5 músicas essenciais de Beto Guedes

Beto Guedes é meu favorito no Clube da Esquina. Quem me escuta dizer isso sempre reage com surpresa, como quando alguém me disse que seu beatle preferido é o Ringo. Mas aquele cara de Montes Claros, que completou 65 anos agora em agosto, tem alguma coisa que me soa maior e inexplicável. Quando Beto canta, meu coração se conecta a mundos que eu não sei nomear, mas que sentimentalmente me são extremamente familiares. Lugares de mato. Terra molhada. Estrada aberta.

Embora tenha lançado há 40 anos seu primeiro disco, o clássico “A Página do Relâmpago Elétrico”, Beto soma discografia curta. São apenas 9 álbuns autorais de estúdio (excetuando aqui as coletâneas e os “ao vivo”). Mas o compositor mineiro soube construir uma obra tão rica, cheia de detalhes e tesouros escondidos, que descobri-la é um exercício eterno.

Boa parte de seus maiores êxitos estão nos três primeiros discos: o já citado “A Página do Relâmpago Elétrico”, “Amor de Índio” e “Sol de Primavera”, todos lançados entre 1977 e 1979. Nos anos 80, Beto conhece um sucesso radiofônico inédito com faixas como “Lágrimas de Amor” e “O Sal da Terra”. A partir daquela década, porém, sua produção começa a diminuir. Segundo ele, não foi o sucesso que o assustou. “O ritmo da vida mudou”, diz, em bom mineirês.

Embora não seja incensado tanto quanto Milton Nascimento e Lô Borges, Beto volta e meia é redescoberto pelas gerações posteriores. Skank, Jota Quest e Paralamas, por exemplo, já regravaram suas composições.

Sem lançar disco inédito desde 2004, ele continua fazendo shows Brasil afora. “A música ainda ocupa grande parte do meu dia a dia”, avisa, em papo rápido e exclusivo com o Azoofa.  Beto faz show amanhã em São Paulo, no Teatro J. Safra – saiba mais aqui.

Me impus a complicada tarefa de falar sobre 5 canções essenciais de Beto Guedes. Foi uma das maiores besteiras que eu poderia me propor: eu simplesmente não sou capaz de fazer isso. Então, fecho o olho e entrego essas aqui, já avisando que seria possível somar pelo menos mais 10 à lista. E devo contar que a minha preferida, “Feira Moderna”, ficou de fora.

Pra vocês verem como é difícil...

Lágrimas de Amor, do disco Alma de Borracha (1986)

É minha primeira lembrança de Beto Guedes. Eu devia ter uns 6 anos de idade. A voz peculiar do cantor mineiro me fazia pensar que tratava-se de uma cantora. Só acreditei que era um homem quando minha mãe me mostrou a linda capa da fita cassete de “Alma de Borracha”. Ali começava a ligação que eu faria por toda a vida, e até hoje, de que Beto Guedes é um componente da minha família, como um tio distante cuja existência sempre nos rondou. Quando ele canta “o sol de primavera lá da serra”, eu tenho certeza que ele fala da luz que nos acorda das barracas quando acampamos na Serra da Canastra.

Em “Lágrimas de Amor”, a despeito dos exageros inescapáveis da sonoridade vigente nos anos 80, Beto repete seu dom em cantar suavemente frases misteriosas que nos entregam mensagens simples. “O milagre / já é estar aqui pra ser / nenhum Halley é mais brilhante do que nós”.

O Medo de Amar É o Medo de Ser Livre, do disco Amor de Índio (1978)

Oitava canção do clássico “Amor de Índio”, a composição de Beto e Fernando Brant é uma das mais belas criações de sua discografia. “Nessa época, a gente estava sempre testando novas sonoridades”, relembra. Com arranjos belíssimos – repare na linha de baixo -, que remetem ao disco-primo Clube da Esquina e também aos Beatles, Beto entrega uma melodia poderosa para Brant ditar os versos mais definitivos sobre o que é, de fato, o exercício de amar.

“O medo de amar é o medo de ser livre

Para o que der e vier

Livre para sempre estar

Onde o justo estiver”.

Beatles, aliás, é uma gigantesca influência para o compositor mineiro – talvez só perca para Godofredo Guedes, seu pai, cuja obra Beto revisitou durante toda a sua carreira. Aos 15 anos, Beto deixou Montes Claros e mudou-se para Belo Horizonte, onde criou uma banda tributos a John, Paul, George e Ringo. Ela se chamava The Beavers. “Foi um momento marcante em minha vida e muito importante para a sequência da minha carreira”.

Dias Assim, do disco Dias de Paz (1996)

Da safra mais recente de Beto, “Dias Assim” abre o excelente “Dias de Paz”, lançado em 1999. Pouca gente sabe que Beto segue na ativa, fazendo shows, embora não lance nada novo desde 2004, com o disco “Em Algum Lugar”. Segundo ele, não há planos de parar. “Continuo mostrando meu show e analisando novos projetos”.

Aqui, ele consegue transformar em canção um dos sentimentos mais raros e poderosos que o ser humano é capaz de sentir: a paz. E a faixa é simbiose perfeita entre letra e música. Enquanto Beto canta “minha alma está desperta / entra em cada loja aberta / em cada olhar”, a canção parece acompanhá-lo lado a lado, deixando o alto astral das palavras casarem-se com o andamento da canção. Nenhuma palavra daria conta de explicar o que é por um fone de ouvido e caminhar pela rua ouvindo “Dias Assim”.

Amor de Índio, do disco Amor de Índio

A maior música de amor do mundo.

O Sal da Terra, do disco Canção da Lua Vaga

Beto sempre cantou a natureza, a valorização do ser humano e a recuperação do pensamento coletivo. Em “Sal da Terra”, ela cria um hino, cuja mensagem fica assustadoramente real e necessária quando pensamos em Dória, Crivella, Temer e Trump. “Deixa nascer o amor / deixa fluir o amor / deixa crescer o amor / deixa viver o amor”.

"Vamos precisar de todo mundo

Pra banir do mundo a opressão

Para construir a vida nova

Vamos precisar de muito amor

A felicidade mora ao lado

E quem não é tolo pode ver"

   
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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