Os 12 melhores lançamentos de MAIO

Seguimos na saga de elencar os melhores álbuns lançados no Brasil e lá fora. Desta vez, nossos olhares e ouvidos miram as novidades que saíram em maio. Do afrobeat obscurso da Nigéria ao lado country folk do líder dos Black Keys, passando pelos brasileiros Curumin, Rincon Sapiência e Mombojó: eis aqui, então, os 12 discos lançados em maio que achei os mais interessantes.

Benjamim e Barnaby Keen - 1986

Álbum bilíngue, criado pelo português Benjamim e pelo britânico Barnaby Keen, "1986" é folk, rock e até funk. Diz a lenda que os dois se conheceram num cinema em Brixton, Londres, e falaram horas sobre um ídolo em comum: Chico Buarque. Gravado em apenas dois dias, a ideia do álbum era relativamente simples: cada um trazia quatro canções e eles se viravam no desenvolvimento de arranjos. Comece escutando logo a primeira do disco, a empolgante "Warm Blood", e veja como a missão foi bem sucedida.

Alice Coltrane - The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda

Nos anos 80 e 90, Alice Coltrane - companheira de John Coltrane até a sua morte, em 1967 - gravou e lançou um requintado catálogo de música ashram. Essas composições de devoção contam uma história de feminilidade e espiritualidade através da lente de uma compositora incomparável. São canções religiosas, ao mesmo tempo afro-americanas e sul-asiáticas. Suas histórias podem ser atribuídas a revivências religiosas que abrangem o período medieval da Índia, bem como a formações culturais que se uniram no Novo Mundo entre os descendentes de escravos africanos.

Corte - Corte

Em 2015, Alzira E juntou-se a Marcelo Dworecki (guitarra e baixo) Fernando Thomaz (bateria) Cuca (sax-barítono) e Daniel Gralha (trompete) para formar o Corte - naquele mesmo ano, saiu o primeiro disco do quinteto. Agora, eles entregam o segundo trabalho. São 10 canções inéditas que aprofundam e adicionam exemplos ao experimentalismo corrente na música feita em São Paulo nos últimos anos. Flutuando entre a inquietação e uma capacidade de observação refinada, as letras de Alzira - e de parceiros como Peri Pane e ArrudA - se destacam em meio à interessante malha sonora bordada pelos músicos, quatro dos representantes mais inventivos da cena atual.

Curumin - Boca

O tão aguardado quarto disco de Curumin finalmente chegou - o último, "Arrocha", saiu em 2012. Neste novo trabalho, o músico valoriza samples e sintetizadores em canções que versam sobre política, sexo e observações sobre o comportamento humano. Menos melódico e mais atmosférico, "Boca" tem, em cada canção, um universo gigantesco a ser explorado - de referências, de sutilezas, de pequenas sacadas que a primeira audição talvez não alcance.

Dan Auerbach - Waiting on a Song  

Já na abertura e no título de seu novo disco solo, Dan Auerbach, o guitarrista e vocalista do Black Keys, levanta e responde duas questões. A primeira é a velha conhecida dos compositores, seja qual for o gênero que ele trabalhe: qual é o segredo para se fazer uma canção? Entre o esforço - trabalho - e a inspiração - o acaso -, qual é o melhor caminho para fazer surgir uma música? A resposta de Dan não vem tão claramente, embora ele arrisque dizer, na letra da faixa, que "as músicas não crescem em árvores / é preciso pegá-las na brisa".

A segunda questão é: que tipo de som Dan faria se pudesse, digamos, ser outra pessoa que não aquele sujeito do Black Keys? A resposta está mais do que dada depois de duas ou três faixas: misturando folk com blues, soul e uma pitada de bluegrass, o multiinstrumentista entrega dez faixas saborosas, que contaram com diversas participações de guitarristas lendários de Nashville. Um bonito tributo ao passado, às figuras que o influenciaram mas, principalmente, a si mesmo.

Grateful Dead - Get Shown The Light

Os fanáticos pela banda o veem como a melhor série de shows do grupo de todos os tempos. Este "Get Shown The Light" resgata a íntegra de 4 espetáculos dados pelo Grateful Dead em maio de 1977, nas cidades de New Haven, Ithaca, Buffalo e Boston - e que completa agora, portanto, 40 anos. O disco é relançado em formato deluxe com todas as faixas remasterizadas. O lançamento é suntuoso: os 4 shows são divididos em 11 CD's, e ainda tem um livro inédito. Foram feitas apenas 15.000 cópias do box.

Nos shows, o que se escuta é o Grateful Dead em estado de graça. Jerry Garcia e seus comparsas provam que álbuns ao vivo, mesmo aqueles lançados postumamente, e de shows que não foram pensados exatamente para sair em disco, podem ser tão emblemáticos quanto trabalhos pincelados em estúdio.

Juana Molina - Halo

Folktronica experimental: é esse nome quase científico que arrumaram para classificar o som da cantora e compositora argentina Juana Molina. Tudo bem. Esqueçamos isso e vamos pro que realmente importa: a música. Molina, filha de um músico que fez a carreira no tango, é multiinstrumentista e sabe como poucos mesclar experimentação e sotaque pop, sem nunca perder de vista a inventividade.

