Indiescos • Saldão de Natal da Música Autoral

Indiescos - Arte: Divulgação

Mais que uma feira de discos organizada por artistas independentes, a Indiesco é uma interessante alternativa para conhecer um som novo fora do universo da internet, promovendo o encontro físico entre quem faz música, quem curte música ou quem simplesmente está passando na rua disposto a novidades. Idealizado pela cantora e compositora LaBaq, o evento reúne também Ana Larousse, Antiprisma, Daniel Mã, Dois Tempos de Um Lugar, Nicole Salmi, Ferdi Oliveira, Fábio Cardelli, Le Banquet, Meta Loris, Paula Cavalciuk, Supercolisor, Ravi Brasileiro, Ricardo Carneiro e Tay Galega – e quem mais quiser participar – no Vão do MASP na segunda-feira, dia 12 de dezembro, a partir das 18h, vendendo diretamente seus trabalhos, somando forças e compartilhando experiências.

Com exclusividade para o Azoofa, LaBaq, Fábio Cardelli, Paula Cavalciuk e Dandara, que ao lado de Paulo Monarco integra o duo Dois Tempos de Um Lugar, falaram sobre o projeto e sua importância. A ideia é que mais encontros como esse aconteçam daqui pra frente.

AZOOFA: Quem são os organizadores da Indiescos? Falem sobre o projeto!

LaBaq: A ideia nasceu comigo. Estou organizando e produzindo, mas toda ajuda é bem-vinda e vai ser massa contar com a ajuda da galera, que eu sei que vai mobilizar mais artistas pra fazer essa força-tarefa comigo. Eu lancei o meu primeiro disco esse ano, que foi um ano muito difícil pra se lançar coisas novas, em vários âmbitos. Eu acredito que a gente tem mesmo que bater nessa tecla em um ano desses e que a gente precisa de vida, de energia, de música circulando por aí pra lidar com esse caos. Foi também um ano difícil pra conseguir show, e onde o artista independente vende o disco hoje em dia é no show. Então foi um ano meio complicado nesse âmbito. A ideia veio justamente pra juntar a galera. Vamos todos juntos, porque é assim que a coisa vai rolar. Foi mais ou menos por aí.

Dandara:  Foi uma coisa bem louca, a Lari tem essa importância de articulação. Ela me escreveu, falou que estava juntando uma galera pra gente ter uma outra maneira de vender e mostrar nossos discos, que não fosse só pela internet ou nas lojas. "Bora se juntar e fazer isso na rua?". Eu disse: “Bora, tô com você!”. Ela sempre traz umas ideias assim e a gente compra. Eu sempre tenho muita vontade de ir pra rua, de ter um contato mais direto com as pessoas. A internet é maravilhosa, mas um tantinho ilusória. A gente perde um pouco a dimensão do contato de fato. Eu sou uma artista muito do palco, apesar de ter uma discografia e trabalhar com a coisa da internet e dos vídeos. Pra mim o encontro é presencial, do artista com o público. Quando ela trouxe essa ideia, abracei de imediato.

Fábio Cardelli:  Estamos procurando juntar mais gente pra ter uma envergadura maior, com mais títulos, mais diversidade de coisa pra galera procurar. A medida que isso vai aumentando, eu vou até conhecendo mais gente nova. Você chama um pessoal, e aí esse pessoal chama outro pessoal... é um negócio que vai se espalhando.

Paula Cavalciuk: A Larissa falou: "Quer entrar nesse lance?". Aí quando eu vi, já tinham vários amigos em comum participando. O objetivo é realmente tirar os discos que a gente lançou esse ano da caixa e fazer uma ação que chamasse o público. A gente é amigo, todos músicos, nos conhecemos, mas os públicos são bem distintos. Então a ideia é misturar esse público para o público dela ter acesso aos meus discos, aos discos da galera toda.

LaBaq - Foto: Leo Otero

Vocês já participaram de algo parecido?

LaBaq: Nunca participei de nenhum projeto parecido. Existem festivais que fazem bancas comunitárias, onde todo mundo expõe tudo e vende ali, mas somente das bandas que estão tocando. Eu nunca vi uma parada assim, uma feira pros artistas se juntarem, trocarem ideia com a galera que vai a fim de comprar o disco e vender. Acho muito massa porque os artistas se juntam pra mobilizar um publico sem intermediários. Gosto da ideia por acreditar bastante na soma. A gente consegue mais se pegar muitas vozes e falar numa mesma direção.

