A história de uma banda independente rumo ao maior prêmio da música latina

Em setembro de 2015, a banda brasileira Vitrola Sintética foi indicada a duas categorias do Grammy Latino: Melhor Artista Novo e Melhor Álbum de Engenharia de Gravação. Em novembro, a banda partiu para os Estados Unidos para uma série de 4 shows em San Diego, Big Bear, Los Angeles e Las Vegas, a cidade onde aconteceria a premiação. Tive a sorte e o privilégio de acompanhá-los nessa aventura. Felipe Ludovice, documentarista, também embarcaria com a gente para tirar dali um documentário. Tive a ideia de fazer parecido: escrever sobre esta jornada que soava inesquecível. Talvez aquilo virasse um livro.

Nesta época, havia caído em minhas mãos um livro de Jack Kerouac - "Os Vagabundos Iluminados" - e, inebriado pela escrita panela de pressão do beatnick, me propus a escrever um diário em que todo dia teria um capítulo e o capítulo seria obrigatoriamente redigido ao final de cada dia, para que meus pensamentos não se perdessem com os acontecimentos posteriores e nem se deixassem filtrar pela minha própria censura. Deu certo - mas só no primeiro dia de viagem. Nos seguintes, eu não encontrei o tempo necessário para me dedicar a este ofício tão demandante. O resultado disso, por um lado, é que terei de encontrar outra forma de contar esta história, sob a companhia da memória por vezes traiçoeira e longe da "espírito do momento" que tanto me atraía ter por perto; por outro lado, significa que a viagem foi como toda viagem entre amigos deveria ser: recheada de acontecimentos que mal nos deixam respirar.

Este trecho abaixo é o primeiro e único capítulo que escrevi durante a viagem. Ele foi anotado dentro do carro, enquanto do lado de fora corria a estrada que separa San Diego de Big Bear.

***

Estrada de San Diego/Big Bear - Dia 1

A primeira cena que eu vi fora do avião que acabava de nos deixar em Los Angeles foi Ota e Felipe saindo da aeronave cada um com um violão na mão. Eu estava mais à frente, então tirei uma foto. Era simbólico. Observar o movimento dos caras saindo daquela navemãe gigantesca que nos tinha carregado dentro de si pelos ares que separam São Paulo de Los Angeles me parecia o retrato condensado do maior acontecimento que já ocorrera ao Vitrola Sintética – era eles deixando pra trás um mundo e, por alguns dias, entrando em outro completamente desconhecido.

Não houve imigração, já tínhamos passado na escala em Miami pelas burocracias insuportáveis que ocorrem depois de permanecer em filas insuportáveis para, afinal, o sujeito responsável por decidir se você entra ou não nos Estados Unidos não fazer pergunta alguma, ou quando faz uma pergunta, não escuta a resposta inteira, carimba seu passaporte e faz menção com as mãos dizendo que você pode ir. De modo que então atravessamos tranquilamente o aeroporto de Los Angeles até encontrarmos a esteira 4, onde estavam as bagagens. E fomos o caminho todo trocando ideias sonolentas com Fred, um brasileiro tipo surfista que havíamos conhecido no voo São Paulo-Miami, e que na verdade só nos chamou a atenção porque riu quando viu o Felipe Ludovice filmando a nossa entrada na aeronave, e depois o Felipe Antunes falando pra câmera: bicho, fui sorteado!, me levaram para uma salinha, disseram que eu tinha algum resquício suspeito nas mãos, então um cara veio com uma maquininha nas minhas mãos e essa maquininha ficava apitando, aquele apito de que tem algo errado sabe? – ele contava tudo isso no meio do avião, naquela hora pré-subida da nave em que as pessoas ainda se acotovelam por espaços nos bagageiros, e o Ota ouvia a história enquanto ele também tentava por suas malas em algum lugar daquela aeronave apertada – e o Felipe Antunes seguia a narrativa: a maquininha ficava apitando, bicho!, aí o cara testou a máquina em outras pessoas e para elas também apitava, então ele viu que o problema dele não era eu, ou as minhas mãos, o problema era a máquina dele; então acho que ele ficou bem puto com tudo isso e me liberou dizendo: “esses americanos filhos da puta!”. O Fred, o brasileiro com jeito de personagem de documentário do canal OFF, ouviu aquilo tudo e riu, a gente sacou a risada e começamos a conversar, ele tava indo para Los Angeles também, porque morava lá, e achou o máximo toda a história de banda-brasileira-indicada-ao-Grammy, que nós íamos contando enquanto o comandante dava aquelas introduções que ninguém presta atenção, eu saquei um dos milhões de CD’s que entupiam a minha mochila e dei um a ele. Ele ficou feliz, mas logo se distanciou de nós porque a aeromoça estava gritando mais à frente “de quem é esse boné perdido aqui nessa poltrona” e o boné era dele.

