Azoofa Indica: Vanessa Moreno e Fi Maróstica

A história que levou Vanessa Moreno (voz) e Fi Maróstica (baixo) a formarem um duo tem ares cinematográficos, e caberia perfeitamente no inescapável modelo da jornada do heroi: um personagem - no caso, dois - são chamados ao desafio, superam os obstáculos e terminam transformados. Mas vale deixar eles mesmos contarem esta passagem, como acontece na entrevista abaixo.

Sete anos depois de formalizarem a parceria, eles já lançaram um disco ("Vem Ver", de 2013, de repertório autoral) e chegam agora ao segundo trabalho, "Cores Vivas", em que Vanessa e Fi mostram interpretações criativas para o cancioneiro de Gilberto Gil. O show de lançamento acontece neste domingo (13), às 19h, no Auditório Ibirapuera. Fabiana Cozza e Monica Salmaso fazem participações (saiba mais sobre o show).

Nesta entrevista exclusiva ao Azoofa, a dupla explica porque escolheu gravar um disco com músicas do compositor baiano e diz que a música que busca apenas o sucesso está fadada ao fracasso artístico. "O importante é fazer sempre com o coração independente do estilo".

AZOOFA: Antes de qualquer coisa, vocês se lembram de quando ouviram Gilberto Gil pela primeira vez?

Vanessa Moreno e Fi Maróstica: Com certeza a primeira canção que ouvimos do Gilberto Gil foi Sítio do Pica-Pau-Amarelo. Mas éramos crianças, não tínhamos nenhuma noção da grande obra desse mestre, o que foi acontecer só um bom tempo depois.

O primeiro disco do duo trazia canções autorais. Porque agora lançar um álbum com músicas de outro compositor?

No primeiro disco fizemos somente uma releitura que foi "Conversa de Botequim" do Noel Rosa e Vadico. E essa faixa sempre chamou muito a atenção das pessoas que ouviam o disco. Começamos a entender que a melhor forma de desenvolvermos esse trabalho buscando desafios, pelo menos nesse momento, era em cima de músicas que as pessoas já conheciam, porque assim conseguíamos mostrar os diferentes caminhos que essa reduzida formação poderia oferecer de uma maneira mais efetiva. Após essa nossa constatação, tivemos o conselho da nossa Madrinha musical Rosa Passos, dizendo que acharia bacana fazermos releituras, que seria muito interessante musicalmente e artisticamente. Então, resolvemos mergulhar nesse universo de intérpretes e a consequência foi esse nosso segundo disco com canções do Gil.

No disco, vocês abordam a obra do Gil como um todo, sem focar em apenas uma fase dele. Como foi o processo de escolha para chegar em apenas 11 canções, partindo de um cancioneiro tão extenso quanto o dele?

Foi bem difícil! (risos). Somos muito fãs da obra do Gilberto Gil e escolher 11 faixas não foi realmente tão simples. Vários pontos que influenciaram na escolha. As músicas que tinham os violões mais marcantes de Gil nos sugeriam maiores possibilidades nos arranjos e na interpretação. Todos os arranjos foram muito focados nesse violão super completo e rítmico que o Gil toca.  Outro ponto importante é a mensagem que cada canção traz. Estávamos sempre atentos a isso também, para casar com o que gostaríamos de dizer neste momento. O nosso produtor Swami Jr. nos ajudou muito na escolha e finalização desse repertório.

Houve alguma canção que entrou mais por questões emocionais do que técnicas, digamos assim?

Com certeza, todas as canções escolhidas tem um apelo emocional pra gente, seja na reflexão, na reverência, na alegria, no amor ou em tudo isso junto.  O Gil tem mensagens lindas de todas essas qualidades em suas canções. Acho que a música sempre teve um papel fundamental na sociedade. No nosso ponto de vista, o mundo em que vivemos está muito carente de amor, respeito e de benevolência, e com certeza se cada um de nós que aqui habita exercitasse um pouco de amor ao próximo da maneira como pode, tudo estaria mais leve e mais fluido. Tentamos, humildemente, levar coisas boas pras pessoas através da nossa música, trocar energias positivas. Então, pra gente a música sempre terá questões emocionais muito fortes e a técnica sempre estará atrelada como uma ferramenta para que isso seja possível.

Gil é um compositor bastante versátil e suas músicas passeiam por diversos ritmos. O que foi mais fácil e mais difícil na hora de transformar essas músicas para o universo do baixo e voz do duo?

