Azoofa Indica: Oleives

Vem de Belo Horizonte uma agradável surpresa para a música brasileira. Oleives - nome artístico do músico mineiro Olavo Barbi - está lançando seu segundo disco solo, "De Todos os Futuros", um álbum de tratamento delicado e com irresistível sotaque pop. Das dez canções, oito são de sua autoria e duas são versões para "Ligia" (Tom Jobim) e "Equatorial" (Beto Guedes, Lô Borges e Marcio Borges).

Numa mistura de folk, blues e bossa nova, Oleives entrega canções cheias de personalidade e sem as afetações de estúdio que acometem parte dos novos músicos. "Além-mares", que abre o disco, tem baixo, bateria e violões em sintonia, uma melodia cheia de curvas e um bonito arranjo de metais. Já em "Ofício", quem manda é o violão, num arranjo que lembra Leoni e cuja letra faz o retrato do artista enquanto independente. "Eu não sei ganhar dinheiro / eu só sei fazer canções".

O músico está em São Paulo e faz show de lançamento do álbum nesta quarta-feira (11), às 20h, na Sensorial Discos. Depois, no dia 19, ele se apresenta na Autêntica, em Belo Horizonte. Com exclusividade para o Azoofa, Oleives falou sobre o disco, a cena musical e Belo Horizonte e a dificuldade de classificar seu som. "Sou alternativo demais para o pop, e pop demais para o alternativo".

AZOOFA: “De Todos os Futuros” é seu segundo disco. Como você criou o conceito deste álbum?

Oleives: As canções foram criadas de forma independente, sem nenhuma intenção de estabelecer um conceito em comum. A relação próxima entre elas veio, a meu ver, mais com os arranjos e a instrumentação bastante focada nos violões. Esse ambiente folk era, sim, um desejo meu quando comecei a gravar o disco.

Estou ouvindo o álbum faz alguns dias. Fiquei positivamente impressionado pelo sotaque pop que você encontrou. As canções são diretas, as letras causam identificação imediata e, ao mesmo tempo, há refinamento nos arranjos e nas harmonias que você compôs. Foi proposital encontrar este equilíbrio?

Esse sotaque pop é algo que acontece naturalmente no meu trabalho, desde o meu primeiro disco. Gosto das canções que soam redondas e bem amarradas, mas sinto também a necessidade de algo que quebre essa sensação previsível, e isso às vezes vem com alguns elementos do arranjo, ou mesmo por meio de caminhos harmônicos mais elaborados. Costumo brincar que sou alternativo demais para o pop, e pop demais para o alternativo (risos).

Hoje em dia, com a facilidade para se gravar um disco, o fim do mercadoe o excesso de novos artistas, muitos músicos pensam: se pouca gente vai me ouvir, se ninguém vai comprar disco, vou fazer música com o máximo de liberdade possível”. Nessas, porém, alguns artistas acabam se distanciando do público. Você tem a preocupação de não cair nessa armadilha de fazer, sim, a música que quer, mas não necessariamente esquecer que ela é feita para alguém ouvir?

Apesar de fazer música para tentar satisfazer meus próprios anseios, nunca me esqueço que ela é feita para alguém ouvir. Não importa quantas ou quais pessoas, tento sempre criar algo que seja de certa forma universal, tanto nos textos das letras quanto na parte musical. Apesar de adorar jazz e música instrumental, por exemplo, tendo a achar que esses estilos em geral correm um risco de talvez serem mais interessantes para quem os toca do que para quem ouve.

Em De Todos os Futuros”, há parcerias suas com outros compositores. Como rolou a parceria com Alvin L. e Dinho Ouro Preto, por exemplo?

Essa é uma letra deles que foi tema de um concurso de composição do Jornal Estado de São Paulo, o mesmo no qual fui vencedor na edição inicial que trazia uma letra do Arnaldo Antunes, chamada "Planta colhe". Gosto de compor a partir de letras prontas, pois elas acabam me dando indicações de métrica e divisões rítmicas para a melodia que eu não teria se estivesse compondo letra e música sozinho.

Como é teu processo de composição e como é pra você a experiência de criar com outro artista?

Para mim não existe basicamente um único caminho. Pode vir letra e música juntos de uma só vez, pode surgir primeiro uma melodia ou uma sequência harmônica que me agrada e depois a letra, ou mesmo a partir de uma letra ou poesia pronta. Às vezes pode demorar anos até eu conseguir desvendar o "quebra-cabeça" de uma canção. Compor em parceria é sempre estimulante, pois o outro geralmente te mostra algo que você não enxergou, e muitas vezes te obriga a ser melhor do que você normalmente é. Eu, particularmente, acho fazer música de forma presencial com parceiros uma tarefa difícil, as visões subjetivas podem gerar um certo conflito, e prefiro quando alguém toma as rédeas da situação e usa a contribuição do parceiro a favor da criação, sem deixar que vire um cachorro de muitos donos. Com Fabrício Marques, meu parceiro mais constante, conseguimos algo que funciona muito bem: ele me manda letras e ideias, e me dá liberdade para editar e transformá-las em textos que se encaixam na minha música.

