Azoofa Indica: Lenna Bahule

A maneira como a cantora e compositora moçambicana Lenna Bahule veio morar no Brasil serve como alegoria para compreendermos, de forma inicial, sua personalidade. O nome do excelente disco que ela lançou ano passado, "Nômade", também ajuda a entender quem é essa artista cuja potência vocal e corporal não passa imune a quem tem a chance de lhe conhecer, musical ou pessoalmente. Embora a palavra do título nos soe como característica de alguém que está sempre alterando sua residência, com Lenna ela ganha interpretação maior: Lenna é nômade ao explorar diversas possibilidades da arte - a dança, a escrita, o canto, a poesia -, às vezes tudo junto, às vezes de maneira separada, como provam os diversos projetos que ela encabeça ou participa.

Com exclusividade para o Azoofa, Lenna fala sobre o show que ela faz neste sábado no Sesc Santo Amaro (saiba mais detalhes aqui), diz que a improvisação é libertadora e aponta o silêncio como um dos caminhos pra aliviar a tensão dos nossos dias. "Está claro que estamos todos de saco cheio desse jeito “muito” de viver a vida".

AZOOFA: Lenna, você nasceu em Maputo, no Moçambique, e veio pra São Paulo em 2012. Como se deu sua vinda pra cá?

Lenna Bahule: Bom, vários eventos sincronizados (risos). Além da curiosidade sobre a arte que é a música popular brasileira, que na altura encantava e maravilhava meus ouvidos com sua sonoridade e diversidade abundante, outrora, meu sonho era estudar na Berklee College of Music, em Boston, onde ganhei uma bolsa parcial para ingressar. Só vinha para São Paulo para tentar fazer uma audição e aumentar os pontos dessa bolsa. Um amigo querido pagou minha passagem e disse "vá correr atrás dos teus sonhos". Comprei um bilhete só de ida, e com 100 dólates, vim com as asas abertas para voar por onde as coincidências da vida me levassem. Acabei não conseguindo fazer a audição por causa de uma série de fatores e perdi a bolsa. Quando vi, estava aqui em São Paulo sem dinheiro — e sem vontade — para comprar um bilhete de volta. E fiquei.

A tua formação musical vem desde pequena. Quais as primeiras memórias que você tem da música na sua vida?

Ah, a mais forte que tenho é de ficar escutando música com o volume alto em casa dos meus pais, e de meu pai ensinando-me a distinguir os timbres e os nomes dos diversos instrumentos que estavam a tocar na música. Tipo o saxofone alto do tenor, a trompa do oboé, o violino do violoncelo, o órgão do piano, enfim… uma aula de percepção. E outra também, que é a minha favorita, é a de eu ter um prazer enorme em aprender a cantar as letras e as linhas vocais de algumas das músicas que meu pai compartilhava e de ficar cantando-as também com volume alto no meio da sala onde tinha um globo de luz que me dava a sensação de estar num palco e os sofás eram a plateia.

Nômade é teu primeiro disco. Como foi o processo de criação dele?

Bom, contar isso é bem longo pois foi um processo que teve uma sincronicidade surreal. De eventos que trouxeram insights e novas visões, enfim. Vou te resumir dizendo que foi um processo bem espontâneo e muito sincronizado com vários eventos da minha vida e da minha trajetória musical. Não sentei para escrever as músicas focando no CD. Ele foi um convite que a vida me revelou como uma experiência suculenta de aventuras! Tanto no nível profissional como pessoal e humano. Para revelar-te os gatilhos “práticos”, que deram o empurrão para arregaçar as mangas e materializar esse trabalho, nomeio dois eventos especiais:

