Os 5 melhores lançamentos de MARÇO

Seguimos na saga de elencar os melhores álbuns lançados no Brasil e lá fora. Desta vez, nossos olhares e ouvidos miram as novidades que saíram em março. Dos surpreendentes discos dos brasileiros Banzo e Luiza Lian à solidez de Semper Femina, da inglesa Laura Marling, passando pela assertividade dos lançamentos do Real Estate e Rolling Blackouts Coastal Fever, eis os novos discos que achei mais interessantes.

Laura Marling - Semper Femina

 

Aos 27 anos, Laura Marling já lançou cinco álbuns – o primeiro, “Alas, I Cannot Swim”, é de 2008. Nesses quase 10 anos de carreira ‘oficial’, Marling vem mostrando uma força impressionante para se reinventar e, ao mesmo tempo, afinar o traço de uma assinatura musical cada vez mais singular. Depois de “Once I Was An Eagle” (2011), sua obra prima, em que atinge um certo status de trovadora mística, se aproximando de Leonard Cohen, Marling abandonou a crueza dos arranjos que, quase sempre, giravam em torno de seu solitário violão, montou uma banda e vem, delicadamente, trocando sua sonoridade.

Se em “Short Movie” (2015) ela apresenta essa transição usando bastante guitarra e deixando as canções mais diretas, agora, em seu sexto lançamento, “Semper Femina” – expressão em latim para “sempre uma mulher”, - a cantora inglesa agrega novos elementos, como se escancara logo na primeira faixa, “Shooting”, cuja linha de baixo carrega e atravessa a melodia épica. Ao mesmo tempo, há o rock visitado em “Short Movie” (nas belíssimas “Wild Fire” “Nothing, Not Nearly”) e as visitas de sempre à simples união entre sua voz e seu violão (“Nouel”).

Musicalmente, talvez, “Semper Femina” seja mais como um apanhado da sonoridade que Laura vem buscando e atingindo durante essa década, com algumas novidades a mais. O grande destaque está, certamente, nos textos. Ao criar personagens femininas e colocá-las em letras que discutem amizade, amor e visões de mundo de uma maneira lírica e terrena – levantando bandeiras sem, no entanto, caminhar sob a estrada fácil da panfletagem - Laura eleva sua poética a um nível difícil de encontrar em outro artista que circule no mesmo universo que ela. Com 27 anos, Laura parece estar no auge artístico e no que diz respeito ao controle de sua carreira. É relevante, é inovadora, não dá a mínima pro mercado, não se vende diariamente nas redes sociais – não tem Facebook ou qualquer dessas coisas como Snapchat – e seu público não para de crescer. O quão raro é isso?

Conheçawww.lauramarling.com

Minimalista - Banzo

 

“Banzo”, diz Thales Silva, o minimalista, em comunicado, “é uma languidez, uma saudade profunda do que não se sabe explicar”. É curioso achar essa frase dele em alguma matéria na internet por aí, porque é exatamente essa a sensação que sinto ao escutar seu disco, justamente nomeado “Banzo”. A produção é de Leonardo Marques e Victor Magalhães.

Boa parte da produção musical brasileira recente, notadamente de uns 10 anos pra cá, vem renovando e recriando as bases do que se convencionou chamar de MPB. A desconstrução do samba, do brega e até do pop fez muito bem à linha evolutiva do cancioneiro nacional, mostrando que as possibilidades são muito grandes e há muito ainda a se explorar; mas, de alguma maneira, também esse movimento de quebrar padrões fez com que – e aí é minha impressão – todo mundo fugisse da simplicidade da boa canção, aquela cujo arranjo, melodia e harmonia não precisam necessariamente ferir paradigmas para serem assim consideradas. Ela, a boa canção, costuma ser tão brilhante por si só que mal se percebe a forma com que foram embaladas.

