Os 7 melhores lançamentos de ABRIL

Seguimos na saga de elencar os melhores álbuns lançados no Brasil e lá fora. Desta vez, nossos olhares e ouvidos miram as novidades que saíram em abril. Há, nessa lista feita sob critérios estritamente pessoais, uma predominância curiosa do jazz. Tal qual 1959 foi um ano mágico para o gênero, o mês de abril parece ser, respeitando as devidas proporções, um mês especial para os seguidores do novo jazz. Há, também, os novos trabalhos de nomes conhecidos, como Feist e os brasileiros do Vanguart.

Eis aqui, então, os sete discos lançados em abril que achei os mais interessantes.

Feist – Pleasure

A cada disco lançado após o considerável sucesso do álbum “The Reminder”, de 2008, a cantora Feist prova que o êxito comercial e o dom de criar músicas para se dançar e cantar – algo sugerido por “The Reminder” - foi mesmo caso de um disco só, um ponto fora da curva. Sua trajetória é retilínea e é feita de melancolia. De ausências: há sempre espaço para o silêncio nas canções pós-sucesso. E nada mais antipop do que o silêncio.

Em “Pleasure”, seu novo trabalho, ela segue dolorida e repleta de questões amorosas, políticas e sociais a atormentando. Musicalmente, porém, Feist não se acomoda. O disco anterior, “Metals”, já era um prenúncio de um álbum não afeito aos predicados do mercado -, Feist se apropriou de teclados, sintetizadores e de violões para criar uma ambientação bucólica mas também bastante limpa. Em “Pleasure”, não. Há uma preferência pela crueza, pelo noise, quase como se ela fosse a líder de uma banda que se reúne na garagem de casa.

Há, em sua voz rasgada e fugidia, que às vezes nos agride, às vezes nos escapa, uma entrega absoluta à canção, exatamente a grande qualidade das boas bandas de garagem.

Braxton Cook – Somewhere in Between

Mais conhecido até aqui pelo seu jogo de saxofone estelar e colaborações com Butcher Brown e Christian Scott, o norte-americano Braxton Cook mostra, agora, a própria voz – e isso tem feito críticos o cotarem como “o próximo grande nome do R&B”. Com instrumentação vibrante e colorida, que mescla a construção de canções com a invenção e a experimentação, Braxton apresenta 12 canções inéditas, que vão de faixas cinematográficas (como “Millenial Music”) a hits prontos para a pista (caso de “FYJD”).

“Somewhere in Between” é mais pesado que o anterior, “Braxton Cook Meets Butcher Brown”, mas é tão autêntico quanto. As letras nos permitem visualizar um sujeito em busca da paz – mais maduro, Braxton parece concluir que a estrada é sempre mais importante que o destino. Todas as emoções são válidas quando você ainda está encontrando o seu caminho.

Vanguart – Beijo Estranho

O Vanguart vem construindo uma trajetória interessante dentro da música popular brasileira. Dentre as bandas surgidas na década passada, o grupo é certamente um dos mais bem sucedidos, ao menos no quesito longevidade, quantidade de público e potência criativa. No primeiro e no segundo, é de se celebrar que, no Brasil, um grupo de folk rock complete 15 anos de estrada e atravesse a tormenta do fim do CD e do início da era digital sem que músicas em novela ou um grande sucesso tenham sido responsáveis por isso.

No terceiro aspecto, a banda nunca se aquietou. E aqui, em “Beijo Estranho”, eles parecem ter encontrado a síntese de todos as possibilidades experimentadas nos discos anteriores. É notável que, com três ou quatro segundos, o ouvinte possa reconhecer com facilidade que 'essa-música-é-do-Vanguart'. Há uma assinatura sonora inescapável, e que em “Beijo Estranho” permeia todas as faixas, ainda que a banda se permita, nesse disco, ousadias, como soa a presença de Thiago França no sax de “Quando Eu Cheguei na Cidade” ou a urgência tensa de “Beijo Estranho”, a faixa de abertura.

A cada audição, as músicas vão se revelando, e não é exagero dizer que, de fato, o Vanguart tenha aqui seu melhor trabalho, como apontou o crítico Julio Maria, no Caderno 2. E há “Todas as Cores”, aquele tipo de canção que não demanda explicação sobre sua raridade: você escuta e já sabe que ela nasceu rainha.

Ahmad Jamal – The Awakening

Miles Davis foi um grande admirador e defensor do pianista Ahmad Jamal, que na década de 1950 não foi levado a sério por muitos críticos de jazz. Mas o ouvido sublime de Miles Davis reconheceu um toque leve e requintado de complexidade, apesar do sucesso comercial de Jamal.

"Eu amava o seu lirismo no piano e a forma como ele tocava, escreveu Miles em 1989. "Eu sempre pensei que Ahmad Jamal era um grande pianista que nunca teve o reconhecimento que merecia."

