Azoofa Indica: Fuleragem

"Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas". A frase, atribuída ao produtor Torquato Neto, é genial por ser capaz de sintetizar em poucas palavras a obra de um dos maiores criadores brasileiros. Com 50 anos de carreira, Gil acumulou um número impressionante de composições que mudariam a vida da música brasileira. E a minha vida. E a sua.

E também a do Pedro Keiner, do grupo Fuleragem, fundado em 2011 em São Paulo e que apresenta, neste sábado, no Mundo Pensante, o projeto "Fuleragem Toca Gilberto Gil", um show-homenagem em que a banda - que, além de André Salmeron (baixo), Fernando Amaro (bateria) e Vinícius Sampaio (guitarra) - desfila clássicos de Gil em arranjos que tem como referência dois álbuns: “Quanta Gente Veio Ver”, ganhador do Grammy de 1998, e “Acústico MTV”, de 94. Saiba mais sobre o show.

Pedro falou com o Azoofa sobre o show deste sábado, o desafio de fazer música na cena independente de São Paulo e lista as 5 músicas essenciais de Gil e pouco conhecidas do grande público.

AZOOFA: Como surgiu a ideia de criar um show em homenagem a Gilberto Gil?

Pedro Keiner: Acho que veio de uma forma muito tranquila, eu sou um admirador profundo das músicas de Gil há um bom tempo e nós sempre tivemos canções dele no repertório. Eu diria que foi quase um processo cumulativo, fomos adicionando mais e mais músicas dele no repertório e quando vimos já dava pra segurar um show quase inteiro nessa onda. Teve também um outro aspecto que foi o de termos outro show temático em homenagem aos Novos Baianos e que por conta disso estávamos lidando com um repertório muito parecido a bastante tempo. O show do Gil foi (e ainda é) uma busca por outros rumos musicais dentro da nossa pesquisa e uma busca em surpreender as pessoas que acompanham nosso trabalho.

Vocês dizem “respeitar os arranjos originais” dos clássicos do Gil nesse show. Por que?

Então, engraçado você falar disso, porque no caso do Gil acho essa palavra “original” um pouco descabida... Ele sempre muda os arranjos de cada música de tempos em tempos, parece que cada arranjo é uma “foto” de como ele enxerga a canção naquele momento da vida dele. Acontece que eu - na tentativa de montar uma ordem de músicas coesa e que funcionasse bem com o som da Fuleragem e na minha voz - me foquei nas canções e nos arranjos de dois discos ao vivo do Gil: o “Acústico MTV” de 1994 e o “Quanta gente veio ver” de 1998. Por conta de o repertório do Gil ser tão variado (tem fases mais rock n’ roll, outras mais de ritmos nordestinos, muitos sambas, reggaes...) e variável (os arranjos das músicas geralmente mudam bastante de tempos em tempos) eu acho sempre MUITO difícil fechar um repertório que realmente contemple de uma maneira satisfatória a produção gigante do homem. Então os álbuns ao vivo foram uma escolha que me norteou porque neles a gente escuta como o próprio Gil e a banda procuram resolver esse problema da diversidade de músicas. Tem também o lance de que nesses discos a banda é praticamente a mesma e eles tocaram muito tempo juntos, então pra mim é incrível como eles soam cada vez melhores juntos, parece que é uma coisa de amizade, de tocar muito tempo junto mesmo.

O Gil tem uma importância enorme na música brasileira, em diversos aspectos diferentes. Um deles é essa proposta de misturar Bahia, Jamaica, África, baião, reggae, rock, e com isso criar uma sonoridade própria e totalmente brasileira e ao mesmo tempo sem medo de absorver o que vem de fora. Isso foi essencial para a música que seria feita nos anos 80, com os Paralamas, por exemplo, e nos anos 90, com a Nação Zumbi e outros expoentes. Quais outras características da obra do Gil também te chamam a atenção?

Cara, acho que é justamente isso que você falou que eu acho mais incrível na forma de fazer música do Gil. Tem aquela frase do Torquato Neto sobre ele, né? “Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas.” Eu acho um absurdo mesmo como ele se deixa transitar em todos esses meios e sempre imprimindo uma essência dele no som. Acho que uma outra característica que eu acho importante pra perceber a música do Gil é o “vetor” político que ele tem. Muito antes de assumir o MinC ele já tinha isso. Talvez pelo simples fato de ser um homem negro em uma sociedade que discrimina a cor da pele. Ele mesmo tem muitas músicas refletindo a esse respeito, da política, da autodeterminação dos negros, da religião… Acho que ele traz na música dele uma vontade de dialogar com o mundo e causar nele uma mudança pra melhor. Num sentido de mais harmonia e entendimento entre as pessoas. Acho que tem muito a ver com a geração de músicos dele mesmo.

A Fuleragem existe desde 2011. Como começou a história da banda?

