"Sol Velho Lua Nova" de Flávio Tris, por LG Lopes

“Que bom que vocês ajudaram o Flávio a se encontrar consigo mesmo”, me disse um velho amigo curandeiro quando ouviu “Sol Velho Lua Nova” pela primeira vez. De fato, é também por esse viés que visualizo a feitura desse álbum: um mergulho em direção ao essencial, aquilo que quase escapa aos olhos. Um garimpo cuidadoso e terno, de limpar arestas e trazer à luz algo delicado e profundo. A história da história que não tem fim.

Numa imersão de quatro dias, cinco almas estiveram de ouvidos e corações atentos, num exercício de jardinagem capitaneado pelo espírito daquelas nove canções e suas florestas por dentro. Da minha parte, um infinito de memórias e visões, os muitos momentos luminosos da música que nos costurou numa sólida amizade por todo esse tempo, a teia dos anos, os olhos e afetos ali presentes. “We’ll see each other”, e também ao todo: nos guiava o deleite e a alegria de ser-estar.

A intuição clara de fazer um disco que orbitasse em torno da voz e do violão, os materiais básicos de onde emergiam aquelas composições, se fez por uma constelação de alinhamentos cósmicos, e a vontade legítima de uma produção caseira - e nem por isso menos cuidadosa - foi combustível para o resultado sonoro que reluz naqueles XX minutos. Os demais elementos, poucos e escolhidos a dedo, surgiam como que por brotamento espontâneo, de dentro das imagens, dos acordes, das geometrias do canto. Um piano tocado com dois dedos, um acorde discreto no harmônio, as peles de um tambor acariciadas como a um bicho vivo. Mirações fractais de uma jornada xamânica, à luz do fogo das plantas e palavras sagradas. Feito chuva suave que passa e apazigua, foi justamente no calor morno das sílabas ditas sem pressa onde emergiu o significado maior desse disco: um festejo sereno por cada gota de água que nos constitui o corpo emocional. Desaceleração e respiro. O horizonte bem longe na palma da mão. São, pois, todas canções de amor, em suas múltiplas faces, com as temperaturas da terra e da brisa leve. Amor planetário, intransitivo, por todos os seres de todos os tempos. Um disco de recolhimento, de ouvir com os olhos fechados, de encontro à solidão que sempre esteve conosco e nos acompanhará até o fim.

É como um longo cordão: não vou saber de mais nada. Todas as bênçãos para esse nascimento tão necessário a esses tempos tão áridos. Sol que aquece a guiança da lua. Bem haja! The time has come.

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Quem escreveu
LG Lopes
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