O voo foi como todo voo que se preze: seguro, frio e com cadeiras próximas demais umas das outras. Por isso, quando chegamos, o maior alívio era caminhar pelo aeroporto por eternos corredores até o terminal 4, onde as bagagens deveriam ser recolhidas. E logo as malas foram aparecendo, mas logo também percebemos que faltava uma. Era uma mala grande de cor vinho que o Ota havia lotado de coisas tão díspares quanto discos, cuecas, remédios, gravatas, pilhas e calças. E logo também soubemos por alguma autoridade aeroportuária que aquela mala havia sido mandada por engano para outro voo, e que teríamos de esperar mais 3 horas para tê-la de volta.

Nesse interim, Rods e Kezo estavam pra chegar de Washington no terminal 7 e eu e Felipe Antunes fomos buscá-los no terminal 7, uma caminhada em que falamos basicamente sobre companhias áreas. Quando os encontramos, eles estavam com aquelas caras de sono e surpresa, fomos conversando e carregando as malas de volta ao terminal 4, e no caminho reparei que alguns táxis que ficavam do lado de fora do aeroporto eram, na verdade, vans. A mala do Ota chegou toda arrebentada, ele e Felipe Ludovice foram reclamar para a companhia aérea e no final a coisa foi resolvida com Ota ganhando uma mala nova e tirando uma foto com a atendente que não nos tratou muito bem, mas tinha jeito de ser uma pessoa legal fora dali. Pegamos uma daquelas vans que eu tinha visto e atravessamos Los Angeles por meia hora até o estacionamento onde estava o nosso motorhome. O estacionamento era imenso e repleto de motorhomes de diferentes tamanhos.

Qual era o nosso, não sabíamos – alugar um motorhome era só uma ideia maluca que tivemos no Brasil e que casava perfeitamente com uma viagem com a qual nunca havíamos sequer sonhado. De modo que, claro, alugar um motorhome sem saber direito o que isso significava era natural. Tivemos que assistir a um vídeo de 20 minutos em que uma voz insossa explicava tudo que poderia dar errado naquele carro casa, e o vídeo mostrava uma família perfeita – um homem, uma mulher, um menino, uma menina – vivendo situações maravilhosas e às vezes resolvendo problemas, mas sempre de forma tranquila. Nós assistimos a isso fazendo uma piada aqui e ali e com um pouco de medo aqui e ali também. O eleito para dirigir primeiro foi o Rods, então ele se sentou no banco do motorista e começou a dar ré e todo mundo fez uma cara de “isso vai dar muita merda”, mas o Rods logo se entendeu com aquele trambolho, o Kezo foi ao lado de co-piloto e se mostrou um bom co-piloto, daqueles que adiantam os perigos ao motorista e que nunca esquecem da função que estão desempenhando – coisa que eu costumo fazer - então eu liguei o computador e comecei a escrever, enquanto os outros conversavam animadamente.

