Entrevista: Alexandre Cruz "Sesper", do Garage Fuzz

O encontro aconteceu na casa de Alexandre, numa quarta-feira à tarde. Esperei por cerca de quinze minutos até que ele chegasse – o que foi ótimo, assim pude dar uma conferida em sua espetacular coleção de LPs e compactos. Passou rápido, ele estava por perto, no ateliê, ralando em sua próxima exposição, que acontece em fevereiro. Sesper também é artista plástico e trabalha com colagem, pintura e desenho, principalmente em painéis de madeira.

O papo foi além dos melhores momentos do Garage Fuzz, que em 2016 completa 25 anos de estrada marcando gerações, e do disco novo, Fast Relief, lançado no final do ano passado. Foi uma senhora aula de música – e de “do it yourself”! Sugiro que, ao acompanhar a entrevista, faça uma colinha das bandas citadas. Será de grande valia para a playlist da sua próxima festinha. Boa leitura!

AZOOFA - Fale um pouco do Fast Relief, o disco novo! Como foi o processo de composição e gravação?

A composição já vem desde o fim da gravação do Morning Walk, em 2005, ainda com o Fernando Zambelli na guitarra. Eu acho que a gente ficou uns quatro anos fazendo algumas músicas. Tinham coisas que a gente gostava, algumas ideias a gente até começou a explorar e desenvolver, mas foi deixando quieto devido às diferenças de sons que tava escutando na época. Depois do Morning Walk cada um começou a ir pra um caminho. Não que fosse fora do que a gente já escutava, mas acho que cada um começou a procurar um estilo diferente. Quando era moleque, vinte anos, basicamente nós cinco escutávamos as mesmas coisas, um ou outro escutava uma cosia de rock que as vezes era um pouco fora do que o outro tava ouvindo, mas basicamente era aquilo, as bandas do período: Sense Field, Farside, teve aquele momento que a gente descobriu Samiam, aquela onda de Bay Area quando tava bombando Green Day. Depois do Morning Walk eu fui fazer pesquisa de power pop, fui escutar pop punk, os caras começaram a ouvir outras bandas mais desenvolvidas de instrumental, Minus The Bear, essas viagens. E acho que esse material do disco novo reflete isso, o momento que a gente ficou uns anos escutando um determinado estilo. Por exemplo, o Daniel (Siqueira) tava mais numa pegada de desenvolver técnicas na batera. Eu, de 2010 pra cá, já tava escutando muita coisa de garage punk, um lance que eu escutava em 90 e voltei a ouvir, tipo (dos selos) Estrus, Dionysius, surf music, aquelas pesquisas de punk mais antigo - entre 89 e 94 -, Wipers – que a gente começou a escutar porque os caras do Nirvana gostavam da banda e a gente tinha que saber qual que era -, Greg Sage e toda aquela história que, no início, acabou sendo deixada pra trás porque a gente começou a escutar o que veio na sequência, principalmente da California, tipo Bad Religion. Eu fui fazendo uma pesquisa de novo desse som, vendo que teve uma pá de relançamento dessa historia a partir de 2008, 2009. Aí teve a troca do Fernando Zambelli pro Fernando Basseto também.

Ia te perguntar isso! Depois de muito tempo com a mesma formação aconteceu essa mudança, de certa forma inesperada pros fãs. Como rolou isso?