Com composições intrigantes, a experimentada artista (seu primeiro LP é de 1996, e indicava que ali nascia mais uma artista no velho caminho pop) baseia quase todas as letras na lenda da "luz mala", um feixe de luz que flutua sobre o solo onde os ossos são enterrados. Para dar conta de um tema espinhoso, ela cria personagens que perseguem a clareza diante de uma confusão permanente. Em termos sonoros, é de longe seu trabalho mais maluco e inventivo. Conhecida na Argentina também por ser atriz de humor, Molina parece ter encontrado finalmente o prazer de gravar um disco sem dar bola para mais nada além do que seu coração e seus impulsos ordenam. Em "Cara de Espejo", ela parece falar sobre isso. "Quando você sabe que você vai se olhar no espelho / Você puxa o rosto que você espera ver no reflexo".

Maurice Brown - The Mood

Na página do disco na Amazon americana, há este curioso comentário de um fã sobre Maurice Brown. "Se você não sabe quem ele é, dê um tapa em si mesmo". De fato, pouca gente conhece o trabalho deste engenheiro de som, trompetista, produtor e compositor. Ele já trabalhou com nomes do quilate de Aretha Franklin e De La Soul. "The Mood", seu novo álbum, é um bom aperto de mão de "muito prazer".

Fica claro o domínio de Brown sobre diferentes gêneros e, especialmente, sobre como compor e fazer as crias soarem muito bem em estúdio. Ganhador de um Grammy em 2012 pelos arranjos do disco "Revelator", do Tedeschi Truck Band, aqui ele mistura levadas de jazz contemporâneo com hip hop, blues, soul e até be-pop. São dez faixas cheias de energia, que vão funcionar nas mais recomendáveis festas black.

Mombojó e Laetitia Sadier - Summer Long

É interessantíssimo ver acontecer misturas improváveis à primeira vista. Mombojó e Laetitia Sadier, do Stereolab - quem diria? Tudo bem que a banda pernambucana já havia dito, aqui e ali, que o Stereolab lhe servia de maior influência. Mas que bonito é ver o encontro entre criatura e criador. Tudo começou anos atrás, quando a banda entregou um de seus trabalhos nas mãos da cantora após uma apresentação do Stereolab em São Paulo. Tempos depois Laetitia resgatou o “Homem-Espuma” de sua pilhas de discos desorganizados e se encantou. Dali, o papo avançou pelas redes sociais e o contato virou um convite, que virou uma residência e que resultou no EP “Summer Long”.

Nas quatro faixas (C’est Le Vent, The Source, Power of Touch e Berlin Friend), Laetitia canta em inglês e francês. As canções foram todas gravadas durante uma residência em um sítio perto de Recife. Em julho, eles lançam o EP na Europa e transformam-se num grupo a se chamar Modern Cosmology. A ideia é gravar um disco "inteiro" e sair em turnê mundial.

Quantic & Nidia Gongora

"Eles se encontraram para fazer algo mágico", disse o jornal inglês The Guardian sobre "Curao", o disco que reúne o produtor Quantic e a cantora colombiana. Parceria que vem sendo construída há uma década, e que se podia testemunhar em lançamentos de faixas aleatórias, os dois agora lançam finalmente um álbum com 19 faixas, que mostram a mão de Quantic nas canções folclóricas colombianas, cantadas com extrema força por Nidia.

Sua voz magnética e suas composições cativantes se combinam com ritmos infatigáveis e a produção caprichada de Quantic. Ao tratar as histórias e os ritmos da música do Pacífico com grande reverência, ao mesmo tempo que forja um som novo e vital para as pistas de dança de hoje, Quantic e Nidia fazem deste "Curao" um dos trabalhos mais inspiradores de 2017.

Rincon Sapiência - Galanga Livre

Já se ouviu bastante, nos últimos anos, a voz e a força da rima de Rincon Sapiência em diversas participações do rapper em discos alheios. Mas é seu primeiro disco, "Galanga Livre", que reflete de fato o tamanho do artista. No álbum, Rincon faz referência à lenda de Chico Rei, o rei do Congo que teria vindo ao Brasil como escravo - Galanga é o nome pelo qual lhe chamavam quando ainda ostentava o título de rei em seu país de origem.

A partir de uma premissa que abre diversas pontes para a reflexão, Rincon apresenta personagens, histórias e versos que estão sempre a falar de racismo, liberdade e do empoderamento do negro. Mas não é só isso: Rincon sabe falar de amor, como em "A Noite É Nossa" ou "Moça Namoradeira". Explorando o afrobeat, o funk e o hip-hop, "Galanga Livre" é o artista em sua plentitude - e esse é só o começo.

Vincent Ahehehinnou - Best Woman

Em 1978, o nigeriano Vincent Ahehehinnou deixou o famoso grupo Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou por divergências artísticas. Acabava ali uma década de colaboração com a banda. Por sorte, porém, logo ele virou o jogo. E tudo não seria possível sem seu encontro com o músico Ignace de Souza na Decca Studios. Ali, Vincent mostrou suas canções para ele, que concordou em produzir seu primeiro álbum. Nascia "Best Woman", que é relançado agora.

São apenas quatro faixas, que tem, em média, nove minutos cada, e mostram uma pegada agressiva de afrobeat, com especial destaque para os trabalhos de guitarra. As músicas ora recebem a voz de uma cantora melodiosa, ora são afetadas pela voz falada de Vincent. "Best Woman" é um quarteto quente de faixas para quem anda interessado em se infurnar nas possibilidades obscuras e contagiantes do afrobeat.

*** arte | marina malheiro 
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

Comentários
Postagens relacionadas

24/08/2017 Entrevistas

Chá das 4 e 20 Músicas | Maneva

Shows relacionados