Coluna Telepática: mãeana

Conheci Ana Cláudia num show do Devendra Banhart, no saudoso Tim Festival. Ela estava com uma caneca, trazida de casa. Seu fotolog, que eu tinha começado a  voyeurizar, se chamava /bebendochopp, por isso quando a vi de caneca em punho, linda, louca em pleno Museu de Arte Moderna do Rio, me apaixonei. Rapidamente descobri que ela também morava na Tijuca, e dei abertura à entrada daquela que constantemente mudaria minha vida. Sempre que temo misturar um brinco com uma blusa, lembro da liberdade estética da Aninha, e me tomo de coragem para que sim, eu saia do jeito que desejo. E esse exemplo parece bobo, mas não se iludam, são doses diárias de coragem e delicadeza contra a banalidade da vida comum. Ana Cláudia é rainha de tudo que é extraordinário e mágico.

Há alguns anos, ela dava festas em sua casa, com temas dos mais hilários, como “Festa do Biscoito”, ou até mesmo no dia 8 do 8 do 8, onde praticávamos feitiços internos e trocávamos segredos, poesias e sonhos. Quem freqüentou aquele espaço, quem esbarrou com aquela menina de olhos intensos, quem viu as colagens que ela fazia com as próprias fotos, sabe que estava diante de algo muito precioso, e que muito em breve, esse universo particular viria à tona.

Ana lançou 3 discos com sua banda, Tono, mas a maternidade teve efeito feroz em sua artista, e todas suas questões uterinas ficaram cada vez mais em evidência. A partir de um apelido dado por Bruno Di Lulo, amigo e baixista, ela desabrochou em mãeana. Pediu músicas para os amigos, que como eu, devotos fiéis, concederam. Caetano Veloso, João Bernardo, Adriana Calcanhoto, Lou Caldeira, Rubinho Jacobina. A própria Ana compôs uma canção, junto a Bem Gil, seu homem e produtor do disco. Digo homem pois Aninha e eu implicamos com a palavra marido, esposo. E se o padre e o cartório nos anunciam por aí como “marido e mulher”, por que não “homem e mulher”?

Sobre telepatia, ela sempre foi minha amiga mais mística, ela lembra muito minha mãe, talvez por isso a ame tanto também. Me ensinou muito sobre astrologia e tarô. Quando comentei que iria fazer uma coluna telepática, ela vibrou, e eu obviamente tinha que fazer com ela. Ela, que trouxe tanto desse mundo pra minha vida. Na véspera do seu show de estréia, quase meia noite, depois do seu filho Dom (uma das crianças mais legais do mundo) ir dormir, apertamos play juntas, eu na minha casa, ela na dela, mas eis duas pessoas ouvindo o mesmo disco, ao mesmo tempo, no planeta Terra. Disse pra ela ouvir tentando se distanciar da história da musica, da feitura, da gravação etc. Não estou aqui para avaliar timbres, harmonias, melodias, já há muitas pessoas fazendo isso. Estou aqui para escutar uma música e viajar (sim, também há muita gente fazendo isso, que bom), mas vou escrever minhas viagens. Viagens compartilhadas. E como música é algo extremamente imagético, lhe disse: o cenário que você criar para cada música, o filminho que fizer na sua cabeça, anota, que depois a gente compara, nossa telepatia astral. E assim foi:

1- Pérola Poesia

Letícia: Me vi deitada numa cama, onde quero ficar para o resto da minha vida. Minha cabeça voa, mas meu corpo descansa numa cama. Sempre pensam em trilha sci-fi para óvnis chegando, mas essa poderia ser a musica da chegada de seres de outro planeta.

Ana disse que visualizou um céu triste, anjos e arpas. Pentelhos de anjos, dedo de ET acendendo verde, meninas cantando na Igreja, corpos brincando.

As duas pensaram em coisas alienígenas, ponto pra telepatia. 

2- Sonho de vôo

Letícia: Me vi numa valsa louca. Aninha me chamou pra dançar numa pista, é uma festa à fantasia, parece, um baile de máscaras surrealista. Muitas máscaras de animais, todas as pessoas têm cara de animais. “Silêncio”, ela canta e mesmo cantando eu ouço o silêncio, mágico isso.

Ana diz que ainda vê anjos. E também uma tribo, folhas e nuvens. Faz frio, mas tem fogueira. Uma pista se abre para o silêncio passar. Músicos, bailarinos e malabaristas em fogo. Ela diz que há uma pista de terra vermelha, e o silêncio passa no meio, todos pulam e cantam e deitam no chão.

As duas visualizaram uma pista. Eu de dança, ela de decolagem, talvez. Mas houve algo sim.