O Zambelli teve que fazer uns trabalhos, viajar pra Angola. É difícil ficar no esquema de viajar em van, como a gente fazia. É puxado. Ele já tava com uma filha. A gente já tinha feito alguns lances com o Basseto. Em 89 as nossas bandas de hardcore ensaiavam na mesma casa, ele tinha uma banda de rock instrumental, o Mr Green, com uma pegada meio Joe Satriani, bem quando tava bombando, com uns caras que tocavam pra caramba, e chegou a lançar dois discos. A gente se conheceu nessa época. Andávamos na mesma moçada, no começo dos anos 90, então a gente tinha um conhecimento e sabia que ele já tava tirando umas músicas nossas, não pra tocar com a gente, mas porque alguns alunos dele pediam. Então, quando ele entrou no Garage, em 2009, a gente também abriu a cabeça pras ideias de uma pessoa que não esteve antes com a banda. Até pegamos algumas músicas que ele já tinha composto em outros projetos e gravamos num EP. Foi uma experiência muito legal. A gente já tinha consciência também que tava com mais de trinta e cinco anos, com outro ritmo, então acho que foi legal o jeito de entender aquele momento. Mais da metade do disco, 70%, a gente compôs depois dessa época.

O disco apresenta temas adultos, como deixar os sonhos de lado pela obrigação de ganhar dinheiro (em “Pay Your Dues”), depressão (“The Darkside of...”) e o vício em cocaína (“Kids on Sugar”). Hoje em dia, depois de mais de vinte anos de estrada, vocês têm uma preocupação maior com a temática das letras?

As letras são bem o que a gente viveu no último período. Hoje em dia, quando eu tô escrevendo uma letra que é bem pessoal, sobre o que eu tô pensando, é mais fácil. Mas eu procuro passar nas letras alguns momentos que todos viveram em comum. Acho que a preocupação foi mais essa.

São letras mais maduras?

Acho que elas já foram mais pinturas, sabe (risos)? Essas letras são: um cara de quarenta e dois anos que ainda trampa pra pagar as contas, tem uma banda e faz o rolê underground. A gente nunca teve uma postura panfletária, uma ligação política. Acho que cada um na banda tem uma visão politica diferente. A gente tem umas ideias que batem em comum, mas não concorda em tudo. Acho que o resultado foi legal, o processo foi bem mais elaborado. Era difícil no começo, não vou mentir, não! Os caras vinham com aquelas músicas cheia de base e eu pensava: “Caralho, aonde eu vou cantar nessa porra?”(risos). A gente não faz a música ao mesmo tempo. As músicas são criadas de forma instrumental e acho que por isso que tem essa riqueza de detalhes, por não ter logo ali a voz marcando, tipo “isso vai ser o verso, isso vai ser o refrão”.  Então fica meio abstrato por causa disso. Quando tem a melodia de voz, a gente dá uma caretiada na música e formata mais no modo “verso, refrão, verso, refrão”, mas quando ela tá surgindo, ela é bem mais complexa. A gente tentou fazer da melhor forma possível, com cuidado. Quando a gente viu os caras que influenciaram a gente, que também tocou junto e ficou um tempo conhecendo, tipo Seaweed, Samiam, a gente foi perguntar pra eles como eles compunham e resolviam os lances do disco e viu que era tudo igual! Tipo: “letra é a ultima coisa, eu chego lá no estúdio, escrevo e gravo!”. A gente falou: "puta, é isso!”. Tem que ter esse lance do espontâneo também. Não é tudo que dá um resultado legal quando você tá forçando. Lógico que têm músicas que, se tem um deadline, você tem que resolver. Mas quando sai espontâneo, sem aquela nóia, acho que é mais criativo e gratificante. 

Como se deu o contato com a Roadrunner e qual o impacto após a gravadora lançar o primeiro disco "cheio", Relax In Your Favorite Chair, em 15 países? A banda era relativamente nova àquela altura...

O Brasil era diferente, tudo era diferente! Já tinha rolado aquela cena dos anos 80 no país, tipo de 84 a 89, que tinha Ultraje a Rigor, RPM, Legião Urbana, tinha tido todo o movimento punk, com o Cólera, as coletâneas, mas se você for ver bem, o que tinha no estilo pós-punk ou alternativo, pro que era na época, eram poucos lançamentos. Tinha o Harry, que fazia música eletrônica, aí depois todas aquelas coisas que vieram do Rio de Janeiro, tipo Black Future, que eram umas coisas até mais abstratas, mas cantando em português, então acho que a gente veio num momento que teve aquela virada do crossover, do metal, do Sepultura começando a bombar. O Sepultura fez ali o Schizophrenia, assinou com um selo gringo e todo mundo falou: “Olha aí, uma banda cantando em inglês consegue lançar na gringa e todo mundo gosta!”. Teve o efeito Ratos de Porão também, que tinha vindo do punk. Eu lembro que os caras tinham merchandising que vendia em banca de jornal, loja de skate e surf. Então esse rock mais porrada era normal, tava rolando nesse momento.

