O artista em processo: Tim Bernardes

Tim Bernardes é um nome incontornável da música brasileira contemporânea. Com sua banda, O Terno, lançou três discos que aliam alta relevância artística e uma capacidade singular de conexão com o público.

 

Principal compositor do grupo, Tim estreou em carreira solo no ano passado, com o álbum Recomeçar, em que assina a direção musical, produção, arranjos e a autoria de todas as treze faixas. A crítica o reverenciou e, assim como n'O Terno, os shows de lançamento estiveram lotados.

 

Afora a música, O Terno e Tim se notabilizam pelo apuro estético em tudo o que fazem, do design da capa dos discos ao figurino dos espetáculos, passando pelos posts em redes sociais, que também recebem tratamento artístico.

 

Gravar discos e colocá-los no mundo nunca foi tão fácil como atualmente. Mas manter uma carreira, praticando coerência e experimentação, é um desafio cada vez maior. Numa segunda-feira em que passou a tarde numa ilha de edição em São Paulo, mexendo no que virá a ser o próximo clipe do álbum 'Recomeçar', Tim falou a Eduardo Lemos sobre seus processos criativos e contou como funciona a estrutura que toca o grupo e seu trabalho solo. "É preciso ser apaixonado, obcecado e, ao mesmo tempo, profissional da música".


Foto: Rafael Rocha


Você acabou de chegar do Uruguai né?

Sim, foi bem legal lá. Foi tipo férias. Fiquei uma semana lá na boa.

 

Parece uma boa mesmo tirar uns dias de folga neste momento em que você está tocando a carreira solo e O Terno ao mesmo tempo. Como tem sido isso?


Tá sendo bem legal. É claro que existe uma atenção pra eu administrar isso, pra que eu consiga fazer bem as duas coisas e pra que eu também não fique maluco, sabe? É tipo: fazer menos coisas, mas com um capricho em tudo. Os shows, por exemplo. A gente tem feito menos, mas quando faz, são shows maiores. É uma coisa que a gente foi aprendendo e que é muito boa: encher lugares maiores e gerar expectativas, demorar pra voltar. Pra quando rolar, seja aquele showzão caprichado, com a equipe, a luz, o som, tudo. A gente tem feito isso tanto n'O Terno quanto nos meus shows. E acaba ficando uma agenda mais saudável, sabe? Tem vários shows por mês, mas não é aquela sequência muito louca. Depois que eu fiz o Recomeçar, eu já compus mais um disco pro Terno. Estamos gravando agora. Fico de segunda à sexta no estúdio, das 10h às 22h. Gravamos as bases nós três, e agora entramos num processo que fico sozinho gravando os arranjos de sopros, cordas e outras coisas. É um momento que eu fico imerso, e eu gosto de ficar imerso. Pra mim, é muito ruim que tenha hora pra acabar, sabe? Se bem que, esse ano, a gente começou muito cedo a gravar este disco e provavelmente ele só sai no ano que vem. Então, se a gente demorar um pouco mais e estourar o tempo de estúdio, tudo
bem. Também é um processo de não esquentar mais tanto a cabeça, sabe?

 

Total. Ter domínio do próprio tempo é essencial pra criação?


Não sei. Com O Terno, ou mesmo com meu show solo, nunca tive um ritmo daqueles monstruosos, de ter show todo dia. E nem é essa a realidade da cena independente no Brasil. Acho que é legal quando tem esse excesso de estrada, porque o show pega no tranco. Você fica ensaiado, mas não porque passou horas repetindo aquilo, e sim porque começou a interiorizar a coisa. Ao mesmo tempo, é claro que ela pode ser meio desgastante: você fica um tempo correndo pra lá e pra cá, fazendo show tarde da noite e sem dormir direito. Tem que equilibrar um pouco. Agora, é muito importante ficar um pouco à toa, pra você ter ideias sem um cronômetro ligado, sabe? Comigo acabam rolando ideias pra compor em qualquer lugar que eu esteja. Não preciso de um quarto silencioso pra criar. Mas esse lance de não fazer nada é algo que eu tenho que me esforçar, sabia? Se deixar, eu fico trabalhando, pensando qual vai ser o próximo passo. Eu sou muito viciado em trabalhar. Eu gosto muito do que eu faço. E se você tiver um tempo à toa pensando que aquilo é um ócio criativo, se você colocar isso como regra, ele deixa de ser um tempo livre, né? Vira uma coisa com um motivo produtivo por trás.

 

Compor, então, é um ato cotidiano?


Meu processo não tem muito uma regra. Tem épocas que eu fico querendo muito compor. Fico pensando nisso o tempo inteiro e, vira e mexe, encontro uma onda e embarco nela. Mas, depois que gravei o Recomeçar, eu zerei o baú. Pensei: nossa, gravei todas minhas músicas. Fiquei aflito. "Nossa, e agora? Será que eu consigo fazer mais músicas?". Calhou de ser uma época que eu tava me sentindo meio vazio, inquieto, angustiado, então eu acabava tentando traduzir em música. Fiz várias. E gravei o Recomeçar. E logo veio lançamento de disco, viagem, shows, shows do Terno… e parei de me cobrar de compor. Pensei: não vou compor mais nada, agora eu vou tocar.

