5 PERGUNTAS |Phillip Long

Um papo rápido com o cantor paulista sobre o disco Manifesto, canções e Belchior.

Quando conheci Phillip Long lá por 2012, ele já tinha mais canções do que se espera de um cantor em início de carreira. Com o tempo, parei de contar os discos que este paulista de Araras lança de tempos em tempos.

 

Já são 12 discos. Para quem acompanha a carreira de Long, o último disco, Manifesto (2017), soa diferente dos anteriores. Suas composições que geralmente falam de amor e relacionamentos agora dão espaço para reflexões sobre vida em sociedade e política, deixando claras as influências de Belchior a Dylan no seu trabalho.

 

Long se apresenta em São Paulo nesta quarta-feira (13), no Teatro da Rotina, dentro da programação especial do mês dedicada ao folk. De passagem, ele bateu um papo rápido com o Azoofa.

 

O que esse álbum representa nesse momento da sua carreira? 

O Manifesto é um divisor de águas para mim, a partir dele sinto que entrei em outro sítio. É um disco de um cara aos trinta, tudo mudou em mim.

 

Capa do disco Manifesto (Divulgação)

 

Esse disco Manifesto tem relação com o momento político e social que estamos vivendo desde 2014 pra cá? A impressão é de que as músicas são um convite a uma reflexão.

Eu acho que é um disco sobre os efeitos dessa guerra que já passa dos quatro anos, sobre o efeito disso tudo na nossa cabeça. E nesse sentido, é sim um convite para olharmos nossas feridas, senti-las verdadeiramente. 'Moisés precisou abrir o mar vermelho pra descobrir que o deserto é espelho, e a dor uma só'.

 

O produtor Eduardo Kusdra é um parceiro antigo seu. Qual o papel dele nesse trabalho, como essa parceria te influencia?

Fizemos muita coisa juntos. O Manifesto é um disco que eu levei para o estúdio dele já bem mastigadinho, porque havia feito uma pré-produção intensa. Tanto que a produção e arranjos são assinados por mim e por ele. Nesse trabalho acho que o papel dele foi mais de organizar e executar aquelas ideias que eu tinha, de uma maneira prática e eficiente. 

 

Queria que você falasse um pouco da influência do Belchior na sua carreira e que talvez, nesse disco, esteja muito evidente. Você participou de um disco tributo e foi até citado na biografia sobre o cantor escrita pelo Jotabê Medeiros.

Eu ainda não li a biografia escrita pelo Jotabê também, mas muito em breve farei isso. Fiquei sabendo que ele havia me citado por intermédio dos amigos. Me mandaram foto do trecho em específico - 'Olhe, o homem te ouviu'. Foi emociante saber que a homenagem havia alcançado o mestre em sua rota de fuga. Belchior para mim é um guia, uma instituição. Em minha casa, tem a mesma importância que qualquer desses grandes filósofos da Grécia. Não há na música brasileira alguém que tenha questionado tanto esse sistema que nos empurra pra baixo, que é o capitalismo, como Belchior. A palavra do velho é como carta de navegação, está comigo onde quer eu vá. E se um dia alcanço o mato com que sonho, certamente também estará lá.

 

"Sou um compositor, cuidado comigo". Você já falou na web e mesmo as letras desse disco refletem um pouco essa missão de ser compositor. Como você vê esse cuidado ou ousadia na composição na música brasileira hoje? A canção perdeu a força? 

Acho que a canção no Brasil perdeu seu poder de causar reflexão, de fazer as pessoas pensarem a respeito de tudo que nos ocorre, a bagunça cá dentro e lá fora. Se tornou muito amena, alienante e rasa. Não que isso não seja um reflexo de nossa sociedade, porque acho que nos tornamos isso mesmo, rasos demais e com medo de tudo. Acontece que o artista deixou de ser um provocador e passou a entregar pílulas de alívio, e isso é de uma covardia sem tamanho. O artista moderno é, sobretudo, um covarde. Eu acho que deve nascer uma arte que diga: 'É, tudo dói. E o que nós vamos fazer com isso tudo?'. Eu procuro hoje me manter longe de todos esses clubes, para sentir que ainda tenho algo a dizer, e pra dizer esse algo que ninguém quer dizer. Então por isso digo para terem cuidado com o compositor, com o clandestino, porque esse já perdeu tanto que não teme mais nada. E acho que aí as coisas ficam interessantes.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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