3- Não sei amar

Letícia: Me vi no último cinema de rua, em algum bairro antigo de uma cidade pequena. Dia de semana, 15h, cinema vazio. Estou desiludida mas quero me iludir, por isso estou no cinema. Sinto que no filme há um casal que discute. Importante se amar e brigar, Aninha me ensinou isso numa briga horrível e maravilhosa que tivemos. No final parece que há uma bruxaria, o filme fica doido, como qualquer relação em algum ponto. “Mas sou mulher e quero ter você na minha mão”. Gosto da ideia de uma pessoa na nossa mão, no sentido literal. Uma pessoinha. É cinema também.

Ana disse que se viu numa casa de vidro, madeira e emoção, insetos desenhados por crianças, um grito de desespero quebra tudo, ela suplica aos céus e dança. Vários animais e lama, ela se vê cansada. Repete, repete tudo, bate asas e não sai do lugar, varre o chão e o ventilador espalha tudo de novo. 

Deliramos.

4- Mãe Ana

Letícia: Quase morro ao reconhecer a voz do Dom. Eu acredito em disco voador também. Sinto fogos de artifício. É tudo tão moderno e antigo ao mesmo tempo. Festa de quermesse do interior baiano, coisa linda. Estamos todos dançando numa creche louca, uma creche onde crianças, bebês, amebas ETs e animais convivem. Uma arca de Noé infantil, essa música. A voz da Ana é um corpo celeste. Música pura. Também quero procurar uma nave mãe.

Ana diz que está num cometa lento, com Bem e Dom. De repente uma procissão de crianças, um baile na Lapa, é uma festa de adulto com crianças correndo. Crianças descalças correndo. Uma senhora engasga com a dentadura.

Ponto pra telepatia infantil.

5- Bem feito

Letícia: Um sambão. Adoro samba triste. Parece que combina mais. Se tivesse cachaça, bebia. O acordeon me mantém viva e me pede pra ficar alegre. Mas estou triste, trombone e cavaquinho, quero desfilar chorando. Pode atravessar a avenida aos prantos? Sinto meu coração literalmente cansado. Órgão cansado.

Ana diz que caiu numa pele de tambor gigante, cordas de baixo seguram suas mãos. Caiu dentro de um acordeon. Seu irmão chega com seu cavaquinho (ele gravou nessa faixa realmente). Adriana Calcanhoto (autora da música) está na casa dela, compondo sem parar, compondo compulsivamente, instrumentos gigantes.

Acho que não nos encontramos nessa telepatia, e tudo bem também, maravilha de imagem ela me trouxe com instrumentos gigantes.

6- Dom

Letícia: E já que estou triste por conta do samba, afundei agora. Parece que descobri um segredo sobre mim mesma. É bom descobrir mas é um segredo grande, complicado e forte. Não sei o que fazer com ele. Só se vence o perigo correndo perigo. Lembro da Clarice Lispector, que Aninha também tanto ama: “a solução do enigma é o próprio enigma”.

Ana me conta que se viu num quarto escuro, pequenas luzes viajando pelo teto. Ela mexe em seu caldeirão, chora, chora e as lágrimas caem na poção. Cenas rápidas, a noite, o vento, ela sente o gás que sai dos canos, os gases escapam e sobem lentamente. O céu a suga como numa abdução.

Lágrimas, segredo, tristeza, abdução, acho que viajamos juntas.

7- Meu filho

Letícia: Alguém me levou à praia agora. Mas não é Búzios, é uma coisa mais bizarra, tipo São Pedro Da Aldeia, início dos anos 90. Quero ter um filho ou já tenho um filho. Quero uma filha. Uma menininha fofa. Ela já existe, mas ainda não. Essa música visualizou minha filha.

Ana pensou na Lola, filha do Bruno di Lulo, baixista do Tono e mãeana com a atriz Thiare Maia. Diz que se viu sendo uma tia doida e criativa, fazendo passos de dança. Viu sua mãe novinha indo pra escola, indo pra igreja com seu violão, grupo de jovens guitarristas reunidos. Meninas dos anos 60 com vestidos laranjas. 

Acho que ambas fomos pra um lugar feminino. Longe. Eu, anos 90 e minha filha. Ela com a mãe, nos anos 60. Engraçado.

8- Vontade

Letícia: Coração de homem é pesado, coração de homem é tão duro. Me vejo homem sendo amansado por sua voz. Vejo margaridas, um milhão delas. Um mar de margaridas ou um mar de homens dentro das margaridas.

Ana: “Jornal, papel de jornal, Muralha da China, forninho, pêlos, colo, rosas despedaçadas no chão da pós-feira. Grito de guerra, medo, cuidado, pedra dura tanto bate até que fura. Massagem nos pés com meias. Gotas percussivas” 

Que viagem maravilhosa.