Dandara: Não. Já tinha feito algumas coisas com outros amigos compositores lá na Casa Capello, na Vila Mariana, que é a casa do Du Capello, um produtor musical, que acabou virando um núcleo de encontro de vários artistas contemporâneos. Mas antes da coisa do artista, a gente é amigo. Tô sempre eu, o Paulo Monarco, Diego Moraes, Isabella Moraes. A gente já tinha feito alguns eventos pra encontrar com a galera, bater papo, fazer uns shows, mas nunca assim, na rua, contato direto com quem estiver passando. Os transeuntes são muito vivos.

Fábio Cardelli:  Não. Eu tive um selo que tinha a proposta de fazer banquinhas de distribuição de discos independentes, mas era dentro do contexto de festivais. Mais livre, assim, na rua, é a primeira vez que eu tô presenciando e participando.

Paula Cavalciuk: Eu participei de uns festivais onde a gente misturava as banquinhas dos artistas, mas é a primeira vez que e vou cair pra rua exclusivamente pra vender discos e trocar ideia com o pessoal.

Dandara - Foto: Nadja KouchiQual a importância de um evento desses? 

LaBaq: É importante infinito! Vou até ser meio redundante aqui, a gente tá em um momento que tá todo mundo falando pra várias direções diferentes. Se a gente junta uma galera com a mesma intenção, falando pra uma mesma direção, é isso! É disso que a gente precisa agora. E isso falando de tudo, generalizando mesmo. A gente precisa mesmo se juntar. Eu boto fé que esses discos vão circular e isso é só o começo.

Dandara: Tem esse lance de pegar a galera meio despercebida. Eu acho que as vezes na internet, as vezes não, na maioria das vezes, você fala com os mesmos ou com os iguais. Tem a coisa dos "algorritmos" que vão direcionando as suas publicações pra quem quer meio que ver/ouvir aquilo. Na rua não tem isso, a rua traz um encontro. Eu vou participar dessa ação com a galera na segunda-feira com o disco que eu fiz com o Paulo Monarco, o "Dois Tempos de um Lugar”, que a gente gravou por crowndfunding e fez uma campanha muito de rua. Tinha um público nosso, que já acompanhava a gente, mas ela foi tomando forma em ações bem descentralizadas do palco e da galera, e foi um momento que a gente conseguiu dialogar com público, as vezes uma galera que quer saber coisa nova e, muito pelo "algorritmo" da internet, não chega. Se você não me conhece e não conhece os meus artistas pares, é muito difícil me achar "do nada", ficar “disponível”. A coisa da rua também é uma aleatoriedade, mas uma aleatoriedade física. Me interessa muito esse confronto.

Fábio Cardelli:  A importância é você juntar tanto um pessoal que você sabe que vai colar, porque já confirmou presença no evento, quanto uma galera que tá passando na rua ali e que vê. É muito importante a gente trazer a música pra rua, tanto num contexto do músico de rua, quando da própria cena musical mesmo. As bandas ficam muito restritas a pensar no circuito da música como uma coisa meio dentro da caixinha, tipo: “Quero tocar naquela casa de show, quero distribuir no Spotify...”, mas tem um mundo de possibilidades que passa pela rua também. Você atrai gente pela internet, mas a consolidação do púbico mesmo se dá na esfera real, no corpo a corpo. Eu sinto muito isso na minha trajetória de cantor e compositor. As vezes até atrai a curiosidade pela internet, mas o engajamento mesmo vai se dar quando a pessoa te conhece tête-à-tête. A Indiescos é uma forma que a gente encontrou de abrir um novo portal, de conhecimento, das pessoas se conhecerem. É um pretexto pra isso. Além de você ter um canal novo pra vender disco, é um espaço pra ter essa interface real de troca de experiências.

Paula Cavalciuk: Eu acho que é importante demais, porque eu vejo que a gente fica muito ligado na internet. Nos últimos tempos a internet tem sido um lugar um pouco inóspito, você entra lá e, até nas páginas dos artistas, você vê todo mundo reclamando, xingando alguém ou reclamando da vida. Eu tive a experiência de fazer uns lançamentos esse ano. No dia que eu lancei meu videoclipe de "Ruínas", por exemplo, foi o dia que o Donald Trump venceu as eleições nos EUA. Quer dizer, foi um dia caótico, um dia que pouca gente, até quem eu tenho um contato muito próximo, não deu atenção pro lançamento na internet. Acho importante por que você sai, vai pra rua, você olha no olho das pessoas. Eu tenho muito apreço por isso, meu trabalho busca essa proximidade com as pessoas. Acho que nada ainda substitui o olho no olho, a conversa franca, o diálogo. Então eu fiquei muito animada, justamente por essa possibilidade, porque é muito mais interessante todo mundo estar ali, em carne e osso, do que através da internet, do Facebook, onde todo mundo todo mundo compartilha os discos virtualmente.