Tem época que não dá tempo de ouvir música porque eu tô fazendo muita música. Tem época que você não faz música, mas escuta um monte de coisa, descobre um monte de banda. A coisa funciona em ciclos. Tipo lavoura, sabe? Mas eu tendo a ficar com a antena sempre ligada.

 

E quais são os próximos passos?


A gente tem planos. Nosso planejamento não acontece só previamente; ao longo do processo a gente vai entendendo o que está acontecendo e qual é o melhor jeito de conduzir a carreira. O mundo da música… é uma composição, é um quadro. Você pode inventar os passos, e isso é uma coisa muito bonita, sabe?

Acho que o Terno vai vir com um disco muito legal, muito bonito, que faz sentido com a discografia da banda, em suceder o Melhor do Que Parece. Eu gosto de fazer discos pra se ouvir mil vezes. Eu ouço o disco do Fleet Foxes mil vezes, eu ouço o Revolver, dos Beatles, mil vezes… não quero lançar um disco que a pessoa ouça três vezes, sabe? Eu quero que ela ouça daqui dois, três anos. Quero que meu neto possa ouvir.

E tem esse momento solo, eu tô gostando muito de fazer o show solo. Eu sinto que tô aprendendo muita coisa. Eu acho que me desenvolvi como cantor, por exemplo. Quando você toca sozinho, a voz tem um espaço muito grande. Experimentei coisas que eu nunca tinha experimentado direito, e aí às vezes dá certo, outras não. É boa a sensação de que eu posso seguir aprendendo infinitamente.

Me interessa muito também as outras áreas que passam pela música: a parte estética, visual, de moda, vídeo. Fico querendo mexer com isso também. Nos clipes do meu disco, eu tava ali junto na direção. Mas não tem como a música não ser o carro chefe da minha vida. Eu sou viciado.

 

Em termos de estrutura e de equipe trabalhando pra banda e pro solo: o que mudou de quando vocês fizeram o primeiro disco pra agora?


Tivemos diversos momentos. No comecinho, a gente era uma banda feita na escola. Se a gente queria fazer show, tinha que ir descobrindo os lugares. Quando começamos a ter uma onda mais autoral, veio aquela vontade de louca de tocar e de mostrar o som pras pessoas. E aí começamos a falar com casas de shows, a organizar umas noites com outras bandas. O legal desse processo independente é que você vai aprendendo as coisas na prática, passo a passo: desde marcar ensaio, alugar estúdio, fazer passagem de som, qualidade do som no palco, até entender como é feito o design de um álbum e quais documentos a fábrica pede quando você quer prensar seu disco. Quando eu tinha 18 anos, eu não sabia nem o que significava reconhecer firma. Aprendi nesse processo da música independente. Depois, começamos a entender como funcionava assessoria de imprensa, uma produtora, que existe um trabalho complexo por trás, que não é aquela coisa romântica de que você vai jogar um disco no mundo e as pessoas vão ouvir.


Há pouco tempo, a gente criou um escritório que trabalha tanto pro Terno quanto pro meu solo. A nossa empresária tem pessoas que trabalham com ela e que atendem só O Terno. Não tem uma produtora que venda nossos shows; a produtora é o próprio Terno. É um momento em que a gente tem público suficiente pra fazer bilheteria em algumas cidades, ou fazer shows auto produzidos.


Hoje é tudo centralizado em nós três e na nossa empresária, Mariana Marçal. A Mari trabalhou com a gente no primeiro disco, como assessora de imprensa. Em 2013, ele fez comunicação, assessoria e planejamento de carreira. Foi aí que rolou o lance. Passamos a ter uma pessoa focada nos nossos planos e passos. Isso deu uma revolucionada. Mas a virada veio mesmo foi no ano passado, quando ela assumiu a parte de shows também, e centralizamos nela tanto o Terno quanto o meu solo. Aí, no solo, eu e a Mari planejamos tudo; na banda, somos os três e ela. Além da Mari, a gente tem a Laís, que faz produção e atende algumas demandas de assessoria de imprensa, e o Caíque, que cuida do financeiro. Nos shows, a gente sempre leva uma iluminadora, dois técnicos de som e um roadie.

 

Você parece gostar de acompanhar todos os processos da sua carreira, seja na banda ou no solo.


Eu gosto. Mas chegou uma hora que a demanda cresceu e ficou humanamente impossível eu ficar no volante de tudo, ainda que junto com outras pessoas. Tive que aprender a delegar e a confiar nas pessoas com quem eu trabalho. Gosto de estar junto no planejamento dos passos, mas depois as pessoas tocam com independência. Isso me libera pra pensar em música.

