Azoofa Indica: Dia da Música

Amanhã, São Paulo vai acordar diferente. O Rio também. E um monte de outras cidades pelo Brasil vão abrigar diversos shows gratuitos ou a preços populares de artistas das mais diferentes sonoridades. E é tudo uma coisa só: o Dia da Música, um festival apoiado pela iniciativa privada e que chega a sua segunda edição em 2016.

O Azoofa conversou com exclusividade com Katia Abreu, diretora artística do festival. Nesta entrevista, ela fala sobre os desafios do mercado independente, diz que a crise não é o principal inimigo da cultura e reflete sobre saídas para a música autoral se tornar sustentável. "É um comportamento do público que a gente precisa entender e ver como lidar: por que as pessoas reclamam de pagar R$ 25 para ver um show, mas gastam tranquilamente R$ 50 para entrar numa festa só com DJs, que gera menos custo?"

Katia, essa é a segunda edição do Dia da Música. O que ela está trazendo de diferente da primeira?

O formato é bem diferente do que fizemos ano passado. Estreamos produzindo 10 palcos no Rio de Janeiro e 15 em São Paulo – e cada palco tinha um curador responsável. Estes shows aconteceram no domingo, dia 21 de junho. No sábado, dia 20, abrimos para que palcos de todo o país participassem do Circuito Off e essa experiência foi tão bacana que nos fez reformatar o festival para que ele acontecesse em rede este ano. Também mudamos o formato da curadoria do Dia da Música. Este ano, um Conselho Curador decidiu as atrações dos dois palcos que vão rolar na Glória, no Rio, e no Largo da Batata, em São Paulo, e também a distribuição de um fundo de apoio entre palcos com curadorias independentes que se inscreveram no nosso site e enviaram propostas de programação.

Quais foram os principais desafios que vocês encontraram para realizar esta edição em época de crise financeira, que costuma atingir diretamente a cultura?

A cultura é uma das primeiras atingidas em momentos de crise, mas também é de onde costumam vir as reações mais rápidas e criativas. E isso acontece por a gente estar “acostumado” a lidar com cenários de escassez e termos cultivado a resiliência. Trabalhar com cultura (e com música autoral, em específico) no Brasil é muito difícil e há muitos anos. Mas, felizmente, empresas como a Vivo, que nos apoia desde o início desta segunda edição, a Trident, a Halls e a Lacta 5Star, que entraram na reta final e possibilitaram a gente ampliar o fundo de apoio ao circuito, continuam investindo e estabelecendo parcerias com o setor. Mas o desafio que vejo vai bem além desta crise financeira. A dificuldade que um palco tem para se manter firme, recebendo shows semanalmente, envolve lidar com uma burocracia infinita, com o risco constante de ter problemas, a legislação de ruídos urbanos e, principalmente, com conseguir fidelizar um público que permita bancar os custos envolvidos com aluguel, impostos, funcionários, equipamento, etc, além do show em si... E aqui, se a gente seguir, poderia estender toda uma cadeia de outras dificuldades pela perspectiva do artista, do produtor, do selo, etc.

Quantos artistas e casas se inscreveram neste ano? O número é maior, menor ou está dentro do que vocês esperavam?

Tivemos mais de 2800 artistas inscritos, dentro da nossa expectativa (no ano passado, foram cerca de 2500 inscrições). Palcos é uma conta mais complicada: tivemos 206 palcos inscritos, mas nem todos enviaram programações dentro do prazo que estabelecemos. O Conselho avaliou propostas de 130 palcos e conseguimos apoiar financeiramente mais de 70 em mais de 30 cidades.

Como é escolhida a curadoria do festival? Na prática, os jurados de fato ouvem todas as bandas e analisam todas as casas que se inscrevem? 

Esse tipo de escolha é sempre complicada de ser justificada, pois é bastante subjetiva. Buscamos maneiras de tornar a curadoria do Dia da Música o mais democrática possível. Por isso, temos um Conselho Curador dividindo comigo a responsabilidade de selecionar as atrações do festival: tanto na escalação dos shows dos palcos do Conselho quanto na seleção dos palcos do circuito apoiado, que propuseram suas programações de forma autônoma. Como são muitos artistas inscritos, para garantir que todos os trabalhos fossem efetivamente ouvidos e analisados, a gente contou com a preciosa colaboração de dez guerreiros (o Comitê de Seleção) que escutaram todo o conteúdo enviado no site. A combinação de avaliações entre eles (cada música passou por pelo menos 3 avaliadores) foi o que gerou o selo de "Pré-escolha do Comitê de Seleção". Esse filtro ajudou a guiar tanto nós, do Conselho, quanto outros palcos na busca por artistas inscritos.

