Azoofa Indica: Salloma Salomão

Salloma Salomão nasceu em Passos (MG), mas vive em São Paulo há um bom tempo. Salloma Salomão tem 40 anos de carreira, mas nem parece - no palco e na voz parece um menino. Salloma é compositor com um dedo do pé no samba, o outro no funk, o outro no rap, o outro no soul, o outro na música africana, origem de tudo e de todos. Mas ele é compositor? Não só. É historiador e escritor também.

Não conhecer Salloma Salomão é normal, mas não deveria - eu não conhecia. Mas uma das partes mais bonitas de estar vivo é a ignorância, porque sem ela não se descobre nada. E o mais novo trabalho de Salloma é uma benção para quem, como eu, se sentiu afeito a mergulhar na sua obra o mais rápido possível. Trata-se de "Notas Tortas da Madrugada", que conta com CD e DVD, gravados ao vivo, e um livro com letras de mais de 50 composições. O lançamento acontece nesta sexta-feira, no Itáu Cultural (saiba mais).

Com exclusividade para o Azoofa, Salloma fala sobre o show, sobre o trabalho de recuperar sua própria obra e o peso da passagem do tempo. "O pavio da minha existência física está queimando rápido e ao longo desse tempo passei por muitos lábios, habitei alguns corações desavisados e assimilei muitas paisagens. Uma pergunta passei a fazer: qual meu lugar nesse mundo?".

AZOOFA: Como você concebeu o show Notas Tortas da Madrugada?

Salloma Salomão: Primeiro montei uma banda com amigos e comecei a mexer com canções bem recentes. Depois fizermos arqueologia de antigas canções que gostava, mas que nunca tinha gravado adequadamente. Quando tínhamos uma 8 canções mais ou menos em pé, comecei a olhar para o desenho que elas formavam em conjunto. A mais forte delas nos pareceu ser a Notas Tortas da Madrugada, uma canção de 1988, que eu tocava na época da Vândalos de Chocolate, a quarta banda que participei em São Paulo. É uma canção de acento soul, cuja letra fala de minha percepção sobre o amor e a cidade. Dois temas que atravessam a poética de todas as letras.

Esse novo trabalho une CD, DVD e livro. Como surgiu a ideia de lançar tudo de uma vez?

Tenho 55 anos, quatro filhos, muitos sobrinhos, sobrinhos netos e até sobrinhos bisnetos, tenho três netos. O pavio da minha existência física está queimando rápido e ao longo desse tempo passei por muitos lábios, habitei alguns corações desavisados e assimilei muitas paisagens. Uma pergunta passei a fazer: qual meu lugar nesse mundo?  Não juntei bens, não adquiri status, não tenho um legado material que possa deixar como rastro da minha breve passagem pela esfera. Ao longo dessas décadas a musica me ajudou a olhar pro mundo com olhos marejados de sonhos, também me ajudou a superar perdas e dores fundas, que foram sendo colocadas em canções e letras. Tenho bem perto de mim gente muito talentosa que lida com som e imagens. O resto foi feito por amigos e conhecidos que financiaram o projeto nas plataformas digitais. Foi um ano e meio de trabalho intenso, nas horas vagas da pesquisa e das aulas. O texto de prefácio do poeta e pesquisador Allan da Rosa, tratamento gráfico de Rodrigo Kenan, vídeo de Marcelo Macca da Encourado Filmes (finalização de Ivan Lino, Skovinha Miliano) e gravação, mixagem e masterização de Nilson Costa da Audio-Company.

Você fez um verdadeiro trabalho de arqueologia da própria produção, escavando e descobrindo antigas composições. Imagino que tenha sido um processo emocionalmente forte…

Sim... tenho mais de trezentas canções, componho desde 14 anos. Então, buscar fitas K7, vídeos, letras em papel de pão, na memória já cheia de buracos do tempo, passou a ser uma aventura. Depois escolher quais canções e letras deveriam ou não entrar nessa amostragem foi muito mbakana.

Como você definiu o que entraria ou não nesse trabalho?

Primeiro selecionei canções inéditas recentes e escolhi uma prévia de mais ou menos umas 30 mais antigas. Quando joguei as primeiras sobre a mesa, vi algumas recorrências na poética: Tempo, Cidade, Afetos, etc. Recorrências nas melodias e ritmos: reggae, samba-soul, samba canção, rock de notas longas. Tentei me lembrar das referências musicais por detrás das composições e cheguei a uma certa memória do que ouvia há anos atrás: Macalé, Melodia, Caetano, Gil, Al Green, etc. Puxei arquivos digitais desses caras para levar para os músicos. Ouvimos e começamos o processo de arranjos, pensando em: Voz, Sopros, Guitarra e Teclado. O teclado não veio, daí uma segunda guitarra. Depois o ambiente de banda de garagem fez o resto da mágica. Pizza, refrigerante, conversas sobre cultura musical dos anos 1970, mais música, um Chico e mais refrigerante. Quando vimos já tínhamos um desenho com algum sentido.

No meio de um show recente, você falou: “que momento legal da vida! Embora o mundo seja sempre o mundo…”. Há uma percepção geral de que o mundo está numa fase cheia de ódio e intolerância - escancarado na questão dos refugiados e na ascenção da direita na política - e, especialmente no Brasil, em que há uma frustração imensa com os caminhos políticos. Como historiador, músico e cidadão, como essas coisas estão chegando pra você?