E a gente veio dessa transição dos 80, onde escutava as coisas independentes que eram lançadas no Brasil, tipo Sonic Youth, Pixies, que também tinham vindo do punk. A gente também tava nessa mistura. Acho que quando a gente montou a banda, existia uma cena rodando. Não tinha rolado Nirvana quando a gente surgiu. Não tinha rolado “Smells Like Teen Spirit”. A gente sabia do Bleach, mas daquele jeito, porque ia no Retrô e tinha essa cena. Eu fazia fanzine, trocava correspondência, mas já começava a pedir outro tipo de som pros caras. Então acho que a gente tava inserido numa cena diferente do Brasil, talvez por isso a gente chamou atenção no primeiro disco.

Começar é diferente hoje em dia. Na época você tinha que fazer um release em papel, que você ia xerocar, uma fita K7, porque não tinha CD. Não tinha CDR. Quando a gente foi pra Roadrunner, eu lembro que mandamos uma fita. E ainda pensamos: “Beleza, vamos colocar mais umas músicas pros caras darem uma curtida". Então era um mundo diferente, correspondência era carta, não tinha essa de telefonar. Quando a gente assinou com a Roadrunner, eles falaram: “Vocês querem marcar uma turnê? Tem aqui o telefone”. E a gente pensou: “Nossa, tem o telefone pra gente ligar!”. Era demais!

E como eles acabaram entrando em contato?

Tavam rolando uns lançamentos, chamaram a gente, escutaram a demo e curtiram. É o momento que tavam rolando aqueles vídeos de skate com o NOFX, Bad Religion, Pennywise, tava começando aquela onda, em 93 pra 94. E foi assim. Eles queriam ter um cast com bandas variadas no selo porque tinham grana. A gente ficou sabendo e mandou a fita. Na época tava rolando aquela coletânea do Marcel Plasse, No Major Babes, ele tinha a coluna dele no Estadão, também tinha a coluna do (André) Barcinski, acho que na Folha, e sempre tava saindo matéria. Era um circuito pequeno ainda. Bandas assim, rolando legal, eram umas 10. E cada uma num estilo. Tinha o Pin Ups, tinha o Garage, tinha o Killing Chainsaw, o Second Come, mas eles já tavam no Rio, tinha o Tube Screamers, o Mickey Junkies, que eram as bandas que a gente tocava e mais uma meia dúzia. Era pouco, não era como hoje em dia que você se pode dar ao luxo de montar um selo só de indie folk nacional. E você monta! Você tem segmentos pra direcionar o seu trabalho. Naquela época, não. Os caras falaram: “Vamos lançar umas bandas brasileiras. Uma vai ser de trash metal, uma mais industrial, uma mais indie e essa aqui que é meio punk pop”. E foi isso que rolou, foi assim o lançamento. Era outro período, diferente. Lógico que teve toda uma cena antes que rolou, mas pra esse segmento, da gente ir, se identificar com as bandas, foi meio pioneiro. Turnê pra Jaraguá Do Sul, Santa Maria. Nenhuma banda da galera nova tinha colado nesses lugares. Lógico, teve show do Ratos de Porão, Inocentes, Replicantes, claro, mas era difícil. Nordeste a gente ainda demorou um pouco pra ir, mas centro-oeste a gente fez todo, Brasilia, Goiânia, nesse período dos primeiros discos. E era meio desbravando, tinha umas coisas bizarras. Tipo você ir tocar e não ter equipamento, o cara te levava e não te pagava a volta. Era tudo crazy. Na hora que você tava lá você ficava meio bravo, mas no final acabava agradecendo: “Puta, que bom que rolou isso, foi foda!”. E virava memória pra vida. Com 20 anos era fácil ficar 20 horas num ônibus ou 15 dias numa van. Era tudo moleza!