Esse reconhecimento acabaria por vir, e a estatura de Jamal só cresceu ao longo das décadas. O álbum “The Awakening”, reeditado em vinil pela Be With Records em abril deste ano, é um belo exemplo da elegância majestosa e discreta de Jamal pontuada com rabiscos de fantasia. O álbum, gravado no início de fevereiro de 1970, é composto de dois originais dele e peças de Oliver Nelson, Herbie Hancock e, olha só, Tom Jobim.

Aimee Mann – Mental Illness

A cantora americana de 57 anos ganhou fama mundial no início dos anos 2000, quando o diretor Paul Thomas Anderson disse ter escrito o truncado roteiro do filme “Magnolia” depois de escutar um disco de Aimee, “Bachelor n. 2”. Mas a carreira de Aimee é bem maior que isso. Ela surgiu para a música nos anos 80, como vocalista da quase desconhecido e hoje desativado grupo ‘Til Thursday. Em 1990, começou a gravar trabalhos solos, quase sempre sombrios, mas nada que explicitasse tanto este lado quanto o novo “Mental Illness”, o de número 9 de sua carreira, cujo título promete aspereza.

Em entrevista à Rolling Stone americana, ela reconhece que se empenhou para fazer deste “o [disco] mais triste, lento e acústico possível”. Há, sim, peças repletas de cordas, pianos e violões cujas letras versam sobre mágoas, raivas e remorsos, mas há também olhares de comicidade sobre uma sensação permanente da autora de às vezes simplesmente não saber o que fazer da vida – algo que fala fundo a cada um de nós.

Somi – Petite Afrique

Somi, 35 anos, é uma cantora americana de jazz com raízes em Ruanda e Uganda. Na infância, viveu por alguns anos no Quênia e Zâmbia. Seus trabalhos – já são cinco discos até aqui – sempre dialogam entre essas duas realidades que coexistem dentro dela: ser uma norte-americana e ser uma descendente africana. Em 2014, ela lançou “The Lagos Music Salon”, em que apresentava canções cujos temas passavam pelos imensos problemas que afetam a população da Nigéria: alta taxa de criminalidade, miséria e corrupção (o leitor lembrou de alguém aqui?). O disco foi louvado como “fabuloso” por diversos críticos e o Huffington Post chamou-a de “a nova sacerdotisa do jazz”. Em seu novo trabalho, “Petite Afrique”, ela muda o foco. Agora, sua pena escreve sobre a sensação de ser uma descendente africana em pleno solo norte-americano, um tema vivíssimo em época de Donald Trump. O álbum traz canções inspiradas na vibrante comunidade de imigrantes africanos que se tornou uma parte vital da dimensão cultural do Harlem, em Nova York.

Com a gentrificação que afeta o bairro nos últimos anos, milhares de africanos foram empurrados para fora do bairro. No disco, Somi registra parte dessas histórias – diálogos dela com membros da comunidade sobre temas como assimilação cultural, preconceito e pertencimento, numa tentativa de não deixa-las apagar com a provável transformação do Harlem. Ah, mas tem sua voz, forte, da escola de Nina Simone, e uma produção moderna e impecável, que lhe permite passear com tranquilidade pelo jazz, pela música folclórica americana e até pelo pop.

Thelonious Monk - Les Liaisons Dangereuses

1959 foi um ano especial para o jazz. Ali nasceram álbuns incontornáveis, como o “Kind of Blue” de Miles Davis, o “Giant Steps” de John Coltrane e o “Ah Um” de Charles Mingus, pra citar apenas três (a lista de bons lançamentos de jazz no último suspiro da década de 50 é realmente longa).

Outros dois discos que estão nessa seleção é “5 By Monk by 5” e “Thelonious Alone in San Francisco”, de Thelonious Monk. Se não fosse o suficiente que o pianista de New Jersey tivesse lançado dois álbuns gigantescos no mesmo ano, agora se descobre que houve mais. Thelonious gravou – e não publicou – peças para a trilha sonora do filme Les Liaisons Dangereuses (no Brasil, “As Ligações Perigosas”), do francês Roger Vadim, que foi reunida em álbum este ano e foi classificada pela renomada Pitchfork como “a grande reedição” do mês de abril.

Neste dia de 1959, sua banda era composta por Sam Jones no baixo, Art Taylor na bateria e Charles Rouse no sax e Barney Wilen no sax tenor – foi, aliás, nos arquivos de Wilen que os produtores encontraram as fitas cujo material inédito o francês nunca usou. Sem tempo para compor peças inéditas, Monk e a banda mergulharam em seu próprio repertório, e dali tiraram versões ágeis e instigantes de si mesmo. 1959 foi o ano do jazz mas, pelo visto, foi também o ano mais iluminado de Thelonious Monk.

***

arte | marina malheiro

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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