O primeiro foi o encontro com o Cassio Calazans e o Marcos Vaz, que produziram o álbum Mestiça, da Jurema Paes, do qual tive a alegria de participar propondo arranjos vocais e percussivos. Este foi um marco muito importante pois era a primeira vez que participava como arranjadora vocal em algum trabalho, e especialmente onde a minha criatividade e ideias eram 100% abraçadas e celebradas. Isso foi muito importante para a minha auto estima criativa e musical. A música vocal estava só começando a ganhar espaço na minha vida e não era ainda algo formalizado e do qual eu tinha coragem e autonomia para me apropriar. Depois dessa experiência me senti mais encorajada para gravar o meu CD, e decidi mostrar ao Cassio e ao Marcos o material que estava selecionando do meu secreto acervo de composições para o CD. Eram todas músicas que iam para uma linha pop/jazz/instrumental/soul/canção. Por ironia da vida, nenhuma das músicas que mostrei, interessou a nenhum dos dois para apresentar como meu primeiro trabalho. Para minha decepção (risos). Porém, lembro-me de Marcos ter olhado a playlist aberta do computador, com todas as músicas expostas, e perguntar:“ Lenna e essa música aqui…? Pakeleo? O que é?”. Vários trechos/drafts de 30 segundos, à 1 minuto de ideias musicais, com títulos e nomes estranhos. Uma à uma, ele foi pedindo para tocar e curtindo cada uma delas. Eram algumas das músicas que hoje fazem parte do CD, mas que acima de tudo revelavam a minha espontaneidade e organicidade para a música vocal. Assim, ele encorajou- me fortemente a investir naquilo que, ao que parecia, era bastante orgânico e genuíno para mim.

O segundo gatilho foi o encontro com o Angelo Mundy. Participei também no seu CD, “Abrigação”, fazendo arranjos vocais e a gravação e co-produção foi feita pelo Jonas Tatit, que também co-produziu comigo o Nômade. No dia da audição do Abrigação, comentei com o Angelo que estava com dificuldade criativa para terminar as músicas do disco e que não sabia como ia fazer para pagar o disco etc. Aquele drama básico de todo bom artista independente. E ele super espontaneamente disse: “Ah, Lenna tu tens que entrar no estudio e gravar!!”. Aquela frase era literalmente tudo que eu precisava ouvir para estimular a minha coragem de ter cara de pau de propor “parceria na fogueira de fazer brotar dinheiro dos céus” (risos). Então, virei na hora para o Jonas, visto que eu tinha adorado a contribuição dele no CD do Angelo, e perguntei se ele toparia co-produzir comigo o “Nômade” com tudo de “fogueira” que essa produção tinha para nos oferecer. Ele topou, de coração e alma, e criamos uma parceria que permitiu que conseguíssemos seguir com o processo criativo direto no estúdio. Tudo o que eu precisava para engatar o motor de produtividade criativa.

Você já declarou que “sempre foi muito ruim de fazer letra”. Como foi o processo de criação das letras desse disco? O que te fez “se libertar” da autocrítica e colocar as palavras no disco?

Uma das coisas mais interessantes que aprendi e vivenciei da pesquisa da música vocal, que é até hoje muito libertadora, foi a improvisação e as infinitas possibilidades timbrísticas e expressivas que ela nos proporciona.

Improvisar abre os nossos ouvidos e sensações criativas para outras formas de ver e sentir a música (e a vida). Foi isso que fez libertar-me da autocrítica de colocar palavras no disco! O fato de que não precisaria usar línguas formais, oficializadas, mas que se sonoramente e emocionalmente expressassem aquilo que queria comunicar e contar sem “imposições” sociais e filosóficas, apenas a experiência sonora enriquecida com o que está vivo no momento como um convite à uma escuta criativa ao ouvinte, foi suficiente para mim. Então, 80% das letras são inventadas, porque achei esse lugar libertador. As outras canções com letras, são letras feitas na época que ainda estava em paz com a escrita, então tudo certo (risos). Havia liberdade na altura (risos).

No show do Sesc Santo Amaro, você terá a participação de Ines Queme, Marcelo Pretto, Clarianas, Gumboot e Zé Leônidas. Queria que você comentasse a escolha desses nomes para estarem contigo no palco.

Bom, o “Nômade” são encontros. Essas pessoas foram encontros significativos que resultaram em sintonia criativa e consequentemente em parcerias artísticas. A Ines é minha conterrânea. Mulher guerreira, criativa e super inspiradora na sua existência e na forma de agir na vida. Admiro muito o talento corporal e expressivo dela e é sempre bom estar na companhia e presença dela quando o assunto é dançar e se expressar abundantemente. Nada como ter um axé de casa para dar aquele sabor da terra na festinha de celebração que será esse show.