Eu estudava música na faculdade, mas estava a ponto de desistir de seguir carreira. Dava algumas aulas, mas tocava muito pouco por aí. Como eu tenho família no Ceará, vou sempre pra lá, visitar minha avó e passo sempre alguns dias em Jericoacoara, que fica relativamente próxima da cidade da minha família. Fiz amigos lá. Lá é um lugar em que eu aprendi muita música fazendo e conversando a respeito, é musicalmente muito fértil. Pois bem, sempre que eu chegava lá ia trocar ideias com os meus amigos sobre o que a gente andou aprendendo de novo, e todos eles também gostam muito do repertório de Gil e dos Novos Baianos, a gente começou a pesquisar isso sem querer juntos! Daí teve um ano, acho que em 2010, que eu tive vontade de experimentar fazer algo mais “preciosista” por lá, eu fui pra minha avó em Itapipoca e me internei no quarto pra tirar algumas músicas que eu queria muito tocar e não via ninguém tocando por aí: “Mistério do Planeta”, o arranjo certinho de “Aquele Abraço”... Eu tirei tudo igualzinho e fiz partituras pra passar pra galera. Não deu certo! Quase ninguém lia música. Mas aí eu voltei pra São Paulo com esse monte de partituras prontas e comecei a experimentar tocar isso com alguns amigos pra ver se funcionava, daí eu comecei a ter vontade de juntar algumas pessoas pra fazer esse som esquisito que eu não ouvia ninguém fazer por aí. O André, que é o baixista, tocava comigo num coral do qual fizemos parte e se empolgou com a ideia; o Vini, o guitarrista, é meu vizinho e a gente se conhecia desde adolescente, ele sempre tocou muito e eu sempre quis fazer um projeto com ele. O Fernando, que toca bateria, foi meu colega de faculdade e eu não conhecia muito bem, via ele fazendo muito som instrumental com banda de jazz - isso ele faz muito até hoje - chamei ele pra fazer uma substituição na banda no primeiro show que fizemos no Miscelânea Cultural, um bar aqui de São Paulo em que tocamos até hoje, e pra minha surpresa ele já conhecia e tocava quase todo o repertório! Daí pra frente a gente não parou mais de tocar juntos… Já são 5 anos, nunca toquei tanto tempo assim com ninguém na vida hahahhaa.

Existe plano de lançar material autoral do grupo?

Existe! Na verdade de tocar músicas de compositores amigos nossos, já toco algumas músicas e pensei em alguns arranjos. Falta mesmo é organização pra gente ensaiar isso tudo e coragem pra colocar isso a prova nos shows e ouvir o que a galera tem a dizer… Da minha parte eu queria gravar um EP ainda esse ano!

Recentemente, você criou o blog "Qual é o Cachê?" em que conta as agruras que os músicos passam para fechar shows e lidar com o mercado musical. Como surgiu essa ideia? E como você vê o mercado atualmente?

Ah, isso tem a ver com o que eu comentei lá atrás, no tempo em que eu estava prestes a desistir da carreira musical. Eu tomei muito calote, muita canseira de bar e contratante. E por esse caminho na música eu me liguei que todas as pessoas que eu conheço têm alguma história nesse sentido. Do meu ponto de vista, as pessoas que lidam com arte em geral são muito pouco ligadas à questões de vida prática, ao menos da maneira que isso é entendido na nossa sociedade. Já vi amigo se ferrando lidando com outros artistas renomados e gravadoras multinacionais, imagina eu que toco em barzinho? Você vai ver documentário sobre um artista e o filme passa um tempão discorrendo sobre a preferência dele por whisky ou cerveja, como ele fumava maconha, quanto pó ele cheirava, com quantas pessoas ele transou em um determinado ano… Mas aí, quando você escuta o papo no backstage, você entende que essa pessoa devia condomínio, essa pessoa não pagava a conta de luz… Imagina quanta gente não penou nessas? Então, esse blog é uma tentativa minha de amplificar uma conversa mais aberta sobre esses temas que eu acho que são pouco comentados por não tocarem nesse aspecto “glamoroso” que a arte tem. Acho que no mercado de hoje todo mundo que trabalha com arte precisa aprender um mínimo para gerir a própria carreira. Artista tem que saber cobrar, tem que saber negociar contrato, tem que cair matando mesmo! O tal do mercado não ajuda… Olha aí, não tem gravadora gigante pra bancar seu disco, ninguém mais compra disco. Temos menos palcos funcionais do que a gente tinha há 30 anos atrás, então também tem uma dificuldade pra circular tocando. Não tem produtores pra fazer sua planilha de gastos e acertar a sua vida financeira (a não ser que você case com um/uma). Tamos na roça - como sempre estivemos - então, que pelo menos a gente aprenda a se defender da melhor maneira.

Queria que você elencasse 5 canções de Gil pouco conhecidas do grande público e que você considera essenciais para conhecer a obra dele.

Eu particularmente acho que as canções chaves do Gil são em geral as mais famosas: Palco, Aquele Abraço, Filhos de Gandhy… Mas acho que tem  algumas pérolas que acredito que quem se interessa, vai gostar:

Marginália II, do disco tropicalista do Gil de 68. Parceria com o Torquato Neto, essa letra é uma pedrada.

Músico simples, o Gil fez essa pro Johnny Alf, um dos pilares do que veio a ser a bossa nova. Tem a coisa da herança bossanovista dele, ele também fala de tocar acordeom, que foi o primeiro instrumento dele. A relação da harmonia com a melodia e letra parecem uma ideia de um quadro impressionista.

João Sabino, só tem uma gravação do Gil cantando essa em um disco ao vivo da década de 70. Ele fez essa pro pai de um cara que tocava com ele na época e que morava em Cachoeira do Itapemirim, no ES. Lembra um pouco o jeito meio nonsense que o Jorge Ben faz as letras dele, e o Gil sempre foi fã confesso do Jorge Ben. Tem uma hora em que ele só fica descrevendo a cadência de acordes que ele faz na música: lá, si, dó, sustenido... Acho genial!

Um sonho, uma moda de viola linda, talvez a única moda do Gil, que versa sobre questões políticas, tudo numa narrativa surrealista de um sonho.

13 de dezembro, originalmente um tema instrumental do Luiz Gonzaga que ele fez no seu aniversário e que o Gil letrou em homenagem ao rei do baião. Uma encrenca boa cantar essa!

arte: marina malheiro  
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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