualquer compositor. Ele é um monstro. Um gênio. E compõe de maneira muito fluida, abundante e generosa. Sempre com a palavra certa, direta, sem firula. O jeito com que ele comunica de maneira reta e certeira, é talvez a coisa que mais me transformou como compositor. Aprendi muito sobre fluidez, objetividade, generosidade e abundância com ele. Além de um grande amigo, Arnaldo é um mestre pra mim.

Queria que você comentasse sobre a escolha de Guizado e Saulo Duarte para participarem deste último show. Qual é a tua relação com eles? E o que vocês pretendem tocar juntos no show?

O Guizado, além de um grande músico, é um amigo muito querido.  Já tocou comigo há quase 20 anos atrás, e gravou nesse disco novo. Conversando com ele sobre esses shows, deu vontade de promover esse encontro. Aí fiz o convite e ele topou. Já o Saulo, eu conheci há pouco tempo, quando assisti a um show dele no Circuito Paulista. Gostei muito das suas músicas, e passei a tocar uma delas no meu show. “Manda Ela Comprar um Iglu” é uma música que conversa com duas outras músicas minhas, que são “Menina Benzina” e “Real demais pra você”. Aí deu vontade de convidá-lo pra gente fazer essas músicas juntos. Vai ser uma festa gostosa.

Duas perguntas sobre o novo disco. Ele já está fechado? Em que parte do processo você está agora?

O disco está pronto, gravado, mixado e masterizado. Finalizando a arte e indo pro forno.

Imagino que o repertório dele vá ser uma mistura de coisas inéditas com algumas composições suas gravadas por outras pessoas. Como você está selecionando as canções?

A ideia do “Maior ou Igual a Dois” surgiu de registrar num só álbum parcerias que eu fui construindo ao longo dos últimos 14 anos. O que pautou a escolha do repertório foi justamente esse encontro com amigos e parceiros. Além disso, o disco registra o encontro de músicos que admiro muito. São quase quarenta músicos que participaram do CD, além de 5 cantoras, como Karina Buhr e Manuela Azevedo.

A gente vive um momento em que há muitos lançamentos de discos e pouco espaço para apresentações. Tirando o SESC e o circuito autoral, quase não vemos novas casas surgindo. Como você analisa isso? E de que forma o artista pode ajudar a mudar este cenário?

O artista pode ajudar, persistindo. E seguindo em frente com seu sonho. Tem espaço pra todo mundo tocar. Tem público pra todo mundo. O grande problema é o pensamento de escassez. De que não tem pra todo mundo... É muito importante uma cena musical aquecida, e pra isso as pessoas tem que se juntar. Fazer projetos juntos. Agirem mais colaborativamente. Nesse sentido também, essa temporada no Jongo traz um pouco dessa ideia.

Como é teu processo de composição? É um momento solitário, de concentração, ou já se tornou algo natural para você?

Depende muito. Às vezes é solitário, as vezes não. Às vezes é fluido, as vezes é empacado. Aprendi com o Arnaldo a compor coletivamente, num ambiente descontraído. Compor é natural pra mim. De um tempo pra cá aprendi a desmistificar o momento da composição, deixando ela acontecer em ambientes e situações mais relaxadas e espontâneas.

Nestes shows, você tem tocado com Ricardo Prado (Violões e Guitarra), Fábio Sá (Baixo), Estevan Sinkovitz (Guitarra) e Guilherme Kastrup (bateria). Como rolou a escolha da banda? E como tem sido tocar com eles?

Quando você trabalha com algo, sabe o quanto é importante trabalhar com amigos. E esse é o meu primeiro critério de escolha da banda. Claro que tenho amigos muito talentosos e isso ajuda muito (risos). Alguns são parceiros de longa data, como o Kastrup, outros mais recentes. Estou muito feliz com essa banda que se entrega, cria e toca como se fosse sempre o último show da vida.

***

arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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