Tudo isso pra falar que “Banzo” carrega diversas boas canções. É sintomático e muito bonito ouvir Thales cantar, já na faixa de entrada “Fogo no Rabo”: “sou melhor depois do estrago  que esse rasgo fez em mim / o meu peito pede trégua, peço água”. “Banzo” é o que vem depois do rasgo. Ainda bem.

Ouça: soundcloud.com/minimalistamusica/albums

Real Estate – In Mind

 

O quarto álbum do Real Estate, “In Mind”, guarda um paralelo interessante entre a vida pessoal do seu líder e principal compositor, Martin Courtney, e a sonoridade do disco. Há alguns anos, Martin casou-se e vive a cuidar dos dois filhos em Beacon, Nova York. As letras neste disco refletem esse momento tranquilo e caseiro do músico. E, segundo suas poesias, está tudo bem com este momento nada repleto de pirotecnias.

Assim também acontece com o caminho sonoro escolhido pela banda neste quarto álbum: não há sobressaltos, não há a intenção de correr riscos, não se vê desejo de sair de uma espécie de lugar confortável que o grupo encontrou desde sua estreia discográfica lá em 2009.

Entre momentos de experimentação – como em “Darling” e “ Two Arrows” - e outros em que entregam o feijão com arroz do indie rock, “In Mind” é um disco de uma banda confiante e relaxada, o que não significa que não há espaço para coisas interessantes acontecerem.

Ouça: www.realestatetheband.com

Rolling Blackouts Coastal Fever – French Press

 

“Rock de faculdade”. Essa é a sensação primeira que me veio ao escutar o novo EP dos canadenses do Rolling Blackouts Coastal Fever. Esse conjunto de 6 canções que o grupo apresenta em “French Press” comprova o que já suspeitavam aqueles que escutaram sua estreia discográfica, “Talk Tight”, de 2016: os caras são excelentes músicos de rock. Dominam com graça o labor roqueiro, misturando, às vezes numa mesma canção, ecos de Beatles, Clash e Cure.

Com arranjos sofisticados, que quase sempre fazem brilhar as guitarras de Fran Keaney, Joe White e Joe Russo – sim, a banda tem três guitarristas -, o grupo, que ainda conta com o baterista Marcel Tussie, entrega faixas repletas de energia, com linhas de baixo viciantes e letras cobertas de melancolia.

Lá atrás, alguém falou que o Strokes era a salvação do rock. Deu no que deu. Que ninguém diga isso do Rolling Blackouts, só pra gente ver eles se divertirem no gênero.

Conheça: www.rollingblackoutsband.com/

Luiza Lian – OyA Tempo

 

No ano passado, assisti a um show de Luiza Lian em que, em determinado momento, ela apresentava a canção “Oya”, até então inédita em disco. Naquele dia, a música saiu quase sem acompanhamento de banda, e o resultado se aproximava mais de uma reza. Nada mais distante do que a versão funkeada de “Oya” que ela mostra no seu segundo disco, “Oyá Tempo”, produzido por Charles Tixier, baterista e principal parceiro musical de Luiza.

Influenciada pelo funk e pelo trip hop, Luiza criou uma obra surpreendente. Concebido a partir de duas vertentes - as composições/cânticos umbandísticos da cantora e sua incursão pelo mundo do “spoken word” – o álbum é envolto de uma atmosfera eletrônica e atualiza a ponte entre tradição e contemporaneidade. Sampleia e distorce músicas tradicionais, estabelece um trip-hop em diálogo direto com a música brasileira, mescla espiritualidade e vida em um funk desconstruído, fazendo deste um disco ao mesmo tempo pessoal e representativo de sua época.

Fora isso, “Oya Tempo” inspirou a criação de um média metragem (assista acima) dirigido por Camila Maluhy e Octávio Tavares e protagonizado pela pela cantora Nina Oliveira e o rapper Diggão.

Baixe e ouça: www.luizalian.com.br/oyatempo/

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arte: marina malheiro

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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