Na verdade, essa versatilidade do Gil também foi um ponto importante para a decisão de  fazermos um trabalho com suas canções. Essa quebra de preconceitos é algo que também buscamos sempre. Gil é samba, reggae, rap, rock, baião, xote, pop, etc. Sempre com uma verdade muito grande e com uma qualidade musical indiscutível. Isso nos cativa muito, porque também compartilhamos dessa ideia em relação a arte. O importante é fazer sempre com o coração independente do estilo que esteja desenvolvendo. Se eu quiser gravar um disco só com o intuito de vender 1 milhão de cópias, com certeza a pureza se foi. Que o "sucesso", seja ele como for, seja fruto de um trabalho feito com muito amor e verdade.

O disco tem produção do Swami Jr. Qual foi o papel dele neste processo?

O querido Swami Jr., grande músico que sempre admiramos muito, abraçou esse trabalho com a gente como se fosse dele. Ficamos imensamente felizes com isso e a experiência dele foi muito importante para que conseguíssemos o melhor resultado possível naquele momento. Ele nos ajudou muito no momento de gravação no estúdio, repertório e na ordem que as canções foram para o disco.

O show deste domingo terá a participação de Fabiana Cozza e Monica Salmaso. Como rolou a escolha?

A aproximação com a Fabiana se deu através de um show em homenagem ao compositor chileno Victor Jara, em abril de 2015, no qual eu, Fi, tive a felicidade de fazer parte da banda, acompanhando Fabiana Cozza, Renato Braz e a cantora chilena Annie Murath. Foi a partir daí que começamos a nos aproximar e ficar amigos. Hoje em dia, acompanho ela em alguns de seus shows na carreira solo. Ela é uma querida! Somos muito fãs da sua música e da sua pessoa e tivemos a imensa felicidade de ter sua participação no nosso disco e agora no show de lançamento. A Monica é outra cantora que dispensa comentários, super querida e de quem somos muito fãs. Ela também estará lá com a gente no show de lançamento, para nossa imensa alegria. É sempre muito gratificante estarmos rodeados de pessoas incríveis e que sempre adimiramos muito.

Como vocês estão desenhando este espetáculo? Vocês pretendem incluir também canções de “Vem Ver”, por exemplo?

Esse show será somente com canções de Gilberto Gil, todas as faixas do disco e várias outras surpresas que preparamos. Lá também terá o disco novo para vender.

Vocês tiveram de falar com Gil sobre este disco? Ele está sabendo dessa homenagem?

Sim, entramos em contato com a produção do Gil para legalizarmos todos os detalhes e também já encaminhamos um CD para o Gil. Estamos aguardando o seu retorno e torcendo para que ele goste!

Como vocês se conheceram e resolveram formar o duo?

Nos conhecemos através da música, quando desenvolvíamos um trabalho em quarteto (piano, baixo, bateria e voz) no ano de 2009. O duo aconteceu de uma forma nada premeditada (risos). A Vanessa mandou uma música de sua autoria em parceria com a Paula Mirhan (que inclusive está no nosso primeiro disco, chamada "Um de Três") para um festival da canção em Botucatu. A música acabou passando nas eliminatórias. Quando entramos em contato com os músicos que faziam parte deste trabalho conosco, nenhum deles estava disponível no dia da apresentação. Foi aí que a Vanessa teve a ideia de fazermos de baixo e voz. Não foi muito bem uma ideia, foi uma necessidade! (Risos). O festival foi muito bacana e a receptividade das pessoas também! Acabamos ganhando os prêmios de melhor intérprete e melhor instrumentista. Isso nos motivou e foi o pontapé inicial para tocarmos em frente esse trabalho.

Agora uma pergunta meio exercício de futurologia. Eu sei que vocês estão apenas no segundo disco e que ambos tem carreiras paralelas, mas vocês tem alguma intenção definida de que o duo tenha uma carreira longa? Ou: num mundo tão fragmentado como o nosso, ainda há espaço para artistas como Gil, com 50 anos de carreira e mais de 40 discos lançados?

Sim, com certeza continuaremos sempre com esse trabalho. Inclusive, já estamos com mais dois projetos bem diferentes engatilhados, ambos nessa formação, para serem desenvolvidos logo mais.  Acho que existe espaço, sim, para desenvolvermos uma carreira longa. Mas precisa de muito trabalho, organização, dedicação, responsabilidade e, principalmente, nos tempos em que a música, de certa forma, se perdeu em meio aos apelos midiáticos incessantes. Seguimos firmes e fortes para sempre levarmos nossa arte feita com muito amor e carinho para todos.

*** arte | belisa bagiani
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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