Me fala do famoso encontro com o Jello Biafra, ainda no começo da banda!

Isso foi quando ele veio fazer o lançamento do livro Barulho (do jornalista André Barcinski, onde ele era um dos entrevistados dentre vários nomes do underground do rock americano). A gente tocava muito no Der Tempel e aí teve um dia que pegaram as bandas que mais tavam rolando e fizeram uma festa, porque sabiam que ele ia estar na cidade, e iam levar ele pra lá. Chamaram o Disk-Putas, que era uma banda mais performática, mais experimental, até parecia com as coisas que tavam sendo lançadas pela (gravadora) Alternative Tentacles na época, um art-punk. Também tocou Mickey Junkies, Garage e mais uma banda que eu não lembro. Só que botaram a gente meio que pro fim, não sei porque escolheram isso e como faziam a ordem naquela época. A gente tinha recebido, um mês atrás, o (disco) Repeater, do Fugazi, e sempre tocava a música “Merchandise” pra passar o som. O Jello Biafra também tinha ganho o disco recentemente e também estava escutando muito. Aí quando a gente começou a tocar, ele veio pra frente do palco e ficou agitando, pirando no show. Eu pensei: “Eu pirava no som dele e hoje ele tá aqui aqui agitando com a gente!”. E aí, no fim do show, ele virou e falou: “Olha, o som de vocês é classe A, tem tudo a ver com o que eu tô lançando na Alternative Tentacles, só que é o seguinte, esse nome de vocês é ruim pra caralho! Garage Fuzz é um estilo nos EUA! Eu sei que vocês devem ter escolhido na loucura, mas se vocês mudarem de nome e me mandarem uma fita, eu ia curtir!”. Aí a gente pensou: “Pau no cu, não vamos mudar o nome” (risos). E foi a maior cagada que a gente fez na vida! Não ter mudado o nome na hora que ele falou! E, realmente, depois que eu comecei a ir pros EUA, nas lojas de discos, e chegar nas sessões de 60s e ver “Garage Fuzz” escrito como um estilo, acho que deu uma certa confundida mesmo (risos). No Brasil não, porque não é tão notório isso, mas foi um bom toque que ele deu e a gente não seguiu.

Vocês têm um público fiel e são muito respeitados no underground. A sensação é que vocês mesmos frearam a “popularização” da banda em certo momento da carreira pra não cair numa banalização que o gênero viveu na década passada. Aconteceu isso?

Ah sim, entre 95 e 99 tiveram várias ofertas. Tinha gente falando: “Eu vou ganhar dinheiro com esses caras! Se eles cantarem em português, a gente alisa o cabelo desse vocalista e...”.

Só um parêntese, prometo que não vou fazer a clássica pergunta: “Por que vocês não cantam em português?”. Deve ter sido a coisa que você mais respondeu na história...

