Azoofa Indica: Rec-Beat em São Paulo

Sim, é isso aí: vai ter Rec-Beat em São Paulo. Um dos mais importantes festivais brasileiros, que há 21 edições acontece em Recife, vai dar uma escapadinha rápida aqui para a capital paulista. É só um dia, sim, mas já é o suficiente para provarmos um pouco do tempero deste que é um evento essencial para a música latina independente.

A apresentação em São Paulo acontece neste sábado (06/02), no Vale do Anhangabaú, com shows de Karina Buhr (PE/BA), Dona Onete (PA) e Batida Dj Set (Portugal). O Bloco Odara faz a abertura do palco, "esquentando" o publico a partir das 18h30. A programação também será gratuita e ao ar livre, assim como no Recife. Saiba mais aqui.

O Azoofa bateu um papo exclusivo com Antonio Gutierrez, o Gutie, idealizador do Rec-Beat, sobre a ideia de trazer o festival para São Paulo e reflete sobre as dificuldades financeiras que quase inviabilizaram o evento este ano. "Os grandes investidores não conseguem entender muito bem o que é o Rec-Beat".

Gutie, como rolou essa parceria com a prefeitura de São Paulo?

Gutie: Procurei inicialmente a prefeitura de São Paulo para oferecer shows de algumas atrações internacionais que eu estava planejando trazer para o Rec-Beat. A ideia era incluir essas atrações na programação do carnaval de São Paulo e assim também viabilizar a vinda para Recife. A partir daí, a proposta cresceu para a possibilidade de o Rec-Beat assinar a programação de um palco em São Paulo e, ao final, fechamos a participação na programação do palco no Anhangabaú, no sábado de carnaval, dia 06/02. São Paulo é uma cidade estratégica para viabilizar atrações internacionais no Rec-Beat porque a rota aérea da maioria das bandas passa por São Paulo. E quando colocamos  também um show dessa banda na cidade, isso ajuda a diluir custos. Este ano, por exemplo, estamos trazendo Moh! Kouyaté (Guiné) e Maite Hontelé (Colombia) que se apresentam no Rec-Beat no Recife e, na volta, fazem shows no Sesc Pinheiros (dias 13 e 14 de fevereiro).

O Rec-Beat é um dos festivais mais queridos por músicos e pelo público ávido por música nova e plural. Ao mesmo tempo, quase não conseguiu ser realizado este ano. O que acontece no Brasil, que um festival como esse, ao invés de se expandir, começa a sofrer para acontecer?

Nunca foi fácil fazer o festival, talvez porque temos uma opção para um perfil não comercial das atrações. Os grandes investidores não conseguem entender muito bem o que é o Rec-Beat. Este ano enfrentamos uma dificuldade maior, com corte do patrocínio habitual, que os patrocinadores atribuem à crise econômica. O Rec-Beat é gratuito, não cobra ingressos, e isso tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que o festival ganha muito em liberdade para montar uma programação mais ousada, que não precisa necessariamente atrair público pagante, daí essa pluralidade do festival. O lado ruim é que o festival não tem a bilheteria como fonte de recursos para cobrir custos e passa a depender somente de patrocinadores e apoiadores. 

Porém, neste ano aconteceram coisas incríveis. Abri várias frentes em busca de apoio, iniciei contatos junto a novos potenciais patrocinadores, articulei com instituições internacionais, construí novas parcerias. Ou fazia isso ou o festival iria correr risco de diminuir ou não acontecer. Em momento algum pensei em cancelar, pelo contrário: as dificuldades impostas me deram mais forças para ir à luta. Ao final, não só consegui montar uma programação que eu considero muito boa e representativa  e que nada tem a ver com a crise,  como consegui também expandir o território do festival. Além de São Paulo, também faremos uma noite em João Pessoa, na Paraíba, com o projeto "Rec-BeatApresenta", que é um braço do festival dedicado a promover e chancelar banda novas, que consideramos promissoras.

Essa é a 21 edição do Rec-Beat. Nessas duas décadas, qual você considera a principal contribuição dele para o mercado de festivais? Há muitos “filhos” do Rec-Beat espalhados por aí?

Ao longo desses anos o Rec-Beat vem servindo de plataforma de lançamento de bandas novas, de novas propostas. E acho que todos os festivais independentes, não só o Rec-Beat, ganharam mais importância com a derrocada do mercado fonográfico. Antes as gravadoras faziam tudo:  elas gravavam as bandas, investiam em promoção, em execução em rádio e TV, alimentavam um mercado...seu próprio mercado. Quando isso acabou, os festivais ganharam muita importância para as novas bandas como plataforma de lançamento. A maioria das bandas que circula por festivais independentes não está na grande mídia e no entanto sobrevivem, formam público.