Foi bastante engraçado quando nos bateu uma fome desgraçada e vários McDonalds iam passando pela estrada mas acho que ninguém tinha coragem de inventar de tirar aquele carro gigante da estrada, então deixamos os McDonalds nos atentarem os estômagos até que uma hora não deu mais, e alguém falou “vamos parar essa porra e comer, porra”, e foi o que o Rods fez. Paramos num estacionamento lotado de carros pequenos e tivemos que estacionar num ponto um pouco mais distante. Eu, Rods e Ota fomos no KFC, e o Ota comeu aquele frango gorduroso já dizendo que ia passar mal depois, o que realmente aconteceu. O Rods parecia nunca ter sido tão feliz na vida enquanto devorava aquelas asas brilhantes e despejava para dentro um copo de Coca sem fim. Os Felipes e Kezo foram num japonês e disseram que tinha sido ótimo. De volta ao carro, Kezo assumiu a direção e fomos numa boa até San Diego.

Encontramos o hostel sem dificuldades e alguns de nós desceram primeiro, enquanto Kezo tentava achar uma vaga desproporcional que coubesse um carro desproporcional. O hostel ficava numa rua comercial e agradável de San Diego. Um café e uma loja de discos faziam a vizinhança. Mas o hostel do lado de fora nada mais era que uma portinha pequena que deixava ver apenas uma escada de cor verde. Subi e quando cheguei lá em cima um moleque com cara de surfista estava atrás de um balcão e disse “ah, vocês são a banda?”, ele disse isso em inglês, e imediatamente depois uma menina alta apareceu – eu poderia dizer que ela brotou do chão – e começou a dizer coisas como “vocês são a banda! que legal! falei de vocês hoje no meu Snapchat! que legal, ei!”, e isso me confundiu um pouco – não lembro quem estava comigo – porque ela estava vestida como uma garota americana fã de futebol de americano – camisetona folgada, boné vermelho de time– mas ela falou em português, e que papo era esse de Snapchat?, mas eu nem pude chegar a nenhuma conclusão porque ela sacou um celular de dentro de um bolso da sua blusa de frio, se aproximou de mim e começou a filmar nós dois e falar olhando para a câmera: oi gente, tô aqui com ele que é da banda, como a chama a banda mesmo?, e eu: Vitrola Sintética mas não eu não sou da ban... – só que ela continuou falando amalucadamente: Vitrola Sintética, gente!, e ele vai falar pra vocês como é ser de uma banda, ai!, ai!, que emoção. Eu falei qualquer coisa e escapei daquilo indo em direção ao garoto surfista. Ele quis mostrar onde os meninos iam tocar, então andamos por um corredor, viramos à esquerda, à direita e demos em um cômodo espaçoso, que começava como cozinha e depois virava uma sala bagunçada de mesa de sinuca, violões na parede, sofás, cadeiras. Ele apontou pra essa área aí e disse: i think you guys can play there. Lá fora, o Kezo descobria que não poderia parar em nenhuma vaga na rua, e que o único jeito era estacionar num outro hostel, a uns quilômetros de distância. Então ele e Felipe Ludovice foram lá, e eu e os outros três fomos subindo nossas milhares de malas pela escada verde, e depois pro quarto com 3 beliches (6 camas) sem banheiro que dividiríamos naquela noite. Era umas 21h30 e algumas pessoas se movimentavam pelo corredor, mas nada que se assemelhasse a uma audiência de um show, o que nos fez reforçar uma suspeita de que talvez esse show fosse para 4 ou 5 hóspedes que estavam com sono ou sem dinheiro para sair do hostel naquela sexta-feira. Espalhamos nossas malas pelo quarto, e o Ota estava ansioso porque parte da aparelhagem que o Vitrola usaria naquela noite tinha sido encomendada por ele via internet para ser entregue no hostel, então ele foi perguntar pro Tomazzo – o surfista – se havia alguma correspondência para ele, “like a box”, ele disse, e o Tomazzo procurou no escritório como quem procura um livro, mas quando o Ota fez mímica esticando as mãos o máximo possível, pros lados e pra cima, dando a entender o tamanho das “box”, o Tomazzo disse: oh, i get it! E nos levou a descer escadas até que chegamos numa espécie de porão, e quando ele acendeu a luz, era como se o estoque inteiro de uma loja de música estivesse ali - mas eram os pedidos do Ota! Aquele maluco tinha comprado uma vida inteira de equipamentos (caixas de som, violões, cabos) e todos eles estreariam no show que aconteceria dali uma hora, no máximo. Então nós todos começamos a carregar aquelas caixas para o nosso quarto já bastante abalado de malas – Kezo e Felipe Ludovice já tinham voltado e acabaram estacionando o carro na rua mesmo, mas isso não resolvia muito, porque teríamos que tirá-lo de lá antes das 8 da manhã, sob o risco de ter aquele trambolho multado ou mesmo guinchado, o que não estava nos planos, mas não havia tempo para pensar nisso agora porque estávamos transportando caixas – então, enquanto íamos do porão pro quarto do quarto pro porão vimos que o hostel estava ficando mais movimentado – mais gente saindo dos banheiros compartilhados, mais gente chegando da rua, mais gente deixando os quartos – e todos se encaminhavam pra cozinha, provavelmente para assistir ao show da “amazing brazilian band” – era assim que eles se referiam ao Vitrola na lousa de avisos que ficava na entrada do hostel.