9- Romance Espacial

Letícia: Soturno romance espacial, que coisa forte e poderosa, que introdução. Lembrei do buraco negro do filme Interestellar. O pai vendo a filha numa outra dimensão. Que forte. Cair no buraco negro. Eu queria até, se fosse pra eu parar no meu primeiro quarto e me ver neném, não teria medo. Estou caindo. O chão abriu, que foda. QUE FODA. Estou caindo e não estou com medo, é inédito.

Ana: Comunicação astronauta. Ela sobe em cima do banco mais alto e fica em pé. Vê sua mãe, estão sérias, é hora de cortar o cordão, hora de cantar adulta sozinha. Ela vai demorar, vai chorar. Fundo do mar, um submarino gigante assustador, uma baleia perto dela. Está sozinha, mas sua mãe te dá a mão, vê o planeta Terra, tenta dormir dentro de uma cápsula e consegue. 

Fomos longe juntas.

10- Mãe Imã

Letícia: Feitiço, adoro ouvir a voz da Aninha duplicada, parece sonho, parece nuvem, parece pássaro.

Ana: “Sereia gosmenta tocando berimbau debaixo d’água no fundo da lagoa. Peixes fluorescentes bem pequenos, cardumes a escutam. 

11- Colo do Mundo

Letícia: Estou pensando no meu coração, ele sozinho, ele sem o resto do meu corpo, ele fora de mim, como ele deve ser. A música é leve, e essa imagem, apesar de sanguinária, também é, juro. Meu coração é do tamanho de uma mão fechada mesmo? Sempre acho que é maior, tamanha carga a gente tem ali.

Ana me conta que vê um microfone na mão. Pensa em defender uma canção, caixas de som voadoras, notas coloridas. Um senhor tocando violão, cabelos brancos ao vento, pitangas caindo. Uma viagem de carro, ela está atrás vendo as montanhas.

Rumamos.

12- Conchinha

Letícia: Estou ouvindo a faixa que compus, estou de fora, mas é impossível não estar dentro. Estou emocionada, essa musica é pra boiar, sabe ipod aquático? Queria fazer natação com essa música. Atravessar Copacabana toda, a Bahia toda, com essa música no fone. E se eu cansar, parece que um Jipe vai me salvar. É uma música de amigas, de irmãs. Amigas que viajam juntas. É molhada, mas tem vento nessa canção. Muito vento. Vento na cabelereira louca. Achei um tesouro no fundo do mar, conchas, pérolas, ouro. Aviso à minha amiga. 

Ana: “Canto de libélulas que sobrevoam uma água da noite bem de perto”. Ela diz que está boiando, que faz frio e calor ao mesmo tempo. O sol nasce de noite, uma estrela gigante. Maria aparecida na areia. Ela me vê e visualiza seu antigo apartamento da Tijuca, diz que eu surjo junto com ondas gigantescas do mar.

Pois, pois. 

13- Ufolclore

Letícia: Nós estamos aqui, mas onde se esconde? É lindo quando ela mesma fala o nome dela: “mãeana”, acho d’uma coragem tão boa. Lou fala umas coisas engraçadas, me divirto. É uma musica pra fechar os olhos e alguém te levar mesmo. As pessoas deveriam fazer mais isso, dizer para o ser que amam: “Oi, você pode me levar por aí? Vou ficar de olhos fechados e você me leva”. Seria muito legal isso.

Ana conta que vê Botafogo, ruas, lixos brilhantes, frutas do Conde e velas. E tem ainda Santo Amaro, batata frita, roda gigante. Ela brinca de pique-pega com nenéns, gargalha no telefone, horas no telefone, mora sozinha, está vendo muitas mãeanas pela rua.

Quis me perder, quis ser levada e ela me levou com seu registro.

14- Minha Cama

Letícia: Aninha começou me despertando da cama e agora vai me colocar de volta. Ela vai me ninar, como minha mãe fazia. Tem cheiro de mãe boa essa musica. Mãe fazendo carinho na sobrancelha na hora de dormir. Estou abrindo a boca devagar, vou dormir, vai ser bom, tenho certeza que vou sonhar bonita, que lindo.

Ana: “Bebê que nasceu e foi embrulhado em uma folha de bananeira, entregue a mamãe dele. Vai mamar e vai dormir numa rede entre dois coqueiros. O papai está tocando piano lá dentro e a família toda fazendo música. 

No dia seguinte fui ao seu show de estréia, as imagens ainda eram vivas e claras, mas o poder do ao vivo também transforma e fui levada para novas circunstâncias, velejei, passeei. Tudo com mãena é um convite ao voo livre. Portanto, fica aqui um convite pra abrir um portal de delicadeza na sua vida:

Me conta das suas imagens, rolou telepatia? Ou você foi para outro lado? Me conta, gosto de brincar de visualizar impressão.

Um beijo, até a próxima,

Letícia

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Leticia Novaes ver mais
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