O Pretto é um poço de criatividade e faz um tempo que estamos querendo fazer algo juntos. Eu o escutei pela primeira vez, eu ainda estava em Maputo, num vídeo dos Barbatuques no Youtube e fiquei simplesmente estupefata. A imagem e o som dele ficaram bem marcadas na minha memória afetiva e eis que na minha primeira semana aqui em Sampa, encontrei-lhe num show da Maria João com o Laginha e fiquei meio histérica quando lhe vi (risos). Desde então estamos armando de trocar cantorias, e acho que essa participação no “Nômade” é um primeiro passo para isso.

Clarianas, ai as Clarianas (risos)! Deusas guerreiras da coragem, força, generosidade, criatividade. Admiro-as como mulheres ativas e ativistas naquilo que se propõem a fazer. Ouvi o trabalho delas uma vez e me encantei ao ponto de convidá- las a fazermos um show juntas, o Clarianas e Bahule (nome criativo, né? Risos!). Foi uma feliz junção para celebrar esse encontro, inspiração e troca abundante que aconteceu entre nós. Tê-las no “Nômade” foi a forma que arranjei de gritar para o mundo afora que elas existem e que o que fazem precisa ser visto pelos horizontes e suas arestas.

O Gumboot Dance Brasil é a minha “África no Brasil”. Onde mexo meu corpo, pesquiso sonoridades, aprendo e vivencio a África que ficou em mim e troco com a África que existe nos corpos dos meus colegas. O Rubens, que é o diretor e fundador do grupo e diretor artístico do show do “Nômade”, é um criador visionário demais. Ter recebido o convite dele para fazer parte desse grupo, sob o olhar que ele pesquisa, foi muito revelador para mim, de como uma cultura pode ser lida e apropriada por outros de culturas diferentes, com autenticidade. Então, tem um misto de vontade de usufruir dessa autenticidade que o Gumboot Dance Brasil traz, assim como uma provocação ao próprio grupo de aprofundar essa autenticidade, trazendo um olhar musical para o trabalho que ele já faz.

Zé foi e continua sendo uma grata surpresa no que diz respeito à timbre vocal masculino e expressividade no canto. Conheci-o em Maputo pessoalmente quando do TP50, e foi uma troca muito massa cantar “Eu Te Amo” de Chico Buarque com ele, uma das músicas mais complexas que já cantei na vida. E depois quando trocamos cantares no show do Caixa Cubo, também em Maputo, fiquei ainda mais surpreendida com a liberdade vocal que ele tem. Ele virou um ídolo desde então e jurei para mim mesma que faríamos alguma música juntos em algum momento da vida. Esse momento foi no “Nômade”. Com muita alegria.

Você tem diversos projetos, como o Bahule Quartet e Zulepe, além do trabalho solo. Como você vem se dividindo entre eles?

Em mil (risos). Puxa, não é fácil. Eu sou uma pessoa que preza pela versatilidade e diversidade. O “Nômade” em si revela muito isso de mim. Meio que gosto de viver as coisas na totalidade sempre que possível. Então, todos esses trabalhos são lados de mim que não cabem todos no mesmo lugar/pacote. Precisei me “fragmentar” para poder me vivenciar totalmente criativa e artisticamente. Não é nada fácil gerir tudo isso. Porém é um jeito em que eu estou sempre reinventando, recriando e resignificando as minhas ideias, o meu trabalho, a minha carreira e a minha vida. Tenho momentos para cada um desses projetos. Tem momento que estou mais canção, então vivencio o Quarteto; tem momento que estou mais experimental, então vivencio o Solo e Zulepe. E assim sigo...

Como é a tua relação com a música brasileira? Você já conhecia algumas coisas antes de morar aqui?

Sim. Além dos programas de TV que divulgavam a música de grupos como “É o tchan”, “Molejo”, “Só pra contrariar”, etc (risos). Em 2008 entrei para o TP50, um grupo de moçambicanos que junta teatro, música e poesia, e que tocava música brasileira, como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Jobim, Elis, etc. Foi nesse grupo onde abriram-se as portas para eu escutar um outro Brasil. Quando conheci o João Fidelis do Caixa Cubo, ele me passou o seu acervo de música brasileira onde tinha Coco, Maracatu, Egberto Gismonti, Naná, Hermeto, Guinga, etc, e então simplesmente tive a certeza que o Brasil era um lugar onde eu precisava ir para beber e comer daquilo que esses criadores estavam bebendo e comendo (risos). Fiquei curiosa para saber como era essa harmonia, essas notas diferentes que tornavam as músicas paisagísticas e poéticas.