A cozinha estava cheia. Eu diria 40 pessoas, talvez um pouco mais. Duas geladeiras enormes recebiam caixas de cerveja de diferentes marcas: Miller, Blue Moon, Modelo. Kezo passou com os cases de bateria no meio da galera e montou tudo rapidamente. Ota e Rods tentavam se entender com os brinquedos novos, e Felipe Antunes não tinha muito o que fazer, então o convoquei para me acompanhar num cigarro lá fora. Descemos as escadas verdes cada um com uma latinha de cerveja na mão, falando sobre não sei o que, acendi meu cigarro que eu tinha trazido do Brasil e ficamos ali olhando para a rua, eu baforando, ele acompanhando, os carros deslizando devagar pela avenida. Um casal mais velho passou caminhando por nós, a senhora parou em frente ao Felipe e disse com voz embriagada: where are you from? Ele olhou com espanto, e respondeu pra ela: Brasil. Ela deu um sorriso sem graça, como quem esperava uma resposta diferente, talvez ele achasse que o Felipe fosse de algum país com tendências terroristas, por conta da barba – é isso o que as pessoas acham de barbudos em geral, imagine uma americana. Então a velha foi embora e nós continuamos conversando e bebendo, eu fumando, então de repente um carro de polícia passou devagar pela avenida, eu e Felipe vimos e não esboçamos reação – “ok, um carro de polícia” – e então 2 ou 3 segundos depois Felipe bateu nas minhas costas e disse: cara, acho que não pode beber na rua nos Estados Unidos! Eu imediatamente lembrei de vários amigos que já tinham vindo pra cá e me contavam sempre histórias que tinham a frase “lá não pode beber na rua”. O polícia continuou em frente, bem devagar, mas não parou, um de nós falou pro outro: será que não pode mesmo? Arriscamos no “talvez possa” e continuamos bebendo, mas aí a polícia deu seta de quem ia fazer a volta e vir em nossa direção e nós disparamos para as escadas verdes e só paramos quando estávamos dentro da cozinha ofegantes e na segurança de misturados a todo mundo. Ota mandou um sinal de que estava tudo pronto.

Felipe Antunes entrou no espaço considerado palco achando que aquele show na cozinha não seria exatamente um show. A galera falava alto demais (inglês português e espanhol sendo gritados numa ambiente pequeno e fechado). O show se encaminhava para ser apenas uma coisa a mais acontecendo no canto de uma festa caótica. Enquanto Kezo, Ota e Rods iam acertando os últimos detalhes, Felipe percebeu uma pessoa apagando as luzes, outra acertando o posicionamento de um sofá de modo a deixá-lo virado para a banda e sacou a galera falando mais baixo, depois caíram num silêncio absoluto até que todo mundo estava em posição de público. Era hora do show começar.

arte | belisa bagiani

imagens | eduardo lemos

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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