Fábio Cardelli - Foto: Facebook

Vão rolar outras edições da Indiescos posteriormente/periodicamente?

LaBaqVão ter outras edições sim, mas eu não sei se consigo, organizando sozinha, fazer periodicamente, a cada dois meses, por exemplo. Mas envolvendo outras pessoas e conseguindo fazer a ideia chegar em outros lugares, com certeza! Acho que a gente precisa espalhar esse formato e botar a coisa pra rodar.

Dandara: A gente tem falado sobre, acho super interessante espalhar isso. O refúgio, o respirar do artista alternativo, e quando eu digo alternativo, é porque a gente não tá simplesmente nos meios tradicionais de distribuição, é estar em contato direto com o publico. Faz a gente sobreviver, é o nosso oxigênio. E eu acho toda ação que nos faça próximos do nosso público, ou do potencial público, super interessante. Eu vejo que a minha geração é um tanto dependente das ferramentas da internet e a gente esquece um pouquinho da coisa que faz a gente ser tão único como ser humano, que é o encontro. E quanto mais pontos de encontros, melhor. Até entre os artistas, que é outra coisa que eu acho muito legal desse evento, dessa proposta. Tem uma galera que vai participar que eu não tenho muita troca, conheço só da internet. É também um jeito de dar corpo àquelas imagens, tanto pro artista, quanto pro público. Rola uma desmistificação da ideia do artista. A gente tá aí na internet, mas estamos ralando, trabalhando pra caramba. Somar forças reais, pelo menos pra mim, que não sou uma pessoa tão internética assim, é muito importante. Ainda mais ali, na rua, na Paulista, nesse momento de tantas crises políticas e sociais, eu acho que é importante a gente se olhar no olho e entender quem somos nós. Acho que a gente se entende melhor se olhando e se fortalecendo.

Fábio Cardelli: Tem um pouco isso no radar. A gente vai ver como vai rolar e sentir o feedback. Com base nisso a gente vai surgir. A ideia tá muito quente, então com certeza isso deve ir pra frente, deve continuar. A forma a gente vai ver depois que fizer essa edição experimental na Paulista pra sentir a reação do público, a presença na rua, essa interação com as pessoas que passam por ali.

Paula Cavalciuk: Eu vou participar de tudo que eu puder, que me convidarem, pode acreditar! Eu creio que seja uma primeira experiência, então acho que o pessoal vai dar uma checada como funciona, o que tem de oportunidade de melhoria, e eu acho que a tendência é fazer isso cada vez mais. Eu penso que rolar com uma frequência maior, inclusive, pode ser até melhor e pode acostumar o público, virar uma prática. É muito ligado à pratica, ao hábito. Acho que consumir música, saber que ainda se grava e prensa disco e é possível encontrar na rua vários artistas juntos, cada um de um estilo diferente, precisa entrar no habito das pessoas.

Paula Cavalciuk - Foto: Filipa Andreia

Quais outras alternativas parecidas com essa ação, que pudessem ajudar artistas autorais e independentes, vocês também sugeririam?

LaBaq: Todas as ideias possíveis são bem-vindas pra poder impulsionar a música, fazer chegar tanto nos artistas, quanto no público. Tem tanta casa em São Paulo que faz um trampo de guerrilha fantástico, com uma programação incrível, e eu acho que se a gente conseguisse bolar coisas com essas casas seria interessante. O que eu tenho sentido e gostado na ideia da Indiescos é o lance de fazer a relação público+artista. Não é fazer uma bancona e botar uma pessoa vendendo todos os discos. A ideia mais legal é ter os artistas ali vendendo os trabalhos deles e trocando ideias com o público. Qualquer coisa que a gente conseguir agregar a esse formato é do caralho! De repente, um dia, levar pra alguma casa... tô totalmente aberta a toda ideia que pode vir!

