PLAYLIST | Luedji Luna

Negritude e resistência: essas são as palavras que podem ser usadas para definir a cantora Luedji Luna, participante do PLAYLIST do mês de maio.

     Luedji Luna é uma mulher negra baiana. Nasceu cantora e tornou-se compositora ainda na infância, quando começou a escrever para romper o silenciamento que sentia no ambiente racista chamado escola. Escrever foi a maneira que ela encontrou pra se expressar e passar a existir naquele espaço que até então era impossível.

 

     De lá pra cá, de um jeito ou de outro, não parou mais. Iniciou os estudos em música na Escola Baiana de Canto Popular. Criou, junto com a cantora Tatiana Nascimento, o PALAVRA PRETA, um evento que reúne compositoras, poetas e artistas visuais negras de todo o Brasil. Foi integrante do Cumatê, coletivo engajado na pesquisa, difusão e fomento de manifestações artísticas tradicionais da cultura brasileira, participou de festivais, saraus e teatro.

 

     Em 2015, escolheu São Paulo para ser seu segundo lar e, entre andanças pela cidade, despertou-se um novo olhar sobre a imigração africana. O aclamado álbum Um Corpo no Mundo nasceu a partir disso, do encontro entre a negritude, a espiritualidade e o urbano. Primeiro a música. Depois o clipe e, por último, o disco.

 

     O disco, composto por 11 faixas, reforça a busca pela identidade, pelo pertencimento e a conexão com a ancestralidade.  O projeto se fundamenta na ideia do não pertencimento, do corpo que ocupa o espaço, mas não se identifica, e da necessidade de conexão com a ancestralidade. O álbum remete à travessia, ao deslocamento, é a partir dessa noção que os arranjos foram pensados. Um disco fluído, com referências que transitam. O que se pretende, na verdade, é levar uma sensação: o não-lugar!

 

     Entrevistei a artista pro FARO (o programa vai ao ar dia 3 de junho na rádio carioca SulAmérica Seguros Paradiso FM) e divido com você parte do papo. Aproveitando que no próximo domingo, dia 13 de maio, completa-se 130 anos da lei que aboliu a escravidão no Brasil - último país do mundo a acabar com a escravidão - pedi a Luedji que nos indicasse OITO MÚSICAS que celebrasse a data.

 

     Vale lembrar que racismo é crime.

 

Fabiane Pereira: Como nasceu o álbum Um Corpo no Mundo?

Luedji Luna: Um Corpo no Mundo é uma proposta para se pensar identidade, uma reflexão que surgiu do encontro com a imigração africana em São Paulo. O projeto se fundamenta na ideia do não pertencimento, do corpo que ocupa o espaço, mas não se identifica, e da necessidade de conexão com a ancestralidade, essa inspiração nasceu dessa vivência, mas o single não fala só sobre isso. O fato de estar em São Paulo e não pertencer a cidade reproduz em pequena escala a sensação do que é ser negro da diáspora no Brasil.

     A música também traz um questionamento sobre corpo, sobres quais são os corpos que merecem afeto, dignidade, respeito e amor. Eu cheguei em São Paulo em um momento em que estavam sendo noticiados muitos casos de xenofobia contra os imigrantes africanos na cidade, xenofobia no Brasil é racismo, porque os imigrantes não negros têm um tratamento completamente diferenciado.

 

FP: No dia 13 de maio celebra-se os 130 anos Abolição da Escravatura. Quais as principais dificuldades que uma mulher negra encontra no Brasil de 2018.

LL: A principal dificuldade é permanecer viva!

 

FP: Como a Bahia e São Paulo, duas cidades que fazem parte da sua vida, influenciam sua música?

LL: A Bahia me deu régua e compasso, é meu jeito de estar no mundo, já São Paulo me trouxe a inspiração pra esse trabalho.

 

FP: Quais cantoras negras da nova geração você indicaria pros nossos leitores e por quê?

LL: Tatiana Nascimento, cantora, compositora, poeta, pra mim o grande nome da literatura desse país da minha geração e Xênia França, que lançou um disco primoroso também ano passado.

 

FP: A música e o clipe "Banho de Folha" viralizou rapidamente e ajudou a impulsionar sua carreira. Quais os próximos lançamentos áudio visuais do disco e como nossos leitores podem ficar por dentro da sua agenda de shows?

LL: Temos dois projetos na manga para clipes para as canções "Cabô" e "Acalanto". A agenda fica disponível em todas as minhas redes sociais! 

Quem escreveu
Fabiane Pereira

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. É apresentadora do programa Faro na rádio carioca SulAmérica Paradiso FM (95.7 FM).

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