Azoofa Indica: Karina Buhr

Se você esteve conectado a qualquer rede social nos últimos dias, certamente se deparou com a capa de "Selvática", o novo disco de Karina Buhr. Ou não - porque a imagem, que traz a cantora com os seios à mostra, foi censurada pelo Facebook. Segundo o site, a imagem apresenta "conteúdo que não segue os padrões da rede social em relação à nudez”. Mas, na mesma velocidade em que foi reprimida, a capa do álbum ganhou centenas de defensores no campo virtual e chegou a inspirar uma série criada pelo fotógrafo Beto Figueiroa (veja).

A postura retrógrada do Facebook potencializou o burburinho em torno do disco, mas não que fosse preciso. Há tempos Karina é uma das artistas mais instigantes da música brasileira. Seus dois álbuns anteriores, "Eu Menti Pra Você" (2010) e "Longe de Onde" (2011), apresentavam uma contundência poética e rítmica que a destacava do pelotão. Em "Selvática" - que está disponível para download - ela está ainda mais política, em letras que refletem sobre a mulher na sociedade, as transformações urbanísticas das cidades e o amor, tudo isso em forma de porradas punks, reggae solares, cirandas, percussão.

Nesta sexta-feira (02) e sábado (03), ela sobe ao palco do Sesc Pompeia para os shows de lançamento do disco. Numa madrugada, por e-mail, ela falou com exclusividade para o Azoofa sobre música, literatura e a repercussão da capa do álbum. "É tudo muito opressor e ao mesmo tempo ridículo".

AZOOFA: Karina, Selvática é um disco incisivo nas letras e na sonoridade. Você se sente num momento artístico mais maduro e consciente do que quer e como quer?

Karina Buhr: Não sinto assim sobre estar mais certa do quero dizer, acho só que falei outras coisas e de outros jeitos.

O disco foi gestado num momento em que seu lado literário apareceu mais, com o lançamento do livro, a ida a Flip etc. De que forma a literatura te influenciou nas ideias que você trabalha neste álbum?

Sempre escrevi e depois de um certo tempo comecei a transformar textos em letras de música, desde a Comadre Fulozinha, em 97. Acabei transformando alguns textos do livro em letras de música de Selvática, é o que sempre fiz mesmo, só que agora parece que ficou mais público, por conta do livro.

Da capa aos temas de algumas canções, a questão feminina é protagonista aqui. É um disco político. Como se construiu em você essa urgência para colocá-lo em com tanta força dentro de um álbum?

Não gosto de falar “questão feminina”, não entendo muito o que seria isso. Eu sou uma mulher, as letras são minhas, as músicas também, talvez seja isso o protagonismo feminino no disco. Mas “protagonismo feminino” é simplesmente protagonismo. Sobre a urgência ela é da minha vida, não desse disco. Tudo o que eu fizer vai ter a urgência de se falar disso, porque perdemos tempo demais, as mulheres, administrando o machismo do mundo.

Inicialmente, a imprensa destacou alguns aspectos não musicais do disco – a capa, a censura no Facebook, as reações de artistas e fãs te apoiando, etc. Te incomodou que essas coisas, no começo, chamassem mais atenção do que a música?

De jeito nenhum! Jamais pensaria assim, inclusive porque fazem parte da mesma coisa, a capa tá junto, representa, não é solta das músicas. Achei maravilhoso a capa circular muito. Uma coisa que é ruim, a censura, gerou coisas maravilhosas, debates bem fortes sobre a própria censura e o machismo.

A censura do Facebook à capa do álbum não te soa surreal? 

É tudo muito opressor e ao mesmo tempo ridículo (risos). É ridículo brigar porque tá com peito no Facebook ou em qualquer outro lugar. Já era pra ter passado essa etapa.

Os shows de lançamento são neste final de semana. Como você fica nesses dias antes das apresentações? Você costuma ensaiar até o último minuto ou à essa altura as coisas estão mais ou menos definidas?

Não tem uma regra, os ensaios vão indo de acordo com o ritmo natural do disco, da produção dos shows e tal. De toda forma, acho que nunca ensaiei até o último minuto. O show vai se construindo na estrada. O show de lançamento é tocar junto, é uma festa, não chega a ser algo que me deixe tensa. É só um começo de andança das músicas novas.

Como você idealizou o cenário deste show?

Idealizei um pano preto pendurado e a luz de Alessandra Domingues. Como? Eu não sei (risos).

Numa entrevista recente, você fala sobre esse lance de muita gente te chamar de “nova geração”, “nova cena da MPB”. Quantos discos você vai ter que lançar pra virar um clássico da MPB (risos)?

Acho que eu nunca vou ser nem clássico nem MPB, mas até aí tava ótimo (risos). E [o engraçado é que] eu vou acompanhando várias gerações. “A sua geração tem uma música que...”. "Mas essa não é a minha geração de novo, moço, já rolou" (risos).

No que a arte pode ajudar em tempos políticos tão confusos como esse que estamos vivendo no Brasil?

Acho que são tempos políticos confusos no mundo, não é exclusividade do Brasil. Acho que arte ajuda em, sei lá, respirar. E a espalhar ideias.

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arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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