Sei que muitos festivais mais novos se inspiraram não só no Rec-Beat, mas também em outros festivais pioneiros, como o Abril Pro Rock, Porão do Rock, entre outros. Tem muito festival bacana, que eu adoro, cujos produtores, hoje meus amigos, me dizem abertamente que "se inspiraram" no Rec-Beat para fazer seus festivais. É claro que isso dá muito orgulho porque são festivais incríveis.

A campanha de crowdfunding ainda não acabou, mas está bem longe de atingir a meta. Qual lição vocês estão tirando dessa experiência?

Desde o início, quando tive a ideia de lançar a campanha, não sabia onde isso podia dar. Não temos exemplo de festival independente que tenha se lançado numa campanha desse tipo. Não tínhamos referência. Estou avaliando o desempenho, o que foi positivo e o que foi negativo porque quero aprimorar essa ação no próximo ano. Acho que o crowdfunding pode ser um bom caminho para financiamento de festivais como o Rec-Beat, que não contam com bilheteria. Vou estudar mais a fundo a lição deste ano, analisar detalhadamente após o encerramento desta edição do Rec-Beat, vou rever as estratégias, tudo.

São Paulo vem aumentando o número de atrações culturais gratuitas ao ar livre, e a edição do Rec-Beat na cidade só reforça isto. O que Recife e São Paulo tem a ensinar uma para a outra nesse sentido?

São Paulo e Recife tem um ponto forte em comum: a diversidade. Recife há muitos anos conta com grandes e importantes eventos diversificados gratuitos, é uma característica da cidade. E isso é bom, contribui para a circulação do conhecimento, democratiza o acesso e, contrariando alguns que acham o contrário, eu acrescento que esses eventos são formadores de público e, consequentemente, estimuladores da economia criativa. No que se refere à música, Recife conta com poucas casas de shows e os palcos ao ar livre, franqueados ao público, suprem essa carência, ou parte dela.

Percebo agora que os eventos em  São Paulo estão ocupando mais as ruas, as praças, com apoio governamental. Isso é importante porque é uma cidade gigantesca, e mesmo que aparente ter casas de shows suficientes (estou falando de música), uma grande parcela da população não frequenta esses espaços. Daí a importância de uma Virada Cultural, por exemplo, de palcos no carnaval, onde toda a diversidade da cidade transborda e chega a quem interessa, às pessoas, ao público, sempre tão carente de tudo.

Sobre as atrações nacionais deste ano: Liniker vem chamando muita atenção (e lotando shows) aqui por São Paulo. Karina Buhr, a cada disco, vai firmando-se cada vez mais como uma das vozes mais poderosas do momento. E Naná Vasconcelos, 71 anos, é um nome fundamental para a música brasileira e tem tudo a ver com o espírito do festival. Como vocês chegaram a esses e outros nomes que se apresentam neste ano?

Programar o Rec-Beat é um exercício diário, reflete a forma como eu me relaciono com a música, como eu ouço música. Busco trazer para o festival originalidade, novidade, frescor e ao mesmo tempo a valorização e reconhecimento dos grandes nomes da nossa música. Toda edição do Rec-Beattento incluir um ou dois nomes históricos. Gosto desse encontro do iniciante com o consagrado. E acho que é nesse encontro que o público percebe a linha evolutiva da nossa música. Este ano temos Naná. É um sonho antigo tê-lo no palco do Rec-Beat. Ano passado foi Luiz Melodia, no anterior João Donato. Isso junto com Tulipa Ruiz, Céu, Emicida, Karina Buhr, Lira, Liniker, Johnny Hooker, bandas novas latinas e os novos gênios que estão chegando. Toda geração tem seus gênios, aqueles que conseguem dar um passo à frente. Com um pouco de atenção a gente percebe, identifica.

Sobre as atrações internacionais: como rolou a escolha de Moh! Kouyaté e Maite Hontele?

Moh! Kouyaté e Maite Hontelé são resultados das minhas andanças por festivais e feiras de música internacionais, a maioria deles ibero-americanos. Faz uns dez anos que comecei a lançar um olhar mais atento à nova produção musical latino-americana. Acho que o Rec-Beat foi pioneiro nisso. Hoje está ficando comum encontrar bandas latinas circulando por aqui, nos festivais independentes, mas não era assim. Por conta desse meu interesse, hoje faço parte de associações de produtores e de managers ibero-americanos. Por ano sou convidado a visitar cerca de oito festivais e feiras. É aí que entro em contato com novos nomes, bandas em ascensão e que em poucos anos viram atrações internacionais. Bomba Estéreo (Colômbia), por exemplo, Ana Tijoux (Chile) hoje são nomes fortes não apenas em seus países, mas internacionalmente também e, no Brasil, se apresentaram pela primeira vez no Rec-Beat.

Maité Hontele, outro exemplo, se apresentou há dois anos no Rec-Beat e agora está voltando. Nesse tempo foi alçada ao posto do mais forte nome da salsa colombiana, com indicação ao Grammy e tudo mais. Um nome prestes a explodir.

***

arte: belisa bagiani sob arte de karina buhr

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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