O Dia da Música é inspirado no francês Dia de La Musique. Como rolou de trazer a ideia para o Brasil?

Nos inspiramos no Fète de la Musique, que é um evento que começou na França há mais de 30 anos e hoje está presente em mais de 700 cidades de todo o mundo. É um dia para celebrar a música, as cidades ficam tomadas por artistas tocando em toda parte. E em cada lugar essa festa acontece de um jeito. A relação com eles é bastante simples, a proposta é descentralizada, democrática e autônoma. Nos identificamos com essa postura, que é a mesma que assumimos na relação com o circuito de palcos do Dia da Música.

Já existe a perspectiva de realizar a terceira edição?

Nos meus sonhos tem umas dez edições já imaginadas, mas vamos primeiro ver como tudo vai rolar sábado para então começarmos a falar do futuro. Um passo de cada vez.

Para o artista independente, aquele que trabalha em outro ramo para investir na própria carreira, fazer um show gratuito, com cachê fechado e em casas/espaços legais da cidade, é uma miragem. E isso é o que o Dia da Música proporciona. Queria que você comentasse isso.

Acho que o que todos nós, artistas e produtores independentes, miramos é um horizonte onde haja público interessado em conhecer e frequentar espaços dedicados à música nova. É esse público que vai dar base de sustentação para carreiras e negócios. Enquanto isso não acontecer esse cenário que você descreveu vai continuar sendo uma ilusão. Shows gratuitos são uma forma de tornar a música acessível a mais gente, mas isso não pode ser visto como solução para o problema. O que a gente propõe no Dia da Música é justamente essa discussão: de que adianta ficar erguendo um monte de novos palcos se os que já existem tem dificuldades de realizar shows sustentáveis dos mesmos artistas? Então, o festival tem mesmo essa intenção de ser um ponto de contato entre artistas e palcos. E na seleção dos palcos para receber apoio o Conselho levou muito em consideração o que cada palco representava para sua cena. São pontos de resistência que, apesar de tudo (não só da crise...), fazem um trabalho permanente que é fundamental.

Pessoalmente, como você vê o mercado independente? Estamos longe da sustentabilidade?

Acho que já estivemos mais longe, mas ainda temos muito caminho pela frente. As contas ainda não batem – para ninguém. Você conversa com artista, eles reclamam que não ganham dinheiro, que a casa lucra mais com os shows, etc e tal. Aí se você vai ver as contas de uma casa de show, de um bar e descobre que na verdade é complicado para todo mundo. E não é a crise. É um comportamento do público que a gente precisa entender e ver como lidar: por que as pessoas reclamam de pagar R$ 25 para ver um show mas gastam tranquilamente R$ 50 para entrar numa festa só com DJs, que gera menos custo? A reflexão que tenho sobre isso é inconclusiva, mas o resultado da equação é óbvio: a diminuição de espaços para shows – ainda mais os autorais. Porém, sigo otimista. Acho interessante que festas como a Sexta Básica, a Pardieiro, a XXXbórnia abram espaço pra shows e estejam sempre cheias. A sustentabilidade só vai vir da união de forças: online e off-line, pista e palco, artista e produtor...

Por fim, gostaria que você destacasse alguns shows interessantes que acontecerão no sábado.

Chega a ser aflitivo pensar nisso. Tem realmente muita coisa que eu queria ver, se pudesse estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Queria estar em BH, para ver o palco do Meio Desligado na Autêntica com Sara Não tem Nome, E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Guizado e Luneta Mágica (que foi uma grata surpresa pra mim dentre os inscritos no festival). No Recife, veria o Zeca Viana no Rock na Calçada e passaria, a qualquer momento, no palco incrível que o Hominis Canidae vai fazer na Torre Malakoff. Em Porto Alegre, também tem várias atrações bacanas, das quais destaco o Ian Ramil na Casa Frasca. No Rio, além das atrações do palco do Conselho que, naturalmente, recomendo, queria muito poder ver os shows do Letuce, no Teatro Odisséia, e do Posada e o Clã, no Leão Etíope do Méier. Aqui em São Paulo, recomendo além das atrações do Largo da Batata, o palco que o pessoal do Risco está fazendo em parceria com o Mundo Pensante: de tarde, tem Luiza Lian e Mustache & os Apaches, gratuito na praça; à noite, por módicos R$ 20, a festa segue dentro da casa com shows do Charlie e os Marretas e Grand Bazaar. A Passagem Literária da Consolação também tá com shows bem legais, para quem gosta de psicodelia, com Continental Combo e Os Skywalkers. Tem muita coisa legal. Acessem www.diadamusica.com.br pra conferir tudo.

***

arte | marina malheiro

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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