Azoofa Indica: Garotas Suecas

Este é um ano especial para o Garotas Suecas. Primeiro, a banda faz aniversário de 10 anos de carreira. Depois, em agosto, o agora quarteto lançou o EP "Mal Educado", primeiro trabalho depois da saída de Guilherme Saldanha. E, neste sábado, vem mais um acontecimento para deixar 2015 ainda mais marcante: o grupo faz show inédito tocando o disco "Mutantes e Seus Cometas No País dos Baurets" (saiba mais).

Embora admitam o baque da saída de Guillherme, a banda dá demonstrações de que não vai se perder por aí. Pelo contrário: no EP "Mal Educado", é possível ver Irina Bertolucci, Nico Paoliello, Fernando Perdido e Tomaz Paoliello compondo coletivamente e trocando a voz principal de canção para canção. Além disso, mantém o pique necessário para tocar uma carreira que - embora decenal - continua tendo que superar os limites do mercado independente.

Com exclusividade para o Azoofa, Fernando Perdido e Tomaz Paoliello falaram sobre o desafio de interpretar Mutantes, a importância das casas autorais do interior e dizem que Anitta e MC Melody seriam os intérpretes ideais da discografia da banda.

AZOOFA: Como surgiu a ideia de interpretar um disco dos Mutantes?

Fernando Perdido: A ideia veio da Roberta Youssef. Ela faz a curadoria do Jack’s Saloon e havia separado os sábados para algum artista ou banda interpretarem algum artista ou banda mais histórica. Ela sugeriu Mutantes e nós topamos.

Vocês chegaram a cogitar outro álbum da banda?

Fernando: Todos estavam em pauta, mas escolhemos um que mais tem a ver com a noite; mas, ao mesmo tempo, bastante a ver com a gente também. É um álbum que engloba basicamente as influências de rock psicodélico e funk que o Garotas tem. Foi uma boa escolha.

Tomaz Paoliello: Cada disco dos Mutantes é uma obra de arte. Mas eles são também muito difíceis de executar. O ‘Baurets’ é o que mais tem a cara de uma banda tocando ao vivo, e por isso achamos que seria o mais legal para transformar num show. Escolher um preferido seria impossível... O outro disco que pensamos em fazer foi o Fruto Proibido, do Tutti-Frutti. É um dos nossos discos favoritos do roque brasileiro. Quem sabe ainda pode rolar.

Como vocês estão trabalhando essa intepretação? Estão fieis aos arranjos ou há pitadas de Garotas Suecas nas músicas?

Fernando: Nem se nos propuséssemos ser fieis ao álbum, conseguiríamos. É impossível. Impossível também não nos colocarmos no som – afinal, seremos nós tocando. O disco é muito bom, simples e ao mesmo tempo “erudito”, tem um gama bem variada de timbres e arranjos ousados, e ao mesmo tempo são canções. É a nossa cara.

Tomaz: Acho que muito do que faz dos Mutantes o que eles são é a interpretação. Tem uma irreverência na maneira de pensar a música que é muito única. Essa é uma das características que nos inspiram os Mutantes, e tentamos trazer, do nosso jeito, esse mesmo espírito. Além disso convidamos o André Bruni (Prodígio do Mel Azul) para tocar nesse show com a gente. Ele vai fazer guitarras e teclados. Achamos que seria legal exatamente para incorporar alguns elementos do disco.

Os Mutantes são, possivelmente, a banda mais importante da história do rock brasileiro. Mas nos anos 80 e 90, o rock feito no Brasil parecia fugir do som e da estética do grupo. Só nos anos 2000, com o estouro da internet e o fim das gravadoras, é que voltou a se ouvir bandas e dizer: isso parece Mutantes. Na opinião de vocês, o que há de semelhante entre as propostas do grupo e as desta geração da qual vocês fazem parte?

Fernando: Eu discordo. Consigo enxergar Mutantes nos Titãs, por exemplo, e na Marisa Monte também, que inclusive gravou uma versão de “Ando Meio Desligado”. Acho no mínimo estranho uma banda de rock brasileira – ou um cantor ou cantora – não se sentirem influenciados em alguma maneira por Mutantes. Concordo que com a internet ouviu-se falar mais dos Mutantes, mas não porque não se falava neles, e sim por estas pessoas se encontrarem mais frequentemente online. As propostas são as mesmas, mas em dois contextos diferentes. Eram outros tempos. Acho que nossa geração se baseia muito na geração dos anos 60 porque foi a geração dos nossos pais. Eles acabam passando muito do que viveram na época pra gente e consequentemente a buscamos como influência.

