Azoofa Indica: Aline Frazão

Aline Frazão é angolana de nascença, portuguesa e espanhola de vivência e brasileira de influência. A cantora e compositora de 27 anos, que está no país para uma mini-turnê que chega a São Paulo nesta quarta-feira, no Mundo Pensante (saiba mais sobre o show), diz que aprendeu a tocar violão ouvindo Chico Buarque e Djavan, dois dos artistas que mais tocavam na sua infância nas rádios de Luanda.

Todo esse universo misturado também marca sua forma de fazer música. Africana, jazz, rock e pop tornam-se palavras pequenas para definir suas crias. E em seu terceiro e mais recente álbum, "Insular" (2015), Aline leva esta tendência natural às últimas consequências. "É um disco que não pretende caber em estantes, nem é só africano, nem é só rock, nem é só jazz, nem é só pop. Mas no meio dessa variedade existe um fio condutor que faz todo o sentido", diz ela, que vive há 10 anos entre Espanha e Portugal e hoje mora em Lisboa.

Sua forma de lidar com as palavras é peculiar e tem tudo a ver o fato de ela ser colunista do jornal Rede Angola (leia) e de várias de suas canções serem parcerias com escritores ou poetas, incluso nesse time os prestigiados autores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki.

Nesta entrevista exclusiva ao Azoofa, Aline fala sobre música brasileira, a situação política em Angola e a arte de fazer arte nos tempos atuais. "Encontrar a simplicidade é sempre o maior desafio".

AZOOFA: Aline, esta não é a sua primeira vez no Brasil. Como começou a tua relação com nosso país?

Aline Frazão: A minha relação com o Brasil começa por ser uma familiar mesmo. A minha Avó Alice é carioca, nascida e crescida. Tenho vários primos aqui no Brasil. Então, existe esse mapa afectivo que virou musical. Em casa dos meus pais sempre se escutou muita música brasileira. Na verdade, a cultura brasileira está muito presente em Luanda, nas rádios, na televisão, nas novelas, nas festas. Eu aprendi a tocar violão aprendendo as músicas do Chico Buarque, de Jobim, do Djavan, do Lenine. A MPB faz parte da minha escola como cantora e compositora.

Como surgiu a ideia de fazer estes shows pelo Brasil?

Eu queria apresentar aqui o meu terceiro disco, “Insular”. Estou mesmo determinada em colocar o Brasil no meu mapa de concertos, acho que faz todo o sentido. Então desta vez contei com a ajuda de uma amiga, cantora e produtora portuguesa, residente em São Paulo, que é a Susana Travassos. Ela, que é uma artista talentosa e generosa, ajudou-me a montar esta tour. E tem sido muito assim, fazer amigos deste lado do Atlântico, fazer pontes, parcerias, encontros musicais cá e lá, partilhando e construindo novos públicos.

Você tem uma relação muito íntima com a palavra. É cronista do jornal Rede Angola e já fez parcerias com escritores e poetas. O que é para você o ato de escrever?

É a teimosia de comunicar, de traduzir em palavras ideias, sentimentos, sensações. Que é algo muito difícil. Para mim, a escrita dos textos para o Rede Angola acaba por ser uma forma de canalizar um discurso mais político, opinativo, crítico em relação à realidade do país. Penso que em Angola temos uma grande falta de diversidade de opiniões. Por isso é importante participar, gerar debate, troca de ideias, fomentar a liberdade de expressão e a semear a sociedade civil, ainda embrionária. Na poesia é diferente. É um exercício bem menos racional, menos programado. É outro canal, outra linguagem, outras cores. É um lugar mais íntimo de expressão, um lugar de plena libertação para mim.

Você gravou Insular em Jura, uma pequena ilha escocesa. Porque escolheu este lugar e como foi o processo de gravação?

As peças para o Insular foram-se montando ao longo dos meses. O Carlos Seixas, um grande amigo e produtor português, programador do Festival de Música do Mundo de Sines, um dos mais interessantes da Europa, me falou de Jura e do trabalho do Giles Perring. O Giles foi o produtor do disco e o seu estúdio é em Jura. Então fomos lá fazer essa espécie de residência artística. O disco é essa mistura de temperaturas e de latitudes, norte e sul. Quis experimentar a electricidade, a guitarra eléctrica do Pedro Geraldes tem aqui um papel fundamental. Foram parcerias muito bonitas.

Antes de Insular, você lançou “Clave Bantu”, sua estreia fonográfica, e Movimento, seu segundo disco. Dizem que o terceiro disco é aquele em que o artista está mais à vontade consigo mesmo, mais seguro e ao mesmo tempo mais ousado a arriscar. Você considera Insular seu “salto” mais arriscado?