 

Uma das marcas do Terno é a comunicação nas redes sociais. É um trabalho muito cuidadoso, tanto na escolha das imagens, quanto no uso criativo de legendas. Me parece que vocês se tornaram referência nesse quesito também. Como rola esse trabalho?


Tem um lance que é: eu gosto muito, porque mexe com a parte criativa e estética. É um lugar que dá pra inventar. Tem uma parte importante, em que a Mari nos ajuda muito, de analisar os dados e ver o que funciona e o que não, e isso vai guiando a gente pra pirar em cima. A parte estética fica com a gente; a organização disso, com ela. Acho muito bom ter uma comunicação direta com o fã, contar as nossas histórias ali, inventar umas loucurinhas. E funciona da mesma forma quando vou fazer uma letra: fico pensando em como contar uma história de maneira artisticamente interessante. Na comunicação, tanto d'O Terno quanto no solo, a gente também pensa artisticamente.

 

Você controla o que expor ou não expor?


Tem um tanto que eu acho legal expor. Mas tem muita coisa que eu não curto colocar. Acabei de fazer uma viagem com a minha família e não publiquei nada. Acho bom preservar algumas coisas. E tem um lance que é: eu me exponho bastante nas canções, é tudo muito pessoal.

 

Tua carreira solo vai bem, o Terno vem aí com disco novo, até a Gal tá gravando música sua. Como você tá enxergando esse momento?


Cara, eu tô muito contente. Eu sinto que rolou um desabrochar, um desenrolar de muitas coisas que eu vim fazendo até aqui. O Melhor do Que Parece me deixou muito feliz. Depois veio o Recomeçar, que é formado por músicas que eu já tinha há um tempo e que eu finalmente consegui gravar. Compus coisas pra esse novo disco d'O Terno e já tenho músicas pra um futuro disco solo. Tô compondo bastante, querendo me expor, sabe? No sentido de… pô, de entregar minha vida pra isso, sabe? Acho que, se eu tô produtivo, eu quero por essas coisas no mundo. Quero deixar coisas minhas no mundo.

 

Uma das maiores angústias da música independente é encontrar um meio de sobreviver dela. Você sente que a gente tá perto ou longe disso acontecer?


Eu não sei. Sinto que o público pra esse tipo de música tá crescendo, mas o mercado de música, pra quem tá começando - ou mesmo quem já tá há algum tempo, mas ainda não tem público pra encher vários lugares por conta própria, e que dependeria de outras coisas pra fazer acontecer -, eu sinto que tá num momento de baixa, e uma baixa forte. Digo isso porque a gente tá fazendo nossos shows num esquema próprio, de alugar teatros, mas só porque agora a gente pode fazer isso, mas isso é uma conquista que demorou muito pra chegar.


Cada banda e cada artista é um microcosmo. Pensando n'O Terno, a gente teve muita sorte - e aí é sorte mesmo, não depende de outra coisa - de ter começado muito cedo. E a gente já produzia coisas minimamente interessantes cedo. Quando eu saí da casa dos meus pais, eu já tinha feito alguns discos. Como eu não dependia da música pra viver, eu pude me entregar completamente a ela. Se eu tivesse começado já tendo que pagar contas, eu ia ter que me desdobrar e não ia ter essa dedicação total. Sinto que isso é uma grande privilégio que eu tive.


E tem a música. Ela não pode ser só legal. Ela tem que chegar fundo nas pessoas, de modo que as pessoas se relacionem com aquilo, queiram ir aos shows. Não são só seus amigos que querem ir ao show; ter pessoas que se identificaram. Quando tem conteúdo e talento artístico reunido e um trabalho bem feito… Existem casos de gente talentosa que não consegue trabalhar objetivamente, a coisa anda mas anda com dificuldade; e gente que trabalha muito bem, mas que artisticamente ou musicalmente não é super forte. E há quem tenha talento, conteúdo e faça um trabalho bem feito, mas que faz um tipo de música que pouca gente escutaria. E, na hora de colocar na planilha, você não vai viver disso. É preciso conhecer o seu público, ver se ele vai consumir o que você está fazendo.


Cada artista tem que entender muito bem o que quer fazer, como quer fazer e com quem quer falar. Tudo tem que ser foda. Só aí, quem sabe, pode ter alguma chance de começar a rolar.

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?


Eu não sei se é preciso, mas, no meu caso, é positivo. A gente não vive um tempo em que a gravadora te chama, te banca e pronto. É preciso ser apaixonado, obcecado e, ao mesmo tempo, profissional da música. Eu sou muito fã da Anitta. Eu acho que ela é a maior profissional da música no Brasil hoje, facilmente. E acho que ela é obcecada por isso, pelo negócio, mais até do que por música - e não falo isso de nenhuma maneira pejorativa, pelo contrário. Ela gosta de construir uma marca. Diferente da obsessão da Beyoncé, que tem um lance mais conceitual. Ou a minha, que sinto ser com a música em si, harmonia, melodia.

 

Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer por que você faz música?


Eu acho que eu sinto… fome disso. Sabe?

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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