Tomaz: Tem uma parte dos Mutantes que são marcas da época. A própria banda se adaptou no tempo, acompanhando alguns sons que foram aparecendo. É claro que as influências de quem fazia música depois dos Mutantes são outras, mas certamente entre elas estão sempre os Mutantes. Num certo sentido, fazer rock no Brasil significou a mesma coisa para gerações dos anos 1960, 70, 80... até hoje. O exercício que faz com que todas as bandas de rock brasileiro sejam da mesma “família” é se apropriar de uma manifestação cultural artística estrangeira, mas completamente apaixonante, e reinventar a forma de fazer isso a partir de um local periférico. É daí que vem a criatividade e a inovação do rock feito aqui. Pensando assim, os Mutantes são um daqueles milagres brasileiros, um tipo de Santos Dumont do rock nacional.

Esse é o último disco dos Mutantes com Rita Lee. A banda teve que se reinventar depois da saída dela. Guardadas as proporções, vocês tiveram uma baixa importante com a saída do Guilherme Saldanha. Com tem sido essa nova fase da banda?

Tomaz: É impossível uma banda não se transformar com saída/mudança de um membro. Quem é apaixonado por bandas como nós somos, sabe que a banda é uma consciência coletiva, é muito maior do que a soma das partes. Tem uma mistura química que muda quando mudam os membros. Os Mutantes são prova disso, são duas bandas diferentes com e sem Rita.

Acho que nós já chegamos no nosso novo ‘equilíbrio químico’ e quisemos mostrar isso no "Mal Educado". Uma banda nunca está parada, é dinâmica. Os membros estão se movendo em várias direções, e os discos são retratos desses movimentos.

Fernando: Estamos animados! Acho que aprendemos muito com tudo e nos redescobrimos. Há uma união maior entre nós e pode contar que muita coisa legal vai sair disso.

O EP “Mal Educado”, que saiu em agosto, é o registro sonoro desta nova fase. Há a intenção de lançar um disco logo mais?

Tomaz: Estamos planejando o lançamento de um disco novo para 2016!

Recentemente, vocês tocaram em Franca (SP), minha cidade natal, no Espaço Cultural Shake Shake, o único lugar em uma cidade de 400 mil habitantes que abre portas para a música autoral. Nesses 10 anos de carreira, vocês já tocaram em diversos países e em outras cidades do Brasil. De lá pra cá, a partir da experiência vivida por vocês, o que melhorou e o que piorou para o artista independente?

Tomaz: Para nós é muito melhor de nossa parte. Aprendemos a melhor maneira de fazer nosso som, de nos promover, trabalhamos com pessoas mais legais etc. Além disso temos um nome que nos facilita algumas entradas que foram difíceis de conquistar. As dificuldades “da cena” são mais ou menos as mesmas de quando começamos. Tem momentos de altos e baixos, mas pela nossa experiência são cíclicos. Nossa impressão é que tem momentos com mais Shake Shake do que outros. Lugares como o Shake Shake são essenciais para que se forme um circuito constante de bandas viajando. Cada vez que se perde uma casa como essa se desestrutura uma rede, que é a própria cena... Acho que a vantagem de ter a banda faz algum tempo é conseguir ter alguma sabedoria para lidar com esses movimentos.

Fernando: Acho que nenhum dos dois. Permanece igual o que era há 10 anos atrás. O artista independente ainda precisa correr muito atrás para fazer um nome para si. No entanto, eu vejo a cena um pouco mais unida hoje em dia.

Tenho a impressão que, para os artistas independentes, espaços como esse são cada vez mais importantes, por representarem uma resistência (às vezes solitária) e por serem alternativas ao mercado de shows da capital, já bastante saturado. Existe em vocês essa preocupação de sair cada vez mais da capital e – ainda que toque em lugares pequenos e que a grana seja pouca – explorar outras possibilidades?

Fernando: Faltam lugares para tocar, e lugares como o Espaço Cultural Shake Shake são sempre bem-vindos. Aqui na capital também falta. Nossa preocupação é sempre em tocar, é disso que vivemos, independentemente do lugar. Sair pra tocar é sempre muito bom, conhecer gente nova que gosta do som que você faz é a melhor coisa. É sempre importante explorar outras possibilidades.

Se pudessem escolher qualquer banda do mundo para interpretar um dos 2 discos do Garotas Suecas, qual banda e qual disco vocês escolheriam?

Fernando: Acho que a Anitta podia fazer o “Escaldante Banda” e a MC Melody podia fazer o “Feras Míticas”.

Tomaz: Nada a declarar. Perdido lacrou.

***

arte: belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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