Os 5 melhores lançamentos | Julho

Começar uma seção de lista de melhores discos lançados em cada mês não é lá a coisa mais original do mundo. Vários sites fazem este serviço com bastante esmero e há muito tempo. Mas, a despeito da obviedade da ideia, está a obviedade de que nunca se lançou tanto álbum quanto nos dias atuais. A música virou um grande oceano – uma coisa maravilhosa e gigantesca – mas às vezes é preciso umas orientações pra gente não ficar perdido na imensidão. É essa a nossa proposta aqui. Mensalmente, vamos elencar os 5 melhores lançamentos do mês anterior. Iniciamos, portanto, falando dos álbuns que saíram em julho.

Ah! Tem mais uma coisa. Às vezes bons álbuns ficam pra trás, e é preciso sempre achar espaço para falar deles. Assim, depois dos lançamentos, vamos jogar luz sobre um disco de tempos atrás. Declaro aberto o primeiro capítulo desta história:

Opala | Opala

Formado por Maria Luiza Jobim e Lucas de Paiva, o Opala lançou um EP lá em 2013, que foi muito bem recebido pela crítica e por quem acompanha a cena independente. Agora, eles chegam com um disco completo, que recupera faixas do EP (“Come Home”, “Absence to Excess”) e apresenta novas canções (como a hipnotizante "The Noise").

Em 11 faixas, Jobim e Paiva propõem uma viagem pop cheia de personalidade – e de referências também. Se na primeira audição são os sintetizadores, as batidas eletrônicas e as letras cantadas em inglês que chamam a atenção – em alguns momentos, me veio à mente Emiliana Torrini - depois, é a força das composições que fica mais explícita a cada rodada. E a faixa final, "Maracajaiaçu", deixa uma vontade imensa de ouvi-los mais vezes em português.

Juliana Perdigão | Ó

O poeta e músico Makely Ka escreve, no segundo parágrafo do release deste disco: “Juliana é múltipla, Juliana é única”. No terceiro, emenda: “Juliana é imprevisível, vai da tradição ao experimentalismo num gesto tão natural que chega a parecer óbvio”. Tudo isso está materializado em “Ó”, mais novo trabalho da cantora Juliana Perdigão, mineira radicada em São Paulo. A abertura, “Aeiuó” – uma parceria fantástica de Zé Celso Martinez, Juliana e Fela Kuti, que depois ganha complemento no fechamento do álbum - tem instrumental vigoroso e soa como um mantra com pegada rock. Em “Nave Mãe”, tudo evoca os compositores mineiros do Clube da Esquina, mas sem nostalgia - é antropofagia pura. Em “Band Day”, Juliana pede 20 segundos da sua atenção para recitar um poema de autoria própria. E ainda estamos na quinta faixa, de um total de 17. Entre canções, poemas e intervenções, “Ó” é para se ouvir centenas de vezes, de tantas belezas escondidas que há ali. Michael Kiwanuka | Love & Hate

Há tempos não se via um álbum com uma abertura tão poderosa. “Cold Little Heart”, a faixa que dá o pontapé no segundo álbum do britânico Michael Kiwanuka, encheria George Martin de orgulho. Seus quase 10 minutos de duração são uma provocação à velocidade estúpida com que absorvemos música atualmente – e não só pela longa duração, mas porque ela de fato teria que durar isso para causar o impacto que causa.

A sequência, com “Black Man In a White World”, é, como o nome faz suspeitar, um libelo – em clima soul - contra o preconceito racial que ganhou força extra nos últimos anos na Europa e nos Estados Unidos. Se em “Falling”, Michael de fato cai e entrega uma balada pouco inspirada, ele logo se recupera em “Place I Belong" e na faixa-título “Love & Hate”. Com uma voz que lembra a escola de Marvin Gaye e Bill Withers e com uma produção requintada, “Love & Hate” é um disco poderosíssimo - algo e tanto pra quem tem só 29 anos.

Aline Reis | Aline Reis

Os primeiros 25 segundos de “Joanninha”, música que abre o primeiro disco de Aline Reis, são suficientes para o ouvinte atento entender que este não é mais-um-disco-novo-de-mais-uma-nova-cantora-da-nova-música-brasileira. Esqueça todas as comparações. Aline é diferente de tudo. E é difícil não fazer poesia quando se tem que escrever sobre este disco. Sua voz é aquele vento que entra quando você abre a janela de manhã, que refresca e energiza imediatamente. Suas melodias passeiam livremente e os arranjos nunca atrapalham esse bom andar. Suas composições são intrigantes. “Acorda Alice”, a segunda faixa, é um bom exemplo: pra onde Aline vai nos levar com essa frase que se repete por quase toda a canção? Deixe estar. Estamos em boas mãos.

E ela ainda faz dançar (“Moleque”, “Confrontos”) e ainda alcança a síntese do fim de uma dor de amor em “Homenzinho do Asfalto” (“vai ter um dia que vou passar por você / e meu coração não mais”). Munida de participações de grandes craques da nossa música – Benjamin Taubkin, Marcelo Dworecki, Ricardo Herz, Swami Jr., Caçapa e outros – Aline flutua pela música caipira, carimbó, samba, funk, jongo, baião e entrega um dos melhores discos de 2016.

Haicu | Haicu

Formado por Pedrinhu Junqueira e Júlia Shimura, o duo Haicu chega com um promissor disco de estreia. O nome, tirado de “haiku”, uma outra forma de falar haicai, tem tudo a ver com o jeito deles – um casal – escreverem. As letras curtas facilitam a vida dos arranjos, que levam as canções para lugares cheios de psicodelia. “Nada Vai”, possivelmente a grande canção do álbum, é o melhor exemplo disso.

Boa parte do álbum denuncia as influências da música brasileira dos anos 60 e 70, mas há algumas surpresas, como um rocksteady cantando em japonês e em português (“Haicu”) e a faixa final, “Berro”, que se aproxima da obra de Tatá Aeroplano – e que não deixa de ser um slogan da vida: “é foda pra caralho viver nesse planeta / mas é bom pra xuxu”.

Pete Townshend & Ronnie Lane | Rough Mix (1977)

O encontro do líder do The Who com ex-baixista do The Faces. Gravado quando Townshend vivia um intervalo de sua banda e Lane já caminhava em carreira solo, o álbum traz participações de Eric Clapton, Charlie Watts e John Entwistle. Mas o grande destaque é mesmo a união dos dois, que culmina numa estrada de belas canções que apontam mais pro folk do que pro rock, oscilando entre a intensidade urbana de Townshend e a elegância rural de Lane. Destaque para "Annie", "April Fool" e "Nowhere to Run".

*** arte | marina malheiro
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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