Sem dúvida. Insular foi isso mesmo, risco, honestidade, paixão. É um disco que não pretende caber em estantes, nem é só africano, nem é só rock, nem é só jazz, nem é só pop. Mas no meio dessa variedade existe um fio condutor que faz todo o sentido.

Olhando em retrospectiva, como você analisa esta trilogia discográfica que você construiu até aqui?

O "Clave Bantu" foi um disco auto-produzido, feito com as próprias mãos, com muito carinho e franqueza. É um disco cru, muito directo. Acho que tem canções muito emblemáticas, que até hoje as pessoas pedem nos concertos. Foi com o "Clave" que tudo começou. Já o "Movimento" foi um disco mais trabalhado. A produção musical é minha, muito trabalho de arranjos, onde eu tentei refinar a linguagem que experimentei no "Clave Bantu". É um disco mais redondo, com um som muito autêntico: gravamos todos juntos e a banda acompanhou-me nos concertos. "Movimento" também marca o meu regresso a Luanda. É um disco liricamente muito luandense, nostálgico, desassossegado. Agora, no "Insular", eu queria mesmo fazer nova parcerias,  experimentar outros sons, sair da minha própria cabeça. Por isso as figuras do Giles e do Pedro foram importantes.

Um jornal português elogia a sua capacidade de ser profunda e simples ao mesmo tempo, e a compara a Paul Simon e Caetano Veloso. Como você vê esse desafio de experimentar e ao mesmo tempo comunicar a sua música?

O mais importante é tocar as pessoas. Acho que a simplicidade é sempre o maior desafio, é lá que reside a arte mais sublime. E não é fácil chegar lá. Para mim é um caminho longo. O estado de sensibilidade é muito difícil de desenvolver em sociedades tão agitadas, tão virtuais, tão cheias de estímulos. Por isso é que a ilha foi necessária.

Você nasceu em Angola. Quando e porque mudou-se para Portugal?

Nasci e cresci em Luanda. Aos 18, fui para a universidade em Lisboa mas pouco depois fui para Barcelona, depois Madrid, Santiago de Compostela, onde comecei a minha carreira. Na verdade, nestes 10 anos fora passei metade em Lisboa, metade em Espanha.

Você costuma visitar Angola? Qual a sua relação com o país atualmente?

Nos últimos anos vou com muita frequência. Acabo de passar o mês de março lá. A minha relação é muito estreita, mesmo quando estou fora. Sigo de perto as notícias, a música, o cinema, a política… A minha família e grande parte dos meus amigos vivem lá. Quase que vivo mais a realidade de lá do que a dos lugares onde moro realmente.

Recentemente, 17 ativistas angolanos foram condenados por crimes ligados à manifestações. Como você vê o atual momento do país?

É um momento complexo e delicado, dos mais difíceis desde a Guerra Civil que terminou em 2002. A nossa já frágil democracia está em xeque e precisamos ser criativos para inventar novas formas de termos voz, pois o governo reprime toda e qualquer manifestação nas ruas. Enfim, a prisão dos activistas foi um ponto de viragem onde creio que muita gente ganhou mais consciência acerca da urgência de conduzir o país para um futuro democrático. Mas ao mesmo tempo, o medo a represálias pode também aumentar. São momentos de incerteza, indignação e de muita desconfiança mútua.

Voltando a falar de música. Quais artistas brasileiros mais te causam admiração?

A lista é longa. A bossa nova inicialmente teve um papel importante e de grande influência na minha forma de compor. António Carlos Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque, Elis Regina. Também o Djavan marcou muito a minha adolescência. Toda a Tropicália, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa… Depois, claro, Lenine, Chico César, Luiz Gonzaga. E na nova geração, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Criolo. Há muita gente boa nessa nova geração.

E como é ser artista em Portugal? Há espaços para se apresentar e público interessado em música nova?

Sim, Portugal tem um público muito aberto, em especial às músicas africanas. Lisboa, em particular, é uma cidade muito misturada culturalmente, com grandes comunidades de Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau, etc. E existe uma cena interessante actualmente, muitas bandas, muitos artistas novos interessantes, nos vários géneros, desde o hip-hop ao rock, do fado à música africana.

Você consegue apontar artistas novos de Angola e Portugal que nós, brasileiros, deveríamos conhecer urgentemente?

Com certeza. Mas seguramente que me vou esquecer de nomes importantes. De Angola: Paulo Flores, Nástio Mosquito, MCK, Girinha, Toty Sa’Med, Gari Sinedima, Irina Vasconcelos, Gabriel Tchiema, Wyza. De Portugal: João Pires, Sara Tavares, António Zambujo, Susana Travassos, Capicua, Dino de Santiago, Linda Martini, Orelha Negra.

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arte | marina malheiro

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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