Você vem construindo sua carreira com base em Belo Horizonte, como integrante de bandas e com seu trabalho solo. Como é a cena da cidade para quem quer fazer música autoral? O que tem de legal e o que precisa melhorar, na sua opinião?

Música autoral é uma empreitada difícil, em qualquer lugar do mundo, eu acredito. Em Belo Horizonte creio que seja ainda pior. O público das casas de shows e os músicos e bandas, numa via de mão dupla, acabaram transformando a cena musical noturna da cidade em um circuito de bandas cover, que colocam nos flyers a foto dos artistas os quais tentam emular, e fazem a trilha sonora de quem quer beber cerveja, paquerar ou cantar os clássicos que mais gostam. Na contramão disso, a cidade tem uma cena de música autoral incrível, cantada e instrumental, de todos os estilos, além de excelentes músicos, que tentam encontrar espaço para mostrar seu trabalho. Recentemente surgiu na cidade uma casa voltada para a música autoral, chamada A Autêntica, mas, claro, há muito mais a ser feito.

Você comentou de viagens que fez para Espanha, França e Holanda. Chegou a viver um pouco da cena musical desses lugares? Se sim, o que achou?

Nessa viagem à Europa que você citou, não cheguei a participar de nenhum movimento musical, a não ser como espectador. Mas é claro que o que vi e ouvi por lá me influenciou bastante. Novas paisagens trazem novas ideias.

Num dos textos de sua autoria que encontrei, você diz que sua avó pode ser a responsável por iniciá-lo na música, quando você tinha 10 anos e ela te ensinou algumas coisas de piano. Muitos anos depois, você agora é um músico. Qual a importância de ter começado a brincar com música tão cedo?

É difícil para mim avaliar, pois não consigo imaginar que fosse de outra maneira. Sempre tive um fascínio muito grande pela música, e uma certeza de que era isso que eu queria fazer na minha vida. Vejo tudo como importante: da minha avó me ensinando as primeiras melodias, das primeiras aulas de teoria, até as experiências com bandas, com diversos instrumentos, com o universo da produção musical e da composição. Não consigo separar essas coisas na minha cabeça.

O disco foi produzido por Robertinho Brant. Como você o escolheu e qual o papel dele no resultado do álbum?

Robertinho Brant foi fundamental para o resultado alcançado nesse disco. Eu o conheci quando estava gravando meu primeiro CD em seu estúdio, e em nossas conversas eu já percebia o modo como ele se entrega à música. Sua sensibilidade e sua estética sonora, suave e sofisticada, foram determinantes para que eu o convidasse para produzir o trabalho, desde a escolha do repertório até a mixagem, passando pelo cuidado com as vozes e com o conceito. É dos poucos profissionais com os quais já trabalhei que ainda fecha os olhos para ouvir música. Algumas pessoas enxergam a árvore, outras a floresta. Robertinho é deste último tipo.

O William Galison, tremendo gaitista, também participa do disco. Como rolou o convite e que tal tê-lo no estúdio?

Foi uma sorte enorme. Conheci o Galison num pub em Nova York, quase na esquina do hotel em que eu estava hospedado, logo na minha primeira noite de viagem. Ele estava tocando com sua banda - aliás, todos músicos incríveis. Como brasileiro ‘cara de pau’ que sou, pedi para dar uma canja quando vi que eles começaram a tocar "Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendonça. Depois do show, nós conversamos e me espantou saber que ele conhecia pessoalmente e era amigo de vários músicos da minha terra, como Toninho Horta, Juarez Moreira, Esdras "Neném" Ferreira, entre outros. Ele então me presenteou com dois discos de sua carreira, que foram influências importantíssimas no meu trabalho. Quando decidi convidá-lo a participar do meu disco e ele aceitou, foi algo que me deixou realmente feliz; afinal de contas, é um dos maiores nomes da gaita no mundo, que acompanha nomes como Sting, Donald Fagen e Madeleine Peyroux, além de ser um excelente cantor e compositor. Tive a chance de voltar a NY e gravar em seu próprio ‘home studio’, o que tornou essa participação ainda mais especial.

Por fim: queria que você apontasse alguns discos que te influenciaram nesse processo de gravação. Pode ser 2, 3, 5 discos, você que manda.

Os discos do William Galison foram quase como uma faísca que me fez desencadear o processo do meu disco, especialmente um álbum chamado "Line Open". Tenho de citar também o "Moment of forever", do Willie Nelson, "Feels like home", da Norah Jones, "Born and raised", do John Mayer, e "Eco 2", do Jorge Drexler. Entre os brasileiros: "Baladas do asfalto & outros blues", de Zeca Baleiro, "Santorini Blues", do Herbert Vianna, além de clássicos como o "Clube da Esquina".

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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