Não, é de boa! A gente cresceu ouvindo, primeiro, Legião Urbana, Plebe Rude, além de todas as bandas de punk que cantavam em português, mas quando a gente montou o Garage Fuzz, tava escutando Celibate Rifles, The Saints, rock australiano – até Hoodoo Gurus! Ou Sonic Youth, My Bloody Valentine... nossas influências eram Ride, etc. Quando a gente montou o Garage, no nosso primeiro release, em 1991, tava escrito Flaming Lips, Big Black... eram as coisas que a gente tava escutando no período. Nomes de selos como Amphetamine Reptile, tipo Helios Creed, Unsane, eram todos cantados em inglês! E inglês que você meio que não conseguia entender o que o cara tava cantando, porque era toda aquela “massaroca”. Essas eram nossas influências. A gente cresceu ouvindo Hüsker Dü, Black Flag. Pra gente era normal, mesmo que o inglês fosse tosco, com a pronuncia horrível e as letras com muito erro de gramática, a gente achava que esse era o caminho certo. Eu falei várias vezes pro pessoal: “Vocês querem mudar o vocal? Querem cantar em português? A gente pode ver um jeito, muda o nome!”. Mas aí foi indo, foi indo... na verdade, preocupados mesmo a gente tá em não perder nossa essência, deixar a coisa descambar musicalmente e ir pra um lado que a gente não curta. Porque a gente viu que depois é complexo, a moda passa e você fica meio formatado para aquele estilo e, as vezes, por mais bizarro que seja como vai lidando com a coisa, a coisa vai se segurando.

Vocês já dividiram o palco com grandes nomes, como Shelter, Pennywise, No Fun at All, Man or Astro-man, entre outros. Que galera marcou mais?

Acho que essa é fácil! O Fugazi foi a menos interessante, porque era uma banda que a gente gostava muito, mas viu que o Ian MacKaye era um puta louco. Ele vive num bagulho que ele não consegue aplicar no mundo. Eu conheci ele na primeira vez que ele veio pro Brasil, fiz entrevista com ele para um zine, pra mim ele era um cara fodido! Eu escutei muito Minor Threat e Fugazi na minha vida, foram bandas que me influenciaram muito nos anos 80 e 90. Quando eu vi a doidera do cara, eu vendi todos os CDs da Dischord (Records) que eu tinha! Me desiludi! Por aquela política, aquela coisa que eu acho que as vezes era até meio forçada. Eu sei que deve ser chato ser ele, ser um cara que viu o punk acontecer na frente e ter que ter aquela postura com todo mundo e não querer falar de straight edge.

Memórias legais eu tenho mesmo do Seaweed, dos shows com eles. Foram uns caras fantásticos! Era uma banda que a gente pirava e tava fazendo a última turnê. Eles sabiam que iam fazer o último show da banda e foram muito legais. O Aaron (Stauffer), vocalista, depois ficou dez dias na minha casa quando eu morava na Santa Cruz. Ficamos fazendo uns projetos, gravando em duplo deck. Não tinha dinheiro, ia pro supermercado e comprava sanduíche com patê orgânico, comia a semana inteira e o cara não tava nem aí! Não tinha maconha, ficava fumando ponta da ponta da ponta e o cara, beleza! Isso foi legal!

Teve o Samiam, pelos heróis que os caras eram pra gente, por terem mudado muito o nosso som de tanto que a gente escutava os discos deles. Quando a gente tocou com eles foi um tipo de experiência que... a gente queria ver como eles faziam, como o cara faz pra cantar pra caralho?! E a gente via ele acabando o show, depois de cantar pra caralho, matando um copo de vodca virando, depois matava outro e outro! Ele ia dormir lendo a American Scientific de costas no ônibus. E ver o Sergie (Loobkoff) e caras tocando, como eles levavam o som. Isso pra gente foi interessante. E também porque os caras foram legais e depois mantiveram contato, sempre falaram bem da gente. Quando a gente ia pra Los Angeles convidavam a gente pra beber, ir à casa deles.

Mas acho que o melhor de todos, foi um que apareceu do nada e a gente nem conhecia muito na época, o All You Can Eat, em 94, quando eles fizeram aquela turnê punk “do it yourself” mesmo. Era uma coisa que, eu, que gostava daquela cena Bay Area, Berkeley, Oakland, São Francisco e todo aquele lance que veio pós-Alternative Tentacles, aquela galera da Gilman Street, de punk, de faça você mesmo zine, admirava e era difícil de praticar no Brasil, vendo como era a mecânica dos caras. Eles vieram, ligaram, pediram pra gente ir buscar no aeroporto, na confiança, e ficaram amigos pra vida toda. São uns caras que fizeram o esquema, ensinaram a gente várias coisas. Foi um workshop de vida, de punk, tipo: punk é isso! Experiência de ter que sair a pé, andar 5km carregando instrumento e fazer o negócio feliz, rindo, achando legal. Depois eles vieram como What Happens Next?, que já era a versão deles de powerviolence, em 2002 – e a gente se encontrou de novo –, e depois como Conquest For Death.