Dandara: Esse ano eu tive uma experiência muito louca e maravilhosa: eu fui convidada pra fazer uma residência artística la em Munique, na Alemanha, e passei três meses lá. Foi uma experiência de compartilhamento, de criação, de muita coisa. Residência artística tem isso, passar três meses com nove artistas numa casa. Isso despertou muito claramente a ideia de troca, de companheirismo, de compartilhamento, de influência. Neste caso eram artistas de várias outras linguagens, da música, das artes plásticas, da dança, do teatro, do cinema. A gente vive um momento de dificuldades mercadológicas, potencializado também por uma dificuldade política e social no nosso pais e, como artista, não é nem um posicionamento ideológico, é um posicionamento de ser humano habitando um espaço geográfico, reflete essas questões, falando sobre ou não. Eu acho tinha que rolar ações como encontros de artistas pra falar sobre desdobramentos da música, não só música. Shows mais coletivos. A gente tem que ocupar mais a rua. Estamos entrando num momento do Brasil com muitas possibilidades de regressão. E aí a gente tem que ocupar! A internet é um espaço livre, mas ele só existe porque existe a rua, a realidade, o teatro, a galera tocando no bar, sabe? Essa edição da Indiescos é um reflexo de todas as coisas que já estão rolando, não só na música, mas pra gente se fortalecer, as artes têm que se ligar. A música tem que falar mais com o teatro, com a fotografia, com a dança, com a performance. As linguagens tem que se articular pra gente emanar luz nessa treva toda.

Fábio Cardelli:  Uma coisa que eu eu fazia bastante com o meu selo, na época que tavam bombando festivais como o Fora do Eixo, isso em 2007, 2009, era trocar material entre bandas. A gente tinha uma banquinha e fazia escambos, pegava dez CDs de outros selos, dava dez CDs nossos e se a gente vendesse os CDs deles, ou o lucro era nosso, ou combinava uma consignação. Os festivais deram uma diminuída nos últimos anos, muitos perderam patrocínio, mas, de repente, fazer uma banquinha itinerante, uma lojinha, que pinga em todos os festivais, acredito que seja uma coisa interessante. Não só pra vender CD, mas camiseta e todo tipo de merchan. É uma coisa que, se organizar direitinho, você faz circular muita gente e consegue gerar uma grana também.

Paula Cavalciuk: A Paulista aos domingos, por exemplo, é um grande palco. Acho que a rua é uma oportunidade tremenda pra entrar em contato com o público. Não vão entrar numa casa de shows e ver um show seu se ainda não estão na sua pagina do Facebook. Essas intervenções são importantíssimas, a arte precisa invadir esses lugares, o concreto. Ela precisa chegar na frente das pessoas e dar um sacode. Eu acredito muito nisso.

Obrigado, pessoal. Há alguma última mensagem que desejam passar?

LaBaqCompre de artista independente, independente do que for comprar, compre de quem faz com as próprias mãos! Fomente isso, porque é muito importante! Nesse momento a gente precisa mesmo dessa força e quem puder espalhar a ideia, tanto pra artista, quanto pra público, quem tiver curiosidade de conhecer o que tiver rolando na cena indie, não só de São Paulo, mas de fora também, é só dar um pulo ali no Vão do MASP a partir das 18h na segunda-feira que a gente vai estar lá!

Dandara: Que massa que tamo aí, que massa que vocês do Azoofa tão colando nessa movimentação e dando mais eco. A internet também tem esse poder super importante de ecoar e os canais que tem um refinamento das informações são interessantes e importantes. Tamo aí, tamo junto e junto a gente vai mais longe! Quem quiser, chega no Vão Livre, super livre, pra trocar ideia que vai ser lindo!

Fábio Cardelli: Eu gostaria de convidar todo mundo pra chegar na Indiescos. Se você pesquisar no Face, você acha o evento. Pode trocar uma ideia pra trazer o seu material pra vender lá também, todo mundo é super bem-vindo. É um projeto totalmente código aberto, é so chegar e colar junto. Vamos espalhar esse rolê, porque que vai acontecer!

Paula Cavalciuk: Eu acho que vai ser uma oportunidade enorme, linda e imperdível das pessoas se encontrarem e promoverem encontros, porque quem procura, acha! As vezes você encontra algo que nem estava procurando, mas que pode ser de grande valia. Não desprezem as oportunidades diárias de sair um pouquinho fora da caixinha, da rotina! Vai ser uma onda! No mínimo, muito divertido. Eu tô apostando nisso!

*** 

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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