Sim, o pêndulo está tendendo para um novo fascismo, ele está se desenhando em toda geografia. Já não tenho mais tempo para fantasias tolas avindas das palavras de ordem. De outro lado, posso continuar me afeiçoando das pessoas e adotando atitudes éticas e perseguindo a beleza e o encantamento. Talvez muito em breve as pessoas aceitem formas de controle total de suas vidas em troca de abrigo, segurança e trabalho. Contudo, há possibilidade real de que uma fagulha de liberdade e justiça também possa reascender o gosto pela vida, isso poderá os centros de compra e as empresas de tela digital a falência. Nada está totalmente definido.

Pra você, como é a experiência de estar no palco?

Sim. Ansiedade, euforia, insegurança e a busca da culminância de um processo criativo.

Queria que você contasse um pouco da tua formação como músico. Quando foi que você teve os primeiros contatos com música? E em que momento você decidiu fazer disso uma carreira?

Comecei ouvindo música em casa, meu pai era carpinteiro e tocava violão, flauta e cavaquinho nas horas vagas. Também tinha música da umbanda que minha mãe e meus irmãos frequentavam e me levavam. Além disso, tinha música da igreja presbiteriana que ia com minha família nas quartas e sábados a noite lá em Minas. Tinha também a música negra tradicional das Folias, Congados, Moçambiques, das festas Natalinas, que ouvia nas ruas de Passos (MG). No final dos anos 1960, meus irmãos mais velhos começaram a frequentar festivais e compor, e traziam esse repertório autoral e do rádio para dentro de casa. Com 14 anos, também comecei a frequentar festivais estudantis e formar minhas bandinhas com colegas de escola. Mas foi em Minas, para onde voltei em 1978, que descobri em um festival de São Sebastião do Paraíso que havia em mim uma vocalidade e performance, que poderia aperfeiçoar. Desde então tenho perseguido isso. Antes aprendi música com amigos, fiz conservatório pouco tempo, dois anos de faculdade de música e mais dois anos na Fundação das Artes em São Caetano. Fui aprendendo a compor, desenvolvendo noções de arranjos com a ajuda de amigos. Quando voltei pra faculdade, tinha um plano de estudos de 12 anos da graduação ao doutorado e o tema era música negra. Com ajuda de muita gente é isso que fiz. Na graduação estudamos - eu e Amailton Grilo da PUC - a produção das gravadoras negras de São Paulo (Chic Show, Zimbabwe, etc) e a cena de pagode e rap. No mestrado, me debrucei sobre o discurso de idade negra na música urbana brasileira entre 1970 e 1990 (Paulinho da Viola, Candeia, Luiz Vagner, Lumumba, Jorge Ben e Racionais). Após fazer um curso de Etnomusicologia na USP com o pesquisador Congolês Kazadi Wa Mukuna, comecei a vislumbrar o projeto de pesquisa de doutorado sobre Musicalidades Africanas no Brasil no século XIX. Daí as viagens de pesquisa para África e Europa em busca de instrumentos musicais musealizados e gravações antropológicas de música africana. A tese de doutorado chama-se Memórias Sonoras da Noite, defendida em 2005, no departamento de História da PUC. O CD do mesmo nome é de 2002.

No show, você é acompanhado de uma big band, que remete às bandas que acompanhavam ícones do funk e do soul dos anos 60 e 70. 

É uma banda bem bakana. O guitarrista Guilherme Braz já toca comigo desde 2013, tem formação no Conservatório de Tatuí e é professor de música. Outro guitarrista é Sandro Lima, também é professor da Fábrica de Cultura do Jardim São Luis, tem uma trabalho autoral na Banda Ouro e Chá. Nela também participam os produtores culturais Will Cavagonoli, nosso baixista, e Rafael Franja, nosso percussionista. O baterista é Felipe Nigro, uma talento especial, com versatilidade e audição refinada, também é professor de instrumento. Os três sopros: Elias Costas, Jessica Evangelistas e Wellington Bernado conheci em um projeto social, onde trabalhavam como monitores. Há alguns anos tocam um belo projeto de pesquisa sobre música vocal africana e afrobrasileira denominado: Deodara. Por fim tem o Denys Filipe, que é o mais jovem, cuja história surpreendente é o fato de ter aprendido a tocar saxofone tomando aulas em vídeos postados na rede web. Todos, de alguma forma, estão ligados a cena de música autoral nas quebradas da zona sul, coletivos e saraus.

Por fim: suas canções entregam muito rapidamente as suas influências africanas e de funk, rap e soul. Você consegue indicar 5 discos essenciais para sua formação como músico e compositor?

Pode ser mais de cinco?

Claro!

Aqui vão: Ednardo - Ednardo; Belchior - Coração Selvagem; Milton Nascimento - Gerais,  Gilberto Gil - Refavela; Caetano Veloso - Transa; Macalé - Contraste; Luis Melodia - Maravilhas Contemporâneas; Bob Marley - Positive Vibrations; Thomas Mapfumo - Chimurenga; Miriam Makeba - Sangoma; Tore Kunda - Live in Paris; Ziguichor; Racionais - Sobrevivendo no Inferno; Al Green - I’m Still In Love With You; Ba-Kimbuta - Universo Preto Paralelo; Aláfia - Corpura.

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arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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