Entrevista: Rafa Castro

Rafa Castro é pianista, compositor e arranjador de trilhas sonoras para cinema e teatro. Mineiro, chegou recentemente em São Paulo e por aqui vem divulgando seu quarto álbum lançado, Casulo. Em 2014 lançou o CD/DVD Teias em parceria de Túlio Mourão, figura marcante no piano de importantes discos de Milton Nascimento e grandes nomes da música popular brasileira - Mourão também fez parte da fase progressiva d'Os Mutantes, gravando o disco Tudo Foi Feito Pelo Sol -, onde, em projeto ousado, dividem o palco intercalando dois pianos.

Na bagagem de Castro destacam-se também o prêmio BDMG de música instrumental de 2012, além de uma turnê européia que passou por Alemanha, Rússia, Noruega, Portugal e França em 2014. O músico passou a limpo sua jornada até aqui em um esclarecedor papo com o Azoofa:

AZOOFA - Conte um pouco sobre o início da sua trajetória. Quando e como decidiu ser músico?

Rafa Castro - Não tenho músicos na família, mas fui influenciado pela naturalidade que é ter música sempre por perto. Estudei violão e teoria musical dos 13 aos 15 anos, mas nunca consegui entender, pois achava que era um instrumento sem muita lógica e sequência. Foi aos 19 anos que tive minha primeira experiência com o piano, e tudo o que eu tinha aprendido até então, fez sentido. A partir dai, minha relação com esse instrumento foi muito intensa. Com alguns meses passei na prova da Universidade de Música Popular Bituca, em Barbacena (MG), onde estudei com Ian Guest, Felipe Moreira, Gilvan de Oliveira, dentre outros grandes nomes. Fui me envolvendo cada vez mais, e descobri na música uma forma de me encontrar no mundo. Aos poucos a música foi direcionando todo o meu foco e me levando naturalmente pelos caminhos que venho percorrendo.

Você acaba de lançar Casulo, seu quarto disco. Como foi o processo de composição e gravação? Quais influências você trouxe pro álbum? Em que ele se diferencia de seus outros trabalhos?

Casulo foi um momento de descobrimento e novas experiências para mim. Trago toda carga afetiva das minhas influências musicais mineiras, principalmente pós Cd/Dvd Teias que pude participar ativamente da música com um dos representantes do Clube da Esquina que é o Túlio Mourão, num duo de pianos raro na música popular brasileira, e minha experiência e mergulho na composição de trilhas sonoras. Consegui juntar dois pilares que são muito latentes no meu trabalho, e acredito que cheguei num resultado real do que estava fazendo sentido para mim. Nesse disco, assumo minha faceta de compositor e acredito que descobri minha maneira de pensar e expressar artisticamente minha identidade. Comecei a pensar seriamente sobre meu papel e sobre minhas virtudes. Ainda tem muito trabalho e amadurecimento pela frente, mas achei um fio condutor que me representa.

A mudança para São Paulo reflete um amadurecimento musical ou foi apenas uma mudança de centros, importante para sua divulgação? 

Senti que precisava dar um passo na minha carreira. Queria muito mergulhar nos sonhos e projetos. Aprofundar tecnicamente, artisticamente em todas as áreas do meu trabalho. São Paulo, me traria todas essas possibilidades. Por isso eu vim.

A apresentação na Funarte foi feita em formato piano, baixo acústico e bateria, com o Igor Pimenta e o Gabriel Altério. Os shows da turnê continuarão sendo nesse formato?

Os show da Tour estão sim, sendo na formação de trio. Estou muito feliz em poder contar com grandes músicos e amigos, que acreditaram no trabalho e estão se entregando por inteiro no projeto. Gabriel e Igor me surpreendem a cada dia pelo carinho e força que depositam nas músicas.

Recentemente também foi lançado o CD e DVD Teias, projeto seu em parceria do pianista Túlio Mourão. Como surgiu a relação com o Túlio? Fale um pouco da turnê e do desafio de entrecruzar dois pianos no palco! 

No ano de 2012, fui um dos vencedores do prêmio BDMG Jovem Instrumentista em Belo Horizonte, e tive como premiação escolher alguém que acompanharia minha carreira durante um ano. Não pensei duas vezes. Escolhi o Túlio pela admiração que tenho pela sua história, e tudo que ele fez por nossa música brasileira. Tenho muitas referências do Túlio na minha maneira de tocar. Sempre escutei os pianos dos discos do Milton Nascimento e as misturas da música mineira com a música do mundo. Túlio amarra muito bem isso e fez escola com o disco Jasmineiro. Nesse ano de convívio, fomos estreitando nossos laços e, ao fim dessa jornada, fomos convidados para participar do Projeto Piano na Praça aqui em SP. Nessa ocasião, ao fim dos concertos, resolvemos fazer o bis num piano a quatro mãos e foi incrível. Saímos do palco com a certeza que precisaríamos fazer um registro desse encontro.

Surgiu o Teias, que é a união de duas gerações de músicos mineiros, num momento raro da música brasileira: a união de dois pianos. O projeto permite uma enorme riqueza melódica, harmônica, rítmica e de timbres. A concepção do trabalho explora o piano em todas as suas possibilidades, prezando pela liberdade criativa e espaço para improvisação e contribuições individuais para a sonoridade. É incrível fazer parte de tudo isso.

Você vem se destacando na nova cena instrumental brasileira. Quais outros músicos contemporâneos você vem escutando – e pode indicar – no mesmo segmento?

Tive a oportunidade de tocar e gravar com grandes nomes, e sempre foi incrível, mas tenho certeza que as pessoas que mais me influenciaram e contribuíram para minha formação foram os músicos de minha geração, que tive o privilégio de ouvir, ou conviver e tocar junto. Gladston Vieira, Adalberto Silva, Caetano Brasil, Daniel Lovisi, Breno Mendonça, Antônio Loureiro, Rafael Martini, Alexandre Andreas, Felipe Continentino, Pedro Martins, Frederico Heliodoro, entre outros.

Dentre tantos shows nos mais diversos palcos com os mais diferentes artistas como companhia, qual a apresentação mais especial que você já fez? Por que?

Tive a honra de ter sido convidado para alguns festivais no ano de 2014 para excursionar na Europa. Fiz concertos de piano solo e, no repertório, selecionei minhas composições e um apanhado de músicas do cancioneiro popular brasileiro que mais me influenciam no meu jeito de compor. Quis contar um pouco da minha maneira de interpretar as coisas que escuto, e mostrar de onde vem minha base para realizar meus trabalhos.

Fiquei muito impressionado com o calor com que fui recebido. Minhas músicas foram aceitas e elogiadas por onde passei. Fui surpreendido de como o publico (especializado ou não) estava completamente aberto ao novo e a novas experiências. Espero que, com o passar dos anos, o espaço do compositor brasileiro seja cada vez mais valorizado na nossa terra.

Além de instrumentista você é produtor, diretor musical, compositor e arranjador de trilhas sonoras para cinema e teatro. Além de Casulo e Teias, você vem trabalhando em mais algum projeto atualmente? Algo novo em vista?

A palavra sempre foi muito significativa para mim e me propus o desafio de encontrá-la dentro do meu trabalho. Nesses últimos tempos tenho me dedicado a unir a música instrumental ao meu canto. É uma fronteira que me desperta muita força e assim tem nascido todo o sonho do disco novo. Unir dois mundos que não são comumente comunicáveis, mas que para mim nos dias de hoje, é a completude do meu trabalho. Segundo semestre tem disco novo na área!

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Quem escreveu
Daniel Branco

 

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