Quais são as semelhanças que você enxerga entre a música brasileira e a música moçambicana? Sinto que há uma proximidade muito grande entre elas, não?

Sim. Porém até onde sei, nem tanto. É uma pergunta muito complexa esta. Precisaria de uma conversa de meia hora para explicar minimante estas semelhanças. Vou me resumir a dizer que a Marrabenta e suas variantes são primas da chula, maxixe, samba de roda e côco e tem um estilo musical chamado Moçambiques que tem um figurino parecido com o de uma dança feite pelo Yao, de Niassa, chamada Mganda ou Nganda.

Como tem sido morar em São Paulo?

Superei a visão de “relação de amor e ódio” e transmutei para “uma aventura e uma experiência desconstrutivista, porém uma constante reinvenção”.

Você tem feito shows com Taubkin. Como é esse projeto?

Eu e João somos irmãos de alma criativa. A gente se entende de uma forma musical tão espontânea e orgânica. Exploramos bastante da improvisação, ritmo e timbres. Ele é um músico incrível, extremamente sensível e criativo, então sinto que quando estamos juntos, estamos num playground nos regozijando na alegria de fazer música.

Seu e-mail termina com uma frase do Bobby McFerrin. “Improviso é coragem para seguir em frente”. O que te chamou a atenção nessa frase dele?

Como mencionei na outra pergunta, a improvisação é libertadora, portanto junto com essa libertação vem a coragem de arriscar, apostar, persistir ou até mesmo desistir e mudar o rumo. O importante é continuar em movimento e seguir. A vida é movimento. O som é movimento. A música é um grande movimento que é conjunto de vários pequenos movimentos unidos. Ser nômade é ser uma pessoa que se movimenta. Que troca, que interage, que escuta, que escolhe e muda de ideia. É ser vivo!

O Brasil vive um momento político conturbado e de muita polarização. As pessoas parecem estar muito incomodadas com a discordância com o outro. Qual é o caminho, na sua opinião, pra gente mudar isso?

Silêncio, escuta e empatia! E isso não é só no Brasil. O mundo todo tá doidão precisando se cuidar. Silenciar e escutar é o melhor cuidado que se pode doar a si mesmo ou ao outro. Estamos vivendo um tempo de muita informação! É tudo muito! Muitos sons, muitos carros, muitas atividades, muito dinheiro, muitos aplicativos para muitas coisas diferentes, muitas opções diferenciadas dos mesmos serviços e produtos, muitas coisas se movimentando muito rápido o tempo todo, superficialmente, sem profundidade e sem pausas. Ninguém mais se escuta porque são tantas vozes, tantas opiniões, tantos achismos, tantas ideias. Está claro que estamos todos de saco cheio desse jeito “muito” de viver a vida. Sim. De verdade. É paradoxo mesmo. A forma que o ser humano demonstra que está de saco cheio é ligando o modo automático e o mute, anulando toda e qualquer outra interferência que aumente o seu estado de “saco cheio”. A consequência disso é precisamente permanecer no seu mundo fechado, protegido, sem entrada e saída de informações, e seguir desse jeito reagindo agressivamente, como forma de proteção à tudo o que lhe parecer estar a aumentar esse nível da interferência “muita”. Porém exercitando o silêncio de si mesmo, por projeção ou osmose, estimulamos também o silêncio no outro, e a prática se expande. Então passaremos a conseguir ter coragem para escutar de verdade. Pois no silêncio de mim mesmo, eu me escuto, e me expresso verdadeiramente, o que dá ao meu companheiro liberdade e segurança para também ele se escutar e se expressar verdadeiramente. Nesse lugar, somos um só. Estamos unidos. Estamos empatizados. Não somos vítimas de nós mesmos nem de padrões sociais que saturam a nossa individualidade. Parece poesia, mas é verdade. Uma das verdades.

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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