No final dos anos 90 apareceu o Hangar 110 e começaram a surgir outras bandas, apesar de algumas contemporâneas do Garage Fuzz, como o Dead Fish e o Street Bulldogs terem se mantido na ativa. Qual foi a importância de São Paulo nessa época e qual a diferença daqueles dias pra hoje?

Têm bandas do nosso período que pararam de tocar porque acho que não souberam reciclar o público. Eu olhava o emo e ficava assustado com aquilo, os caras chorando na plateia, gritando, e toda aquela temática. Foi esquisito, porque a gente já era velho e vinha de uma época violenta. Em show da gente, neguinho tacava garrafa, cinzeiro de vidro na cabeça, ia ter skinhead, você ia tomar corrida de punk. A cena era isso! Você ia brigar com banda pra ver que horas ia tocar, então tinha toda uma agressividade na história. E quando a gente chegou naquele momento, viu que isso acabou. Não tinha mais essa violência que a gente viveu. A gente já tava com nossos trinta anos, o Fabrício já tinha filho, eu também, minha filha já tinha seus quatro anos. Mas a gente falou: “Não dá pra fazer nada contra esses moleques, a gente não vai fazer um manifesto anti emo”. Isso também é vergonhoso! A gente tinha vergonha da galera que ficava “kill your emo”, boicotando, porque viu que aquilo ali ia crescer. O que era difícil na nossa cabeça era entender como ia se adaptar àquilo, àquele momento. Porque essas bandas como as que você citou, Dead Fish, CPM, já tinham ido pra um negócio maior. Agora o Dead Fish tá underground, fazendo o rolê, mas teve um momento ali nesses dez anos que eles ficaram numa situação... você falou também do Street Bulldogs, o Garage tocou com eles nessa época também, mas os caras acabaram. O momento era de falar: “Fudeu, vamos ter que catequizar uma nova molecada e continuar!”.

Os caras que vão ficando velhos não compram mais discos! Vão uma vez na vida e outra na morte no seu show. Quem alimenta a cena é o moleque de quinze a vinte e cinco anos. Isso sempre foi assim e sempre vai ser. Tem os nossos brothers que são mais velhos, tem trinta e vão, mas se você for ver o grosso, mesmo, tem essa molecada que tem que renovar, que vai continuar comprando o seu disco, que vai descobrir a banda, então foi difícil, mas teve um momento que a gente enxergou que os caras começaram a dar uma crescida num período de três ou quatro anos. O cara que começou ouvindo Fresno, NX Zero ou até mesmo Dance of Days naquela época, que ainda era mais emo, cresceu e começou a ouvir a gente. E foi indo, na velocidade que tinha, porque a gente nunca quis acelerar, nunca achou que conseguiria fazer um disco em um ou dois anos. É até engraçado não conseguir acompanhar o tanto de disco que sai. Tem bandas que eu gosto e acompanho, que os caras sempre lançam um, dois discos por ano. E é foda, é um mercado, é complexo e a gente nunca se encaixou nisso. Então eu acho que essa demora nos discos também ajudou a galera a crescer e foi renovando e renovando.

Vai ter alguma turnê ou material especial pra comemorar os 25 anos de banda?

A gente vai preparar uma tiragem de cem unidades de cada disco e de cada demo e relançar em fita. Queria refazer o documentário também, mas acho que isso não vai rolar em 2016. Pro fim do ano a gente deve lançar material novo em um EP ou em algum formato. É a nossa ideia, fazer quatro ou cinco músicas novas.

***

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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