Entrevista: SOJA

Soldiers of Jah Army

Subi as escadas do número 1121 da Rua Teodoro Sampaio e logo me deparei com pequenos grupos de profissionais de imprensa cercando um sofá, no centro da sala principal da On Stage Lab. Deduzi que os oito integrantes da banda S.O.J.A., em passagem pelo Brasil pela oitava vez, fossem se sentar ali e conversar com todo mundo, um por vez. Na verdade ali ela apenas um cenário montado para a gravação de um programa de TV com os americanos. Todas as entrevistas aconteceriam em outra sala, fechada, com exclusividade para cada veículo de comunicação. Aguardamos, Gustavo Kamada e eu, nossa vez tomando um café em um dos cantos do local – aproveitei para repetir sem parar a palavra "deforestation", presente em uma das minhas futuras perguntas, que eu insistia em pronunciar "deflorestation". Nunca havia falado "desmatamento" em inglês na vida.

 

Antes de entrarmos, um dos assessores de imprensa pediu que aguardássemos mais 15 minutos. Eram quase duas da tarde e os músicos ainda não haviam almoçado. Estavam extremamente cansados, também. Tinham trabalhado a manhã inteira na divulgação do álbum Poetry in Motion, assim como no dia anterior. "Pedimos umas pizzas pra eles. Eles comem rapidinho e aí falam com vocês. É o Azoofa né?" Respondi que sim e que não haveria problema. "Melhor falar com eles sem fome", pensei.

 

 

Entramos na sala e vi sete membros da banda e alguns assessores. Os músicos pediram para esperarmos Jacob Hemphill, vocalista e guitarrista do grupo, que havia saído para ir ao banheiro. Nesse meio tempo, uma cornetada do baixista Bobby Lee Jefferson sobre nossa pizza: "É meio mole e oleosa". O frontman chegou, nos cumprimentou, e sentou próximo a mim. Entendi o porquê de aguardarmos Hemphill. Em um octeto, se todo mundo falar, vira baderna. Logo, coube ao vocalista a missão de ser o porta-voz. Sem muita interação dos outros, confesso.

 

Muito solícito e aparentando cansaço, Jacob Hemphill falou comigo sobre o oitavo trabalho de estúdio da banda – lançado em outubro deste ano –, dos vinte anos do S.O.J.A, de questões políticas e outras curiosidades.

 

 

AZOOFA – Ao contrário de Amid the Noise and Haste, de 2014, vocês escreveram, arranjaram, gravaram e produziram o álbum Poetry in Motion juntos, os 8 integrantes. A ideia era voltar um pouco às origens?


JACOB HEMPHILL – Nós tentamos voltar para o nosso começo. Ensaiamos em garagens, porões e depois, juntos, levamos a música para o estúdio, onde passamos semanas após semanas gravando.

 

Vocês podem dizer que Poetry in Motion é uma "ode à vida”?

 

Sim, é. Todos os discos tem um tema específico e nesse novo disco, tentamos unir todos esses temas.

 

É um trabalho árduo filtrar as influencias de todos os integrantes na hora de compor uma música? Como funciona o processo de criação em uma banda com 8 membros?


Eu digo a eles o que fazer. Brincadeira! Eu escrevo as letras, as melodias e os acordes, e o resto da banda sente pra onde a música está caminhando. Depois sentamos juntos e fazemos acontecer.

 

Vocês têm vindo quase que anualmente ao Brasil. O que motiva a banda a sempre voltar e tocar aqui?


A energia do público brasileiro faz com que o músico dê o seu melhor no palco. Por isso é muito divertido se apresentar no Brasil, porque a plateia é muito boa e serve de combustível pra gente.

 


O que vocês ouvem de reggae brasileiro? Algum artista brasileiro, mesmo que de outro gênero musical, influencia a música de vocês diretamente?

 

O Rappa.


Algo Mais?


Marcelo Falcão.

 

No final do ano passado vocês cancelaram a participação no Fest Verão Porto 2017 - que também acabou sendo cancelado - em razão do impacto ambiental negativo provocado pelo desenvolvimento do empreendimento Porto Arena. Recentemente o governo do presidente Michel Temer sinalizou a favor da exploração de mineradoras na região entre os estados do Pará e Amapá, o que causaria uma grande alta no desmatamento da floresta amazônica. Como vocês vêem essa situação?


Eu acho que é um reflexo da humanidade. As pessoas deste mundo estão divididas: metade está aqui e a outra metade está ali. Então nada positivo está sendo feito. O único objetivo de políticos e pessoas públicas deveria ser unir as pessoas novamente.

 

Qual a importância de artistas como vocês se posicionarem politicamente? Vocês vêem uma união na "classe" nesse sentido?


Atualmente ser politizado, enquanto músico, é muito popular. Porque é fácil! Trump é um babaca, Hillary Clinton mente até não poder mais, Bernie Sanders é um gênio. Então é fácil pra qualquer um escolher o seu lado de um jeito oportunista. Então estamos nos afastando da política e mais focados em promover a união das pessoas.

 

Em 2017 a banda celebra vinte anos de carreira. Qual a principal lição que vocês aprenderam nessas duas décadas de estada?

 


KEN BROWNELL – Eu atribuo essas duas décadas a muito trabalho duro e paciência. Como uma banda de irmãos, é preciso muito de muito esforço pra chegar onde estamos. Somos gratos por isso. É algo muito especial, muita gente não tem essa oportunidade. Temos muita sorte.

 

Recentemente vocês fizeram uma versão da música "Nothing Compares To You" para o canal do Grammy. Partiu de vocês a escolha do som? Por que essa música?


JACOB HEMPHILL – A gente tinha que tocar alguma música que tinha sido indicada ao Grammy. Prince escreveu a música, ele morreu recentemente. Sinead - O'Connor, que interpretou a canção com extremo sucesso no início dos anos 1990 - é fera demais e também tem ligações com o reggae. É uma música incrível! Na verdade, das apresentações ao vivo que já fizemos, é minha favorita!

 

Acredito que "reggae" vá muito além de um estilo musical. Como vocês definiriam "reggae”?


Acho que você acabou de definir. Vai além da música. Reggae é uma plataforma onde você deposita mensagnes. Se você tiver sorte, essas mensagens podem ser transmitidas para ajudar o mundo.

 

 

Depois do som ao vivo teve cerveja no boteco ao lado. Na pressa, não pudemos participar.

 

***

 

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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