Azoofa Indica: Yaniel Matos

Quando Yaniel Matos deixou Cuba e se mudou definitivamente para o Brasil, o presidente da República era Fernando Henrique Cardoso, a seleção brasileira ainda era tetracampeã do mundo e era através do CD que todo mundo escutava música. Corria o ano 2000, e Yaniel tomou um susto quando chegou em São Paulo. "Tudo era muito diferente. Parecia que eu estava vivendo uma pós graduação", conta o pianista, hoje, já praticamente um paulistano depois de 16 anos na capital.

Músico brilhante, Yaniel chegou aqui como um típico jovem recém-formado do Instituto Superior de Artes de Cuba. Construiu seu nome e carreira em terras brasileiras, atuando tanto na carreira solo - tem dois discos lançados, sendo o último, "La Mirada", de 2014 - como no grupo Mani Padme Trio, quanto gravando e tocando junto com Marina de La Riva e Laura Lavieri.

Neste sábado, o músico cubano se apresenta no JazzB (saiba mais). Com exclusividade para o Azoofa, ele falou sobre a influência da TV brasileira em Cuba, suas referências musicais e sobre o momento político de seu país. "Espero que o povo consiga viver melhor sem perder as conquistas logradas".

AZOOFA: Yaniel, quando você era criança em Cuba, qual é a imagem que você tinha do Brasil? E em que momento resolveu se mudar pra cá?

Yaniel Matos: Lá, sempre assisti a várias novelas brasileiras. Elas fazem parte da programação semanal da TV cubana, e por ali vim conhecendo a cultura brasileira. Além disso, por estudar música no conservatório, o interesse pela sonoridade brasileira sempre me atraía. Lembro quando passou o seriado “Malu Mulher” (1979) com a música “Começar de Novo”, de Ivan Lins e Vitor Martins. Achei o tratamento da melodia e da harmonia incríveis. Senti paixão pelo Brasil imediatamente! O tempo passou e no ano de 1999 tive a oportunidade de conhecer o país. Passei 15 dias em São Paulo e neste tempo conheci pessoas maravilhosas que me motivaram a estar mais por aqui. Lembro que na época tocava piano na banda do cantor cubano Isaac Delgado, e tinha muitos compromissos a cumprir por lá, mas 6 meses depois de ter estado no Brasil, decidi começar um novo capitulo de minha vida morando em São Paulo.

Depois de tantos anos, você ainda guarda a memória de seus primeiros dias aqui? O que mais marcava a diferença entre Cuba e Brasil pra você, naquele momento?

Eu gosto de comemorar datas e festejar a vida. Todos os dia 20 de fevereiro, eu ganho um ano a mais no Brasil. Gosto de viver aqui, tenho amigos, família, minha música. Eu escolhi viver no Brasil, e continuo achando inspirador morar aqui. Quando cheguei, vim para São Paulo – e pra mim, que vinha de uma ilha, tudo era muito diferente. O tempo das pessoas, as discussões e preocupações, a maneira de olhar a vida. Era como estar vivendo uma pós graduação.

Em “La Mirada”, seu segundo disco solo, todas as composições são suas. Como é o teu lado compositor? O que te instiga a compor uma canção?

Estou envolvido na música desde muito jovem, venho de uma família musical, meu avô era um excelente repentista e conseguia compor uma canção para qualquer coisa em qualquer momento. Creio que, com ele, aprendi a utilizar a espontaneidade para escrever. Aos 19 anos, entrei no Instituto Superior de Artes (ISA), em Cuba, para estudar cello e composição. A formação musical em Cuba é erudita. Não se aprende, nas escolas de artes em Cuba, a música popular ou internacional. Estes conhecimentos da música tradicional europeia  junto com a vivência cubana, me dá a possibilidade de compor sem medo, compor para descrever uma situação, ou para causar uma sensação. Os motivos para sentar e compor é simplesmente a vida. Creio que sempre estou compondo.

Nesse disco, há jazz, bolero e até reggae. Como foi a experiência de viajar por outros gêneros?

Divertido! “La Mirada” foi um disco de virada, senti desejos de escrever canções e eu mesmo cantar. Creio que, quando gravo um disco novo, estou mostrando algo que quero ouvir, nesse momento de minha vida eu estava procurando uma nova mirada [olhar]. Existem momentos em que quero falar coisas, e busco uma forma para dizer, e “La Mirada” foi uma forma.

Você já comentou sobre como foi importante, ainda criança, ter tido contato com a música. Aqui, você se tornou professor do Curso Superior de Música da Faculdade Cantareira. Sendo o Brasil um país notadamente musical, por que você acha que até hoje o ensino de música nas escolas não se tornou obrigatório por aqui?

Cada país tem sua cultura e isto faz parte da formação de um povo. Cuba sempre foi um país musical, e tivemos grandes abertura à música no planeta, mas o estudo nas escolas de música é bem rigoroso. Com 8 anos de idade, se pode estudar violino, cello e piano erudito com 12 ou demais instrumentos. Estando nas escolas, o aluno vai estudar matemática, literatura e música ao mesmo tempo, sai da aula de matemática e vai estudar piano, na hora seguinte entra na aula de educação física, depois história, depois solfejo e assim vai passando o dia. Agora, se reprovar qualquer matéria e não passar de curso, acabou o sonho da música, tem que sair da escola e não tem mais idade para estudar. A formação é muito boa mas é muito exigente.

Sobre o show deste final de semana no JazzB, o que você está preparando?

Neste momento, estou preparando meu próximo disco, e as composições que venho trabalhando mostram uma música cubana contemporânea, onde me aproprio das técnicas e da filosofia da escola musical erudita, com a cultura do tambor e dos ritmos nascidos em Cuba que ganhamos com os descendentes dos povos de Congo e Nigéria. Para este trabalho, chamei dois músicos cubanos, Eduardo Espasande (percussão) e Aniel Somellian (baixo). Este novo projeto, que vai se chamar “Carabali”, me dá as ferramentas que necessito para expressar o que quero dizer nestes momentos.

A reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, dizem, já vem mudando o dia a dia dos cubanos. Obama fará uma visita ao país em março, na primeira visita de um presidente americano à ilha desde 1928. Como você está vendo esse momento político e histórico? E qual a sua expectativa para o futuro de Cuba?

As mudanças sempre marcam algo novo, e Cuba precisa de muitas coisas novas. Espero que o povo consiga viver melhor sem perder as conquistas logradas. Eu nasci no governo de Fidel Castro, e apesar de sofrer com a escassez, aprendi muitas coisas que me acompanham até hoje. Não consigo imaginar Cuba daqui 20 anos, mas confio na intelectualidade cubana e ela é muito importante para esta transição.

Por fim: queria que você citasse artistas cubanos e brasileiros que são referências para você e para sua música.

Esta parte é linda! Eu hoje tenho minha seleção cubana e brasileira bem definida. Compositores cubanos: Alejandro Gracia Caturla, Amadeu Roldan, Leo Brouwer, Chucho Valdes, Gonzalo Rubalcaba, Orquesta Aragón Los Van Van e Benny More. São muitos... Compositores brasileiros: Heitor Villa Lobos, Ernesto Nazareth, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, João Gilberto e Milton Nascimento. São muitos!

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arte | belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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